sexta-feira, janeiro 20, 2012

O mundo é grande

Fui à biblioteca da Ohio State University pesquisar sobre índios norte-americanos. Chegando lá, me deparei com uma seção sobre o Brasil. Folheei alguns livros e fui invadido por aquela sensação que me visita de vez em quando, de tempos em tempos: de que o mundo é tão grande que eu nunca vou entender tudo que existe nele, mas que aprender coisas novas é tão bom que eu desejo aprender o máximo possível. Bate um pouco de depressão por haver desperdiçado oportunidades ao longo da vida, tempos que poderia ter gasto lendo, leituras que poderiam ainda me acompanhar na memória... ainda assim, me sinto bem. Os dois meses que me restam aqui para pesquisar serão pouco. Aliás, começo a pensar que os anos de vida serão pouco pra tudo que eu quero abocanhar nesse banquete chamado vida.

Coisas de banco

Hoje é quase um desabafo. Ou uma reclamação. Fui no mercado, até o qual eu caminho por cerca de 20 minutos lomba abaixo, passei uma hora comprando coisas, cheguei no caixa e não aceitaram meu cartão do US Bank. Fui sacar dinheiro num ATM e também não aceitaram. Deixei minhas compras, fui em casa, 20 minutos lomba acima, tentei correr pra ser mais rápido, passei o resto do caminho ofegando e com o pulmão doendo pela minha ousadia. Peguei meu cartão do Banco do Brasil, voltei ao supermercado lomba abaixo por 20 minutos. Tentei pagar minhas compras, o débito não funcionou. Tive que usar o f***ing crédito pra fazer a coisa ir pra frente. Aí fui no banco aqui reclamar e no caminho me dei conta de que a única pessoa que eu poderia xingar era eu mesmo, pois fiz uma operação errada ao cadastrar meu cartão e isso significa que eu estava o tempo inteiro digitando a senha errada. Grrr.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Coisas que a gente toma por certas

Eu trabalhava em uma editora cujo horário de abertura era 9h. A questão das horas não era muito importante, já que eu trabalhava apenas 20h por semana e poderia compensar atrasos com horários alternativos. Algo muito importante que meu chefe sempre dizia: "a prioridade são os estudos". Isso significava que eu tinha carta branca para me ausentar em qualquer momento que meus estudos assim requisitassem.

Naquele dia eu cheguei 9h20 e editora ainda estava fechada. Quando deu 9h45, eu estava já possuído pelo demônio da raiva quando finalmente a secretária - responsável por destrancar as portas - chegou. Ela sorriu, me cumprimentou como se nada tivesse acontecido e abriu a porta. Olhei o relógio do meu celular de novo, incrédulo, e a segui. Eu poderia ter brigado com ela naquele exato momento, mas eu tendo a preferir ser o cara que se controla e que respeita os outros. Ela deveria ter um bom motivo para aquele atraso, então por que eu pularia no pescoço dela antes de saber?

Quando ela me disse que eram 8h45, eu corri para o telefone e liguei para uma amiga apenas para perguntar as horas. O horário de verão havia começado e meu celular não ajustou automaticamente, como presumi que ele faria. Esse pequeno fato me tornou a piada do dia. Mais do que isso, esse pequeno fato poderia ter causado a erupção de uma briga desnecessária na qual eu estaria acusando alguém baseado no que o que eu acreditava que era verdade. Eu não saberia que estava errado. Nesse caso específico, seria relativamente fácil me provar o erro e me fazer pedir desculpas. Em tantos outros, porém, nem tanto.

Ontem conversei com um professor e lhe disse que estava interessado em trabalhar academicamente com ele de todas as formas possíveis durante o tempo em que estiver aqui nos Estados Unidos e, dependendo da natureza do trabalho, poderíamos continuar futuramente. Aliás, essa parte do continuar não foi explicitada, algo que devo corrigir. Ele não sabia e, pela minha falta de menção a isso, achava que eu não estava particularmente inclinado a essa parceria. Nas minhas primeiras semanas aqui, eu simplesmente assumi que ele estava ciente de quais eram as minhas intenções. Elas eram bem claras para mim, por que não seriam para ele? Porque ele é outra pessoa e tem outras coisas na cabeça.

Parece simples, mas quando esquecemos disso, verdadeiras bolas de neve podem se formar e sem demora se tornarem maiores do que conseguimos lidar.

Being alive

I was asked today what that means to me being at the Ohio State University. Well, the question is part of a inquiry that the university is doing with students regarding the image of the institution and which steps they can take from now on, in order to continue to expand it. I can't help but use this question as a way to think about my life and how it changes what I'm used to. In a sense, being here at OSU is a life changing experience. I know I could argue that any experience has the potential of doing so, but not quite end up doing so.

It is not that this place is better than others I've been. It is, in relation to some, but that is not the point. What I am learning (or remembering) here is that I have to go after what suits me and let go of what don't. It's not an easy process and certainly not one I am used to do. It hurts, specially when you desired that the very thing that right now isn't fitting should be the one that wouldn't change ever. Right now I am not happy. Yesterday was a day in which something very important changed, and in many senses it changed for the worse. I no longer have someone at home waiting for my news. More than that, I no longer have the desire to share them the way I always tried to.

I am a tourist here just the same way as I am in life. During this trip, I get to know people, to talk with them and to set some structures. Some of those people will appeal me enough and stick around for a while, or a long while. Others will be just fading memories in no time, because of a lack of impact or interest (mine or else). I have the possibility, by just being alive, to share experiences and moments and treasure them. I have something to offer to the world and to the people who pass by me. This thing I offer will be taken by some, rejected by others etc. It is not always in the same way, nor it is the same to everyone. A close friend receive a larger time of time and effort than a colleague, as well as a professor gets less of my personal thoughts than someone with whom I would share my bed with.

Part of being a close friend means putting some of yourself in the person you befriend. It is an act of love, of belief, of trust. You can't be a friend of someone you dislike. You can disapprove, but you have to trust. Otherwise it is not friendship we are talking about. Or at least not the same kind of friendship that I am. I can't date someone who hasn't the same dispositions about love, care, dedication, trust. I can't be with someone who in one day decided that I wasn't trustworthy. I can't be with someone who want to have me in a cage, like a bird who can only sing to its owner. There is a saying I saw once, it was something like: "if you want to have me, let me free". It is real only if I choose to be here. And I have chosen to be there and to work on a relationship that was supposed to be real. For me it was.

This raises ethical questions about being alive. How much are we willing to give up of what we believe to live in a shared world? I've done my part professionally under the argument that I need money to eat. I've let things happen, things that I disapprove. And when I saw, I was doing that on my personal life also.

In one point of my life, I've chosen trust people. I do trust my closest friends. I will trust you until the day I find out I was mistaken in doing so. But I will not share my life, my time and my affection with someone who can't do the same for me.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Eu matei minha mãe


Domingo assisti a J'ai tué ma mére, do qual retirei esse pequeno pedacinho. Não é exatamente um trailer, mas  foi o clipe responsável por me fazer assistir o danado. Já o(u)vi inúmeras vezes, pois a música me agrada e me tempera.

Se eu recomendo o filme? Gosto da narrativa visual que ele propõe, existem cenas e soluções que talvez eu carregasse como influências na hora de fazer meu próprio filme. Fora isso, eu não funcionaria muito bem com o personagem principal, pois ele é um idiota. Um adolescente idiota. De alguma forma, acho que se deve esperar coisas idiotas de pessoas que estão no mundo há pouco tempo, ou talvez eles sejam os únicos que ainda não tenham se corrompido e cortado a crista. Não sei, mas o Hubert me cansa na sua rebeldia interminável e com suas explosivas reações frente a mãe.

Acabei de descobrir que além de ator, o rapaz também escreveu e dirigiu o filme. De acordo com o IMDb, "é uma semi-autobiografia". De alguma forma, isso melhora a imagem do personagem (?) na minha concepção.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Being Tales

Decidi escrever uma postagem por dia aqui na Raposa Antropomórfica. É um teste para verificar se tenho realmente capacidade de me engajar em um projeto plenamente pessoal e sem resultados previstos. Quero ser lido e acredito que tenho algo a compartilhar, mas não posso mentir dizendo que escrevo para os outros. Minhas letras são colocadas aqui por mim para mim.


Ano passado minha mãe me apresentou a um seriado chamado Being Erica. A história começa com uma mulher que aos trinta e dois anos se sente completamente empacada na vida. Nos primeiros cinco minutos do episódio piloto vemos Érica perdendo o emprego, levando um bolo do ficante e tendo um choque anafilático por ser alérgica a nozes. Tudo isso em um dia absolutamente normal de sua vida.

Aí entra em cena Dr. Tom, um terapeuta que se oferece para ajudá-la e consertar qualquer que seja o problema que ela venha arrastando em sua vida. Sua terapia é um pouco diferente: com uma lista de arrependimentos de Érica em mãos, ele começa a enviá-la de volta a cada um deles. O propósito não é que ela reescreva a sua vida, mas sim que aprenda com o que o passado lhe trouxe. O que poderia ser um seriado centrado em tentativas de alterar o passado e sempre esculhambá-lo ainda mais aos poucos vai evoluindo para uma imersão a perguntas importantes: quem somos nós? O que queremos? Do que não podemos abrir mão? Em pouco tempo eu me vi apaixonado não apenas pela Érica, mas também pelo Dr. Tom e todo o circuito de personagens que a circundam.


Eu já quis tantas vezes reescrever meu passado, revisitar meus arrependimentos. Nunca tive coragem de fazer uma lista deles, mas nem preciso, pois eles ressurgem e saltam aos meus olhos nos momentos mais inesperados. A gente erra e essa é uma das coisas mais difíceis de aprender. Como diz Dr. Tom, "você é seu paciente". Infelizmente, não tenho nas mãos a chance de voltar ao passado e aprender mais sobre mim.

Errado, eu posso sim. É isso que faço todas as vezes em que leio algum texto escrito anos atrás. É isso que poderei fazer quando olhar para trás e ver que me engajei em escrever diariamente em 2012. Eba!

Aquarela



Essa música tocava no recreio de um colégio pelo qual eu passava todos os dias.
De alguma forma, minhas manhãs ficavam mais coloridas.

domingo, janeiro 15, 2012

Imposições

Li no Tumblr a seguite citação:

“Do not impose on others what you yourself do not desire.”
—Confucius


Eu concordo, claro. O que me deixa com medo é que frequentemente as pessoas pensem que o contrário, imponha sobre os outros o que você deseja para si mesmo, deveria ser a nossa conduta. Daí decorre a tentativa de tornar o outro mais como nós mesmos, a forma como as escolas disciplinam etc. Nós sabemos exatamente o que queremos para nossos aprendizes e, particularmente, para aqueles que são diferentes de nós. Queremos que eles saibam como é bom aquilo que nós sabemos que é bom. O que nós frequentemente ignoramos na nossa ignorância é que aquilo que é bom para nós não necessariamente satisfará a todos.

Nós somos universos, não universais.

O que queremos da vida?

Estereótipos são ruins. Ponto. Eles aceleram o pensamento e tornam tudo mais rápido, fato. Ao mesmo tempo, nos fazem deixar de lado as particularidades que diferenciam uma pessoa de um objeto.


Eu estava me preparando para construir uma argumentação sobre o que dizem sobre gays serem naturalmente promíscuos. Aí joguei no Google a palavra gay para tentar encontrar uma imagem bacana e, várias páginas depois, só corpos nus e pintos de fora. Eventualmente, uma piadinha sobre como o casamento gay vai destruir a civilização ocidental contemporânea.

Sempre lembro de um seminário que assisti com um professor australiano que vive nos Estados Unidos, Paul Duncum. Ele falou que não conhecia o Brasil, tampouco os elementos visuais que constituíam a nossa cultura. Então ele se dedicou a nos procurar no Google, encontrando as clássicas imagens de carnaval, samba, futebol etc. O argumento era de que nada daquilo que a busca retornou ele estava vendo desde que havia chegado, porém ainda assim aquelas são as imagens que povoam o imaginário de quem pensa a respeito do Brasil.

Certo, o que isso tem a ver com os gays? Quando construímos um estereótipo sobre o que significa ser gay e quais são as suas vivências específicas, acabamos nos acostumando a pensar que essas ideias de fato representam pessoas. Se o que estereotipamos está associado a coisas que consideramos negativas - pelo motivo que for, cultura, história,  religião -, então o estereótipo também será, por tabela, ruim. Não nos enganemos: é realmente difícil se livrar dessas ideias preconcebidas.


O que queremos de nós e dos outros? Que sentimos damos para isso que chamamos de vida? As respostas a essas questões ditarão as escolhas que faremos frente ao mundo e, especialmente, frente àquilo que consideramos não pertencer ao nosso universo, que é diferente de nós. O que entendemos como digno de existir, ou indigno o bastante que sequer mereça ser conhecido? O que eu defendo como certo? Quem pode ter os mesmos direitos que eu? Quem não pode? Quem deve arder no inferno?

O que eu defendo é que os sujeitos possam ser felizes sem ferir os demais. Abstrato, eu sei, mas direcionado o suficiente para me permitir ser razoável dentro das minhas crenças e para buscar momentos felizes para mim e para os que amo. Particularmente não me interessa o que tu pensa sobre gays, loiros, gaúchos, acadêmicos etc. Enquanto esses pensamentos não se tornarem ações nocivas, por mim tu é livre para ir e vir.

sábado, janeiro 14, 2012

Ônibus



A Ohio State University tem algumas linhas de ônibus que circulam gratuita e constantemente. Aquecimento interno, motoristas relativamente simpáticos e uma voz nem tão irritante que vai avisando qual a próxima parada. Muito divertido, e esse em particular tinha janelas com obras de arte. Achei adorável para distrair do frio que fazia lá fora!
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