domingo, agosto 29, 2010

Aquela outra solidão

O coração aperta como se os dias não fossem mais coloridos. O céu cinzento não de dias chuvosos - quem seria o poeta tolo a afirmar que dias chuvosos são necessariamente tristes? -, mas de pesada canseira. Não sinto apenas saudade, seria um bocado tolo colocar nestas palavras. Simplista, também. O que sinto é mais um tipo afinado de solidão, diferente da costumeira que resulta da ausência de companhia. Esse tipo, mais específico e especialmente mais dolorido, só nasce a partir da presença. É um desejo de estar junto, de sentir o coração batendo em compasso com outro, um dedilhar romântico de instrumentos musicais. Um estar só possibilitado pelo passado em conjunto.

Defensor são das paixões contidas, agora experimento uma segunda (ou terceira, ou vigésima) vez a sensação de querer sem saber se há retorno. Eu desejo não apenas fisicamente; aliás, o físico não tem importância num primeiro momento. Não esperaria sexo como a consumação desse gostar. Um abraço faria o serviço. Deitar a cabeça e sentir-me confortável, saber que posso fechar os olhos e ficar protegido entre sonhos e sorrisos.

Aguardo, só, o momento do próximo sorriso. O tempo, o espaço, as pessoas: tudo sempre conspira para dificultar as perfeições. Nada pode ser perfeito enquanto vivo, eis a ironia. Só se pode ser feliz se soubermos o que é sofrer.


Hoje eu sofro desse mal chamado felicidade.
Aperta, dói. Dura pouco, apenas algumas gotas num rio caudaloso.


Não sei mais como traduzir em palavras esse tipo de sentimento. Não lembrava como era, permanente curiosidade e vontade. Desejo, dúvida, dor. Ser feliz dói demais. Ao contrário de outros momentos, disponho-me. Dispo-me de teorias, por enquanto, abrindo os braços a fim de conhecer o que não posso alcançar com o coração fechado.

Se vai doer?
Já dói.

terça-feira, agosto 24, 2010

Segundo semestre

Acho que a coisa toda está começando de verdade agora. Estudos, trabalhos, moradia nova, batidas mais fortes no coração. Tenho medo de escrever isso agora, tão cedo, mas estou bem contente que meu caminho tenha sido cruzado por uma pessoinha bonita, inteligente e com gostos parecidos com os meus. Nham *-*

segunda-feira, agosto 16, 2010

Filosofia da porta fechada

O cenário é uma casa em que vivem quatro pessoas divididas em três quartos. Cada um desses aposentos possui duas portas, uma para a saída e outra para as dependências comunais, ou seja, banheiro e cozinha. O primeiro dos quartos é acessível por uma porta frontal, enquanto os outros dois possuem suas entradas num corredor lateral da casa. No primeiro desses quartos laterais moram duas pessoas. É por isso que, para chegar até seu quarto, o último morador passa pela porta dos três demais (a frente, ocupada por uma pessoa, e a primeira lateral, por outras duas). Uma posição de privilegiado contato social.

Imaginaríamos que as portas internas seriam as de maior uso para o convívio. Até morder meu pão com margarina e queijo eu também assim pensava. Entreouvi, porém, conversas entre dois moradores de quartos distintos, especificamente os laterais. Tomei cuidado em reparar que as duas portas que não eram do meu quarto estavam fechadas, provavelmente trancadas. As conversas que ouvia vinham da porta do primeiro quarto lateral, sem dúvida aberta.

Um fato curioso sobre a segunda porta interna: ela abre-se apenas momentaneamente, quando um ou ambos moradores do quarto precisam de algo no banheiro ou na cozinha. Encerrada a atividade, fecha-se a porta novamente, com o acréscimo de um ou dois giros de chave na fechadura, para que ela de fato se confirme impedida de abrir.

Observei que, depois de meses de portas abertas, algumas começaram a se fechar e assim permanecer. A minha própria partilhou essa conduta, depois de algum tempo, e só após uma certa reflexão voltou-se a abrir. A intimidade se compartilha, verdade, mas a coletividade não se poda. Quem passa vê, interage, mesmo que silenciosamente. Tão inspirado por essa liberdade estava ontem que até esqueci de me trancar no escuro do meu quarto.

Lá, com meu sanduíche de queijo e margarina, entendi que uma porta fechada não é apenas um bloqueio de espaço geográfico, é antes um espaço de convívio humano que se perde. Toda porta fechada é um "não", um impedimento ao livre fluxo, barreira que só é vencida através da vontade de algo mais. É verdade que posso ser negado e ainda assim suceder, como também se faz verídico o fato de que demanda mais esforço superar barreiras.


Eu prefiro a fluidez das portas abertas.


sábado, agosto 14, 2010

Caminhos tortos

Fico em dúvida se eu escolhi enxergar a vida de forma diferente dos demais viventes ou se, no fim das contas, não havia chance de ser diferente. Existem situações que eu gostaria de evitar e outras que eu amaria proporcionar, mas tenho certeza que não é nada fácil. Vim aqui apenas para reclamar um pouco da vida, em outro momento faço um resumo de como está minha vida...

quinta-feira, julho 29, 2010

Imaginando

Algumas vezes me pego imaginando muito mais do que vivendo. Mmmm, vou repensar essa frase, pois se a vida sou eu, como posso dizer que ficar preso em mim mesmo não é viver?

terça-feira, julho 27, 2010

O que é o amor?

Todas as manhãs desde que cheguei de viagem sou acordado com minha mãe abrindo a porta e me trazendo um prato com algo para morder, uma fruta, um pote de iogurte e uma xícara de chá. Um café da manhã gostoso e prontinho, sem nenhuma desculpa para que eu não me alimente adequadamente. Ela faz isso absolutamente todos os dias, sem exceção.

Alguns anos atrás, quando me levava para o colégio e já morava com a gente, meu padrasto sempre se adiantava na cozinha, enquanto eu tomava banho, e fazia uma batida e torrada. A fruta que acompanhava o leite algumas vezes variava, e quando isso acontecia eu era questionado se gostava ou não. Caso não fosse da minha preferência, a batida era feita com frutas mais tradicionais. Acontecia também todas as manhãs.

Um certo dia eu estava irritado com meu ex-namorado, ambos deitados na mesma cama de solteiro aqui em casa. Levantei, de manhã, e fui para a cozinha fazer um café da manhã. Para os dois. Trouxe na cama, um pão e algo para beber, acho que suco (hei, não esperem de mim muita elaboração no início do dia). Esse exemplo não acontecia todos os dias, até porque as oportunidades de passar manhãs com ele não eram muito frequentes, mas o contexto serve aos meus propósitos.

O que é o amor?
Que coisa é essa que faz com que minha mãe acorde cedo e faça o café da manhã de um garoto a quem esse substantivo não serve mais? Por que razão sentimos saudade de quem está longe, especialmente quando é alguém que nos tocou de alguma forma? O que explica isso?

Estive a pouco discursando imaginariamente para os favoritos.
Esse não é um termo que eu queira continuar usando, embora tê-lo me aqueça um pouco, considerando que nunca tive grupos muito bem estabelecidos de relações de amizade. Já tive o Grupo do Tales, de RPG, mas o que nos unia não era exatamente os laços de sinceridade e confiança, mas sim os dadinhos em cima da mesa e as fichas de papel. Nos tempos de escola eu vivia arisco demais para aproveitar as pessoas e tudo que elas me ofereciam, então também não tinha nenhum ajuntamento de pessoas.
Chamo os três (e agora muito bem posso considerá-los quatro) desta forma não apenas por serem as pessoas com as quais tenho mais contato físico hoje em dia, quando estou na cidade, mas também por serem as criaturas com as quais falo de absolutamente qualquer assunto sem ter muito pudor. Comentei sobre as especificidades das doenças que eu tinha quando cheguei de Goiânia, falo sobre o que faço ou deixo de fazer no sexo, discuto opiniões que podem machucar outras pessoas. Isso tudo somado ao gostar, gostar muito.

Pois então, como eu escrevia, estive imaginando um discurso aos favoritos. Algo sobre o quanto eles são importantes pra mim e justificam meu retorno a Porto Alegre, o enfrentamento desse climinha chato e os dias afastados da vida nova. É importante marcar que estou muito feliz com minhas experiências no Centro-Oeste, e que voltar a Porto Alegre tem um duplo papel: por um lado, mata a saudade, mas por outro parece um certo retrocesso. São eles, porém, que fazem valer a pena o investimento de tempo que estou operando aqui. São eles que me ensinaram, cada um do seu jeito, o que é gostar (por que não dizer amar?) uma pessoa com a qual não temos nenhuma obrigação. São meus amigos, me ouvem, conversam comigo, se preocupam e eu também me preocupo.

Cada um a seu jeito, somos diferentes. Distintos do todo. Porém, também cada um a seu jeito, somos parecidos uns com os outros. Temos nossas cores, navegamos num mar de cinzas. Talvez seja isso que nos una, talvez seja por isso que juntos demos tão certo. Ou daremos. Enfim, segue sendo minha missão reunir as pessoas, tocar algumas vidas e mudá-las para sempre =)

segunda-feira, julho 26, 2010

Férias acabando

Eu estou um pouco confuso com meus sentimentos dos últimos dias. E noites, principalmente. Tem algo a ver com obrigações que não foram assumidas por mim e também com escolhas envolvendo outras pessoas. Passei os últimos dias meio carente, querendo certezas. Uma bobagem, é claro, considerando que só se está certo o que já foi.

Talvez eu esteja, mesmo, chegando perto daquela dependência de alguém para quebrar o gelo. Não foi a primeira vez, hoje, que ouvi alguém me dizer que preciso ser menos racional e abraçar o mundo com o que ele me oferece e deixar o sentimento fluir. Nhai.

terça-feira, julho 20, 2010

Férias julinas

Não estou correspondendo às expectativas que meus professores têm sobre mim. Entrei no mestrado como uma aposta, uma possibilidade de sucesso, mas não uma garantia de não-fracasso. Mais do que os outros, preciso provar que meu aceite não foi um erro. Ninguém disse "Tales, estamos decepcionados". Ainda. Só que vai acontecer, tenho certeza, já que não estou lendo quase nada. Hoje chegou um livro que encomendei. Detalhe: comprei seis, cinco ainda estão a caminho. Livros enormes, densos, com textos fundamentais para os meus estudos. Como darei conta deles, se nem estou conseguindo lidar com os que trouxe lá de Goiânia? E o tempo para procurar livros que tenham aqui e lá não, onde fica?

Eu sei a razão das minhas falhas, eu estou preenchendo uma lacuna que a viagem abriu. Uma certa saudade de viver o tempo inteiro com pessoas que eu amo. Lá em Goiânia estou começando a estabelecer contatos que, imagino, em breve me farão suspirar também, mas como fico enquanto isso não acontece?

Estudando teoria queer e batendo de frente com paradigmas obsoletos da educação, cada vez mais eu me deparo com a ideia de que certezas não estão aí para me ajudar. Por outro lado, dia após dia eu sinto que preciso menos de questões e mais de linhas retas. Curvas são muito boas, muito úteis, mas elas cansam, machucam, perturbam. Preciso de uma certa calmaria para sentar e ler, ou será que não?


Não estou triste por alguma ausência, sabe? Tenho sexo, tenho amigos, tenho festas, nada disso me falta em Goiânia. Claro, não é a mesma coisa que Porto Alegre, isso é evidente, mas mesmo assim fica aquela vontade de encontrar, no fim do dia, um abraço sincero, gostoso e que faça tudo desaparecer, mesmo que por alguns instantes. O que eu preciso fazer pra me soltar desse jeito? O que está segurando minha energia de forma tão contínua?

domingo, julho 18, 2010

Noites no futuro

Hoje fui na casa do meu ex-vizinho (ele ainda mora próximo da minha casa, mas casou e mudou-se com a esposa) junto com meu irmão, minha cunhada, minha tia, minha mãe e meu padrasto. Fomos comer fondue e beber vinho, para olharmos as fotos do casamento, ocorrido ano passado (ou início de 2010, não tenho certeza).

Com quem estarei comendo fondues nos domingos chuvosos do futuro? Quem serão meus amigos, meus convidados, quem estará abraçado comigo recebendo pessoas? Até imagino, mas não sei onde estarei, quem conhecerei, que pessoas terão se perdido pelo caminho. Nem quão longo este será.
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