Assisti aos primeiros episódios de Breaking Bad, um seriado sobre um professor de química diagnosticado com câncer de pulmão que acaba se tornando um traficante de drogas. Como muita gente estava falando a respeito, resolvi conferir.
O seriado gira em torno dos limites morais que estabelecemos para nosso convívio social e o que nos motiva a ultrapassá-los. De antemão já podemos supor que o professor bonzinho e medroso que se cala frente a tudo passará por alguma transformação. Ele tem um dado conhecimento e é capaz de, com os movimentos adequados, transformá-lo em poder.
Viver em sociedade normalmente implica seguirmos regras e abdicarmos de algumas possibilidades em nome do bem comum. Por exemplo, concordamos em não matar, não roubar, não agredir ou ofender (embora estes últimos sejam mais frequentes e recebam reações mais condescendentes que os dois primeiros). Ainda assim, há pessoas que matam, roubam, agridem e ofendem.
Eu fui criado para ser a pessoa que faz a coisa certa, que cuida dos outros, que defende os direitos e principalmente os deveres de todos. Se todos fôssemos criados como eu, provavelmente o mundo seria um lugar menos perigoso para se habitar. Seria muito menos interessante e diversificado, com certeza. Só que, no fim das contas, não é exatamente isso que a gente está sempre fazendo? Tentando garantir que o nosso entorno seja mais parecido conosco? Atuando em nossas relações com nossos pequenos (e às vezes não tão pequenos) poderes em direção ao que acreditamos que é certo? Eu não vejo diferença, estritamente falando, entre um deputado fanático religioso homofóbico e uma ativista ecológica humanitária que se opõe a todo tipo de violência e exclusão. Ambos estão lutando para fazer a coisa certa.
Se alguma coisa, acho que podemos tirar disso a prova de que não existe essa tal de coisa certa. O que existe é aquilo que acreditamos confrontado pelo que os outros acreditam. Isso é o mundo.
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sábado, outubro 05, 2013
sábado, setembro 14, 2013
Dans la maison
Dans la maison (Dentro da casa) é um filme que eu passarei a indicar para escritores. Conta sobre a relação entre um professor de literatura desacreditado com a vida (que volta das férias justificando seu pessimismo através da leitura de Schopenhauer) e um estudante de dezesseis anos que o surpreende com um texto encantador. O paralelo que o próprio filme constrói com As mil e uma noites é inevitável.
Enquanto Claude, o protagonista menino, adentra na casa que dá nome ao filme, ele elabora sua escrita com o auxílio apaixonado do professor, que acaba envolvido além dos limites éticos tipicamente estabelecidos entre alunos e seus mestres. Em certo ponto, nos colocamos a pensar se não verdade não estaria o professor apaixonado.
Conheci o filme porque foi indicado em um blog que lista filmes com temática LGBT. Isso talvez já dê a resposta ao parágrafo anterior, mas deixarei que o filme responda por mim às questões que levantei. Como o professor ensina, um bom final é aquele que surpreende sobremaneira, mas que nos deixa pensando que não haveria outro término possível para a história. Eis algo que o filme alcançou.
Enquanto Claude, o protagonista menino, adentra na casa que dá nome ao filme, ele elabora sua escrita com o auxílio apaixonado do professor, que acaba envolvido além dos limites éticos tipicamente estabelecidos entre alunos e seus mestres. Em certo ponto, nos colocamos a pensar se não verdade não estaria o professor apaixonado.
Conheci o filme porque foi indicado em um blog que lista filmes com temática LGBT. Isso talvez já dê a resposta ao parágrafo anterior, mas deixarei que o filme responda por mim às questões que levantei. Como o professor ensina, um bom final é aquele que surpreende sobremaneira, mas que nos deixa pensando que não haveria outro término possível para a história. Eis algo que o filme alcançou.
segunda-feira, setembro 09, 2013
Los amores pasajeros
Assisti ontem a Los Amores Pasajeros (2013) preparado para ver uma comédia escrachada. Isso aconteceu porque eu já havia lido uma crítica a respeito do filme e estava preparado para "um filme fraco" de Almodovar.
A história se passa em torno de quatro ou cinco passageiros de classe alta, três comissários de bordo e dois pilotos de um avião. Independente de qualquer crítica que eu tenha lido, os elementos que reconheço em Almodovar estão ali: a abertura para falar e mostrar sexo, os personagens marginais e suas relações controversas ou curiosas. Um ponto alto do filme são os chistes, as brincadeiras que se fazem com os relacionamentos apresentados, como o caso do piloto bissexual e do piloto supostamente heterossexual, mas que bêbado sai a experimentar outras possibilidades sexuais.
O quanto ler ou ouvir uma crítica influencia naquilo que esperamos? Eu deitei para ver o filme esperando algo fraco, sem graça, e realmente foi mais ou menos o que encontrei. Será que eu teria encontrado algo diferente acaso não tivesse lido nada a respeito? É fato que nada flutua sozinho no universo das expectativas: ouvi falar mal, então reajustei o que esperava do filme. Da mesma maneira que considerei clicar em um link de loja de cuecas após vê-lo na minha linha do tempo do Facebook pela enésima vez. Isso tudo me assusta muito, pois aponta para uma economia da atenção (que já está aí há muito tempo, mas é pior quando a gente percebe o quão refém dela podemos ser) que simplesmente atropela quem não consegue aparecer.
Não é a toa, então, que ando pensando em ler Os dragões de éter como exemplo de fantasia brasileira. Isso porque li uma entrevista do autor lançando algumas polêmicas. A mesma coisa acontece com A fantástica literatura queer, organizado pela Cristina Lasaitis. Vi uma entrevista bem bacana dela no Youtube e fiquei curioso pelas suas letras e o modo como os diversos autores da coletânea traduzem em literatura as propostas de falar sobre diversidade sexual e fantasia ao mesmo tempo.
A cada dia que passa fico mais consciente da importância do curso no qual me formei e leciono: comunicação social. Sem ela, nada existe. É a tal da árvore caindo no meio da floresta: se ninguém viu, não aconteceu. Se tu lançou um livro e ninguém leu, é o mesmo que não haver lançado. Dói um pouco nos sonhos utópicos, confesso, mas fazer arte também é mercado.
A história se passa em torno de quatro ou cinco passageiros de classe alta, três comissários de bordo e dois pilotos de um avião. Independente de qualquer crítica que eu tenha lido, os elementos que reconheço em Almodovar estão ali: a abertura para falar e mostrar sexo, os personagens marginais e suas relações controversas ou curiosas. Um ponto alto do filme são os chistes, as brincadeiras que se fazem com os relacionamentos apresentados, como o caso do piloto bissexual e do piloto supostamente heterossexual, mas que bêbado sai a experimentar outras possibilidades sexuais.
O quanto ler ou ouvir uma crítica influencia naquilo que esperamos? Eu deitei para ver o filme esperando algo fraco, sem graça, e realmente foi mais ou menos o que encontrei. Será que eu teria encontrado algo diferente acaso não tivesse lido nada a respeito? É fato que nada flutua sozinho no universo das expectativas: ouvi falar mal, então reajustei o que esperava do filme. Da mesma maneira que considerei clicar em um link de loja de cuecas após vê-lo na minha linha do tempo do Facebook pela enésima vez. Isso tudo me assusta muito, pois aponta para uma economia da atenção (que já está aí há muito tempo, mas é pior quando a gente percebe o quão refém dela podemos ser) que simplesmente atropela quem não consegue aparecer.
Não é a toa, então, que ando pensando em ler Os dragões de éter como exemplo de fantasia brasileira. Isso porque li uma entrevista do autor lançando algumas polêmicas. A mesma coisa acontece com A fantástica literatura queer, organizado pela Cristina Lasaitis. Vi uma entrevista bem bacana dela no Youtube e fiquei curioso pelas suas letras e o modo como os diversos autores da coletânea traduzem em literatura as propostas de falar sobre diversidade sexual e fantasia ao mesmo tempo.
A cada dia que passa fico mais consciente da importância do curso no qual me formei e leciono: comunicação social. Sem ela, nada existe. É a tal da árvore caindo no meio da floresta: se ninguém viu, não aconteceu. Se tu lançou um livro e ninguém leu, é o mesmo que não haver lançado. Dói um pouco nos sonhos utópicos, confesso, mas fazer arte também é mercado.
domingo, setembro 08, 2013
Mera Coincidência
O filme Mera Coincidência, lançado em 1997, trabalha com uma premissa interessante: para salvar sua campanha de reeleição, um presidente dos Estados Unidos recorre a um publicitário. Assisti por recomendação de um amigo para que eu o discutisse nas aulas de teoria da imagem. É um prato cheio, de fato.
O filme sutilmente nos ensina algumas pérolas da narrativa e do encantamento produzidos pela televisão. Ou, nas palavras mais acadêmicas, o espetáculo. Sendo de 1997, ele não explora os impactos da internet nem como sua existência poderia mudar todas as ocorrências da história. Dediquei uns bons minutos imaginando o mesmo plot sendo desenvolvido em 2013. Não me parece tão difícil, ao invés de vazar para os jornalistas, bastaria jogar na internet um punhado de informações e memes.
Ao fim da hora e meia, estava cansado. A história abusa dos contratempos espertamente vencidos pelas mentes criativas dos personagens principais. Por um lado, entendo, uma vez que é isso que mostra a genialidade das artimanhas utilizadas. Por outro, pelo menos vinte minutos antes do fim eu já estava consultando o relógio, o que significa que a história não me amarrou o suficiente. Eu sou péssimo em prever narrativas, nunca presto atenção o suficiente na estrutura a ponto de conseguir decifrar quem é o vilão ou como um filme terminará (o que é péssimo para um escritor, verdade!), mas Mera Coincidência não impôs qualquer obstáculo. Ele terminou exatamente como deveria, o que me deixou imaginando sequências que desafiassem esse término previsível, mas necessário.
O filme sutilmente nos ensina algumas pérolas da narrativa e do encantamento produzidos pela televisão. Ou, nas palavras mais acadêmicas, o espetáculo. Sendo de 1997, ele não explora os impactos da internet nem como sua existência poderia mudar todas as ocorrências da história. Dediquei uns bons minutos imaginando o mesmo plot sendo desenvolvido em 2013. Não me parece tão difícil, ao invés de vazar para os jornalistas, bastaria jogar na internet um punhado de informações e memes.
Ao fim da hora e meia, estava cansado. A história abusa dos contratempos espertamente vencidos pelas mentes criativas dos personagens principais. Por um lado, entendo, uma vez que é isso que mostra a genialidade das artimanhas utilizadas. Por outro, pelo menos vinte minutos antes do fim eu já estava consultando o relógio, o que significa que a história não me amarrou o suficiente. Eu sou péssimo em prever narrativas, nunca presto atenção o suficiente na estrutura a ponto de conseguir decifrar quem é o vilão ou como um filme terminará (o que é péssimo para um escritor, verdade!), mas Mera Coincidência não impôs qualquer obstáculo. Ele terminou exatamente como deveria, o que me deixou imaginando sequências que desafiassem esse término previsível, mas necessário.
sábado, setembro 07, 2013
Romeos
Assisti hoje a um filme bacana. Chama Romeos e conta uma história de Lukas, um transexual masculino que começa o filme aplicando sua 25° injeção de testosterona.
Logo de cara somos apresentados a Lukas chegando a uma vida nova. Terá que viver por um ano (confesso que não pesquei exatamente o motivo) em uma cidade alemã e inicialmente é colocado para viver no dormitório feminino, uma vez que a instituição não o reconhece enquanto homem. Não bastasse isso, Lukas precisa esconder o seu corpo o tempo inteiro. Enquanto todos se deliciam num lago, por exemplo, ele esconde os seis com blusas largas e casacos.
No filme, temos a oportunidade de conhecer algumas ansiedades vividas por Lukas e pelas pessoas que o circundam. Pouco a pouco encontramos a melhor amiga, o interesse amoroso, a família. Para todos eles, a mera existência de Lukas é um desafio ao que acreditam ser normal. Descobrimos o nome de batismo de Lukas, por exemplo, apenas por meio das pessoas que não conseguem aceitar o fato de que Lukas é o que ele é, um jovem buscando também o seu lugar no mundo.
Após assistir a Romeos, fiquei pensando cá com meus botões as infinitas realidades que desconheço. Eu não sei o que é ser transexual, obviamente, tampouco acho que o filme me deu condições de me colocar no lugar de alguém que vivencie algo parecido. Entretanto, assim como XXY (que trata sobre uma personagem intersexo), sinto-me um pouco mais próximo de um universo com o qual tenho pouco contato.
Logo de cara somos apresentados a Lukas chegando a uma vida nova. Terá que viver por um ano (confesso que não pesquei exatamente o motivo) em uma cidade alemã e inicialmente é colocado para viver no dormitório feminino, uma vez que a instituição não o reconhece enquanto homem. Não bastasse isso, Lukas precisa esconder o seu corpo o tempo inteiro. Enquanto todos se deliciam num lago, por exemplo, ele esconde os seis com blusas largas e casacos.
No filme, temos a oportunidade de conhecer algumas ansiedades vividas por Lukas e pelas pessoas que o circundam. Pouco a pouco encontramos a melhor amiga, o interesse amoroso, a família. Para todos eles, a mera existência de Lukas é um desafio ao que acreditam ser normal. Descobrimos o nome de batismo de Lukas, por exemplo, apenas por meio das pessoas que não conseguem aceitar o fato de que Lukas é o que ele é, um jovem buscando também o seu lugar no mundo.
Após assistir a Romeos, fiquei pensando cá com meus botões as infinitas realidades que desconheço. Eu não sei o que é ser transexual, obviamente, tampouco acho que o filme me deu condições de me colocar no lugar de alguém que vivencie algo parecido. Entretanto, assim como XXY (que trata sobre uma personagem intersexo), sinto-me um pouco mais próximo de um universo com o qual tenho pouco contato.
sexta-feira, agosto 30, 2013
Os russos me confundem
Então na Rússia é proibida propaganda homossexual para menores de idade. Não, eu não vou passar o texto inteiro reclamando sobre como essa lei é retrógrada e viola os direitos humanos e é mais um exemplo de como a humanidade anda precisando de uns corretivos. Não, também não vou citar a onda de violência contra sujeitos homossexuais que vem aumentando desde que o ódio foi institucionalizado e legalizado. Acho que já somos grandinhos o suficiente para sabermos que censurar o direito do outro de existir não é bom para ninguém, muito menos para as crianças.
A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.
Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.
É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.
Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.
Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).
Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.
A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.
Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.
É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.
Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.
Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).
Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.
quinta-feira, agosto 29, 2013
Tempos difíceis para os sonhadores
No filme O fabuloso destino de Amélie Poulain há um momento em que falam que atualmente são tempos difíceis para os sonhadores.
Ando assim meio pensativo, parte dolorido, parte sonhador.
Por enquanto, aproveito que posso e sonho. Espero, se possível, compartilhar esses pedacinhos de imaginação com outras pessoas. Afetá-las. Não consigo evitar: quero que minha vida seja feita de mudar a dos outros.
Ando assim meio pensativo, parte dolorido, parte sonhador.
Por enquanto, aproveito que posso e sonho. Espero, se possível, compartilhar esses pedacinhos de imaginação com outras pessoas. Afetá-las. Não consigo evitar: quero que minha vida seja feita de mudar a dos outros.
quarta-feira, agosto 28, 2013
A performance de Miley Cyrus no VMA
Calhou que eu assisti a performance da Miley Cyrus no VMA 2013 e não entendi. A coisa toda envolveu aparecer de língua de fora, rebolar no pênis de um cara, se masturbar com um dedo gigante etc.
Eu não sei nada sobre Miley Cyrus. Digo isso porque é deste lugar que eu falo: mal sei que ela foi/é Hannah Montana, descobri por acaso lendo sobre o ocorrido. Vou tentar fazer uma análise rápida dessa imagem/cena.
Temos um cara cantando e uma mulher sensualizando. Talvez seja a minha formação machista, mas o cara parece ser o protagonista da cena e ela está ali para o prazer dele. Pensando de outra forma, ela pode estar explorando o próprio prazer e usando dele para saciar ou atiçar suas vontades. Acharia justo, mas não foi isso que eu entendi. Talvez se eu estivesse prestando atenção no que estava sendo cantado ou se eu soubesse quem é Miley Cyrus eu pudesse compreender o subtexto. Tem que haver um subtexto! Do contrário, é só uma mulher de língua de fora rebolando em meio a outros artistas pelo bem do impacto.
Uma coisa eu não posso negar: essa imagem me deixou muito pensativo. Ela me incomoda, me tira do conforto, me coloca numa postura reflexiva. Eu normalmente não sou o tipo de pessoa que precisa entender os porquês, mas aquela foi uma performance que pareceu fora de lugar. Quando algo está fora de lugar, acho que é um convite para pensarmos que lugar é esse. Por que o VMA não parece ser o lugar para esse tipo de performance? É o lugar de quê? De quem? Qual seria o lugar adequado para essa performance?
Não sei, não sei, não sei. Termino este texto claramente tocado pela imagem, que continuará comigo cutucando meus pensamentos. Acho isso muito mais importante do que dar respostas sobre a ação da Miley Cyrus. Pouco me importa se foi certa ou errada, bonita ou feia, pertinente ou não. Importa-me o convite.
Eu não sei nada sobre Miley Cyrus. Digo isso porque é deste lugar que eu falo: mal sei que ela foi/é Hannah Montana, descobri por acaso lendo sobre o ocorrido. Vou tentar fazer uma análise rápida dessa imagem/cena.
Temos um cara cantando e uma mulher sensualizando. Talvez seja a minha formação machista, mas o cara parece ser o protagonista da cena e ela está ali para o prazer dele. Pensando de outra forma, ela pode estar explorando o próprio prazer e usando dele para saciar ou atiçar suas vontades. Acharia justo, mas não foi isso que eu entendi. Talvez se eu estivesse prestando atenção no que estava sendo cantado ou se eu soubesse quem é Miley Cyrus eu pudesse compreender o subtexto. Tem que haver um subtexto! Do contrário, é só uma mulher de língua de fora rebolando em meio a outros artistas pelo bem do impacto.
Uma coisa eu não posso negar: essa imagem me deixou muito pensativo. Ela me incomoda, me tira do conforto, me coloca numa postura reflexiva. Eu normalmente não sou o tipo de pessoa que precisa entender os porquês, mas aquela foi uma performance que pareceu fora de lugar. Quando algo está fora de lugar, acho que é um convite para pensarmos que lugar é esse. Por que o VMA não parece ser o lugar para esse tipo de performance? É o lugar de quê? De quem? Qual seria o lugar adequado para essa performance?
Não sei, não sei, não sei. Termino este texto claramente tocado pela imagem, que continuará comigo cutucando meus pensamentos. Acho isso muito mais importante do que dar respostas sobre a ação da Miley Cyrus. Pouco me importa se foi certa ou errada, bonita ou feia, pertinente ou não. Importa-me o convite.
quarta-feira, agosto 21, 2013
Macho que é macho não... existe
Perdoem-me os escritores de plantão, mas eu repito a palavra macho exageradamente nesse texto. Eu mesmo estou me sentindo meio mal, porque não escrevo textos de fantasia há tanto tempo...
Eu não acredito em machos e isso não tem nada a ver com a foto abaixo. Ou tem tudo, deixo o leitor decidir. Eu deixei de acreditar neles há muito tempo e esse texto é a minha tentativa de explicar o porquê.
Eu não acompanho futebol, por isso não saberia nunca que o moço de boina é Sheik, um jogador do Corinthians. Sheik é não só um jogador do Corinthians, mas um jogador do Corinthians autodeclaradamente heterossexual. Aí uma noite ele sai com os amigos e dá um selinho num deles e o mundo desaba.
Sabe por que eu acho que machos não existem? Porque ser macho é tão instável e frágil que basta um selinho num outro cara para que a torcida doFlamen, ops, do Corinthians se revolte e resolva roubar a carteirinha de macho do Sheik. Macho que é macho não beija outro macho.
Ser macho é uma condição tão frágil que a galera precisa ficar repetindo e provando o tempo inteiro que é macho. Quem nunca viu na escola, por exemplo, a ofensa mortal a qualquer macho:xingar a mãe, ops, chamar de viadinho? Homem que é homem tem que gostar de mulher e falar de mulher e pegar mulher e fazer o que for com mulher (ou com o viadinho mais próximo, na falta de mulher, o famoso caso dos heteros que comem viados). Detalhe: homem que é homem só tem amigo homem, fica pelado em vestiário cheio de macho e de vez em quando aperta a bunda do outro pra ver se o outro é macho e reclama (oi?).
O que é um macho? Macho, em uma sociedade machista, é o sujeito que se acredita detentor do Poder do Pênis. Com esse superpoder, ele acha que podemaltratar as mulheres, ops, usufruir das outras pessoas (em geral mulheres, macho só usa outro homem se este for viadinho e ainda assim se ninguém ver... aliás, vamos todos ignorar as brincadeiras de medir o maior pinto, ver quem mija mais longe, bater punheta junto e fazer troca-troca). Todo mundo que nasceu com um pênis tem o dever moral de agir como macho, afinal, tem um pênis. É lógico.
Só que não é fácil ser macho. Macho não chora, não pede ajuda, não erra nunca, não fraqueja, não goza rápido demais, tem pau grande, é musculoso, bate em quem duvida, bate em quem tem alguma certeza contrária (o que não é difícil, porque machos geralmente têm poucas certezas – poucas em quantidade, fique claro), bate em que não é macho... Ser macho é tão complicado que há uma polícia especializada em verificar se outros caras são machos, o que nos leva de volta ao Sheik, já que macho não beija outro macho. Logo os dois são viadinhos e estão escondendo o jogo o tempo inteiro.
Agora uma pausa geral. Ser macho é tão difícil que antes de ser qualquer outra coisa, tem que ser macho. Jogador de futebol? Não, tem que ser macho antes, logo tem que ser um jogador de futebol macho.
Agora uma segunda e última pausa geral. Ser macho é tão difícil porque macho não existe. É como a roupa nova do rei, que só os inteligentes podem ver. Aqui, no caso, só os machistas veem quem é macho e quem não é. Para falar a verdade, só machistas se importam com quem é macho ou deixa de ser. As outras pessoas, não afetadas pela responsabilidade do superpoder do pênis (e muitas delas têm pênis!), são livres para serem o que são ou o que quiserem ser. Talvez seja esse o problema dos machos: inveja de quem é livre.
Eu não acredito em machos e isso não tem nada a ver com a foto abaixo. Ou tem tudo, deixo o leitor decidir. Eu deixei de acreditar neles há muito tempo e esse texto é a minha tentativa de explicar o porquê.
Eu não acompanho futebol, por isso não saberia nunca que o moço de boina é Sheik, um jogador do Corinthians. Sheik é não só um jogador do Corinthians, mas um jogador do Corinthians autodeclaradamente heterossexual. Aí uma noite ele sai com os amigos e dá um selinho num deles e o mundo desaba.
Sabe por que eu acho que machos não existem? Porque ser macho é tão instável e frágil que basta um selinho num outro cara para que a torcida do
Ser macho é uma condição tão frágil que a galera precisa ficar repetindo e provando o tempo inteiro que é macho. Quem nunca viu na escola, por exemplo, a ofensa mortal a qualquer macho:
O que é um macho? Macho, em uma sociedade machista, é o sujeito que se acredita detentor do Poder do Pênis. Com esse superpoder, ele acha que pode
Só que não é fácil ser macho. Macho não chora, não pede ajuda, não erra nunca, não fraqueja, não goza rápido demais, tem pau grande, é musculoso, bate em quem duvida, bate em quem tem alguma certeza contrária (o que não é difícil, porque machos geralmente têm poucas certezas – poucas em quantidade, fique claro), bate em que não é macho... Ser macho é tão complicado que há uma polícia especializada em verificar se outros caras são machos, o que nos leva de volta ao Sheik, já que macho não beija outro macho. Logo os dois são viadinhos e estão escondendo o jogo o tempo inteiro.
Agora uma pausa geral. Ser macho é tão difícil que antes de ser qualquer outra coisa, tem que ser macho. Jogador de futebol? Não, tem que ser macho antes, logo tem que ser um jogador de futebol macho.
Agora uma segunda e última pausa geral. Ser macho é tão difícil porque macho não existe. É como a roupa nova do rei, que só os inteligentes podem ver. Aqui, no caso, só os machistas veem quem é macho e quem não é. Para falar a verdade, só machistas se importam com quem é macho ou deixa de ser. As outras pessoas, não afetadas pela responsabilidade do superpoder do pênis (e muitas delas têm pênis!), são livres para serem o que são ou o que quiserem ser. Talvez seja esse o problema dos machos: inveja de quem é livre.
quinta-feira, agosto 15, 2013
Jornalismo e gênero, ou Questionando os MEUS preconceitos
Hoje vi uma notícia sobre uma moça que se veste e se porta "de modo masculino" e fiquei... pensativo.
Aqui vão alguns critérios que listei em minha monografia de graduação:
Tempo do acontecimento: o jornalismo é sempre atual, então a notícia deve ser fresquinha, deve ser algo que está acontecendo ou que aconteceu no máximo ontem. Em tempos de internet, suspeito que o ontem já está sendo tarde demais.
Amplitude e clareza: quanto mais, melhor, quanto mais acessível ao leitor médio, melhor. Ou seja, o texto jornalístico frequentemente ensina o leitor, funcionando como um professor. Acho mais do que importante mencionar que esse professor é legitimado e o leitor médio não sente que tem motivos para desconfiar dele. Se saiu no jornal, deve ser verdade.
Significância: a notícia deve ser de interesse para o seu público, ou seja, deve afetar a vida dele de alguma forma. Essa é uma tecla que vou bater muito: dependendo do tratamento feito, uma notícia pode ser extremamente eficaz em combater preconceitos. Infelizmente não costuma ser.
Consonância: a notícia deve estar de acordo com os consensos, com o status quo. Isso aliás é bastante importante e acontece também na publicidade: lugar de revolução é fora da mídia, ao menos da mídia tradicional. Graças aos deuses que os espaços de visibilidade social estão se ampliando (embora não sem correr riscos, vide casos de propostas legislativas de regulação da internet).
Imprevisibilidade: ah, a cereja da notícia que me atraiu. O jornalismo ganha pontos de "jornal bacana" se a notícia for surpreendente. O que é tipicamente surpreendente? Pisar nas minorias ou nos "estranhos". Como a menina que é um gato.
Personalização: esse não é bem um critério do fato em si, mas a maneira como a matéria é escrita, ou seja, a partir da perspectiva de uma pessoa específica com a qual o leitor médio possa se identificar.
Normalmente são apontados mais alguns critérios de noticiabilidade, como a negatividade e o olhar para as elites, mas preferi destacar apenas esses porque me ajudam a pensar sobre a "notícia" da moça.
Claro, o fato de o jornal não fazer essa defesa não me exime da reflexão sobre meu desleixo intelectual. Simplesmente estou acostumado a ver sujeitos que não se encaixam nos bloquinhos tradicionais do binarismo serem retratados preconceituosamente na mídia, portanto assumi automaticamente que o mesmo estaria acontecendo na matéria. Isso é muito feio, gente. Ainda ontem estava na aula de Teoria da Imagem dizendo para os meus adoráveis estudantes que precisamos olhar não apenas para as imagens, mas principalmente para o momento em que nós olhamos as imagens. É nesse momento que os nossos preconceitos se ativam.
Defendo que toda visibilidade não negativa (ou seja, sem fazer piada em cima, sem pisar, sem dizer que não é legal ou que não é humano etc.) é mais do que necessária. Muitas vezes o nosso preconceito é fruto de não sermos capazes de conceber, ou seja, de vislumbrar determinada possibilidade ou situação. Eu não consegui, por exemplo, imaginar o R7 fazendo uma boa notícia envolvendo questões de gênero. OK, não é boa, faltou avançar muito para ser realmente bacana, mas já é um baita começo colocar as declarações da moça, que por sinal são bem pertinentes.
Lição do dia para mim mesmo: antes de se armar para a batalha, leia direito e pense sobre o que está prestes a criticar. Há muito a se enfrentar no mundo, sem dúvida, mas de vez em quando temos algumas surpresas positivas.
Os critérios para ser notícia
Os jornais publicam notícias que, acreditam, alcançarão os interesses de sua audiência. Para isso, se apoiam no que os teóricos chamam de critérios de noticiabilidade. Não é uma coisa que os jornalistas, na hora de decidir o que é ou não uma boa notícia, pegam uma listinha e vão marcando os itens. Essa lista é internalizada, a gente aprende na faculdade através dos professores, da prática cotidiana e, como qualquer leitor ou vivente, do contato diário com a mídia.Aqui vão alguns critérios que listei em minha monografia de graduação:
Tempo do acontecimento: o jornalismo é sempre atual, então a notícia deve ser fresquinha, deve ser algo que está acontecendo ou que aconteceu no máximo ontem. Em tempos de internet, suspeito que o ontem já está sendo tarde demais.
Amplitude e clareza: quanto mais, melhor, quanto mais acessível ao leitor médio, melhor. Ou seja, o texto jornalístico frequentemente ensina o leitor, funcionando como um professor. Acho mais do que importante mencionar que esse professor é legitimado e o leitor médio não sente que tem motivos para desconfiar dele. Se saiu no jornal, deve ser verdade.
Significância: a notícia deve ser de interesse para o seu público, ou seja, deve afetar a vida dele de alguma forma. Essa é uma tecla que vou bater muito: dependendo do tratamento feito, uma notícia pode ser extremamente eficaz em combater preconceitos. Infelizmente não costuma ser.
Consonância: a notícia deve estar de acordo com os consensos, com o status quo. Isso aliás é bastante importante e acontece também na publicidade: lugar de revolução é fora da mídia, ao menos da mídia tradicional. Graças aos deuses que os espaços de visibilidade social estão se ampliando (embora não sem correr riscos, vide casos de propostas legislativas de regulação da internet).
Imprevisibilidade: ah, a cereja da notícia que me atraiu. O jornalismo ganha pontos de "jornal bacana" se a notícia for surpreendente. O que é tipicamente surpreendente? Pisar nas minorias ou nos "estranhos". Como a menina que é um gato.
Personalização: esse não é bem um critério do fato em si, mas a maneira como a matéria é escrita, ou seja, a partir da perspectiva de uma pessoa específica com a qual o leitor médio possa se identificar.
Normalmente são apontados mais alguns critérios de noticiabilidade, como a negatividade e o olhar para as elites, mas preferi destacar apenas esses porque me ajudam a pensar sobre a "notícia" da moça.
Questionando (os meus) preconceitos
Eu estava pronto e armado para criticar a matéria do R7, que na minha cabeça estaria tripudiando sobre a garota que se veste "como homem" e toma hormônios para modificar o corpo. Quando escrevi "o que me incomoda nesta matéria" foi que me dei conta que eu não sabia o que me incomodava na matéria, então voltei a ela e reli completamente. Só uma coisa, a meu ver, é realmente digna de crítica: o fato da posição da matéria frente ao caso ser "imparcial", ou seja, fingir-se de objetiva ao invés de defender abertamente um ponto de vista.Claro, o fato de o jornal não fazer essa defesa não me exime da reflexão sobre meu desleixo intelectual. Simplesmente estou acostumado a ver sujeitos que não se encaixam nos bloquinhos tradicionais do binarismo serem retratados preconceituosamente na mídia, portanto assumi automaticamente que o mesmo estaria acontecendo na matéria. Isso é muito feio, gente. Ainda ontem estava na aula de Teoria da Imagem dizendo para os meus adoráveis estudantes que precisamos olhar não apenas para as imagens, mas principalmente para o momento em que nós olhamos as imagens. É nesse momento que os nossos preconceitos se ativam.
Defendo que toda visibilidade não negativa (ou seja, sem fazer piada em cima, sem pisar, sem dizer que não é legal ou que não é humano etc.) é mais do que necessária. Muitas vezes o nosso preconceito é fruto de não sermos capazes de conceber, ou seja, de vislumbrar determinada possibilidade ou situação. Eu não consegui, por exemplo, imaginar o R7 fazendo uma boa notícia envolvendo questões de gênero. OK, não é boa, faltou avançar muito para ser realmente bacana, mas já é um baita começo colocar as declarações da moça, que por sinal são bem pertinentes.
Lição do dia para mim mesmo: antes de se armar para a batalha, leia direito e pense sobre o que está prestes a criticar. Há muito a se enfrentar no mundo, sem dúvida, mas de vez em quando temos algumas surpresas positivas.
quarta-feira, julho 31, 2013
Depilação íntima: fazer ou não?
Já quase dormindo, uma ligação me arranca o sono: "ele não quer depilar a bunda!". Depois de três meses de namoro, o motivo principal para as discussões de relação do casal são os pelos que meu amigo considera "em excesso", mas que seu digníssimo defende serem seu direito e sua liberdade de ter o corpo que quiser. Para o desespero do meu amigo, eu concordo com o namorado: o corpo é dele, os pelos também. Essa onda de depilação compulsória é coisa da nossa cultura que sacralizou a juventude e tudo o que se assemelha a ela. Fugiu disso, corta, depila, reforma, malha, faz dieta.
O que meu amigo está indignado a respeito é o fato de seu namorado não estar interessado em seguir os padrões de beleza que regem nossa cultura contemporânea, aquelas coisas de corpo sarado lisinho, sabe? Isso pra mim é sempre um desafio: estou voltando à natação amanhã cedo e o fato de eu ter pelos no peito, na barriga e nas costas me intimidam profundamente antes de tirar a roupa numa sala aberta na qual ficarei apenas de sunga. É absurdo especialmente porque eu sei que esses padrões são imposições culturais que em nada deveriam afetar o modo como eu enxergo o mundo. Só que afetam!
Pensando sobre isso, encontrei uma campanha de feministas que deixam os pelos do sovaco crescerem em nome da aceitação de mulheres com uma doença que tem como um dos principais efeitos colaterais o crescimento desproporcional de pelos. A lógica é perfeita: usar os próprios corpos para mostrar ao mundo que os padrões culturais de beleza são arbitrários, ou seja, não nascem de nenhuma lógica universal, são apenas reflexos e reproduções de ideais que vão mudando (a passos lentos) ao longo do tempo.
Por isso defendo o namorado do meu amigo: ele tem o direito de defender a possibilidade de simplesmente viver o seu corpo sem a interferência cruel e não requisitada da cultura que o circunda. O corpo é um espaço político, pois o que vestimos, pintamos ou movemos diz sobre o que acreditamos e defendemos. Ele, aparentemente, defende os pelos como o seu espaço de liberdade contra uma sociedade cruel e normalizadora. Mesmo que, me parece, ele possa perder o namorado no processo...
O que meu amigo está indignado a respeito é o fato de seu namorado não estar interessado em seguir os padrões de beleza que regem nossa cultura contemporânea, aquelas coisas de corpo sarado lisinho, sabe? Isso pra mim é sempre um desafio: estou voltando à natação amanhã cedo e o fato de eu ter pelos no peito, na barriga e nas costas me intimidam profundamente antes de tirar a roupa numa sala aberta na qual ficarei apenas de sunga. É absurdo especialmente porque eu sei que esses padrões são imposições culturais que em nada deveriam afetar o modo como eu enxergo o mundo. Só que afetam!
Pensando sobre isso, encontrei uma campanha de feministas que deixam os pelos do sovaco crescerem em nome da aceitação de mulheres com uma doença que tem como um dos principais efeitos colaterais o crescimento desproporcional de pelos. A lógica é perfeita: usar os próprios corpos para mostrar ao mundo que os padrões culturais de beleza são arbitrários, ou seja, não nascem de nenhuma lógica universal, são apenas reflexos e reproduções de ideais que vão mudando (a passos lentos) ao longo do tempo.
Por isso defendo o namorado do meu amigo: ele tem o direito de defender a possibilidade de simplesmente viver o seu corpo sem a interferência cruel e não requisitada da cultura que o circunda. O corpo é um espaço político, pois o que vestimos, pintamos ou movemos diz sobre o que acreditamos e defendemos. Ele, aparentemente, defende os pelos como o seu espaço de liberdade contra uma sociedade cruel e normalizadora. Mesmo que, me parece, ele possa perder o namorado no processo...
quinta-feira, julho 18, 2013
O homem de aço
Ontem assisti ao filme O homem de aço e saí do cinema com o mesmo punhado de questões que sempre fico quando me deparo com histórias do Super-homem. A principal delas é: o cara pode tudo, então por que ele não faz tudo? O Homem-Aranha tem um bom motivo para não sair fazendo o que quer, ele aprendeu a duras penas que pessoas queridas podem morrer como direta consequência das suas ações. O Clark Kent do filme não. Muito antes de qualquer lição de moral, somos apresentados à bondade magnífica do pai biológico do Clark, bem como à submissão total da mãe. Ao que parece, Clark herdou esses valores morais.
Daí ele está lá criança aguentando altas implicâncias de seus coleguinhas e, ao invés de revidar, ele entorta barras de metal. O cara é o absoluto mestre do autocontrole desde criancinha. No fim das contas, nós temos mais um filme de um super-herói imbatível e infalível que nem mesmo sua principal fraqueza consegue derrotá-lo.
Acho que é por isso que eu prefiro o Homem-Aranha e o Batman... é mais fácil acreditar neles. O Super-Homem é perfeito demais para ser um símbolo alcançável.
Daí ele está lá criança aguentando altas implicâncias de seus coleguinhas e, ao invés de revidar, ele entorta barras de metal. O cara é o absoluto mestre do autocontrole desde criancinha. No fim das contas, nós temos mais um filme de um super-herói imbatível e infalível que nem mesmo sua principal fraqueza consegue derrotá-lo.
Acho que é por isso que eu prefiro o Homem-Aranha e o Batman... é mais fácil acreditar neles. O Super-Homem é perfeito demais para ser um símbolo alcançável.
quarta-feira, julho 10, 2013
Flores raras
Resolvi me propor uma brincadeira. Um exercício criativo. Vou conversar com uma imagem.
Essa fotografia apareceu no Facebook. Parece que é de um filme chamado Flores raras. É isso, com nome e imagem, o que será que consigo pensar e produzir? Vou começar pelo que já carrego de antemão: não consigo evitar o conhecimento de que se trata de um filme sobre relacionamento amoroso entre duas mulheres. Isso já dirige esse abraço que vejo na imagem como algo romântico, de tristeza compartilhada ou de carinho, de proteção.
O ato de abraçar alguém por trás, pra mim, tem tudo a ver com querer proteger do mundo a pessoa abraçada, mas também se aquecer no calor de outro alguém. É raro eu me soltar nos braços de outras pessoas, sinto-me mais preso e afogado do que confortável, mas abraçar é algo que me traz prazer. Então talvez essa seja uma imagem de prazer e, ao mesmo tempo, de tristeza. Não sei, minha proposta não é encontrar verdades ou respostas, é apenas brincar com os sentidos.
Será que a mulher de vermelho está desmaiada, ou ainda morta depois de beber até não poder mais? Ou será que está de ressaca e tirou os óculos que lhe incomodavam a visão? Está tudo tão arrumado e tão aguardando um abraço, será que a mulher de vermelho não estava justamente aguardando e encenando uma tristeza para ganhar um abraço? Um dengo, quem sabe? Por que mulheres de vermelho (Roxaaaaane) são tão carregadas de sentidos culturais?
E a outra, toda insuspeita, de preto (de luto?), abraçando de olhos fechados. Um abraço de tato, não de olhares. Ela não precisa ver o que está acontecendo, ela simplesmente sente. Ainda assim, porque as duas parecem... distantes?
Essa fotografia apareceu no Facebook. Parece que é de um filme chamado Flores raras. É isso, com nome e imagem, o que será que consigo pensar e produzir? Vou começar pelo que já carrego de antemão: não consigo evitar o conhecimento de que se trata de um filme sobre relacionamento amoroso entre duas mulheres. Isso já dirige esse abraço que vejo na imagem como algo romântico, de tristeza compartilhada ou de carinho, de proteção.
O ato de abraçar alguém por trás, pra mim, tem tudo a ver com querer proteger do mundo a pessoa abraçada, mas também se aquecer no calor de outro alguém. É raro eu me soltar nos braços de outras pessoas, sinto-me mais preso e afogado do que confortável, mas abraçar é algo que me traz prazer. Então talvez essa seja uma imagem de prazer e, ao mesmo tempo, de tristeza. Não sei, minha proposta não é encontrar verdades ou respostas, é apenas brincar com os sentidos.
Será que a mulher de vermelho está desmaiada, ou ainda morta depois de beber até não poder mais? Ou será que está de ressaca e tirou os óculos que lhe incomodavam a visão? Está tudo tão arrumado e tão aguardando um abraço, será que a mulher de vermelho não estava justamente aguardando e encenando uma tristeza para ganhar um abraço? Um dengo, quem sabe? Por que mulheres de vermelho (Roxaaaaane) são tão carregadas de sentidos culturais?
E a outra, toda insuspeita, de preto (de luto?), abraçando de olhos fechados. Um abraço de tato, não de olhares. Ela não precisa ver o que está acontecendo, ela simplesmente sente. Ainda assim, porque as duas parecem... distantes?
quarta-feira, junho 12, 2013
Aquele velho medo
Ontem desenterrei um medo antigo que achava que já havia matado. Mentira, sempre soube que ele só estava trancafiado em algum porão da minha mente. Ontem ele se viu livre das minhas amarras – tão frágeis! – e ainda zombou de mim.
Aconteceu durante um evento do programa de pós-graduação em Arte e Cultura Visual. Eu havia submetido um trabalho para apresentação e, selecionado, deveria apresentá-lo ontem. Perfeito, eu já tinha a apresentação ajeitada desde minha última participação em evento acadêmico, ano passado (em minha defesa, o público era completamente diferente, então ninguém foi obrigado a me assistir falando as mesmas coisas duas vezes). Até aí tudo bem, separei minhas coisas, levei o arquivo da minha apresentação na pendrive e no e-mail, cheguei lá e sem dificuldades instalei o arquivo para quando chegasse a minha vez. Quatro pessoas apresentariam na minha frente.
Antes da primeira apresentação começar, a sala foi enchendo. Fiquei maravilhado com a qualidade do público, mestres e doutores e pós-doutores, todos do mais alto gabarito. Um deles, em particular, acordou dentro de mim esse monstrinho feito de medo e inconsistência de raciocínio. Fim das três apresentações, discussões, intervalo. Todo mundo saiu da sala. Dentro de meia hora seria a minha vez. Quando voltamos da interrupção menos da metade das pessoas retornou. Aqui uma crítica, embora eu enxergue o sentido: os três primeiros apresentantes eram professores gabaritados de altas instituições, enquanto os três restantes eram um mestrando e dois recém-mestres. Tudo bem, tudo bem, ainda não temos esse prestígio todo.
Durante metade da apresentação, tudo bem. Sala com algumas pessoas, mas ninguém para me deixar particularmente nervoso. Até que ele voltou, trazendo consigo não apenas a presença, mas também os medos e assuntos não resolvidos. Por horas durante o intervalo de quinze minutos imaginei conversas e respostas e perguntas e até mesmo tiradas altamente intelectuais que pudessem acontecer entre nós, mas o que transcorreu entre nós foi o silêncio. Levantei, apresentei o meu trabalho, e não sei se por cortesia ou desinteresse, meu monstrinho partiu logo após a minha fala.
Anos atrás, quando eu praticava aikido, uma arte marcial que prima pela harmonia e pela defesa, não pelo ataque, conheci um praticante faixa preta que era extremamente agressivo, ao menos para os meus padrões de raposa delicada. Eu não gostava dele, mas ao mesmo tempo nutria certa admiração. Eu tinha medo dele, na verdade. Encontrá-lo no tatame e treinar com ele eram suplícios para mim e, abruptamente, se tornaram motivos para desistir da arte marcial que eu já treinava havia três anos. Pensar nele por muito tempo significou despertar raivas e frustrações. Raiva de alguém que é completamente diferente do que eu gostaria que fosse, frustração por ter sido desafiado além dos meus limites e obrigado a enxergar esses contornos mais do que bem definidos. Hoje tenho certeza que o que me ofendeu e fez fugir não foi a agressão – controlada –, mas a percepção do meu próprio limite.
Tudo isso voltou ontem ao cruzar com alguém que teve o mesmo efeito de admiração e medo. Por bastante tempo troquei a admiração por raiva como justificativa ideológica para tocar a vida sem me aperceber dos limites que foram expostos feito ferida aberta. Tudo isso passava pela minha cabeça ontem depois das apresentações, depois dos encontros forçados, porém não dialogados. Não havia muito o que dizer além de oi e tudo bem, nem para mim nem para ele. Ou eles, pois se deixarmos esses medos e desconfortos se multiplicam fácil.
A vida, porém, essa velha ousada, não ia me deixar em paz. Cruzamo-nos no banheiro, só eu e ele, na porta, de modo que precisamos parar frente um ao outro. Foi o suficiente para uma pergunta e para a minha tão alardeada inteligência fugir correndo para algum lugar inalcançável. Respondi qualquer besteira que minutos depois não fazia sentido nem mesmo para mim. Fui embora com o peso de um encontro marcado pela minha inabilidade de resolver meus próprios medos.
Se aprendi alguma coisa ontem, foi que enterrar medos não os resolve. Eles continuam lá esperando uma fresta pela qual possam passar. E passam, ah como passam.
Aconteceu durante um evento do programa de pós-graduação em Arte e Cultura Visual. Eu havia submetido um trabalho para apresentação e, selecionado, deveria apresentá-lo ontem. Perfeito, eu já tinha a apresentação ajeitada desde minha última participação em evento acadêmico, ano passado (em minha defesa, o público era completamente diferente, então ninguém foi obrigado a me assistir falando as mesmas coisas duas vezes). Até aí tudo bem, separei minhas coisas, levei o arquivo da minha apresentação na pendrive e no e-mail, cheguei lá e sem dificuldades instalei o arquivo para quando chegasse a minha vez. Quatro pessoas apresentariam na minha frente.
Antes da primeira apresentação começar, a sala foi enchendo. Fiquei maravilhado com a qualidade do público, mestres e doutores e pós-doutores, todos do mais alto gabarito. Um deles, em particular, acordou dentro de mim esse monstrinho feito de medo e inconsistência de raciocínio. Fim das três apresentações, discussões, intervalo. Todo mundo saiu da sala. Dentro de meia hora seria a minha vez. Quando voltamos da interrupção menos da metade das pessoas retornou. Aqui uma crítica, embora eu enxergue o sentido: os três primeiros apresentantes eram professores gabaritados de altas instituições, enquanto os três restantes eram um mestrando e dois recém-mestres. Tudo bem, tudo bem, ainda não temos esse prestígio todo.
Durante metade da apresentação, tudo bem. Sala com algumas pessoas, mas ninguém para me deixar particularmente nervoso. Até que ele voltou, trazendo consigo não apenas a presença, mas também os medos e assuntos não resolvidos. Por horas durante o intervalo de quinze minutos imaginei conversas e respostas e perguntas e até mesmo tiradas altamente intelectuais que pudessem acontecer entre nós, mas o que transcorreu entre nós foi o silêncio. Levantei, apresentei o meu trabalho, e não sei se por cortesia ou desinteresse, meu monstrinho partiu logo após a minha fala.
Anos atrás, quando eu praticava aikido, uma arte marcial que prima pela harmonia e pela defesa, não pelo ataque, conheci um praticante faixa preta que era extremamente agressivo, ao menos para os meus padrões de raposa delicada. Eu não gostava dele, mas ao mesmo tempo nutria certa admiração. Eu tinha medo dele, na verdade. Encontrá-lo no tatame e treinar com ele eram suplícios para mim e, abruptamente, se tornaram motivos para desistir da arte marcial que eu já treinava havia três anos. Pensar nele por muito tempo significou despertar raivas e frustrações. Raiva de alguém que é completamente diferente do que eu gostaria que fosse, frustração por ter sido desafiado além dos meus limites e obrigado a enxergar esses contornos mais do que bem definidos. Hoje tenho certeza que o que me ofendeu e fez fugir não foi a agressão – controlada –, mas a percepção do meu próprio limite.
Tudo isso voltou ontem ao cruzar com alguém que teve o mesmo efeito de admiração e medo. Por bastante tempo troquei a admiração por raiva como justificativa ideológica para tocar a vida sem me aperceber dos limites que foram expostos feito ferida aberta. Tudo isso passava pela minha cabeça ontem depois das apresentações, depois dos encontros forçados, porém não dialogados. Não havia muito o que dizer além de oi e tudo bem, nem para mim nem para ele. Ou eles, pois se deixarmos esses medos e desconfortos se multiplicam fácil.
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| Você não pode se livrar de seus medos, mas pode aprender a viver com eles. - Mais chá? |
A vida, porém, essa velha ousada, não ia me deixar em paz. Cruzamo-nos no banheiro, só eu e ele, na porta, de modo que precisamos parar frente um ao outro. Foi o suficiente para uma pergunta e para a minha tão alardeada inteligência fugir correndo para algum lugar inalcançável. Respondi qualquer besteira que minutos depois não fazia sentido nem mesmo para mim. Fui embora com o peso de um encontro marcado pela minha inabilidade de resolver meus próprios medos.
Se aprendi alguma coisa ontem, foi que enterrar medos não os resolve. Eles continuam lá esperando uma fresta pela qual possam passar. E passam, ah como passam.
terça-feira, março 26, 2013
Vamos conhecer algo diferente hoje?
Hoje decidi fazer um texto diferente. Estou empenhado em escrever diariamente, mas nem sempre o tempo facilita essa organização, portanto não cheguei à frente do computador com um tema em mente. A solução? Conversar com uma imagem. O método foi simples: joguei a palavra "imagem" no Google Imagens e selecionei a primeira que me chamou a atenção. Sim, há um certo componente de privilégio para as primeiras imagens, como sempre – vocês sabiam que a maioria das pessoas não procura além das primeiras ou segundas páginas de resultados em suas pesquisas, limitando consideravelmente as respostas que encontramos para nossas perguntas? –, mas hoje esse texto não vai se debruçar muito sobre privilégios e abusos.
Um tucano. Pesquisando no dicionário, descobri que há um grupo de índios que atende por essa denominação. Pesquisando no Youtube, descobri que tucanos não só são bichos muito esquisitos, mas também são fofos demais. Quase troco meu desejo de ter um cachorrinho (não, o de ter uma raposa continua firme e forte) pelo de ter um tucano. Será que eu posso ter um tucano?
Fiquei aqui quase dois minutos com cara de abobado. Conclusão: alguns dias a gente não está para escrever, apenas para ver e viver.
Um tucano. Pesquisando no dicionário, descobri que há um grupo de índios que atende por essa denominação. Pesquisando no Youtube, descobri que tucanos não só são bichos muito esquisitos, mas também são fofos demais. Quase troco meu desejo de ter um cachorrinho (não, o de ter uma raposa continua firme e forte) pelo de ter um tucano. Será que eu posso ter um tucano?
Fiquei aqui quase dois minutos com cara de abobado. Conclusão: alguns dias a gente não está para escrever, apenas para ver e viver.
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
A sala de aula é um saco
Não me entendam mal, mas eu odeio sala de aula. Talvez seja feio um professor dizer isso, mas a verdade é que o espaço físico no qual acontecem as interações professores-estudantes é ridículo e antiquado. Que tal todos alunos um atrás (e ao lado) do outro, enxergando uma única coisa: o professor?
É muita pretensão! Além disso, a sala de aula é um espaço sem vida, igual para todo mundo. Qual é a sensação que se sente ao entrar em uma dessas? Alívio, felicidade, êxtase? Acho que não. Na realidade, tédio e cansaço imediato parecem respostas mais adequadas.
Estou tentando pensar esse espaço (a sala) e essa vivência (de aula) como um designer ou um publicitário faria. De preferência, como um publicitário designer faria. Não sou nenhum dos dois, eu sei, mas não custa tentar, certo?
Ontem consegui um feito incrível na aula: quase todos os estudantes sentaram-se próximos de mim, ao invés de no fundo da sala, como tipicamente o fazem. Como eram apenas oito em sala, isso foi mais fácil de realizar. A verdade é que salas lotadas são mais complicadas de gerenciar. A proposta que fizemos para aulas de debate não é nova, mas pode fazer uma diferença: sentaremos em círculos. Sexta-feira terei uma noção de como essa abordagem funcionou. Eu, como estudante, nunca gostei de círculos, mas estou curioso para saber se funcionará enquanto professor.
Além disso, preciso refletir sobre por que eu não gostava dos círculos... Talvez eu não quisesse participar. O que me leva à segunda parte dessa reflexão: o que é possível fazer para que a relação com o processo que ocorre na sala de aula se modifique? Quando entramos num espaço prontos para o tédio, aposto que nossas probabilidades de confirmarmos o tédio sejam muito maiores do que as de ficarmos felizes. Predisposição tem um poder incrível sobre nós. Para que uma aula seja bacana, primeiro preciso vencer o tédio pré-instalado, para só então chegar a algum estágio de felicidade. Isso é péssimo!
O que precisa ser feito é modificar a forma como os estudantes percebem a educação. Que expectativas e valores estão sendo colocadas sobre a sala de aula? É aqui, infelizmente, que ainda não tenho respostas, apenas mais perguntas...
É muita pretensão! Além disso, a sala de aula é um espaço sem vida, igual para todo mundo. Qual é a sensação que se sente ao entrar em uma dessas? Alívio, felicidade, êxtase? Acho que não. Na realidade, tédio e cansaço imediato parecem respostas mais adequadas.
Estou tentando pensar esse espaço (a sala) e essa vivência (de aula) como um designer ou um publicitário faria. De preferência, como um publicitário designer faria. Não sou nenhum dos dois, eu sei, mas não custa tentar, certo?
Ontem consegui um feito incrível na aula: quase todos os estudantes sentaram-se próximos de mim, ao invés de no fundo da sala, como tipicamente o fazem. Como eram apenas oito em sala, isso foi mais fácil de realizar. A verdade é que salas lotadas são mais complicadas de gerenciar. A proposta que fizemos para aulas de debate não é nova, mas pode fazer uma diferença: sentaremos em círculos. Sexta-feira terei uma noção de como essa abordagem funcionou. Eu, como estudante, nunca gostei de círculos, mas estou curioso para saber se funcionará enquanto professor.
Além disso, preciso refletir sobre por que eu não gostava dos círculos... Talvez eu não quisesse participar. O que me leva à segunda parte dessa reflexão: o que é possível fazer para que a relação com o processo que ocorre na sala de aula se modifique? Quando entramos num espaço prontos para o tédio, aposto que nossas probabilidades de confirmarmos o tédio sejam muito maiores do que as de ficarmos felizes. Predisposição tem um poder incrível sobre nós. Para que uma aula seja bacana, primeiro preciso vencer o tédio pré-instalado, para só então chegar a algum estágio de felicidade. Isso é péssimo!
O que precisa ser feito é modificar a forma como os estudantes percebem a educação. Que expectativas e valores estão sendo colocadas sobre a sala de aula? É aqui, infelizmente, que ainda não tenho respostas, apenas mais perguntas...
sábado, fevereiro 23, 2013
Nudez em público
Hoje vi um vídeo (ou melhor, vi citarem um vídeo, não tive paciência de efetivamente ver o vídeo) sobre um casal transando no mar. Sabe aquela coisa de gravar os outros fazendo sexo, porque fazer sexo é sexy e chama a atenção? Isso me colocou pensando numa questão que sempre volta a aparecer: por que não podemos transar em público?
A coisa vai mais longe e levanta probleminhas anteriores: não podemos andar pelados na rua. Salvo engano, se eu sair caminhando com o pinto balançando a olhos nus, posso ser preso. Por quê? Já antevejo multidões se erguendo e gritando "porque é imoral!", mas essa é uma resposta fraca, pelo menos para quem está buscando motivações racionais (e laicas) para tal proibição.
O que há de tão perigoso em um corpo desnudo? É o tesão alheio que preocupa? Viver em sociedade significa abrir mão de uma série de liberdades, compreendo, mas por que a de tirar a roupa onde quiser é uma delas? Essas são questões que eu não sei ainda nem por onde começar a responder. Pensando rápido, posso pensar que é uma estratégia para conter os impulsos sexuais, talvez algo trazido pela moral cristã. Posso também estar sendo preconceituoso, já que sempre acho que toda repreensão moral vem da Bíblia.
Roupas fazem sentido num contexto gelado como a Europa. Nós fomos colonizados por europeus. Seres humanos atribuem valor simbólico às coisas que usam. Provavelmente a economia tem algo a dizer sobre isso, já que roupas mais caras e com tintas menos acessíveis provavelmente se tornaram representativas de maior riqueza e status social. A pergunta é: por que continuamos enxergando as roupas assim?
Ano passado eu já havia começado a pensar sobre isso, como meu post sobre Henry Scott Tuke revela e também meu artigo apresentado em um Congresso no Rio de Janeiro.
A coisa vai mais longe e levanta probleminhas anteriores: não podemos andar pelados na rua. Salvo engano, se eu sair caminhando com o pinto balançando a olhos nus, posso ser preso. Por quê? Já antevejo multidões se erguendo e gritando "porque é imoral!", mas essa é uma resposta fraca, pelo menos para quem está buscando motivações racionais (e laicas) para tal proibição.
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| Le Concert Champêtre – Giorgione |
O que há de tão perigoso em um corpo desnudo? É o tesão alheio que preocupa? Viver em sociedade significa abrir mão de uma série de liberdades, compreendo, mas por que a de tirar a roupa onde quiser é uma delas? Essas são questões que eu não sei ainda nem por onde começar a responder. Pensando rápido, posso pensar que é uma estratégia para conter os impulsos sexuais, talvez algo trazido pela moral cristã. Posso também estar sendo preconceituoso, já que sempre acho que toda repreensão moral vem da Bíblia.
Roupas fazem sentido num contexto gelado como a Europa. Nós fomos colonizados por europeus. Seres humanos atribuem valor simbólico às coisas que usam. Provavelmente a economia tem algo a dizer sobre isso, já que roupas mais caras e com tintas menos acessíveis provavelmente se tornaram representativas de maior riqueza e status social. A pergunta é: por que continuamos enxergando as roupas assim?
Ano passado eu já havia começado a pensar sobre isso, como meu post sobre Henry Scott Tuke revela e também meu artigo apresentado em um Congresso no Rio de Janeiro.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
As vantagens de ser invisível - ou de ter uma boa amiga
Acabei de assistir As Vantagens de Ser Invisível. Uma das coisas mais preciosas que ele me trouxe: "a gente aceita o amor que acredita que merece". Eu consegui me identificar demais com o guri, demais mesmo.
Aí terminei o filme e me peguei pensando... Como ela consegue? Acho que não teve nada até hoje que ela não tenha acertado comigo, desde a ideia louca de me apresentar o filho da amiga de infância até o simples fato de fazer um curso de especialização e casualmente compartilhar noites felizes comigo.
Sério, muitíssimo obrigado por existir.
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
A primeira camisinha
Dizem que o primeiro sutiã a gente nunca esquece. Eu não sei, ainda não vesti o meu primeiro, mas tenho certeza que, na sociedade em que a gente vive, vesti-lo provavelmente seria uma situação marcante e inesquecível.
Enquanto eu lia o livro Cem homens em um ano, da Nádia Lapa (sobre o qual escreverei em algum momento futuro, espero que até o fim de semana), um dos relatos que ela faz me chamou a atenção justamente por tratar de um fulano que parava na farmácia para comprar camisinhas e, cheio de pudores, sempre comprava também sabonete líquido como "desculpa" para ter ido à farmácia. Como se transar fosse algo que precisasse de permissão ou, pior, de ser desculpado pela sociedade.
Eu escrevi essa semana sobre o fato de que professores também têm vida sexual. Fiz isso não para dizer "vejam, eu transo" ou "notem, mesmo sendo um professor homem, eu posso namorar outro cara". É muito mais do que isso. Eu escrevi para mostrar, para tornar visível algo que a gente normalmente esquece. Ontem meu coordenador me chamou de vulgar, em tom de brincadeira, por falar abertamente de sexo, pau, bunda e boceta na sala de aula. Mesmo brincando, porém, ser vulgar por falar de sexo demonstra o quanto nós precisamos deixar de nos esconder e de fingir que não transamos ou que não queremos transar.
Essa minha postura é muito diferente da que eu tinha há alguns anos. Lembro-me perfeitamente não do primeiro sutiã, mas da primeira camisinha que comprei. Eu teria um encontro naquela noite (com aquele que viria a ser o meu primeiro namorado, mas não sabíamos disso ainda) e entrei na farmácia meio confiante, meio amedrontado. Fui lá, todo pimpão, crente de que minha noite terminaria em sexo (não terminou). Olhei as embalagens de camisinha, tentando entender as diferenças de cores e nomes e marcas, até que senti o olhar de uma atendente e ouvi as piores palavras que poderiam aparecer naquele momento: "posso ajudar?". Resultado? Peguei o primeiro pacote que estava ao alcance das mãos (daquelas com bolinhas pra estimular o parceiro, sabe?), agradeci e fui imediatamente ao caixa. Não comprei nenhum sabonete liquido (ainda não sabia desses truques!), mas se tivesse algo à venda que reduzisse vermelhidão de vergonha, eu teria levado na hora.
Enquanto eu lia o livro Cem homens em um ano, da Nádia Lapa (sobre o qual escreverei em algum momento futuro, espero que até o fim de semana), um dos relatos que ela faz me chamou a atenção justamente por tratar de um fulano que parava na farmácia para comprar camisinhas e, cheio de pudores, sempre comprava também sabonete líquido como "desculpa" para ter ido à farmácia. Como se transar fosse algo que precisasse de permissão ou, pior, de ser desculpado pela sociedade.
Eu escrevi essa semana sobre o fato de que professores também têm vida sexual. Fiz isso não para dizer "vejam, eu transo" ou "notem, mesmo sendo um professor homem, eu posso namorar outro cara". É muito mais do que isso. Eu escrevi para mostrar, para tornar visível algo que a gente normalmente esquece. Ontem meu coordenador me chamou de vulgar, em tom de brincadeira, por falar abertamente de sexo, pau, bunda e boceta na sala de aula. Mesmo brincando, porém, ser vulgar por falar de sexo demonstra o quanto nós precisamos deixar de nos esconder e de fingir que não transamos ou que não queremos transar.
Essa minha postura é muito diferente da que eu tinha há alguns anos. Lembro-me perfeitamente não do primeiro sutiã, mas da primeira camisinha que comprei. Eu teria um encontro naquela noite (com aquele que viria a ser o meu primeiro namorado, mas não sabíamos disso ainda) e entrei na farmácia meio confiante, meio amedrontado. Fui lá, todo pimpão, crente de que minha noite terminaria em sexo (não terminou). Olhei as embalagens de camisinha, tentando entender as diferenças de cores e nomes e marcas, até que senti o olhar de uma atendente e ouvi as piores palavras que poderiam aparecer naquele momento: "posso ajudar?". Resultado? Peguei o primeiro pacote que estava ao alcance das mãos (daquelas com bolinhas pra estimular o parceiro, sabe?), agradeci e fui imediatamente ao caixa. Não comprei nenhum sabonete liquido (ainda não sabia desses truques!), mas se tivesse algo à venda que reduzisse vermelhidão de vergonha, eu teria levado na hora.
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Professor também namora
Quando numa autoestrada, se um veado enxerga uma luz forte vindo na sua direção, o que ele faz? Ele paralisa. Foi o que aconteceu comigo no sábado: fiquei completamente sem saber o que fazer quando duas partes até então completamente separadas da minha vida se misturaram.
Eu sou professor universitário em um curso de Publicidade e Propaganda. Por alguma obra (feliz) do acaso, eu tenho um namorado.Tipicamente, essas são duas parcelas da minha identidade mantidas em separado. Então alguém sabe me explicar por que eu fiquei feito um veado (sem piadinhas, OK?) na autoestrada quando estava com meu namorado e encontrei duas alunas num shopping?
Eu sei exatamente o que aconteceu, mas não gosto de admitir.
De algum lugar do meu passado, as instruções "professor não tem vida sexual" e "professor bom é professor hétero" vieram com força naquele momento. Que fique claro: eu defenderei até o fim dos tempos o direito de qualquer um ter a vida afetiva que lhe convier e estou muito longe de achar que professor é aquele sujeito que não tem vida própria. Acho que educação se faz entre pessoas e pessoas têm vida, pessoas fazem sexo, pessoas se sujam, pessoas se apaixonam.
Ainda assim, todo dia na escola eu ouvia alguém me xingar por eu não ser machinho.
Ainda assim, nenhum dia na escola ou na faculdade eu soube dos meus professores mais do que "eu sou casada".
Por mais que eu odeie isso, preciso diariamente lutar contra todos os preconceitos e estereótipos que me foram ensinados por anos e anos. Um deles, que me afeta profundamente, é que professor homem não transa com homens, professor não vai à boate, professor se dá ao respeito. Esse texto é um lembrete para mim mesmo: Tales, para de te agarrar ao que o resto do mundo tentou te ensinar até hoje e te volta para o que tu quer que o mundo aprenda.
Eu sou professor universitário em um curso de Publicidade e Propaganda. Por alguma obra (feliz) do acaso, eu tenho um namorado.Tipicamente, essas são duas parcelas da minha identidade mantidas em separado. Então alguém sabe me explicar por que eu fiquei feito um veado (sem piadinhas, OK?) na autoestrada quando estava com meu namorado e encontrei duas alunas num shopping?
Eu sei exatamente o que aconteceu, mas não gosto de admitir.
De algum lugar do meu passado, as instruções "professor não tem vida sexual" e "professor bom é professor hétero" vieram com força naquele momento. Que fique claro: eu defenderei até o fim dos tempos o direito de qualquer um ter a vida afetiva que lhe convier e estou muito longe de achar que professor é aquele sujeito que não tem vida própria. Acho que educação se faz entre pessoas e pessoas têm vida, pessoas fazem sexo, pessoas se sujam, pessoas se apaixonam.
Ainda assim, todo dia na escola eu ouvia alguém me xingar por eu não ser machinho.
Ainda assim, nenhum dia na escola ou na faculdade eu soube dos meus professores mais do que "eu sou casada".
Por mais que eu odeie isso, preciso diariamente lutar contra todos os preconceitos e estereótipos que me foram ensinados por anos e anos. Um deles, que me afeta profundamente, é que professor homem não transa com homens, professor não vai à boate, professor se dá ao respeito. Esse texto é um lembrete para mim mesmo: Tales, para de te agarrar ao que o resto do mundo tentou te ensinar até hoje e te volta para o que tu quer que o mundo aprenda.
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