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domingo, outubro 06, 2013

O que nos impede de agir?

Uma amiga quer transar com um cara, mas não teve coragem de dizer isso a ele. Ela não quer nada além de uma boa trepada com o sujeito, mas se pegou com medo do que ele poderia pensar dela, já que normalmente mulheres não tomam a iniciativa nem assumem que gostam de sexo. Sabemos que essa ideia de que mulheres não tomam iniciativa ou não gostam de sexo é fajuta. Não há nada dado no "ser mulher" que inclua frigidez ou falta de iniciativa. O que nós temos é uma complexa rede cultural ensinando os meninos a desde pequenos pegarem todas e as meninas a ficarem quietas para serem usadas. Como a gente muda isso? Através da educação, da família, das instituições sociais e... da ação. Absolutamente nada funciona como um exemplo mais poderoso do que a ação.

Minha amiga é feminista e tem interesse em lutar pelos direitos das mulheres e contra as opressões de gênero. Mesmo assim, se sente acanhada para agir em nome daquilo que acredita. Ela não é a única. Goethe já nos alertava:
Pensar é fácil, agir é difícil. E colocar nossos pensamentos em ação é a coisa mais difícil do mundo.
Quando fazemos algo que contraria as expectativas ou tradições (o machismo e a heteronormatividade infelizmente funcionam como tradições), podemos esperar algum tipo de reação. Afinal de contas, nós estamos afetando diretamente o modo como outras pessoas enxergam o mundo. Estamos lhes dizendo "não é assim que funciona". Isso dói e a tendência é tentar algo para interromper essa dor. Num mundo ideal, as pessoas assimilariam que seu modo de ver e viver é cruel e machuca outras pessoas e mudariam. Na vida real, as reações costumam ser mais violentas e opressivas.


Refletindo sobre isso, vejo que temos dois impedimentos básicos frente à ação "subversiva". A primeira delas acabei de mencionar, ou seja, a possibilidade de reação alheia. As outras pessoas provavelmente buscarão interferir no jeito que você deseja viver, essa é quase uma certeza da vida. São os guardiões das tradições ou dos próprios privilégios.

A segunda delas é mais complicada: precisamos estar abertos a nossas próprias resistências e limitações. Recusar preconceitos pode implicar deixar de rir em algumas situações que sempre pareceram engraçadas. Lutar contra a tortura de animais pode significar a necessidade de se reeducar e encontrar formas alternativas para se alimentar sem carne. Compreender o próximo pode requisitar que façamos uma releitura de nossas crenças mais profundas.

Em ambos os casos precisamos juntar coragem e, se possível, aliados, para que não precisemos lutar sozinhos. Infelizmente todo convite à mudança é uma luta, primeiro contra nós mesmos, depois contra o restante do mundo, mesmo quando aquilo pelo que lutamos é a paz ou a igualdade. Talvez principalmente nesse caso, aliás.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Os russos me confundem

Então na Rússia é proibida propaganda homossexual para menores de idade. Não, eu não vou passar o texto inteiro reclamando sobre como essa lei é retrógrada e viola os direitos humanos e é mais um exemplo de como a humanidade anda precisando de uns corretivos. Não, também não vou citar a onda de violência contra sujeitos homossexuais que vem aumentando desde que o ódio foi institucionalizado e legalizado. Acho que já somos grandinhos o suficiente para sabermos que censurar o direito do outro de existir não é bom para ninguém, muito menos para as crianças.

A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.


Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.

É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.

Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.

Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).

Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.

quarta-feira, agosto 21, 2013

Macho que é macho não... existe

Perdoem-me os escritores de plantão, mas eu repito a palavra macho exageradamente nesse texto. Eu mesmo estou me sentindo meio mal, porque não escrevo textos de fantasia há tanto tempo...

Eu não acredito em machos e isso não tem nada a ver com a foto abaixo. Ou tem tudo, deixo o leitor decidir. Eu deixei de acreditar neles há muito tempo e esse texto é a minha tentativa de explicar o porquê.


Eu não acompanho futebol, por isso não saberia nunca que o moço de boina é Sheik, um jogador do Corinthians. Sheik é não só um jogador do Corinthians, mas um jogador do Corinthians autodeclaradamente heterossexual. Aí uma noite ele sai com os amigos e dá um selinho num deles e o mundo desaba.

Sabe por que eu acho que machos não existem? Porque ser macho é tão instável e frágil que basta um selinho num outro cara para que a torcida do Flamen, ops, do Corinthians se revolte e resolva roubar a carteirinha de macho do Sheik. Macho que é macho não beija outro macho.

Ser macho é uma condição tão frágil que a galera precisa ficar repetindo e provando o tempo inteiro que é macho. Quem nunca viu na escola, por exemplo, a ofensa mortal a qualquer macho: xingar a mãe, ops, chamar de viadinho? Homem que é homem tem que gostar de mulher e falar de mulher e pegar mulher e fazer o que for com mulher (ou com o viadinho mais próximo, na falta de mulher, o famoso caso dos heteros que comem viados). Detalhe: homem que é homem só tem amigo homem, fica pelado em vestiário cheio de macho e de vez em quando aperta a bunda do outro pra ver se o outro é macho e reclama (oi?).


O que é um macho? Macho, em uma sociedade machista, é o sujeito que se acredita detentor do Poder do Pênis. Com esse superpoder, ele acha que pode maltratar as mulheres, ops, usufruir das outras pessoas (em geral mulheres, macho só usa outro homem se este for viadinho e ainda assim se ninguém ver... aliás, vamos todos ignorar as brincadeiras de medir o maior pinto, ver quem mija mais longe, bater punheta junto e fazer troca-troca). Todo mundo que nasceu com um pênis tem o dever moral de agir como macho, afinal, tem um pênis. É lógico.

Só que não é fácil ser macho. Macho não chora, não pede ajuda, não erra nunca, não fraqueja, não goza rápido demais, tem pau grande, é musculoso, bate em quem duvida, bate em quem tem alguma certeza contrária (o que não é difícil, porque machos geralmente têm poucas certezas – poucas em quantidade, fique claro), bate em que não é macho... Ser macho é tão complicado que há uma polícia especializada em verificar se outros caras são machos, o que nos leva de volta ao Sheik, já que macho não beija outro macho. Logo os dois são viadinhos e estão escondendo o jogo o tempo inteiro.

Agora uma pausa geral. Ser macho é tão difícil que antes de ser qualquer outra coisa, tem que ser macho. Jogador de futebol? Não, tem que ser macho antes, logo tem que ser um jogador de futebol macho.

Agora uma segunda e última pausa geral. Ser macho é tão difícil porque macho não existe. É como a roupa nova do rei, que só os inteligentes podem ver. Aqui, no caso, só os machistas veem quem é macho e quem não é. Para falar a verdade, só machistas se importam com quem é macho ou deixa de ser. As outras pessoas, não afetadas pela responsabilidade do superpoder do pênis (e muitas delas têm pênis!), são livres para serem o que são ou o que quiserem ser. Talvez seja esse o problema dos machos: inveja de quem é livre.

terça-feira, agosto 20, 2013

Teoria queer (parte 2)

Essa é a segunda parte da série de três textos sobre a teoria queer. O primeiro pode ser encontrado aqui e o terceiro será lançado amanhã. Não é minha intenção esgotar (seria pretensioso demais!) a teoria queer, mas sim apresentar alguns pontos introdutórios para quem se interessar.

Um sujeito nasce já inserido numa trama de expectativas e normatizações que estabelecerão um campo de confronto entre ser normal ou desviante em uma infinidade de critérios, e creio que é menos importante saber a origem de seus desejos do que pensar a respeito dos efeitos que eles têm sobre essa trama e, principalmente, dos esforços engendrados para conter esse alegado desvio; não podemos esquecer que a própria existência do desvio permite perceber que os fios dessa trama não só são instáveis, como também são impostos e insuficientes.

Como um professor que trata sobre (homo)sexualidades, tenho enfrentado o desafio constante de projetar propostas de ensino e ambientes de aprendizagem que sejam ao mesmo tempo eficazes no objetivo de compartilhar saberes e amplos o bastante para que não se reduzam a um ponto de vista particular e reducionista. Não posso ignorar, contudo, que essa é uma escolha que já exclui temas e interpretações que poderiam ser abordados em cursos cujos fins fossem outros e que minha afiliação à cultura visual e teoria queer me coloca em uma posição diferente do que a assumida por sujeitos que não compartilham desses embasamentos. É particularmente difícil não considerar outras posturas equivocadas ou incorretas, mas se trata de um desafio que acredito ser fundamental para o tipo de educação que antevejo, ou seja, uma forma de aprendizagem que não se aceite opressiva e que se permita duvidar de si própria ou ouvir a vozes que anunciem posições diferentes.

Uma das abordagens mais comuns que tenho observado no tratamento da homossexualidade em contextos escolares é a tentativa de incluir esses sujeitos e suas práticas no círculo da normalidade. A busca por inclusão reitera uma noção que deve ser analisada mais detidamente: a da aceitação do diferente. Essa postura relaciona-se com a ideia de uma generosidade por parte dos normais, que estão se predispondo a permitir que os anormais tenham espaço legitimado, assim como com a crença de que o grupo excluído necessita de maior autoestima, podendo buscar aumentá-la através de representações positivas de sua existência (BRITZMAN, 1995). Britzman questiona, ainda, a validade de uma política de tolerância, marcada pela apresentação e representação das minorias, que em teoria seria legitimada pela ideia de que as pessoas se identificariam com os modelos propostos. Não somente, essa perspectiva alimenta a noção de que os sujeitos normalizados reconheceriam as diferenças e as aceitariam: “mas como, exatamente, deve acontecer a identificação com um outro se somos requeridos apenas a tolerar e, portanto, confirmar nós mesmos como generosos?” (BRITZMAN, 1995, p. 159). A postura de enxergar o outro como um inferior que precisa de ajuda pode, portanto, encaminhar as tentativas de inclusão para um mero emparelhamento com as representações de heterossexuais.


Se a homossexualidade é compreendida como um desvio em relação à norma da heterossexualidade, então a representação positiva dessa identidade estaria na repressão de características que pudessem se configurar como destoantes da expectativa de um comportamento considerado adequado. Isso inclui relações não monogâmicas, práticas sexuais como submissão e sadomasoquismo, seguindo o axioma da hierarquização discutido por Rubin (1993b) e apresentando um limite bastante claro à noção de tolerância: ela pode existir, contanto que seja apenas até certo ponto. Só ganham acesso à inclusão aqueles que se assemelham com a norma heterossexual monogâmica, o que justifica as lutas que atualmente ocorrem em torno da legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas também explica o silêncio que existe em torno de sujeitos transexuais e a conivência pública com violências físicas e morais contra indivíduos cujas ações dificultam que sejam imediatamente posicionados em algum critério inteligível e comparável à norma. “Seja gay, mas não pareça uma mulherzinha” e “Não tenho problema com homossexuais, contanto que não deem em cima de mim” são declarações que exemplificam essa postura de inclusão limitada.

Ao indicar tais contradições que resultam da ideia de inclusão, não estou posicionando-me contra iniciativas que tenham esse objetivo. Representações positivas de sujeitos marginalizados são bem-vindas, pois os inserem em espaços que usualmente não ocupam ou não são vistos ocupando. Porém, creio com Silva (2000) que “antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida” (p. 100). Entender como são produzidas as diferenças que dão contorno para as identidades e em que medida elas são estabelecidas ou alteradas discursivamente é uma preocupação que deve ser levada em conta. Contudo, não se pode esquecer o papel dos indivíduos que negociam com essas instituições e também com os demais sujeitos articulando suas próprias experiências com os enquadramentos sugeridos, requisitados ou impostos. Essas relações envolvem o modo como se percebem e identificam, mas também como são identificados e o que, no trânsito entre esses muitos entendimentos, resulta na forma de ação.

Na terceira parte desta série tratarei de alguns técnicas sugeridas por Deborah Britzman para uma abordagem queer.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Teoria queer (parte 1)

Este texto é a primeira parte de uma série de três postagens dedicadas a pensar o que é a teoria queer e como ela pode se inserir em contextos pedagógicos. Nesta primeira parte, o foco da discussão está em compreender a base da teoria e sua "missão".

O queer que acompanha e nomeia a teoria surge como uma jocosa ironia, na medida em que se apropria de um xingamento para se posicionar criticamente a favor do ofendido. Traduzindo do inglês, queer significa estranho, e por derivação passa a significar bixa, viado, sapata. É aquilo que não se encaixa e causa desgosto, que não pertence. A língua portuguesa não possui uma tradução que concentre adequadamente a carga histórica que o termo queer possui no inglês, onde frequentemente era utilizado para atacar e condenar sujeitos cujas sexualidades não se conformavam às expectativas normativas. Enquanto termos como “bixa” e “transviado” possam soar semelhantes, eles reduzem o xingamento ao masculino, ignorando o feminino e prestigiando binários contra os quais a teoria se opõe. Por conta dessa dificuldade de tradução, seguirei trabalhando com o conceito em inglês, a fim de preservar o seu sentido e, principalmente, o seu potencial de disrupção de sentido.


Tomado como ponto de partida para uma ressignificação, os teóricos assumem-se como estranhos e como corruptores: a teoria queer não tem a intenção de ser mais um campo teórico, mas sim de questionar estabilidades, e por isso mesmo é tão difícil defini-la, uma vez que torná-la completamente inteligível esvaziaria sua força e potencial subversivo. Envolve teorizar o esquisito e, ao mesmo tempo, estranhar a teoria (LUHMANN, 1998). Mais do que se limitar ao estudo de gays e lésbicas, a teoria queer confronta noções de identidades fixas, classificações binárias e suas consequentes exclusões, focando esforços na compreensão dos papéis exercidos socialmente por aqueles sujeitos que ocupam posições ininteligíveis aos olhos das normas.

O queer não apenas é estranho e fora de lugar, ele também é ignorado, esquecido e negado. Os sujeitos que não se identificam com os discursos normativos das sexualidades na sociedade contemporânea ocidental estão relegados a uma existência inferior: são reconhecidos como desviantes, mas seu “desvio” não gera reflexão, é assumido como essencialmente errado ou, quando muito, como uma diferença que devemos aceitar e incluir.

É fácil pensar que queer institui uma categoria de identidade, um tipo de sujeito que não corresponde às normas. Contudo, Morris (1998) nos pergunta e alerta: “Essa categoria simplesmente instala um outro binarismo – queer ou não queer? Nós poderemos em algum momento dissolver o pensamento binário como um todo, e seria essa estratégia do não binarismo sequer útil?” (p. 276). Se pensarmos a definição de queer como simplesmente aquilo que não está normalizado, temos imediatamente uma normalização do que é ser queer. O estranho, subversivo e incompreensível passa a estar domado, controlado e seguro, sendo mais um conhecimento pronto para ser anexado em dicionários e para que pesquisadores possam identificar com certa facilidade: “isso é queer, isso é normal”. Uma vez compreendido e aceito, o poder que se instalaria pela dúvida se perde, dando lugar novamente às certezas.

Não devemos nos esquecer que, como nos alerta Britzman (1995), o queer não está nos atores, mas sim nas ações. Nomear um determinado grupo como queer é posicioná-lo fora da normalidade, mas antes de tudo significa posicioná-lo, estabilizá-lo. Esse é um movimento (e congelamento) ao qual a teoria queer não pode se permitir: o queer está no trânsito, no cruzamento de fronteiras e na indefinição de identidades. Não há como uma determinada identidade ser subversiva permanentemente, em qualquer espaço ou instante. A partir do momento em que for compreendida e nomeada, ela passa a não causar mais o impacto da indefinição.

Citando Berry, a respeito da forma como a “cultura do individualismo” espera que os sujeitos não mudem, Doll (1998) aponta: “Não importa de que forma o sujeito é reto [em inglês a palavra straight significa também heterossexual, e pode ser compreendida também como honesto ou normal], apenas que todas as perversões sejam amaciadas, de forma que a pessoa seja identificada completamente e sem ambiguidade” (p. 289). A teoria queer nos alerta para questionarmos categorias de identidade tais como “homossexual”, “travesti" etc., mas também sugere que levemos em consideração quais são os poderes e raízes históricas por trás da instituição e manutenção da heterossexualidade enquanto norma.

Na segunda parte desta série, discutirei a noção de inclusão da diferença. Na terceira e última, abordarei algumas "técnicas" para um olhar que se proponha queer. Caso alguém deseje as referências, basta pedi-las nos comentários ou por mensagem na Raposa do Face.

sexta-feira, maio 17, 2013

Você sabe o que significa ser normal?

"Você não está sendo oprimido quando outro grupo conquista os direitos que você sempre teve". Essa é uma das frases que circulam na internet na tentativa de conscientizar as pessoas que absurdos como preconceito contra heterossexuais e marchas do orgulho branco são somente isso: absurdos. Afinal, como sabemos, o padrão da normalidade é criado em nossa sociedade por uma série de características arbitrárias: a cor da sua pele, a sua anatomia sexual, quanto dinheiro há em sua conta bancária, o tipo de relacionamentos estáveis mantidos, a sua crença monogâmica em alguma divindade, o seu acesso cultural a uma forma específica de arte e entretenimento etc.

curva normal
Encontrei aqui: http://www.anormais.com.br/

Estatisticamente, agrupamentos de pessoas têm a tendência de parecer como essa curva aí. A linha do meio é o ponto médio, com maior quantidade de pessoas. São as características medianas, típicas, mais prováveis de serem encontradas entre qualquer sujeito que puxemos do grande grupo. Quanto mais para esquerda no gráfico, menos temos daquela característica. Quanto mais para direita, mais temos. Para fins de ilustração, vamos pensar no quociente de inteligência: a grande maioria está ao redor do meio, que concentra 68,2% da população. É muita gente.

A área em azul escuro está a menos de um desvio padrão (σ) da média. Em uma distribuição normal, isto representa cerca de 68% do conjunto, enquanto dois desvios padrões desde a média (azul médio e escuro) representam cerca de 95%, e três desvios padrões (azul claro, médio e escuro) cobrem cerca de 99.7%. Este fato é conhecido como regra 68-95-99.7, ou a regra empírica, ou a regra dos 3-sigmas. (copiado diretamente da Wikipedia)

Em termos práticos, ser normal significa se encaixar nessa faixa azul mais escura. Quanto mais distantes dessa medida média, menos gente tendemos a encontrar, tanto para menos (esquerda) quanto para mais (direita).

Então é bom ser normal, certo?

Depende. Na verdade, não é nem bom nem ruim. É normal. Só isso. Contudo, acontece em nossa sociedade ocidental um tipo de pensamento binário que funciona assim: a gente é ou uma coisa, ou outra. É homem ou é mulher. É alto ou baixo. É rico ou pobre. É feliz ou triste. É hetero ou homossexual. É ativo ou passivo. É magro ou gordo. A essa altura, creio que já está bastante evidente essa polaridade, mas não podemos esquecer de mais uma: bom ou ruim. Todos os primeiros elementos destes binários são considerados positivos, enquanto seus opostos são considerados negativos. Por essa lógica, ser homem é melhor, em nossa sociedade, do que ser mulher. Todos nós sabemos o quanto isso é um absurdo, não? Bem, deveríamos saber.

Então, ainda que ser normal não seja em si nem bom nem ruim, nós o colocamos no binário normal x anormal. Obviamente, o 'anormal' está pareado com 'ruim', portanto fazemos cara feia e desgostamos.

E se o normal fosse ser o que é?

Nas aulas que leciono, meus alunos são proibidos de usarem as palavras 'normal' e 'normalidade', uma vez que entendemos que qualquer normalidade decorre de um ponto de vista específico (que por tabela está ignorando as experiências e vivências de todo um grupo de pessoas que não está enquadrado no 'normal'). Junto com isso, busco aprofundar com eles o entendimento de que os conceitos não são meramente opostos, eles são complementares, dependentes de uma posição determinada para serem compreendidos. Uma perspectiva.

Desafiar o paradigma binário da normalidade não é fácil. Na verdade, é até pouco inteligente, de um ponto de vista egoísta, caso nós desfrutemos dos privilégios de sermos normais. Como uma raposa que vez ou outra experimenta ser humano, porém, faço um convite: que tal tentarmos ser menos normais e mais humanos?

segunda-feira, abril 01, 2013

Como sair do armário

De acordo com a Wikipedia, sair do armário significa fazer "o anúncio público da orientação sexual ou identidade de gênero de alguém, ou de si próprio". É sobre isso mesmo que estou escrevendo hoje: sobre essa mania irritante que o mundo tem de querer que anunciemos nossa identidade, como se gostar de homens me tornasse um tipo diferente de pessoa.

gays saem do armário
"Eu preciso confessar... Gordo, eu sou gay"
Só quando rolou a minha primeira experiência sexual com um cara é que passei a perceber minha vida como algo possível. Até então, eu sabia que não conseguia me relacionar direito com seres humanos da forma heteronormativa (para entender melhor, veja o que escrevi aqui e dê uma olhada na Wikipedia) que todos esperavam. O que eu não entendia é que poderia me relacionar de tantas outras formas! Quando voltei à minha rotina (eu estava na metade da faculdade), passei a me ocupar de duas coisas: (1) viver e experimentar a vida; e (2) conversar com as pessoas.

Viver e experimentar a vida

Nem sempre a gente tem ciência do que pode fazer. Muitas vezes, aliás, não saber que algo é possível acaba nos limitando. Nem todos temos coragem de sair e desbravar o mundo sem saber o que nos espera. Eu, por exemplo, sempre fui medrosinho. Até tentava aqui e ali alguma interação afetiva/sexual com outros moços, mas era tão sem jeito (e estava procurando tão no lugar errado) que nunca rolava nada.

Depois que entendi que não precisava ser igual a todo mundo, passei a procurar oportunidades de exercer meus desejos. De vivê-los. Aos poucos, foi ficando claro que sair de casa, ir em festas e conhecer pessoas através da internet eram boas maneiras de alcançar esse mundo do qual eu queria participar. Ficar sentado em casa desejando é algo que mais nos machuca do que ajuda.

Conversar com as pessoas

Esse é o ponto que normalmente as pessoas consideram "sair do armário". Cada pessoa tem uma capacidade diferente de lidar com a vida e com as suas pressões. Eu, por exemplo, precisava verbalizar (falar e escrever) para tornar real o fato de gostar de rapazes. Aos poucos isso deixou de ser uma necessidade, mas meus primeiros passos na vida sexual realmente precisavam desse apoio. Se isso acontece, "sair do armário" é um bom caminho.

Eu conversei primeiro com o meu melhor amigo na época. Ele me indicou um outro amigo, que também gosta de moços, e a partir daí eu tive com quem conversar abertamente e trocar ideias e experiências. Saber que não se está sozinho é uma das coisas mais maravilhosas que existem. Até então, eu estava. Como eu não entendia o que estava acontecendo com meus desejos, eu não sabia como procurar ajuda. Para mim não fazia sentido gostar de homens, isso era algo que simplesmente não existia. Através dessas conversas com meus amigos (e fui contando cada vez para mais amigos, de modo a tornar minha realidade mais real), a coisa foi tomando forma.

A família

Foi então que comecei a namorar. Até então, nem pensava em contar nada para a família. Simplesmente não parecia algo que eles precisassem saber. Contudo, veio o dia em que eu queria receber meu namorado em casa, queria que ele fizesse parte do meu espaço, mas meu irmão estava lá. Contei pra ele (foi difícil, mas aliviante. Ele não conseguiu lidar muito bem com a ideia inicialmente, então explorou bem o item "conversar com pessoas" e contou para basicamente todos seus [alguns meus] amigos) e consegui o queria: meu namorado e eu passamos a ter um senso de família, já que aos poucos ele e meu irmão começaram a se conhecer.

Depois de alguns meses namorando, chegou o momento de contar para a minha mãe. Algo curioso sobre isso tudo é que eu nunca tive medo das pessoas deixarem de gostar de mim ou me recriminarem. O medo que eu tinha era de saber que um homem gostar de homens era socialmente reprovável. Esse foi, aliás, o medo também expresso pela minha mãe: que eu sofresse na sociedade em que vivemos.

E quando não dá?

Nem todo mundo tem a sorte que eu tenho de nascer numa família compreensiva e carinhosa. A gente geralmente sabe se pode confiar/contar ou não. Assumir uma identidade é tomar uma posição política, é dizer "eu falo deste ponto de vista", "eu sou isso". Em muitos contextos, isso pode significar (e muitas vezes significa) dor, arrependimento, expulsão de casa, violência etc.


Não é fácil acreditar que não se tem a quem recorrer. Por isso, assumir uma identidade é algo que não deve ser feito se tiver um grande potencial de colocar a vida em risco. Certa vez vi em uma palestra que devemos escolher lutas pequenas suficientes para ganharmos, mas grandes o bastante para terem importância. Esse é um desses casos: se dependemos da nossa família e acreditamos que ela não nos dará suporte, que talvez até mesmo nos tire suporte, então o silêncio pode ser uma escolha política. Temporária, mas útil.

O mais importante, em qualquer caso, é encontrar pessoas nas quais possamos confiar. Grupos de apoio a LGBTs. Comunidades. Professores. Colegas. Amigos. Nem sempre será fácil reconhecer essas pessoas e algumas podemos até nos enganar, mas aos poucos vamos aprendendo a caminhar pela vida e a reforçar nossas posições. A melhor ajuda que podemos encontrar é aquela que não nos deixa sozinhos.

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Sobre o ataque homofóbico a um estudante da UFG

Não sei descrever exatamente a sensação que tive quando tomei notícia do ataque homofóbico realizado por estudantes portugueses a um brasileiro na Casa do Estudante da UFG (notícias aqui e aqui).



Vou começar pelo óbvio: violência não pode. Gay? Negro? Transexual? Mulher? Não interessa, violência não é caminho e ponto. Vamos parar com essa onda de "fulano não pode existir porque está errado". Não acho que seja muito relevante que os agressores sejam portugueses. Ou que estivessem bêbados. Eles agrediram covardemente – tem algum jeito de agredir que não o seja? – um cara dentro do banheiro. Em grupo.

Os agressores devem ser punidos. Do contrário, a mensagem que eles enviaram estará sendo defendida e institucionalizada dentro da UFG: "homossexuais não têm direito de existir". Por não considerarem um homossexual como humano, eles simplesmente exerceram sua força física (bruta) e o atacaram. Queriam "limpar" aquele banheiro de uma presença ameaçadora.

Aí eu pergunto: que ameaça é essa que a homossexualidade traz, que precisa fomentar uma reação violenta e explosiva como essa? Qual o poder dessa "subversão"? Do que eles têm medo?

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Eu não sou gay

Esses dias disse que eu era gay e um amigo já apontou o dedo "arrá, desistiu de te indefinir!". Não. Esses dias também falei, em outro espaço, que era bi. Debatendo com alunas, mencionei a possibilidade de, num contexto específico, haver sido heterossexual. Para todos, encerro com a mesma resposta: sou raposa.

"Eu não sou gay, hetero, bi ou lésbica. Eu amo, simplesmente".

Ser é sempre algo muito complicado. Não é tanto uma questão de não ter coragem de assumir, de não estar confortável com ser A ou B. O problema, aos meus olhos, é ser obrigado a conformar (ou mesmo lidar, já que não preciso levar em conta a opinião alheia na maior parte das questões da minha vida) com uma série de expectativas que já vêm prontas no kit "isso é ser gay", "isso é ser bi". Ontem ouvi alguém falar que ser gay tem algo a ver com ser afeminado (como se "ser feminino" ou "ser masculino" fossem definições muito claras...).

O que eu defendo é a possibilidade de sermos sem caixinhas, sem o imediato entendimento e julgamento daquilo que estamos vivendo. Eu repudio o famoso "nossa, tu é isso, então como tu não gosta de tal coisa"? Gostaria muito de não me importar com o olhar e o dedo alheios, mas isso infelizmente ainda não é uma realidade, tampouco acredito que virá a ser tão cedo para mim ou para o resto do mundo. O jeito, ainda me parece, é educar.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O olhar heterossexual 2

Depois de ontem, fiquei pensando e lembrando da minha infância. Eu tinha um vizinho que era uns dois ou três anos mais velho que eu, no máximo. Toda vez que eu chegava ou saía de casa, ele gritava com aquela voz rouca: "ô putão", "viado", "bixa". Obviamente, eu odiava ele – o que, pelo jeito, era recíproco. Bastava ele me ver para começar a me xingar. Eu, como de costume, baixava a crista e seguia meu rumo, incomodado, mas não o suficiente para ter alguma reação mais explosiva ou violenta. Aliás, incomodado, mas com bom senso o bastante para preservar meus dentes.

Mais de uma vez eu cheguei à conclusão perfeita sobre como solucionar aquele problema. Bastava me oferecer para chupar o rapaz. Ele ficaria feliz, eu ficaria livre da coisa toda. Ao contrário do que os meus pensamentos da época podem sugerir, eu era uma criaturinha bastante ingênua. E virgem. Continuei sendo, aliás, por mais vários anos. Não que isso tenha alguma importância em si, mas é só para deixar claro que com 10, 12, 14 anos eu já sentia que sexo era algo tinha um baita poder.

Conto essa história porque ela tem uma série de coisas a revelar sobre como eu via o mundo quando criança. Antes de tudo, eu não compreendia que aqueles xingamentos tivessem algo a ver com eu gostar de meninos e não de meninas. Diga-se de passagem, naquela época isso ainda não estava muito claro para mim. OK, eu gostava de meninos, sentia atração e prestava mais atenção em homens do que mulheres nos poucos filmes e quadrinhos pornôs que eu tinha oportunidade de ver. Ainda assim, nada daquilo significava que eu fosse alguma coisa. Certamente não "putão, viado ou bixa".

O meu vizinho não me xingava por algo que eu era. Pelo contrário. Meu vizinho me xingava por algo que eu não era. Eu não agia todo machinho, não jogava futebol como todos da quadra, provavelmente era um guri delicadinho, loirinho e meiguinho. Qual o problema? Ora, todos sabem que os seres humanos que nascem com pênis devem ser grossos, fortes, brigões. Eu não era nada daquilo, portanto era parte do dever sagrado dele, como portador do olhar heterossexual, apontar para mim e garantir que o mundo soubesse disso. Eu era diferente. Eu não era normal.

Fonte: http://www.citelighter.com/science/psychology/knowledgecards/homophobia

Dali pra frente eu cresci e cruzei cada vez menos com esse vizinho. Chegou um tempo em que ele parou de me provocar, não sei bem o motivo. Aliás, não sei se alguma vez qualquer coisa que ele tenha feito em relação a mim foi com motivo (não, eu jamaaaais estaria duvidando da capacidade intelectual dele). É só que o poder da heterossexualidade/normalidade é tão comum e invisível que as coisas simplesmente são como são, as pessoas riem de quem passa, apontam o dedo e gritam. Eu, por fugir da norma, precisava imediatamente ser colocado de volta no meu lugar. No meu lugar correto, de machinho. A vida está cheia de exemplos piores de como isso é feito.


Esse texto é uma continuação do post anterior, O olhar heterossexual.

O olhar heterossexual

Perto da minha casa tem uma feira que acontece todos os domingos. Eu, fã de hábitos rotineiros, janto lá todo santo domingo. De preferência, como tapioca. Duas, uma de calabresa e uma de sabor variável, ora carne seca, ora pizza. Dessa vez, porém, fiz algo diferente: fui de mãos dadas com o meu namorado. Tudo foi mais ou menos semelhante ao que sempre é: fomos bem atendidos, pedimos, sentamos em uma mesa, aguardamos e comemos. Tanto na ida quanto na volta, porém, fomos olhados.

Medusa, por Caravaggio.

Não foi qualquer olhar o que me chamou a atenção. Foi de um grupo de homens que, presumo, são heterossexuais. Também acho que são uns idiotas, mas escrever isso talvez diminua a minha reflexão. O incômodo não surgiu apenas por termos sido olhados, meu namorado e eu, mas pelas risadas e apontadas de cabeça que ocorreram como reação à nossa passagem. Para o trio de caras encorpados, nós éramos motivo de piada.

Qual a graça? Não sei, na verdade. Entendo aqui o riso como um exercício de poder. Ele riram porque podiam rir, da mesma forma que eu e meu namorado olhamos para o chão e apertamos o passo. Se eles decidissem, poderiam facilmente nos esmagar. Não, sério, eram grandes mesmo. De onde vem esse poder? Não é só da força física, mas também do poder cultural investido neles pela normalidade. Eles são normais, são heterossexuais em uma sociedade que reconhece viadinhos como algo à parte.

Quando eles riram, todos que viram isso entenderam do quê estavam rindo. Um casal de rapazes passando de mãos dadas é algo risível. Se eu risse deles, por outro lado, ninguém entenderia. Não é inteligível rir de um grupo de caras heterossexuais/machos comendo seu sanduíche, enquanto é perfeitamente aceitável rir do casalzinho gay que vem passando. Por quê, eu pergunto?


Esse texto possui uma continuação: O olhar heterossexual 2.
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