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segunda-feira, agosto 19, 2013

Teoria queer (parte 1)

Este texto é a primeira parte de uma série de três postagens dedicadas a pensar o que é a teoria queer e como ela pode se inserir em contextos pedagógicos. Nesta primeira parte, o foco da discussão está em compreender a base da teoria e sua "missão".

O queer que acompanha e nomeia a teoria surge como uma jocosa ironia, na medida em que se apropria de um xingamento para se posicionar criticamente a favor do ofendido. Traduzindo do inglês, queer significa estranho, e por derivação passa a significar bixa, viado, sapata. É aquilo que não se encaixa e causa desgosto, que não pertence. A língua portuguesa não possui uma tradução que concentre adequadamente a carga histórica que o termo queer possui no inglês, onde frequentemente era utilizado para atacar e condenar sujeitos cujas sexualidades não se conformavam às expectativas normativas. Enquanto termos como “bixa” e “transviado” possam soar semelhantes, eles reduzem o xingamento ao masculino, ignorando o feminino e prestigiando binários contra os quais a teoria se opõe. Por conta dessa dificuldade de tradução, seguirei trabalhando com o conceito em inglês, a fim de preservar o seu sentido e, principalmente, o seu potencial de disrupção de sentido.


Tomado como ponto de partida para uma ressignificação, os teóricos assumem-se como estranhos e como corruptores: a teoria queer não tem a intenção de ser mais um campo teórico, mas sim de questionar estabilidades, e por isso mesmo é tão difícil defini-la, uma vez que torná-la completamente inteligível esvaziaria sua força e potencial subversivo. Envolve teorizar o esquisito e, ao mesmo tempo, estranhar a teoria (LUHMANN, 1998). Mais do que se limitar ao estudo de gays e lésbicas, a teoria queer confronta noções de identidades fixas, classificações binárias e suas consequentes exclusões, focando esforços na compreensão dos papéis exercidos socialmente por aqueles sujeitos que ocupam posições ininteligíveis aos olhos das normas.

O queer não apenas é estranho e fora de lugar, ele também é ignorado, esquecido e negado. Os sujeitos que não se identificam com os discursos normativos das sexualidades na sociedade contemporânea ocidental estão relegados a uma existência inferior: são reconhecidos como desviantes, mas seu “desvio” não gera reflexão, é assumido como essencialmente errado ou, quando muito, como uma diferença que devemos aceitar e incluir.

É fácil pensar que queer institui uma categoria de identidade, um tipo de sujeito que não corresponde às normas. Contudo, Morris (1998) nos pergunta e alerta: “Essa categoria simplesmente instala um outro binarismo – queer ou não queer? Nós poderemos em algum momento dissolver o pensamento binário como um todo, e seria essa estratégia do não binarismo sequer útil?” (p. 276). Se pensarmos a definição de queer como simplesmente aquilo que não está normalizado, temos imediatamente uma normalização do que é ser queer. O estranho, subversivo e incompreensível passa a estar domado, controlado e seguro, sendo mais um conhecimento pronto para ser anexado em dicionários e para que pesquisadores possam identificar com certa facilidade: “isso é queer, isso é normal”. Uma vez compreendido e aceito, o poder que se instalaria pela dúvida se perde, dando lugar novamente às certezas.

Não devemos nos esquecer que, como nos alerta Britzman (1995), o queer não está nos atores, mas sim nas ações. Nomear um determinado grupo como queer é posicioná-lo fora da normalidade, mas antes de tudo significa posicioná-lo, estabilizá-lo. Esse é um movimento (e congelamento) ao qual a teoria queer não pode se permitir: o queer está no trânsito, no cruzamento de fronteiras e na indefinição de identidades. Não há como uma determinada identidade ser subversiva permanentemente, em qualquer espaço ou instante. A partir do momento em que for compreendida e nomeada, ela passa a não causar mais o impacto da indefinição.

Citando Berry, a respeito da forma como a “cultura do individualismo” espera que os sujeitos não mudem, Doll (1998) aponta: “Não importa de que forma o sujeito é reto [em inglês a palavra straight significa também heterossexual, e pode ser compreendida também como honesto ou normal], apenas que todas as perversões sejam amaciadas, de forma que a pessoa seja identificada completamente e sem ambiguidade” (p. 289). A teoria queer nos alerta para questionarmos categorias de identidade tais como “homossexual”, “travesti" etc., mas também sugere que levemos em consideração quais são os poderes e raízes históricas por trás da instituição e manutenção da heterossexualidade enquanto norma.

Na segunda parte desta série, discutirei a noção de inclusão da diferença. Na terceira e última, abordarei algumas "técnicas" para um olhar que se proponha queer. Caso alguém deseje as referências, basta pedi-las nos comentários ou por mensagem na Raposa do Face.

quinta-feira, maio 09, 2013

Cuidado com críticas sem contexto

Todo dia vemos atrocidades e lemos posições absurdas na internet. A vontade de criticá-las nos consome e, muitas vezes, corrói. A gente vai lá e destila toda nossa indignação a respeito daquela imagem, frase ou comentário alheio. Sentimos, no fim do processo, que fizemos a nossa parte.

- Você está vindo para a cama?
- Não posso, isso é importante.
- O quê?
- Alguém está errado na internet.

O que muitas vezes a gente esquece é de procurar o contexto em que tal imagem, frase ou comentário surgiu. Isso tem acontecido com a Raposa no Facebook: já foram dois casos expressivos em que alguém leu uma frase divulgada no Facebook e interpretou como se fosse uma máxima acerca da minha opinião sobre as coisas. Dois casos em que as minhas palavras foram distorcidas com base em uma frase ou um parágrafo soltos.

O poder das frases soltas

Os meios de comunicação conhecem esse poder há tempos: alguém diz algo, mas somente parte do que foi dito, de preferência algo que soe impactante, é citado. Ou ainda uma chamada publicitária nos leva a pensar ou sentir algo, mas na verdade é parte de um texto maior. Isso acontece porque uma frase condensa significados. Ela ganha impacto e velocidade na absorção das informações e geralmente abre espaço para uma pontinha de dúvida, ou seja, o gancho para atrair o leitor.

Como estratégia de comunicação, é extremamente eficiente. Sintético. Rápido. Atinge o leitor como um tapa do qual ele pode se esquivar ou com o qual pode se engajar.

O perigo das frases soltas

Não podia ser perfeito, não é mesmo? Quando lemos algo solto na internet e achamos grandioso ou odioso (ou irrelevante), geralmente nos apoiamos apenas no que vimos para comentar. O perigo disso está em conhecer as coisas pela metade, em não saber as razões ou motivações por trás das afirmações feitas. No jornalismo, isso tem nome: checar as fontes. Ou seja, ir atrás de quem falou o que para saber se de fato foi aquilo que foi dito e, principalmente, em que situação aquilo foi dito.

A mesma frase pode ter sentidos completamente diferentes em situações distintas ou faladas por pessoas diferentes. Sem isso em mente, estamos mais preocupados com a nossa visão de mundo do que com entender a visão de mundo daquele que falou ou escreveu.

O que fazer com frases soltas?

Recorro de novo ao jornalismo: podemos investigar. Viu uma frase indignante? Um comentário maldoso? Alguma coisa que te fez coçar de raiva? Vai atrás de saber de onde isso veio, o que mais está em volta, por que foi dito ou escrito como foi. Frequentemente a gente descobre, quando conhece o contexto, que nossa impressão inicial não estava correta. Outras tantas vezes a gente confirma que precisa mesmo distribuir uns tapas por aí. De um jeito ou de outro, é não apenas elegante, mas também inteligente e honesto conhecer o contexto das coisas antes de criticá-las.

O risco de não fazer isso é exemplificado todos os dias: críticas simplistas, vazias e que frequentemente dizem mais de quem está falando do que de quem está sendo criticado.

sexta-feira, maio 03, 2013

As imagens querem nos beijar

Algumas imagens são perigosas. Elas nos chamam, tentam, seduzem. Basta uma olhada, nada mais. Elas são intensas, mas não gritam: sussurram. Falam conosco somente se temos algo para lhes dar em troca. Elas querem nos beijar, mas só nos beijam se queremos, se bem dentro de nós queremos e aceitamos esses beijos.

Meu projeto de doutorado inclui esse tipo de imagens. Elas tentam com frequência me aliciar, me acarinhar, e sei que pouco posso fazer para resistir a elas. Eu não quero resistir a elas. Na verdade, tenho vontade de perguntar-lhes quais são suas histórias, suas verdades – mesmo sabendo que toda verdade é uma ficção. Para minha tristeza, são imagens que não cabem aos olhos da Raposa, não enquanto a Raposa morar aqui no Blogger.

É um pedaço de mim – e dos meus desejos e beijos – que a Raposa ainda não pode transparecer. Intimidade.

quarta-feira, abril 10, 2013

O tempo do olhar

Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que não lê vive só uma.
Atrasado para a aula, o esperto aluno folheou Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, e descobriu que o autor era fácil de ler e entender porque escrevia tudo em subtítulos. Ora, por que ler os capítulos se ele já resumia todo o seu argumento desta forma? Leu no ônibus, rabiscou algumas coisas com o lápis balançando e se encaminhou para a sala de aula a tempo de contribuir com uma ou outra colocação. Desde esse dia, o nome Paulo Freire lhe acendia no cérebro luzes de ingênuo, simplista e auto-ajuda para educadores. Afinal, que bom argumento poderia ter um autor que escreve por meio de subtítulos óbvios?

Por sugestão de amigos, uns dois anos depois, o então professor se pegou novamente lendo Paulo Freire, desta vez na companhia de um chá quentinho através da madrugada, não da pressa desenfreada de um ônibus sacolejante. Desta vez com algum tempo, dedicou-se a ler a introdução. As palavras todas pareceram diferentes. Teria o livro se transformado ao longo dos dias em que esteve guardado na estante, se reescrito e se tornado mais profundo, menos ingênuo, menos simplista?

No trânsito das identidades, o aluno que virara professor voltou a ser estudante e decidiu dar uma chance ao autor e também a si mesmo: a chance de um olhar humilde, de um olhar que só se permitiu ser humilde por haver compreendido que, não muito antes, se sentia no direito de julgar o mundo. Um olhar de criança com o dom de saber tudo tornado em um olhar de quem entende a mágica dos livros que se transformam na estante.

terça-feira, março 12, 2013

Por que devemos verificar a fonte do que lemos

Li uma notícia hoje sobre como o deputado Jean Wyllys teria criticado os cristãos, chamando-os de burros e coisas assim. De antemão, já aviso: é uma notícia falsa. O problema foi perceber que diversas pessoas estavam discutindo sobre aquilo sem perceber isso. Como se percebe que uma notícia é falsa? Antes de qualquer coisa, nós a lemos por inteiro e procuramos as fontes. As fontes são as pessoas ou instituições responsáveis pelo acesso àquelas informações. Normalmente presumimos que jornais sérios fazem esse trabalho de verificação de fontes, afinal, são pagos para isso (ou achamos que são). A verdade é que todo mundo serve a interesses particulares e, portanto, mesmo os maiores grupos de mídia podem lidar com a informação de maneiras não profissionais.

O que nós leitores podemos fazer quanto a isso, então? Antes de mais nada, podemos fazer o nosso trabalho: ler criticamente. Só assim não vamos cair nas falácias que pipocam na internet e no senso comum. Algumas vezes nem assim, pra falar a verdade.

De tudo, pelo menos uma dica: se a "notícia" diz que "fulano falou mal de algo", mas não cita as palavras específicas que foram usadas, é quase certo que há uma distorção em jogo. Isso é básico. Dizer que alguém falou algo é bem diferente do que dizer que Sicrano disse "tal e tal".

Outra coisa bacana, depois de procurar as fontes, é ir nas fontes. Isso dá trabalho, concordo. É cansativo. A maioria de nós prefere a informação já filtrada pelas pessoas de influência que preferimos. É uma escolha como qualquer outra, mas não podemos negar que estaremos entregando nosso entendimento da realidade para outras pessoas. Pessoas de vez em quando interpretam errado (sem querer ou de propósito, não importa, elas erram).

Se tudo o que tu quer é falar por aí descompromissadamente, beleza. Vai lá e chora muito nas redes sociais.  Se, por outro lado, teu interesse é manter um debate intelectual, então aí as regras são outras. "Eu li num site" ou "eu li num livro" não é mais argumento para defender opiniões. Onde argumentos são necessários, fontes são essenciais. Desculpa se alguém pensa o contrário, mas está errado.

sábado, fevereiro 23, 2013

Nudez em público

Hoje vi um vídeo (ou melhor, vi citarem um vídeo, não tive paciência de efetivamente ver o vídeo) sobre um casal transando no mar. Sabe aquela coisa de gravar os outros fazendo sexo, porque fazer sexo é sexy e chama a atenção? Isso me colocou pensando numa questão que sempre volta a aparecer: por que não podemos transar em público?

A coisa vai mais longe e levanta probleminhas anteriores: não podemos andar pelados na rua. Salvo engano, se eu sair caminhando com o pinto balançando a olhos nus, posso ser preso. Por quê? Já antevejo multidões se erguendo e gritando "porque é imoral!", mas essa é uma resposta fraca, pelo menos para quem está buscando motivações racionais (e laicas) para tal proibição.

Le Concert Champêtre – Giorgione

O que há de tão perigoso em um corpo desnudo? É o tesão alheio que preocupa? Viver em sociedade significa abrir mão de uma série de liberdades, compreendo, mas por que a de tirar a roupa onde quiser é uma delas? Essas são questões que eu não sei ainda nem por onde começar a responder. Pensando rápido, posso pensar que é uma estratégia para conter os impulsos sexuais, talvez algo trazido pela moral cristã. Posso também estar sendo preconceituoso, já que sempre acho que toda repreensão moral vem da Bíblia.

Roupas fazem sentido num contexto gelado como a Europa. Nós fomos colonizados por europeus. Seres humanos atribuem valor simbólico às coisas que usam. Provavelmente a economia tem algo a dizer sobre isso, já que roupas mais caras e com tintas menos acessíveis provavelmente se tornaram representativas de maior riqueza e status social. A pergunta é: por que continuamos enxergando as roupas assim?

Ano passado eu já havia começado a pensar sobre isso, como meu post sobre Henry Scott Tuke revela e também meu artigo apresentado em um Congresso no Rio de Janeiro.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Sobre discussões e cortesias

Nem sempre a gente age ou reage da forma que gostaria. Seja como professor, seja como guri chato que fica debatendo as coisas no Facebook, frequentemente me pego repensando sobre as coisas que escrevo e até mesmo querendo ir lá e mudar tudo pra parecer inteligente desde o início. Pena que o mundo não funciona assim, então o que fica são os aprendizados.

Ontem foi um dia particularmente interessante para pensar sobre isso e, também, sobre sexualidade e religião (a respeito desses temas, acho sempre justo recomendar Prayers for Bobby). Está rolando na internet desde domingo um grande debate sobre uma entrevista dada pelo pastor Silas Malafaia à Marília Gabriela, seguida de uma resposta de um doutorando geneticista. Rolou também um texto de uma pesquisadora de São Paulo e, agora entrando a minha participação, uma conversa que se seguiu a isso.

Pausa para o passado. Dia 13 de novembro de 2012, postei a seguinte imagem no Facebook (liberei o acesso a quem não é meu amigo, para facilitar):


Junto a ela, eu trazia as seguintes palavras: "Já ouço pelos cantos alguém comentar 'nossa, o Tales é contra Deus'. A isso, respondo o mesmo que venho dizendo há anos: um livro, qualquer que seja, é a cristalização de um momento. Se nós não pudermos escolher o que nos serve de cada leitura e atualizar nossos valores para que sejam mais humanos e menos divinos, continuaremos mais sofrendo e fazendo sofrer do que amando e permitindo amar."

Eu mantenho a minha posição sobre isso, mas nesse dia aprendi algo com uma amiga. Ela perguntou: "por que colocar essa figurinha, que combate um preconceito com outro?". Ela tem razão. Algumas vezes, por mais que eu defenda que a vida tem que ser diferente, é incrivelmente difícil ser cortês e aberto.

Fim da pausa para o passado, voltemos ao presente. Dois exemplos, para finalizar a escrita.

O primeiro rolou no grupo do Coletivo LGBT UFRGS, no Facebook, um espaço em que coisas interessantes são postadas e pensadas. Um moço questionou o texto da pesquisadora de São Paulo, dizendo que ele era mal escrito e teria sido feito só para aparecer. Eu acho que o rapaz estava equivocado. Durante a troca de mensagens, ficou clara pra mim uma postura deselegante e pouco aberta a argumentos. O que importava ali, pareceu, era repudiar um texto (mal interpretado) através de ataques para todos os lados: autora, suas (supostas) intenções e os comentadores envolvidos. Uma das coisas que tento sempre requisitar de meus alunos é que debatam com cortesia, com educação, com elegância. Ofender o coleguinha não é legal.

O segundo exemplo coloca o furo mais embaixo. Eu estava na aula de Metodologia Científica, ontem, explicando justamente como devemos proceder quando dialogamos e discutimos posições. Aí perguntei quem na turma tinha visto a entrevista com o pastor e, depois, quem concordava com ele. Achei, sinceramente, que ninguém se manifestaria a favor dele. Contudo, algumas pessoas levantaram a mão. A minha reação, dali pra frente, não foi menos que desastrada. O que aconteceu? Eu fiquei desconcertado em estar dando aula para pessoas que concordam com um cara que defende que eu não deveria existir. Só que a minha reação foi absurda e muito mais emocional do que racional, além de cheia de preconceitos e presunções. Eu não deveria ter reagido assim, não fui atacado nem nada. Ali estava – e está, temos um semestre pela frente – uma oportunidade enorme de lidar com a diversidade de crenças e posições. Se eu peço cortesia, eu poderia muito bem ter sido o primeiro a oferecer isso.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Santa Maria, ou aquilo que acontece onde não vemos

Uma das coisas mais impressionantes que a vida nos mostra é que coisas absurdamente impactantes podem acontecer em um lugar e ninguém fora dele ficar sabendo. Pode ser um fofo pedido de casamento ensaiado e planejado. Uma Parada do Orgulho Gay. Um tiro. Um sol se pondo em uma cidade litorânea. Uma boate pegando fogo por negligência de cuidados básicos de segurança.

A notícia sobre o incêndio em uma casa noturna de Santa Maria tem abalado e movimentado as redes sociais. Quem quiser informações sobre o que estou falando pode se dirigir ao Cem homens. O que eu quero falar a respeito aqui hoje não é nada sobre a dor causada pelas inúmeras mortes, nem o absurdo do descuido. Quero aproveitar essa situação para pensar que, em muitos lugares, pessoas não ficaram sabendo dessa tragédia. O jornalismo, a publicidade e a internet ampliam o alcance dos fatos, dos produtos e ideias. Ainda assim, é altamente provável que pessoas em Santa Maria não tenham ouvido falar no incêndio.

Isso é ruim, sinal de desinformação? Depende. Isso é vida, sinal de excesso. Somos sete bilhões no planeta e a probabilidade é que nenhuma pessoa consiga estar conectada a todas. O mundo de cada um é construído pelas suas relações, pela dedicação a elas e, principalmente, pelo que motiva ou não a agir. Nada nessa triste ocorrência me motiva a agir, a acompanhar de perto, a saber exatamente qual foi ou não o motivo para tantas mortes. São mortes distantes de mim, e isso sinceramente me preocupa.

terça-feira, dezembro 11, 2012

As invisíveis

Já falei disso em outra ocasião, perguntando como a gente sabe quando não sabe de algo. A dúvida continua e creio que jamais vai me abandonar. Desta vez, ela foi disparada com uma imagem.


Meu primeiro pensamento foi: "mais uma narrativa do branco generoso que vai lá e salva o negro sofredor". A caridade, no caso, estaria reforçando a ideia de que negros precisam de cuidados advindos de brancos, que podem cuidar, que podem dispor de seu tempo para "ajudar" aos outros. Isso, claro, ignora anos de opressão. Estão  imagem e mensagem sendo veladamente preconceituosas? Essa questão voltou a me incomodar semana passada, quando reli o parecer de um dos professores na minha banca de defesa do mestrado, que dizia o seguinte:

De outra parte, também cheguei a me perguntar se o texto não estaria trazendo muitas evidências (imagens, textos, referências) sobre homossexuais homens? Afinal, muito pouco ou quase nunca referes ou apresentas imagens ou referências textuais sobre as mulheres lésbicas ou mesmo travestis, para além de Laila? Mesmo quando são as tuas entradas de texto-imagem, não as das interlocutoras ou interlocutores, as imagens são sempre masculinas.

Na hora em que ouvi isso (pois me foi lido) e nos meses seguintes, pensei indignado que eu não era obrigado a mencionar aquilo que não me interessava pesquisar. No caso, meu foco era homossexualidade masculina e eu acreditava que da forma que o texto da dissertação se desenvolvia, isso ficava claro. E ficava.

O que também ficava claro, ao menos para bom entendedor, é que eu estava excluindo e invisibilizando a importância de outras personagens que também compõem o espectro da sexualidade. Eu não estava ativamente dizendo que lésbicas, travestis e transexuais não me interessam enquanto tópico de investigação ou reflexão, ou que mereceriam menos atenção que homens homossexuais. Isso sim seria um baita preconceito, não é? O que eu fiz foi ignorá-las, considerando que não era necessário sequer mencionar sua existência. Talvez eu esteja sendo exagerado, mas parece-me o mesmo que falar de "padrão de beleza ocidental" e não mencionar que ele desconsidera corpos negros. Ou asiáticos, gordos, queer etc.

Eu já escrevi sobre preconceito antes aqui e não quero me alongar muito. Queria apenas manifestar, neste texto, o quanto essas questões estão presentes em minhas reflexões e o quanto eu não enxergo nenhum horizonte próximo de solução para elas. Não sei nem o que seria uma "solução". O que fica de conselho, desta vez, é mais um convite: que tal tentarmos sempre percebermos o que ou quem estamos tornando invisíveis pelas escolhas que fazemos? Sobre quem (no sentido de "em quem estamos pisando") estamos construindo nossas percepções da realidade?

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Mais uma do ovo ou da galinha

Eu não gosto de cenários macro, ou seja, de grandes discussões políticas e econômicas e internacionais. Aí paro para pensar: isso é algo meu, que eu nasci não muito interessado, ou ocorre porque não fui talhado culturalmente para me relacionar com esses temas? Se eu tivesse uma educação diferente, será que teria mais facilidade ou interesse em lidar com isso? Ou seria eu parecido com o que sou, voltado para mim e para os meus, tão somente?

quarta-feira, outubro 10, 2012

O impulso de publicar

Todo dia eu posto meus sonhos no Facebook, coisa boba, um hábito singelo. Aí hoje eu tive um pesadelo horrível envolvendo as coisas que mais me assustam na vida, e o primeiro impulso foi ir ao computador e relatar detalhadamente o pesadelo. Ao contrário do que faço todos os dias, eu não quero contar a ninguém esse sonho, exceto àqueles que mais confio. É uma coisa tão clara, para mim, que os elementos envolvidos no pesadelo sejam reflexos das coisas que me assustam quando acordado. Aliás, que me tiram o sono. Literalmente, como hoje.

Atualmente estou estudando/pesquisando algumas relações que começam ou se mantêm através do ato de publicar. Especificamente, fotos nuas de si próprio. O que me motiva é compreender as razões que levam as pessoas a se autopublicarem, a construírem uma exposição de seus próprios corpos que atravessa a internet e se torna incontrolável. Não tenho intenções de julgar essas práticas, tampouco considerá-las inferiores a relações construídas tradicionalmente. O que desejo é compreender o impulso e as relações afetivas criadas a partir desse impulso.

Até hoje não fazia sentido, para mim, pensar sobre a subjetividade do ser humano e as suas transformações ao longo dos séculos. Achava, ingenuamente, que isso tinha pouco a ver com o ponto que vivemos hoje. Esse sonho, juntamente com o fato de ontem eu haver me matado preparando para uma prova de concurso numa área que eu não domino, me iluminou a necessidade de repensar a forma com que me relaciono com o mundo e com as informações e conhecimentos. Aí por esses dias li O Show do Eu, de Paula Sibília (informações sobre ele aqui e aqui) e gostei, é um livro ótimo, mas não enxerguei a relação entre os processos subjetivos de construção do eu no passado e como foram avançando até hoje. Ingenuamente, não pensei nessas reflexões como contendo muita ligação com o que eu desejo estudar. No máximo, um histórico interessante.

O que percebi, com esse impulso de publicar, foi a necessidade de ser visto pelo outro para que meus medos ganhem confirmação real, ganhem existência. O que senti foi o desejo de me resguardar, de não expor todos os pedaços de mim, de minimamente manter um pedaço de mim que não é público, que não é para todos os olhos. Não quero que saibam meus medos. Isso me leva a questionar: será que esses sujeitos que desejo investigar também têm esses impulsos e também sentem necessidade de guardar fragmentos de si em um âmbito "privado"? Ou será que, tendo nascido numa época muito mais digital e em rede do que eu, eles não terão se contaminado com formas de ser de um passado não muito distante?

Eu queria ser escritor, ainda quero, e colocar em letras dramas, romances, aventuras e sentimentos. Alguns pensamentos, também, é o que mais tenho feito. O que mais me incomoda hoje é a pergunta: ainda existem leitores? O ato de ler é tão solitário que sarais poéticos me incomodam por serem compartilhados. Contudo, a dinâmica social contemporânea nos requisita que tudo seja compartilhado para se tornar validado. De preferência, rápido. Textos longos sofrem. Para a literatura, me parece que vivemos numa era dos contos, ao invés dos romances.

Sobre os jovens que se autopublicam, então, tenho uma nova questão: o que escolhem guardar para si? Como se constroem suas intimidades? O que é íntimo para eles? Acabei de perceber que eu tenho algo que seja íntimo para mim e que o é não por vergonha, mas por medo do mundo. Não quero que as pessoas saibam como me fazer mal. É diferente de postar fotos nuas minhas na internet, isso é simples e nunca me doeu. Eu não quero validar meus medos, não quero que eles sejam parte de como o mundo me enxerga. No fim das contas, continua sendo tudo sobre essa autopublicação, esse mostrar-se ao escrutínio do outro. O olhar do outro ainda é o que me dá existência. Certamente tenho muito mais a pesquisar!

segunda-feira, outubro 08, 2012

Como a gente sabe quando não sabe de algo?

A pergunta do título é capciosa. Talvez o mais próximo de uma boa resposta seja: "a gente não sabe". É como perceber que algo não está lá: precisamos ter algum motivo para suspeitar que algo deveria estar lá.

Darei um exemplo a fim de iluminar a questão. Hoje estava eu em casa e resolvi colocar roupa na máquina de lavar. Coloquei, liguei e ela ficou lá fazendo seus barulhos irritantes. Eu, obviamente, fui tratar de outros afazeres e, por isso, desliguei da minha atenção aquele ruído que nunca parava. Até que veio o silêncio, que alívio! Somente horas mais tarde me dei conta de que havia algo de errado. No caso, o silêncio, pois a casa deveria estar repleta de barulhos.

Contudo, eu só pude estranhar o silêncio porque sabia que houve ou deveria estar havendo ruído. Essa é a grande questão do conhecimento: a gente só percebe o que conhece, o que sabe que está ou pode estar lá.

Achei essa imagem no http://www.apseudociencia.com/2011/03/vamos-falar-de-coisa-seria.html

Vou tentar outro exemplo, também da minha própria experiência. Recentemente fui assistir à defesa de mestrado de uma amiga na antropologia. Ela escreveu o texto no feminino e utiliza "escurecer" ao invés de "esclarecer", duas decisões linguísticas de ordem política. Em resumo, a língua é construída historicamente e carrega preconceitos e relações de poder, transparecendo e reforçando preconceitos. É o caso, por exemplo, da língua ser manifestamente machista, uma vez que um grupo composto por oito mulheres e um homem ainda deverá ser chamado de ELES, não de ELAS. A presença de um pênis é suficiente para anular invisibilizar qualquer feminino.

Depois da defesa da minha amiga, saí conversando com outros amigos justamente sobre esses usos políticos da linguagem e, em particular, os dois exemplos que citei. Disse que concordava com o uso do "elas" para grupos majoritariamente compostos por mulheres, mas que não via sentido para o uso de "escurecer" no lugar de "esclarecer". Nesse momento, meu amigo lançou a pergunta: não seria possível que eu não concordasse com o "escurecer" por falta de embasamento teórico? A razão pela qual eu consigo compreender e concordar com a troca do masculino pelo feminino é, justamente, eu saber das pressões e conflitos existentes nesse campo. Será que, por eu não ter interesse em estudar questões relacionadas a racismo, isso impacta negativamente na forma como eu enxergo movimentos sociais étnicos?

Aí, buscando imagens para essa postagem, cruzo com essa e, por curiosidade, resolvo olhar o site de onde ela veio.

Imagem encontrada em: http://materdei1.blogspot.com.br/2012/09/memes-catolicos-contra-revolucao-2-parte.html

Confesso que me sinto enojado de colocar essa imagem na Raposa Antropomórfica. O mundo é o que a gente acredita que ele seja. Se a pessoa que fez essa imagem e que a compartilha defende que não é homofóbica, apenas não concorda com essa "baixaria", isso diz muito de como ela pode se relacionar com sujeitos que estejam envolvidos com essa "baixaria". Diz muito, também, sobre o quanto essas pessoas estão abertas ao diálogo, a ouvir e, principalmente, a considerar o outro como um ser humano.

Aí a pessoa diz que não é homofóbica. Claro, a gente sabe que essa é uma palavra pesada e que não é legal estar associado a ela. Contudo, a pessoa diz ter vergonha na cara - os viado não têm - e não concordar com "essa baixaria". Até que me provem o contrário, "essa baixaria" da foto é um bando de gente caminhando por uma avenida, dançando com músicas animadas e pedindo reconhecimento social. Se a ideia era reclamar de outras coisas - das quais estou ciente porque estudo -, então faltou apontá-las.

Isso me preocupa. Existem inúmeras coisas que eu não sei, mas que mesmo assim configuram a forma que eu me relaciono com o mundo. Aquilo que eu enxergo depende daquilo que eu sei, daquilo que eu acredito que é certo. Posso ver uma marcha de orgulho ou uma baixaria. A conclusão óbvia é que não importa o que realmente está ali, importa a maneira como o que está ali será interpretado. O que eu posso fazer sobre isso? Não sei. Quero ser o cara aberto e legal e dizer "vamos ouvir os outros", mas não quero ouvir quem venha me falar de violência e preconceito. Também não quero ouvir quem se dispõe a atacar, muito mais do que defender. Isso tudo muda o meu mundo, muda o que eu percebo, o que eu sei que está certo e o que eu sei que está errado. Mais que tudo, eu sei que saber não significa nada. Saber é acreditar.

No fim das contas, é só isso: saber é acreditar. Se eu sei que algo está faltando, é porque eu acredito que algo deveria estar ali. Seja o barulho de uma máquina de lavar, seja respeito às mulheres. O que me incomoda é que eu estava pronto para recusar o "escurecer" sem qualquer reflexão mais aprofundada simplesmente por achar que não está certo e ponto. Sem pensar sobre. Sem discutir. Sem nada.

Simplesmente por acreditar que a forma que eu entendo o mundo é a forma correta de se entender o mundo. Não é muita arrogância? Já falei disso por aqui antes, quando discuti o que é etnocentrismo. Não acho que tenha sido suficiente. A gente pensar uma vez na diversidade não nos torna defensores dela. O tal do pensamento crítico não é algo que se tem ou não, é algo que se pratica, que se vive. Aliás, me parece que é algo que devemos aprender o quanto antes: não somos, estamos.

Como, então, a gente sabe quando não sabe de algo?
Não sabe.
O que posso recomendar, no fim das contas, é que estejamos abertos a ouvir e a perceber coisas que até então não sabíamos que estavam lá. Se vamos concordar ou não, acreditar junto ou desacreditar, isso é o de menos. Ouvir, estar aberto a ser tocado, sentir-se humilde o bastante para não ser aquele que tem o domínio da verdade, esse sim é um exercício difícil, mas necessário para um mundo mais justo. A parte triste disso tudo é que as palavras desse blog só farão sentido para alguém que esteja disposto a ir atrás de um mundo mais justo.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

O que é ter pensamento crítico?

Sexta-feira participei de um evento que se propunha a discutir as relações entre acadêmicos e ativistas, enquanto hoje assisti a um filme e depois a uma breve discussão sobre o modo como as mulheres são representadas na mídia. São esses instantes que reforçam em mim o desejo de estar em um meio intelectual onde pessoas discutem ideias e posicionamentos. Curiosamente, ambos os eventos tentaram lidar com a separação que frequentemente existe entre universidade, de um lado, e o "mundo lá fora". Essa é uma questão que tenho tentado enfrentar pelo viés da Educação desde que me certifiquei de que não me tornaria um jornalista, apesar do treinamento para tanto.

O que eu acredito que a universidade pode servir aos sujeitos que passam por ela é mais do que o aparato técnico para cumprir uma função. Pelo menos no Brasil, no geral cursos de graduação têm uma função clara: habilitar para algum tipo de profissão. Durante o curso de jornalismo, poucas foram as oportunidades para realmente sentar e pensar sobre a mídia, o papel da internet na sociedade contemporânea, a forma como a publicidade informa e (re)constrói identidades, entre tantas outras coisas que deveriam ser pensadas por futuros comunicadores. Por outro lado, aprendi a entrevistar, refinei minhas habilidades de escrita, ganhei noções de fotografia etc. Ainda que tudo isso possa me ajudar a pensar melhor, esse não foi o objetivo da maioria das minhas aulas.

O que é pensar melhor? No evento de sexta-feira falamos em pensamento crítico, o que não é exatamente muito fácil de explicar. Eu entendo essa ideia como uma técnica intelectual, uma ferramenta que nos convida a explorar o conhecimento através de perguntas e de dúvidas. Em resumo, seria uma tentativa de compreender "o que está por trás", ou "de onde vem" um determinado saber. Se nós concordamos que vivemos em um mundo com diferentes posições digladiando-se entre si para alcançar o status de verdade, então uma postura (e uma tática) que nos convide a buscar como essas verdades são construídas parece cair como uma luva.


Esse convite ao pensamento crítico é feito pela cultura visual, que nos ensina sobre o caráter social e político das imagens e dos significados que construímos com e a partir delas. Eu não preciso explicar essa imagem, tampouco seria capaz. Eu poderia fornecer informações contextuais sobre sua existência, tentar explicar quem é esse deus que ama quem dá com alegria, tecer referências sobre o coração como símbolo de amor, ou da figura desenhada como sendo um personagem cultural bastante conhecido em nossa cultura ocidental. Ainda assim, todas essas informações estariam vindo de um ponto de vista específico que se dedicou a perceber algumas coisas, que deixou de notar outras e que tomou decisões na hora de escrever este texto e compartilhar ideias.

Se pensarmos nos muitos níveis de significado que uma mesma imagem pode alcançar, começamos a arranhar a complexidade do que nos circunda. Nós humanos recentemente na história passamos de uma postura centrada em figuras mitológicas para pensarmos a nós mesmos como o centro de tudo o que há. Isso é particularmente um problema quando esse nós é especificamente branco, heterossexual, homem, superior à mulher, cristão e de classe média. Se for monogâmico e casado com dois filhos e um cachorro, ainda melhor. Essa categoria que atende pelo supostamente universal nós é muito mais restritiva e condensada do que plural, não atendendo nem descrevendo uma larga fatia da humanidade. Em nossa arrogância e pressa de dominar o mundo, construímos conceitos e ideias para explicar o que há no mundo, porém não percebemos que eles são incompletos. 

Como nós pensamos através da linguagem, chegamos ao ponto de pensar que ela vem antes do mundo e não o contrário. O que é uma bobagem, óbvio. Ainda assim, quando dizemos mulher, estamos pensando naquela coisa óbvia e autoevidente que tem um órgão sexual pra dentro e que pode engravidar. Pois é, exatamente disso que eu falo: nós naturalizamos esses conceitos ao ponto deles parecerem que vêm antes da realidade. Quando falamos em mulher, todos entendemos mais ou menos a mesma coisa. Não é? Não, não é. Façamos um exercício de pensamento crítico, sim?

Quando falamos em mulher, todos entendemos mais ou menos a mesma coisa.
Falamos, entendemos. Nós, primeira pessoa do plural. Quem somos nós? É uma estratégia comum de quando estamos falando algo (como nessa frase que estou escrevendo) utilizarmos o nós para se referir ao coletivo de pessoas com o qual compartilhamos a mesma posição. Isso significa no mínimo duas coisas: 1) estou falando por outras pessoas, assumindo que temos, de fato, a mesma forma de entender um determinado assunto; 2) se nós pensamos assim, como eles pensam? Quem são eles? Quem eles pensam que são? 
Então aqui já temos um problema, pois o número de pessoas com as quais me identifico intelectualmente não é muito grande. O meu nós, portanto, não é tão abrangente. Da mesma forma, tenho certeza que muitos nós que existem por aí também não falam por mim. Na melhor das hipóteses, algumas poucas pessoas podem de fato falar por mim. Entretanto, verdade seja dita, deixem que eu fale por mim, muito obrigado!

Mulher, mais ou menos a mesma coisa. A primeira vez que alguém me puxou a orelha sobre isso foi nas páginas de Problemas de gênero, livro de Judith Butler publicado há cerca de 19 anos. Ela faz uma pergunta simples: qual é o sujeito do feminismo? Existe uma mulher que sintetize essa luta? Todas as mulheres vivem pelos mesmos ideias, sofrem as mesmas amarguras, combatem os mesmos desafios? Ou será que, assim como o nós, também estaríamos silenciando a voz de outros sujeitos que não participem do nosso clubinho? Será que, ao me referir à mulher, não estou ignorando, digamos, mulheres africanas, índias, negras, transexuais... A lista vai longe.

Nós gostamos de discursos universalizantes. Essa minha frase é um perfeito exemplo disso, já que estou falando por todos os seres humanos. Acho razoavelmente que tenhamos objetivos universais, ao menos em termos de alguns parâmetros sobre os quais possamos agir e pensar. Aquela coisa básica: não matar, não esfaquear o vizinho etc. Ainda assim, esquecemos que esses discursos englobam uma variedade potencialmente infinita de ideias e pontos de vista e as condensa em uma única posição, uma única forma de perceber a realidade.


O que decorre dessa mania dos discursos que falam por todos é que passamos a acreditar que algumas verdades são mais verdades que outras. Essa é a base da ciência: investigar objetivamente a realidade, abraçar sua complexidade incompreensível e mastigá-la em pedacinhos absorvíveis de conhecimento. Preciso mesmo dizer que esse projeto modernista faliu? Não só nós fomos incapazes de explicar o mundo até hoje, como cometemos atrocidades culturais em nome de uma perspectiva pouco ética. Como qualquer estudante de jornalismo aprende no primeiro semestre de aulas: não existe essa tal de objetividade. Alguém, em algum momento, está fazendo escolhas sobre o que dizer, o que pesquisar, o que é digno de ser investigado, o que é óbvio, o que é natural, o que não é. 

Isso é verdade para basicamente todas as áreas (olha o discurso universal aí de novo): ninguém pode falar por todos. Quanto antes aprendermos isso e nos munirmos de ferramentas e táticas para perceber as maneiras como apagamos as existências dos outros, melhor. Quanto antes entendermos que nossas certezas só duram até que uma dúvida surja, melhor. Quanto antes essas dúvidas aparecerem, melhor.

Eu ousaria dizer que se o teu mundo faz sentido completamente, alguém ou alguma coisa provavelmente está sendo deixada de lado, ignorada, esquecida, apagada etc. E eu posso viver com isso, posso mesmo. Contanto, é claro, que tu me diga que sabe disse e que, ao invés de ignorante, é egoísta. Se for os dois, aí eu não perdoo.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

O mundo é grande

Fui à biblioteca da Ohio State University pesquisar sobre índios norte-americanos. Chegando lá, me deparei com uma seção sobre o Brasil. Folheei alguns livros e fui invadido por aquela sensação que me visita de vez em quando, de tempos em tempos: de que o mundo é tão grande que eu nunca vou entender tudo que existe nele, mas que aprender coisas novas é tão bom que eu desejo aprender o máximo possível. Bate um pouco de depressão por haver desperdiçado oportunidades ao longo da vida, tempos que poderia ter gasto lendo, leituras que poderiam ainda me acompanhar na memória... ainda assim, me sinto bem. Os dois meses que me restam aqui para pesquisar serão pouco. Aliás, começo a pensar que os anos de vida serão pouco pra tudo que eu quero abocanhar nesse banquete chamado vida.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Sobre o que eu pesquiso?

Essa é uma questão que surge com frequência no meio acadêmico. Tão logo alguém descobre que sou um mestrando, zap, querem saber o que eu estudo. Acho que faz todo sentido, já que estou me dedicando a um tema já tem quase dois anos. Estou interessado em investigar discursos sobre homossexualidade na educação (de artes visuais) (a distância), buscando entender quais as implicações (para os estudantes-prováveis-futuros-professores) em se relacionar com essa temátaica.

Como? Bem, em janeiro e fevereiro do ano passado ministrei cursos de extensão sobre sexualidade e educação. Essa experiência foi extremamente significativa para mim, não só como a primeira prática docente, mas também como o momento em que realmente pude perceber as distinções existentes entre tratar sobre sexualidade apenas teoricamente e estar inserido no mundo. Cada estudante trazia um exemplo, uma situação, um conflito já vivido e para os quais eu não tinha respostas. Acho válido deixar claro que a falta de resposta não adveio necessariamente de incompetência ou falta de experiência: eram situações únicas a serem pensadas e tratadas especificamente.

Minha escolha metodológica foi a de não oferecer nenhum tipo de resposta ou indicação do que fazer. Ao invés disso, procurei sistematicamente questionar e alfinetar os participantes do curso, de modo a explorar o que cada um entende por sexualidade e como constroi os seus entendimentos. Já de antemão, algumas percepções: um mês a distância é um tempo muito curto para tratar de um tema que é tão ignorado na formação escolar e universitária. Como esperar que esses sujeitos possam tratar de algo que têm medo, vergonha ou que pensam ser imoral?

Discursos sobre homossexualidade na educação, esse é o meu interesse atual. Conforme me aproximo do fim da dissertação e da experiência do mestrado, outros projetos e desejos começam a pedir licença para participar da minha vida. Eu sei que ainda não terminei essa etapa, mas o gostinho da conclusão de mais uma etapa vem se oferecer aos poucos...

O poder das imagens


Estou aqui pensando sobre meu projeto de doutorado. Ele está mais ou menos redondinho, agora que consegui finalmente tirar da cabeça a necessidade de ser coerente entre todos os passos que eu der na minha carreira profissional-estudantil. Não que eu tenha como reverter a promiscuidade intelectual que já me marca: jornalismo, design gráfico, cultura visual, revisão de língua portuguesa... Penso atualmente em me bandear para os lados da antropologia cultural, especialmente se meus futuros estudos mostrarem que essa área pode abraçar minhas atuais preocupações. Isso levanta duas questões:

1) Encontrarei um programa de pós-graduação que me/se permita transitar por entre áreas e estilos? Estou ciente de que quanto mais afastado das artes, mais difícil de encontrar essas liberdades, porém não sei se suportaria quatro anos preso a um tradicionalismo que já não faz sentido com o que acredito e defendo. Contudo, não me vejo mais escrevendo "objetivamente" na terceira pessoa do plural, tampouco desvendando verdades. Além disso, tenho um problema prático: com formação em áreas diferentes, a possibilidade de fazer concursos e me tornar um professor de universidade federal diminuem consideravelmente.

2) Poderei discutir o que me interessa, sendo que isso envolve sujeitos jovens e seus corpos? Precisei pensar bastante antes de postar essa imagem aqui na Raposa Antropomórfica, pois não sei se ela já não pode ser considerada pornográfica e, portanto, significar a perda do meu endereço virtual. Ainda não vou explicitar meu projeto, pois apesar dele estar razoavelmente bem delineado, desejo estudar mais a respeito, para que minhas decisões estejam bem informadas.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Eu sou um turista

Há três semanas, eu moro nos Estados Unidos. Sou um acadêmico convidado pela Ohio State University para pesquisar aqui e estabelecer relações internacionais. Sou, também, um alien para a instituição, ou ao menos foi assim que eles me classificaram oficialmente. Não que eles precisassem de qualquer coisa para fazer com que eu me sentisse ainda menos pertencendo a esse espaço. Sou um turista cujo domínio da linguagem não é suficiente para que eu seja percebido como igual. Se no Brasil essa mesma característica usualmente eleva os visitantes, salvo se forem do mesmo continente, aqui ela nos deprecia. Eu, brasileiro, preciso que falem comigo devagar, que dediquem a se fazer entender e, principalmente, a decifrarem o que eu estou falando. Necessito que tenham paciência em me ouvir de novo e de novo.

Ainda assim, eu sou um acadêmico convidado, o que me coloca numa posição de destaque e de exigência. Eu sou especial, na medida em que posso assistir a aulas e discutir com professores, mas não especial o bastante para realmente influenciar nesses acontecimentos ou ser ouvido. Não estou aqui por alguma qualidade inerente ao meu trabalho, mas sim para cumprir protocolos acadêmicos entre instituições e personalidades que estão acima de mim. Obviamente, isso não significa que não posso colher frutos dessa vivência.

Isso tudo está confuso, eu sei. Como alguém que não pertence a esse cenário, posso perceber de modos diferentes do que o faria se estivesse conformado e inserido. Essa é uma vantagem do meu ponto de vista teórico. Ainda assim, é incrivelmente frustrante ser reconhecido por uma das características que sempre considerei das menos importantes: minha nacionalidade.

Fica a questão: o que posso fazer para que esse deixe de ser um marcador a me acompanhar? Ou: o que posso fazer para que esse marcador se torne um ponto positivo, ao invés do que ele atualmente é?

sábado, dezembro 03, 2011

O lado do professor

Estive em Catalão hoje participando das bancas de defesa de TCC do curso de Licenciatura em Artes Visuais, na modalidade de educação a distância (EaD). Três grupos meus apresentaram, dois com nota final oito e um com nota nove. Mesmo tendo meus grupos sido aprovados com conceitos bons, fiquei pensando sobre a ansiedade que cada um sente durante o processo. As meninas estavam muito mais nervosas que eu. Imagino que, por já haver estado na posição delas e por estar lá hoje apenas como avaliador, eu realmente não tinha motivos para me sentir tenso.

Contudo, terminada a coisa toda, fiquei imaginando se o meu papel foi bem cumprido. Será que eu poderia ter investido mais tempo nos grupos? Discutido mais os trabalhos, tentado organizar maneiras de construir melhor as investigações e os referenciais teóricos? Será que deveria haver insistido nos momentos em que relaxei? Essas dúvidas vão me consumindo, enquanto professor, ao ponto de que ouvir que "nossa, muito obrigada, você nos ajudou muito" parece não ser suficiente.

Não é incrível como a gente sempre consegue duvidar de nós mesmos?

sábado, novembro 19, 2011

Foucault

Eu acho o texto dele um saco, confesso!"Filósofo", disseram minhas amigas. "Francês, ainda por cima", complementaram. Eu sou partidário da teoria de que para ser inteligente não precisa escrever difícil. Isso não quer dizer que o que se está pensando é fácil de compreender ou não, mas acho válido o esforço de tentar compartilhar nossas ideias e descobertas da melhor maneira possível. Essa maneira não é enrolando.

Aí eu leio alguém que teve a paciência que eu não tenho, que leu Foucault e escreve a respeito e zap!, a coisa flui lindamente. "Ah, tu tem que ir na fonte", me dirão os acadêmicos. Por quê?



So, I don't like the way he has written his texts. My friends said that I need to take it easy, since he was a philosopher and a French one, to complete. Well, I insist that to be intelligent you're not obliged to write hermetically. This has nothing to do with the easiness of a subject, with its complexity or deepness. I really think worthy the attempt to share our ideas and thoughts in the best way possible.


Then I read someone who actually had the patience needed to read Foucault. It's amazing! This french philosopher guy had astonishing contributions for the world. But the Ivory Tower guardians will  say: "you must read in the original source". Now say, why?
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