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quinta-feira, outubro 10, 2013

Travesti de barba

Li a notícia "Travesti com barba é escolhido para representar a Áustria em festival" e pensei "nossa, que legal". Nem todo mundo pensou a mesma coisa, parece que teve gente chocada. Um amigo ficou indignado perguntando por que ele (!) não pode querer ser mulher (!!) e ponto (!!!).


Por que a cantora Conchita Wurst virou notícia? Simples: porque nós somos muito pouco criativos e temos a mania de dividir nossos conceitos em dois polos. Usamos um pensamento binário. Nem é tanto culpa nossa, somos ensinados assim desde criancinhas. Ou algo é bom ou é mau, ou é alto ou é baixo, ou é homem ou é mulher, e assim por diante.

O problema disso é que dois não é suficiente. Mesmo biologicamente os critérios que definem o que é homem e o que é mulher são pouco claros, quando analisados detidamente. Se existem inúmeras variações para as possibilidades que a vida humana alcança, por que deveríamos nos contentar com um tipo de pensamento tão excludente? Tudo bem, talvez a maioria da população possa ser encaixada nessas duas caixinhas, "homem" ou "mulher". Mas sério que a gente ainda não superou esse pensamento tosco "ah, é a maioria, então o resto a gente caça e elimina"? Isso é tão Idade Média!

Além de separar o mundo em masculino e feminino, nosso pensamento binário tem outra consequência: ele dita como devemos ser. Se somos homens, seremos fortes, barbudos e pegadores. Se somos mulheres, seremos dóceis, frágeis e receptoras do supremo pênis. Essas características não vêm com a gente junto ao órgão genital, elas são ensinadas e reforçadas pela cultura diariamente. Na escola meninos jogam futebol e meninas caminham ao redor da quadra, por exemplo. Isso para não mencionar como os pais, amigos e conhecidos esperam coisas diferentes de homens e de mulheres. Ser um homem, nesse sistema cultural, significa pisar nos outros. Ser mulher geralmente envolve ser pisada.

Daí aparece alguém que desafia essa matriz de conhecimento binário. Por exemplo, um corpo macho que se mostra feminino, mas mantém a barba. Ou seja, fica, de certa forma, "no meio". As pessoas gritam "decida-se", mas o que há para decidir? Quando foi que, ao nascermos, assinamos um contrato dizendo que só poderíamos ser uma coisa ou outra? Que para ser uma coisa temos que levar junto o pacote inteiro e não apenas aquilo que nos interessa? Se o desejo, como já sabemos, é fluido (não é por nada que por enquanto minha amiga é árvore) e não responde a essas nossas limitações, por que a nossa identidade de gênero deveria?

Quando nós apontamos o dedo para a "travesti de barba", nós não estamos mostrando o quanto ela está certa ou errada, mas sim dizendo ao mundo se nós conseguimos ou não conviver com alguém que pode ser diferente de nós. Daí eu pergunto: que sensibilidade é essa que se fere tão fácilmente ao ver uma mulher ou travesti de barba? O que há de tão importante em manter o mundo rapidamente legível? Por que nós não conseguimos lidar com a diferença e com a miríade de potencialidades do ser humano?

Não tenho respostas para essas perguntas, mas aposto que têm a ver com o nosso egoísmo. Nós queremos navegar em um mundo fácil, um mundo pronto, um mundo que não perturbe a maneira como já percebemos as coisas. É mais fácil termos uma noção única e pronta do que reavaliarmos nossas posições quando encontramos algo "diferente". É certamente mais fácil rejeitarmos aquilo que não entendemos do que termos que assumir o compromisso de abraçar a diferença e cultivar o carinho para com o outro. Receber o outro com um sorriso implica em colocarmos menos o nosso umbigo em evidência, algo que tenho certeza que é muito difícil.

domingo, outubro 06, 2013

O que nos impede de agir?

Uma amiga quer transar com um cara, mas não teve coragem de dizer isso a ele. Ela não quer nada além de uma boa trepada com o sujeito, mas se pegou com medo do que ele poderia pensar dela, já que normalmente mulheres não tomam a iniciativa nem assumem que gostam de sexo. Sabemos que essa ideia de que mulheres não tomam iniciativa ou não gostam de sexo é fajuta. Não há nada dado no "ser mulher" que inclua frigidez ou falta de iniciativa. O que nós temos é uma complexa rede cultural ensinando os meninos a desde pequenos pegarem todas e as meninas a ficarem quietas para serem usadas. Como a gente muda isso? Através da educação, da família, das instituições sociais e... da ação. Absolutamente nada funciona como um exemplo mais poderoso do que a ação.

Minha amiga é feminista e tem interesse em lutar pelos direitos das mulheres e contra as opressões de gênero. Mesmo assim, se sente acanhada para agir em nome daquilo que acredita. Ela não é a única. Goethe já nos alertava:
Pensar é fácil, agir é difícil. E colocar nossos pensamentos em ação é a coisa mais difícil do mundo.
Quando fazemos algo que contraria as expectativas ou tradições (o machismo e a heteronormatividade infelizmente funcionam como tradições), podemos esperar algum tipo de reação. Afinal de contas, nós estamos afetando diretamente o modo como outras pessoas enxergam o mundo. Estamos lhes dizendo "não é assim que funciona". Isso dói e a tendência é tentar algo para interromper essa dor. Num mundo ideal, as pessoas assimilariam que seu modo de ver e viver é cruel e machuca outras pessoas e mudariam. Na vida real, as reações costumam ser mais violentas e opressivas.


Refletindo sobre isso, vejo que temos dois impedimentos básicos frente à ação "subversiva". A primeira delas acabei de mencionar, ou seja, a possibilidade de reação alheia. As outras pessoas provavelmente buscarão interferir no jeito que você deseja viver, essa é quase uma certeza da vida. São os guardiões das tradições ou dos próprios privilégios.

A segunda delas é mais complicada: precisamos estar abertos a nossas próprias resistências e limitações. Recusar preconceitos pode implicar deixar de rir em algumas situações que sempre pareceram engraçadas. Lutar contra a tortura de animais pode significar a necessidade de se reeducar e encontrar formas alternativas para se alimentar sem carne. Compreender o próximo pode requisitar que façamos uma releitura de nossas crenças mais profundas.

Em ambos os casos precisamos juntar coragem e, se possível, aliados, para que não precisemos lutar sozinhos. Infelizmente todo convite à mudança é uma luta, primeiro contra nós mesmos, depois contra o restante do mundo, mesmo quando aquilo pelo que lutamos é a paz ou a igualdade. Talvez principalmente nesse caso, aliás.

terça-feira, outubro 01, 2013

Minorias preconceituosas

Ser parte de minorias não te impede de ser preconceituoso. Ponto. Exemplo básico que ouvi esses dias: uma moça negra lésbica viu um rapaz hetero branco de cabelos claros sentado na mesma mesa que ela e amigos em comum e disparou "você é tudo que eu desprezo".

Pausa para avaliar o quanto essa pessoa foi cretina. É, idiota mesmo, trouxa, palhaça, inadequada para o convívio com outros seres humanos. De onde veio esse desprezo todo por uma pessoa baseado numa série de informações superficiais? O que há de tão odioso em ter uma cor de pele, um pênis e uma namorada? No mundo dessa gentil moça, muita coisa. Não vou negar nem de longe que zilhões de ofensas e ações cruéis ao longo da história vieram das mãos de sujeitos com essas mesmas características, só que nada disso faz dele perpetuador desses atos.

Trago-a como exemplo para refletirmos brevemente sobre esses paradoxos ambulantes. Homossexuais homofóbicos e mulheres machistas, por exemplo. Volta e meio vejo gays criticando pessoas "afetadas", ou seja, homens afeminados e mulheres masculinas. Sério, gente? Além da obviedade de o comportamento alheio não ter nada a ver com a gente se não estiver prejudicando ninguém, qual é o problema de um homem agir afeminadamente? (seja lá o que for isso, discussão complexa que vamos guardar para outro dia) Tem a ver com pensarmos que mulheres são inferiores aos homens? (olha o machismo aí) E mulheres masculinas, será que não gostamos porque estão ousando ser "mais" do que são? (olha o machismo aí de novo) Temos também as famosas mulheres machistas, doutrinadas por um sistema que se sustenta em pisar nas mulheres e em obrigá-las a servir apenas de alimento para os desejos machos.

"O ódio é fácil; o amor exige coragem".

Acontece que é difícil escapar desse tipo de pensamento nocivo, por mais que ele seja contra nós mesmos ou contra pessoas que compartilham espaços semelhantes no mundo. Sofrer não é pré-requisito para a solidariedade. Para escapar do círculo vicioso do ódio (contra si mesmo, inclusive) é necessário aquele tipo particular de coragem sobre o qual escrevi recentemente. É coisa que se aprende, que se ensina, que se compartilha.

Odiar é um hábito ruim contra o qual temos que lutar. Se aceitamos alguém odiando perto de nós, estamos permitindo que alguém seja odiado. Ao fazermos isso pactuamos com dois pensamentos: que é certo odiar e que ninguém vai mover um dedo para evitar que outras pessoas sejam odiadas. A vida muda pelo exemplo e a coragem cresce junto. Fecharei esse texto com Gandhi: "Olho por olho torna todo o mundo cego". O ódio direcionado contra o outro nunca é algo positivo. Não quer dizer que o desgosto não possa nos motivar a agir, que a irritação e o desejo por mudanças não possam nos dar forças. Quer dizer apenas que não devemos repetir sobre os outros aquilo que odiamos que façam conosco. Espero que a moça-exemplo lá do começo leia esse texto e reflita.

segunda-feira, setembro 30, 2013

O que é ser gay

"Ser gay é uma condição".
"Ser gay é uma opção".
"Ninguém escolheria ser gay, é claro que se nasce assim".
"Ser gay é pecado, mesmo nascendo assim as pessoas deveriam guardar pra si seus desejos".

Ai, tanta coisa misturada. No meio disso tudo quase ninguém para e reflete sobre o que significa ser gay. É dar o cu, é gostar de pênis, é gostar de cus, é o quê? Há quem diga que ser gay tem mais a ver com ser afeminado (ou masculinizada, no caso das mulheres), o que de longe temos exemplos suficientes para saber que não cobre toda a parcela de pessoas que se atraem por pessoas do mesmo gênero. Opa, mas e agora, é coisa de jeito ou de desejo?


Eu tenho dificuldades com quem procura definir o que eu sou a partir daquilo que eu desejo. Isso por uma razão básica: desejo é fluido. Posso acordar amanhã apaixonado por uma mulher, isso muda a minha identidade ou só o nome que dou a ela? Na vida real não muda nada, mas no mundo dos pensamentos explode dezenas de conceitos.

Vamos além.
Homem, mulher, qual é o limite exato onde um começa e outro acaba? Tem a ver com órgãos genitais, comportamentos sociais ou como a pessoa se entende? São apenas dois? O que acontece com quem sente que não pertence nem a um nem a outro gênero, independente do que o seu corpo diz às pessoas? (Ah, esse corpo fofoqueiro!)

Aí eu amo um homem que nunca esteve contente consigo mesmo porque na verdade se entende como uma mulher. Eu sou gay ou hetero? Ela então passa por toda a burocracia dos infernos e consegue uma cirurgia para reconfigurar seu corpo, dá adeus ao pênis e oi à vagina. Eu ainda amo ela, oras, amo uma pessoa e não meramente um corpo. Meu desejo muda nesse processo? Talvez, não sei. Já li casos em que sim, casos em que não. Agora sou gay ou sou hetero, se a mulher que eu amo não é mais um homem? E ela, que era homem gay e agora é mulher hetero? Ou continua gay porque nasceu como homem? Será que já era hetero, já que se entendia como mulher desde pequena?

Se eu tenho pressa, digo que sou gay. Pressa mesmo, falta de vontade de explicar que uma palavrinha não revela quase nada sobre o que eu sinto por outras pessoas.
Quando não estou correndo, explico que sou uma raposa. Minha melhor amiga costumava dizer que para mim era mulher, mas depois pensou melhor e disse que pra mim é árvore. Nunca senti tesão em árvores, mas tenho o dever moral de avisá-la caso algum dia surja algum, para que perto de mim ela possa ser outra coisa. É nossa forma de determinar que nossa amizade não inclui tesão ou sexo.

As coisas são o que são somente enquanto são. Passageiras, temporárias, fluidas, sem obrigação nenhuma de se submeter às nossas classificações. Compreender isso ou ficar sem entender não faz a menor diferença: a vida continuará sendo o que é, complexa e linda. Bem sabiam os budistas: a tentativa de segurar e controlar a realidade só serve para nos fazer sofrer. (Ou para ajuntamentos políticos, mas essa é outra história.)

sexta-feira, setembro 27, 2013

O umbigo do velho

A cena: eu numa mesa comendo meu sanduíche. É noite, está ventando e as mesas são todas ao ar livre (na calçada do meio da rua). Na mesa ao lado um cara velho com jeito de quem vive todas suas tardes e noites no cigarro e na cerveja bafejando aquela fumaça nojenta que o vento fazia questão de soprar em mim. Pensei em mudar de lugar, mas a preguiça foi maior, então beleza, reclamei pra mim mesmo e ficou nisso porque acho desrespeito ir lá desrespeitar ele porque ele me desrespeitou antes. Ou algo assim.

u não tinha percebido, mas na mesa ao lado das nossas duas havia uma moça fungando. Eis que o velho perguntou qualquer coisa e ela respondeu que era sinusite. Tudo bem, morreu aí o assunto, a moça voltou ao seu suco e o cara ao seu cigarro e à sua cerveja. Levantou, falou alto, gritou, sentou de novo, bebeu, gritou mais. Posso estar exagerando por desprezo ao personagem.

Aí ele se volta à moça e pergunta o nome dela. Ela responde. Pergunta o nome do namorado. Ele responde. E larga a pérola: "você é linda de ver". Nesse momento meu mundo parou. Vontade monstra de levantar e perguntar "oi, quem quer saber?". Acho que nunca na minha vida eu havia sentido indignação por presenciar um homem cantar uma mulher na rua. Talvez eu nunca tivesse percebido com tantos detalhes a cena toda. Foi exatamente o que aconteceu: o velho bêbado resolveu colocar o pau na mesa e mostrar como a opinião dele era mais importante do que a zona de conforto dela. Como se a vida dela dependesse de saber que ele, um cara bêbado, havia curtido sua aparência.


Aliás, algo precisa ficar claro: o problema não é o cara fumar, beber ou ser velho, mas sim exercer o seu poder de macho pra manifestar seus interesses e esperar que a mulher, como personagem secundária perto de qualquer homem, escute e ainda fique feliz em ser reconhecida por um sujeito homem. No fim das contas, o elogio não foi dirigido necessariamente à mulher, não foi uma tentativa de, por exemplo, deixá-la mais contente com sua aparência. Foi apenas o velho observando e comentando o mundo a partir do seu umbigo.

sábado, setembro 07, 2013

Romeos

Assisti hoje a um filme bacana. Chama Romeos e conta uma história de Lukas, um transexual masculino que começa o filme aplicando sua 25° injeção de testosterona.


Logo de cara somos apresentados a Lukas chegando a uma vida nova. Terá que viver por um ano (confesso que não pesquei exatamente o motivo) em uma cidade alemã e inicialmente é colocado para viver no dormitório feminino, uma vez que a instituição não o reconhece enquanto homem. Não bastasse isso, Lukas precisa esconder o seu corpo o tempo inteiro. Enquanto todos se deliciam num lago, por exemplo, ele esconde os seis com blusas largas e casacos.

No filme, temos a oportunidade de conhecer algumas ansiedades vividas por Lukas e pelas pessoas que o circundam. Pouco a pouco encontramos a melhor amiga, o interesse amoroso, a família. Para todos eles, a mera existência de Lukas é um desafio ao que acreditam ser normal. Descobrimos o nome de batismo de Lukas, por exemplo, apenas por meio das pessoas que não conseguem aceitar o fato de que Lukas é o que ele é, um jovem buscando também o seu lugar no mundo.

Após assistir a Romeos, fiquei pensando cá com meus botões as infinitas realidades que desconheço. Eu não sei o que é ser transexual, obviamente, tampouco acho que o filme me deu condições de me colocar no lugar de alguém que vivencie algo parecido. Entretanto, assim como XXY (que trata sobre uma personagem intersexo), sinto-me um pouco mais próximo de um universo com o qual tenho pouco contato.

quarta-feira, agosto 21, 2013

Macho que é macho não... existe

Perdoem-me os escritores de plantão, mas eu repito a palavra macho exageradamente nesse texto. Eu mesmo estou me sentindo meio mal, porque não escrevo textos de fantasia há tanto tempo...

Eu não acredito em machos e isso não tem nada a ver com a foto abaixo. Ou tem tudo, deixo o leitor decidir. Eu deixei de acreditar neles há muito tempo e esse texto é a minha tentativa de explicar o porquê.


Eu não acompanho futebol, por isso não saberia nunca que o moço de boina é Sheik, um jogador do Corinthians. Sheik é não só um jogador do Corinthians, mas um jogador do Corinthians autodeclaradamente heterossexual. Aí uma noite ele sai com os amigos e dá um selinho num deles e o mundo desaba.

Sabe por que eu acho que machos não existem? Porque ser macho é tão instável e frágil que basta um selinho num outro cara para que a torcida do Flamen, ops, do Corinthians se revolte e resolva roubar a carteirinha de macho do Sheik. Macho que é macho não beija outro macho.

Ser macho é uma condição tão frágil que a galera precisa ficar repetindo e provando o tempo inteiro que é macho. Quem nunca viu na escola, por exemplo, a ofensa mortal a qualquer macho: xingar a mãe, ops, chamar de viadinho? Homem que é homem tem que gostar de mulher e falar de mulher e pegar mulher e fazer o que for com mulher (ou com o viadinho mais próximo, na falta de mulher, o famoso caso dos heteros que comem viados). Detalhe: homem que é homem só tem amigo homem, fica pelado em vestiário cheio de macho e de vez em quando aperta a bunda do outro pra ver se o outro é macho e reclama (oi?).


O que é um macho? Macho, em uma sociedade machista, é o sujeito que se acredita detentor do Poder do Pênis. Com esse superpoder, ele acha que pode maltratar as mulheres, ops, usufruir das outras pessoas (em geral mulheres, macho só usa outro homem se este for viadinho e ainda assim se ninguém ver... aliás, vamos todos ignorar as brincadeiras de medir o maior pinto, ver quem mija mais longe, bater punheta junto e fazer troca-troca). Todo mundo que nasceu com um pênis tem o dever moral de agir como macho, afinal, tem um pênis. É lógico.

Só que não é fácil ser macho. Macho não chora, não pede ajuda, não erra nunca, não fraqueja, não goza rápido demais, tem pau grande, é musculoso, bate em quem duvida, bate em quem tem alguma certeza contrária (o que não é difícil, porque machos geralmente têm poucas certezas – poucas em quantidade, fique claro), bate em que não é macho... Ser macho é tão complicado que há uma polícia especializada em verificar se outros caras são machos, o que nos leva de volta ao Sheik, já que macho não beija outro macho. Logo os dois são viadinhos e estão escondendo o jogo o tempo inteiro.

Agora uma pausa geral. Ser macho é tão difícil que antes de ser qualquer outra coisa, tem que ser macho. Jogador de futebol? Não, tem que ser macho antes, logo tem que ser um jogador de futebol macho.

Agora uma segunda e última pausa geral. Ser macho é tão difícil porque macho não existe. É como a roupa nova do rei, que só os inteligentes podem ver. Aqui, no caso, só os machistas veem quem é macho e quem não é. Para falar a verdade, só machistas se importam com quem é macho ou deixa de ser. As outras pessoas, não afetadas pela responsabilidade do superpoder do pênis (e muitas delas têm pênis!), são livres para serem o que são ou o que quiserem ser. Talvez seja esse o problema dos machos: inveja de quem é livre.

terça-feira, agosto 20, 2013

Teoria queer (parte 2)

Essa é a segunda parte da série de três textos sobre a teoria queer. O primeiro pode ser encontrado aqui e o terceiro será lançado amanhã. Não é minha intenção esgotar (seria pretensioso demais!) a teoria queer, mas sim apresentar alguns pontos introdutórios para quem se interessar.

Um sujeito nasce já inserido numa trama de expectativas e normatizações que estabelecerão um campo de confronto entre ser normal ou desviante em uma infinidade de critérios, e creio que é menos importante saber a origem de seus desejos do que pensar a respeito dos efeitos que eles têm sobre essa trama e, principalmente, dos esforços engendrados para conter esse alegado desvio; não podemos esquecer que a própria existência do desvio permite perceber que os fios dessa trama não só são instáveis, como também são impostos e insuficientes.

Como um professor que trata sobre (homo)sexualidades, tenho enfrentado o desafio constante de projetar propostas de ensino e ambientes de aprendizagem que sejam ao mesmo tempo eficazes no objetivo de compartilhar saberes e amplos o bastante para que não se reduzam a um ponto de vista particular e reducionista. Não posso ignorar, contudo, que essa é uma escolha que já exclui temas e interpretações que poderiam ser abordados em cursos cujos fins fossem outros e que minha afiliação à cultura visual e teoria queer me coloca em uma posição diferente do que a assumida por sujeitos que não compartilham desses embasamentos. É particularmente difícil não considerar outras posturas equivocadas ou incorretas, mas se trata de um desafio que acredito ser fundamental para o tipo de educação que antevejo, ou seja, uma forma de aprendizagem que não se aceite opressiva e que se permita duvidar de si própria ou ouvir a vozes que anunciem posições diferentes.

Uma das abordagens mais comuns que tenho observado no tratamento da homossexualidade em contextos escolares é a tentativa de incluir esses sujeitos e suas práticas no círculo da normalidade. A busca por inclusão reitera uma noção que deve ser analisada mais detidamente: a da aceitação do diferente. Essa postura relaciona-se com a ideia de uma generosidade por parte dos normais, que estão se predispondo a permitir que os anormais tenham espaço legitimado, assim como com a crença de que o grupo excluído necessita de maior autoestima, podendo buscar aumentá-la através de representações positivas de sua existência (BRITZMAN, 1995). Britzman questiona, ainda, a validade de uma política de tolerância, marcada pela apresentação e representação das minorias, que em teoria seria legitimada pela ideia de que as pessoas se identificariam com os modelos propostos. Não somente, essa perspectiva alimenta a noção de que os sujeitos normalizados reconheceriam as diferenças e as aceitariam: “mas como, exatamente, deve acontecer a identificação com um outro se somos requeridos apenas a tolerar e, portanto, confirmar nós mesmos como generosos?” (BRITZMAN, 1995, p. 159). A postura de enxergar o outro como um inferior que precisa de ajuda pode, portanto, encaminhar as tentativas de inclusão para um mero emparelhamento com as representações de heterossexuais.


Se a homossexualidade é compreendida como um desvio em relação à norma da heterossexualidade, então a representação positiva dessa identidade estaria na repressão de características que pudessem se configurar como destoantes da expectativa de um comportamento considerado adequado. Isso inclui relações não monogâmicas, práticas sexuais como submissão e sadomasoquismo, seguindo o axioma da hierarquização discutido por Rubin (1993b) e apresentando um limite bastante claro à noção de tolerância: ela pode existir, contanto que seja apenas até certo ponto. Só ganham acesso à inclusão aqueles que se assemelham com a norma heterossexual monogâmica, o que justifica as lutas que atualmente ocorrem em torno da legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas também explica o silêncio que existe em torno de sujeitos transexuais e a conivência pública com violências físicas e morais contra indivíduos cujas ações dificultam que sejam imediatamente posicionados em algum critério inteligível e comparável à norma. “Seja gay, mas não pareça uma mulherzinha” e “Não tenho problema com homossexuais, contanto que não deem em cima de mim” são declarações que exemplificam essa postura de inclusão limitada.

Ao indicar tais contradições que resultam da ideia de inclusão, não estou posicionando-me contra iniciativas que tenham esse objetivo. Representações positivas de sujeitos marginalizados são bem-vindas, pois os inserem em espaços que usualmente não ocupam ou não são vistos ocupando. Porém, creio com Silva (2000) que “antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida” (p. 100). Entender como são produzidas as diferenças que dão contorno para as identidades e em que medida elas são estabelecidas ou alteradas discursivamente é uma preocupação que deve ser levada em conta. Contudo, não se pode esquecer o papel dos indivíduos que negociam com essas instituições e também com os demais sujeitos articulando suas próprias experiências com os enquadramentos sugeridos, requisitados ou impostos. Essas relações envolvem o modo como se percebem e identificam, mas também como são identificados e o que, no trânsito entre esses muitos entendimentos, resulta na forma de ação.

Na terceira parte desta série tratarei de alguns técnicas sugeridas por Deborah Britzman para uma abordagem queer.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Teoria queer (parte 1)

Este texto é a primeira parte de uma série de três postagens dedicadas a pensar o que é a teoria queer e como ela pode se inserir em contextos pedagógicos. Nesta primeira parte, o foco da discussão está em compreender a base da teoria e sua "missão".

O queer que acompanha e nomeia a teoria surge como uma jocosa ironia, na medida em que se apropria de um xingamento para se posicionar criticamente a favor do ofendido. Traduzindo do inglês, queer significa estranho, e por derivação passa a significar bixa, viado, sapata. É aquilo que não se encaixa e causa desgosto, que não pertence. A língua portuguesa não possui uma tradução que concentre adequadamente a carga histórica que o termo queer possui no inglês, onde frequentemente era utilizado para atacar e condenar sujeitos cujas sexualidades não se conformavam às expectativas normativas. Enquanto termos como “bixa” e “transviado” possam soar semelhantes, eles reduzem o xingamento ao masculino, ignorando o feminino e prestigiando binários contra os quais a teoria se opõe. Por conta dessa dificuldade de tradução, seguirei trabalhando com o conceito em inglês, a fim de preservar o seu sentido e, principalmente, o seu potencial de disrupção de sentido.


Tomado como ponto de partida para uma ressignificação, os teóricos assumem-se como estranhos e como corruptores: a teoria queer não tem a intenção de ser mais um campo teórico, mas sim de questionar estabilidades, e por isso mesmo é tão difícil defini-la, uma vez que torná-la completamente inteligível esvaziaria sua força e potencial subversivo. Envolve teorizar o esquisito e, ao mesmo tempo, estranhar a teoria (LUHMANN, 1998). Mais do que se limitar ao estudo de gays e lésbicas, a teoria queer confronta noções de identidades fixas, classificações binárias e suas consequentes exclusões, focando esforços na compreensão dos papéis exercidos socialmente por aqueles sujeitos que ocupam posições ininteligíveis aos olhos das normas.

O queer não apenas é estranho e fora de lugar, ele também é ignorado, esquecido e negado. Os sujeitos que não se identificam com os discursos normativos das sexualidades na sociedade contemporânea ocidental estão relegados a uma existência inferior: são reconhecidos como desviantes, mas seu “desvio” não gera reflexão, é assumido como essencialmente errado ou, quando muito, como uma diferença que devemos aceitar e incluir.

É fácil pensar que queer institui uma categoria de identidade, um tipo de sujeito que não corresponde às normas. Contudo, Morris (1998) nos pergunta e alerta: “Essa categoria simplesmente instala um outro binarismo – queer ou não queer? Nós poderemos em algum momento dissolver o pensamento binário como um todo, e seria essa estratégia do não binarismo sequer útil?” (p. 276). Se pensarmos a definição de queer como simplesmente aquilo que não está normalizado, temos imediatamente uma normalização do que é ser queer. O estranho, subversivo e incompreensível passa a estar domado, controlado e seguro, sendo mais um conhecimento pronto para ser anexado em dicionários e para que pesquisadores possam identificar com certa facilidade: “isso é queer, isso é normal”. Uma vez compreendido e aceito, o poder que se instalaria pela dúvida se perde, dando lugar novamente às certezas.

Não devemos nos esquecer que, como nos alerta Britzman (1995), o queer não está nos atores, mas sim nas ações. Nomear um determinado grupo como queer é posicioná-lo fora da normalidade, mas antes de tudo significa posicioná-lo, estabilizá-lo. Esse é um movimento (e congelamento) ao qual a teoria queer não pode se permitir: o queer está no trânsito, no cruzamento de fronteiras e na indefinição de identidades. Não há como uma determinada identidade ser subversiva permanentemente, em qualquer espaço ou instante. A partir do momento em que for compreendida e nomeada, ela passa a não causar mais o impacto da indefinição.

Citando Berry, a respeito da forma como a “cultura do individualismo” espera que os sujeitos não mudem, Doll (1998) aponta: “Não importa de que forma o sujeito é reto [em inglês a palavra straight significa também heterossexual, e pode ser compreendida também como honesto ou normal], apenas que todas as perversões sejam amaciadas, de forma que a pessoa seja identificada completamente e sem ambiguidade” (p. 289). A teoria queer nos alerta para questionarmos categorias de identidade tais como “homossexual”, “travesti" etc., mas também sugere que levemos em consideração quais são os poderes e raízes históricas por trás da instituição e manutenção da heterossexualidade enquanto norma.

Na segunda parte desta série, discutirei a noção de inclusão da diferença. Na terceira e última, abordarei algumas "técnicas" para um olhar que se proponha queer. Caso alguém deseje as referências, basta pedi-las nos comentários ou por mensagem na Raposa do Face.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Jornalismo e gênero, ou Questionando os MEUS preconceitos

Hoje vi uma notícia sobre uma moça que se veste e se porta "de modo masculino" e fiquei... pensativo.


Os critérios para ser notícia

Os jornais publicam notícias que, acreditam, alcançarão os interesses de sua audiência. Para isso, se apoiam no que os teóricos chamam de critérios de noticiabilidade. Não é uma coisa que os jornalistas, na hora de decidir o que é ou não uma boa notícia, pegam uma listinha e vão marcando os itens. Essa lista é internalizada, a gente aprende na faculdade através dos professores, da prática cotidiana e, como qualquer leitor ou vivente, do contato diário com a mídia.

Aqui vão alguns critérios que listei em minha monografia de graduação:
Tempo do acontecimento: o jornalismo é sempre atual, então a notícia deve ser fresquinha, deve ser algo que está acontecendo ou que aconteceu no máximo ontem. Em tempos de internet, suspeito que o ontem já está sendo tarde demais.
Amplitude e clareza: quanto mais, melhor, quanto mais acessível ao leitor médio, melhor. Ou seja, o texto jornalístico frequentemente ensina o leitor, funcionando como um professor. Acho mais do que importante mencionar que esse professor é legitimado e o leitor médio não sente que tem motivos para desconfiar dele. Se saiu no jornal, deve ser verdade.
Significância: a notícia deve ser de interesse para o seu público, ou seja, deve afetar a vida dele de alguma forma. Essa é uma tecla que vou bater muito: dependendo do tratamento feito, uma notícia pode ser extremamente eficaz em combater preconceitos. Infelizmente não costuma ser.
Consonância: a notícia deve estar de acordo com os consensos, com o status quo. Isso aliás é bastante importante e acontece também na publicidade: lugar de revolução é fora da mídia, ao menos da mídia tradicional. Graças aos deuses que os espaços de visibilidade social estão se ampliando (embora não sem correr riscos, vide casos de propostas legislativas de regulação da internet).
Imprevisibilidade: ah, a cereja da notícia que me atraiu. O jornalismo ganha pontos de "jornal bacana" se a notícia for surpreendente. O que é tipicamente surpreendente? Pisar nas minorias ou nos "estranhos". Como a menina que é um gato.
Personalização: esse não é bem um critério do fato em si, mas a maneira como a matéria é escrita, ou seja, a partir da perspectiva de uma pessoa específica com a qual o leitor médio possa se identificar.

Normalmente são apontados mais alguns critérios de noticiabilidade, como a negatividade e o olhar para as elites, mas preferi destacar apenas esses porque me ajudam a pensar sobre a "notícia" da moça.

Questionando (os meus) preconceitos

Eu estava pronto e armado para criticar a matéria do R7, que na minha cabeça estaria tripudiando sobre a garota que se veste "como homem" e toma hormônios para modificar o corpo. Quando escrevi "o que me incomoda nesta matéria" foi que me dei conta que eu não sabia o que me incomodava na matéria, então voltei a ela e reli completamente. Só uma coisa, a meu ver, é realmente digna de crítica: o fato da posição da matéria frente ao caso ser "imparcial", ou seja, fingir-se de objetiva ao invés de defender abertamente um ponto de vista.

Claro, o fato de o jornal não fazer essa defesa não me exime da reflexão sobre meu desleixo intelectual. Simplesmente estou acostumado a ver sujeitos que não se encaixam nos bloquinhos tradicionais do binarismo serem retratados preconceituosamente na mídia, portanto assumi automaticamente que o mesmo estaria acontecendo na matéria. Isso é muito feio, gente. Ainda ontem estava na aula de Teoria da Imagem dizendo para os meus adoráveis estudantes que precisamos olhar não apenas para as imagens, mas principalmente para o momento em que nós olhamos as imagens. É nesse momento que os nossos preconceitos se ativam.

Defendo que toda visibilidade não negativa (ou seja, sem fazer piada em cima, sem pisar, sem dizer que não é legal ou que não é humano etc.) é mais do que necessária. Muitas vezes o nosso preconceito é fruto de não sermos capazes de conceber, ou seja, de vislumbrar determinada possibilidade ou situação. Eu não consegui, por exemplo, imaginar o R7 fazendo uma boa notícia envolvendo questões de gênero. OK, não é boa, faltou avançar muito para ser realmente bacana, mas já é um baita começo colocar as declarações da moça, que por sinal são bem pertinentes.

Lição do dia para mim mesmo: antes de se armar para a batalha, leia direito e pense sobre o que está prestes a criticar. Há muito a se enfrentar no mundo, sem dúvida, mas de vez em quando temos algumas surpresas positivas.

terça-feira, agosto 13, 2013

O que nós escritores temos a ver com os cinquenta tons de cinza

Como eu não li os livros, peço que alguém me corrija se eu estiver errado. Na história a protagonista conhece e se apaixona por um cara e passa a atender aos seus desejos e a se submeter às suas vontades, muitas vezes ignorando ou negando os próprios desejos e vontades em nome desse 'amor'. Vejo aí dois problemas: isso é machismo e isso não é o que eu entendo por amor. O gatilho para esse post foi uma notícia (aqui) e alguns comentários em um grupo do Facebook.


Isso é machismo

Formas de arte são apenas histórias e entretenimento. Certo? Errado. A arte, como qualquer forma de discurso humano, carrega ideias que dão sustentação ao que acontece. Nós entendemos algo como coerente quando essas ideias estão afins com algo que nós acreditamos ou que reconhecemos que os outros acreditam. Pergunta teste número 1: esse livro pareceria coerente se fosse a história de um homem rico e bem sucedido que se submete a uma mulher e passa a abrir mão de sua própria vida em nome dela? Suponho que não (e tampouco ele carregaria uma mensagem melhor).

Certo, e qual é o discurso dominante neste livro? O do machismo, ou seja, da supremacia do homem sobre a mulher. De acordo com os discursos machistas, a mulher é um objeto para o homem. O problema é que nem todo machismo é óbvio e ululante. Vamos a exemplos mais cotidianos? Hoje vi uma foto no Facebook de mulheres tirando selfies, aquelas fotos de nós mesmos no espelho, e embaixo uma outra imagem mostrando um bando de louça suja. A narrativa é bem óbvia: "fica aí se mostrando e se fotografando ao invés de cumprir seus deveres". Novidade: lugar de mulher não é na cozinha, é onde quiser. Pergunta teste número 2: que tal a gente substituir as mulheres se fotografando por nerds jogadores de videogame ou por frequentadores de academia? É, não seria a mesma coisa. Por quê? Porque nossa sociedade sugere que é da mulher o dever de limpar a casa enquanto o macho providencia o sustento e, claro, manda em tudo.

Quando um livro é publicado e alcança o sucesso que Cinquenta tons de cinza alcançou, é importante refletirmos sobre o papel social que ele tem. Milhares de pessoas estão assimilando sua narrativa sem sequer considerar que ela pode ser espelho de um comportamento cruel. Esse comportamento, repetido na mídia à exaustão, assume o caráter de normalidade e passa a servir de exemplo sobre como as coisas são. Ou seja, não é a leitura do livro que vai te transformar em um machista. É o machismo já entranhado nas veias do leitor que vai encontrar conforto e se tornar ainda mais difícil de sair.

Isso não é amor

Eu certamente não sou especialista em amor, mas o entendo como um sentimento que busca o bem do próximo. O bem do próximo, para mim, envolve não negar a subjetividade da pessoa e não criar uma grade em volta dela. Amor não é controle, não é exercício de poder sobre outra pessoa. Amar é cultivar, é gostar, é dar atenção e carinho, é proporcionar felicidade. Já escrevi algumas várias vezes sobre amor (aqui) e por isso vou manter o tópico curto.

O resumo é: fazer com que uma pessoa abra mão da própria vida em nome de outra pessoa não é amor, é egoísmo.

O que nós escritores temos a ver com isso?

Certo, o mundo no qual vivemos está estragado e cheio de exemplos ruins. Danou, então, né? Quase. Nós escritores e artistas temos na mão um poder muito interessante, o de convidar pessoas às nossas narrativas e com elas oferecer outros mundos possíveis. Não estou dizendo que devemos escrever só histórias boazinhas de pessoas que encontram o 'amor verdadeiro' sem desafios nem preconceitos ou machismos. Salvo ficções científicas dedicadas à utopia, nossas histórias se passam em mundos maculados por esses problemas.

Aí que está a questão: nós não devemos reproduzir esses problemas inconscientemente. Nosso trabalho é importante demais para que não estejamos conscientes do que fazemos e de quais discursos estamos reproduzindo. Como escrevi esses dias na Raposa do Face, peço apenas coerência: quer ser machista, sexista, homofóbico, racista, transfóbico etc? Beleza, mas assume. Isso se chama honestidade intelectual, algo que só é possível quando a gente sabe o que está fazendo.

Tu sabe o que está fazendo quando escreve?
Sabe quais discursos está reproduzindo através das tuas letras?

Se não, convém estudar mais.

sexta-feira, maio 17, 2013

Você sabe o que significa ser normal?

"Você não está sendo oprimido quando outro grupo conquista os direitos que você sempre teve". Essa é uma das frases que circulam na internet na tentativa de conscientizar as pessoas que absurdos como preconceito contra heterossexuais e marchas do orgulho branco são somente isso: absurdos. Afinal, como sabemos, o padrão da normalidade é criado em nossa sociedade por uma série de características arbitrárias: a cor da sua pele, a sua anatomia sexual, quanto dinheiro há em sua conta bancária, o tipo de relacionamentos estáveis mantidos, a sua crença monogâmica em alguma divindade, o seu acesso cultural a uma forma específica de arte e entretenimento etc.

curva normal
Encontrei aqui: http://www.anormais.com.br/

Estatisticamente, agrupamentos de pessoas têm a tendência de parecer como essa curva aí. A linha do meio é o ponto médio, com maior quantidade de pessoas. São as características medianas, típicas, mais prováveis de serem encontradas entre qualquer sujeito que puxemos do grande grupo. Quanto mais para esquerda no gráfico, menos temos daquela característica. Quanto mais para direita, mais temos. Para fins de ilustração, vamos pensar no quociente de inteligência: a grande maioria está ao redor do meio, que concentra 68,2% da população. É muita gente.

A área em azul escuro está a menos de um desvio padrão (σ) da média. Em uma distribuição normal, isto representa cerca de 68% do conjunto, enquanto dois desvios padrões desde a média (azul médio e escuro) representam cerca de 95%, e três desvios padrões (azul claro, médio e escuro) cobrem cerca de 99.7%. Este fato é conhecido como regra 68-95-99.7, ou a regra empírica, ou a regra dos 3-sigmas. (copiado diretamente da Wikipedia)

Em termos práticos, ser normal significa se encaixar nessa faixa azul mais escura. Quanto mais distantes dessa medida média, menos gente tendemos a encontrar, tanto para menos (esquerda) quanto para mais (direita).

Então é bom ser normal, certo?

Depende. Na verdade, não é nem bom nem ruim. É normal. Só isso. Contudo, acontece em nossa sociedade ocidental um tipo de pensamento binário que funciona assim: a gente é ou uma coisa, ou outra. É homem ou é mulher. É alto ou baixo. É rico ou pobre. É feliz ou triste. É hetero ou homossexual. É ativo ou passivo. É magro ou gordo. A essa altura, creio que já está bastante evidente essa polaridade, mas não podemos esquecer de mais uma: bom ou ruim. Todos os primeiros elementos destes binários são considerados positivos, enquanto seus opostos são considerados negativos. Por essa lógica, ser homem é melhor, em nossa sociedade, do que ser mulher. Todos nós sabemos o quanto isso é um absurdo, não? Bem, deveríamos saber.

Então, ainda que ser normal não seja em si nem bom nem ruim, nós o colocamos no binário normal x anormal. Obviamente, o 'anormal' está pareado com 'ruim', portanto fazemos cara feia e desgostamos.

E se o normal fosse ser o que é?

Nas aulas que leciono, meus alunos são proibidos de usarem as palavras 'normal' e 'normalidade', uma vez que entendemos que qualquer normalidade decorre de um ponto de vista específico (que por tabela está ignorando as experiências e vivências de todo um grupo de pessoas que não está enquadrado no 'normal'). Junto com isso, busco aprofundar com eles o entendimento de que os conceitos não são meramente opostos, eles são complementares, dependentes de uma posição determinada para serem compreendidos. Uma perspectiva.

Desafiar o paradigma binário da normalidade não é fácil. Na verdade, é até pouco inteligente, de um ponto de vista egoísta, caso nós desfrutemos dos privilégios de sermos normais. Como uma raposa que vez ou outra experimenta ser humano, porém, faço um convite: que tal tentarmos ser menos normais e mais humanos?

sábado, fevereiro 23, 2013

Nudez em público

Hoje vi um vídeo (ou melhor, vi citarem um vídeo, não tive paciência de efetivamente ver o vídeo) sobre um casal transando no mar. Sabe aquela coisa de gravar os outros fazendo sexo, porque fazer sexo é sexy e chama a atenção? Isso me colocou pensando numa questão que sempre volta a aparecer: por que não podemos transar em público?

A coisa vai mais longe e levanta probleminhas anteriores: não podemos andar pelados na rua. Salvo engano, se eu sair caminhando com o pinto balançando a olhos nus, posso ser preso. Por quê? Já antevejo multidões se erguendo e gritando "porque é imoral!", mas essa é uma resposta fraca, pelo menos para quem está buscando motivações racionais (e laicas) para tal proibição.

Le Concert Champêtre – Giorgione

O que há de tão perigoso em um corpo desnudo? É o tesão alheio que preocupa? Viver em sociedade significa abrir mão de uma série de liberdades, compreendo, mas por que a de tirar a roupa onde quiser é uma delas? Essas são questões que eu não sei ainda nem por onde começar a responder. Pensando rápido, posso pensar que é uma estratégia para conter os impulsos sexuais, talvez algo trazido pela moral cristã. Posso também estar sendo preconceituoso, já que sempre acho que toda repreensão moral vem da Bíblia.

Roupas fazem sentido num contexto gelado como a Europa. Nós fomos colonizados por europeus. Seres humanos atribuem valor simbólico às coisas que usam. Provavelmente a economia tem algo a dizer sobre isso, já que roupas mais caras e com tintas menos acessíveis provavelmente se tornaram representativas de maior riqueza e status social. A pergunta é: por que continuamos enxergando as roupas assim?

Ano passado eu já havia começado a pensar sobre isso, como meu post sobre Henry Scott Tuke revela e também meu artigo apresentado em um Congresso no Rio de Janeiro.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Eu não sou gay

Esses dias disse que eu era gay e um amigo já apontou o dedo "arrá, desistiu de te indefinir!". Não. Esses dias também falei, em outro espaço, que era bi. Debatendo com alunas, mencionei a possibilidade de, num contexto específico, haver sido heterossexual. Para todos, encerro com a mesma resposta: sou raposa.

"Eu não sou gay, hetero, bi ou lésbica. Eu amo, simplesmente".

Ser é sempre algo muito complicado. Não é tanto uma questão de não ter coragem de assumir, de não estar confortável com ser A ou B. O problema, aos meus olhos, é ser obrigado a conformar (ou mesmo lidar, já que não preciso levar em conta a opinião alheia na maior parte das questões da minha vida) com uma série de expectativas que já vêm prontas no kit "isso é ser gay", "isso é ser bi". Ontem ouvi alguém falar que ser gay tem algo a ver com ser afeminado (como se "ser feminino" ou "ser masculino" fossem definições muito claras...).

O que eu defendo é a possibilidade de sermos sem caixinhas, sem o imediato entendimento e julgamento daquilo que estamos vivendo. Eu repudio o famoso "nossa, tu é isso, então como tu não gosta de tal coisa"? Gostaria muito de não me importar com o olhar e o dedo alheios, mas isso infelizmente ainda não é uma realidade, tampouco acredito que virá a ser tão cedo para mim ou para o resto do mundo. O jeito, ainda me parece, é educar.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O olhar heterossexual 2

Depois de ontem, fiquei pensando e lembrando da minha infância. Eu tinha um vizinho que era uns dois ou três anos mais velho que eu, no máximo. Toda vez que eu chegava ou saía de casa, ele gritava com aquela voz rouca: "ô putão", "viado", "bixa". Obviamente, eu odiava ele – o que, pelo jeito, era recíproco. Bastava ele me ver para começar a me xingar. Eu, como de costume, baixava a crista e seguia meu rumo, incomodado, mas não o suficiente para ter alguma reação mais explosiva ou violenta. Aliás, incomodado, mas com bom senso o bastante para preservar meus dentes.

Mais de uma vez eu cheguei à conclusão perfeita sobre como solucionar aquele problema. Bastava me oferecer para chupar o rapaz. Ele ficaria feliz, eu ficaria livre da coisa toda. Ao contrário do que os meus pensamentos da época podem sugerir, eu era uma criaturinha bastante ingênua. E virgem. Continuei sendo, aliás, por mais vários anos. Não que isso tenha alguma importância em si, mas é só para deixar claro que com 10, 12, 14 anos eu já sentia que sexo era algo tinha um baita poder.

Conto essa história porque ela tem uma série de coisas a revelar sobre como eu via o mundo quando criança. Antes de tudo, eu não compreendia que aqueles xingamentos tivessem algo a ver com eu gostar de meninos e não de meninas. Diga-se de passagem, naquela época isso ainda não estava muito claro para mim. OK, eu gostava de meninos, sentia atração e prestava mais atenção em homens do que mulheres nos poucos filmes e quadrinhos pornôs que eu tinha oportunidade de ver. Ainda assim, nada daquilo significava que eu fosse alguma coisa. Certamente não "putão, viado ou bixa".

O meu vizinho não me xingava por algo que eu era. Pelo contrário. Meu vizinho me xingava por algo que eu não era. Eu não agia todo machinho, não jogava futebol como todos da quadra, provavelmente era um guri delicadinho, loirinho e meiguinho. Qual o problema? Ora, todos sabem que os seres humanos que nascem com pênis devem ser grossos, fortes, brigões. Eu não era nada daquilo, portanto era parte do dever sagrado dele, como portador do olhar heterossexual, apontar para mim e garantir que o mundo soubesse disso. Eu era diferente. Eu não era normal.

Fonte: http://www.citelighter.com/science/psychology/knowledgecards/homophobia

Dali pra frente eu cresci e cruzei cada vez menos com esse vizinho. Chegou um tempo em que ele parou de me provocar, não sei bem o motivo. Aliás, não sei se alguma vez qualquer coisa que ele tenha feito em relação a mim foi com motivo (não, eu jamaaaais estaria duvidando da capacidade intelectual dele). É só que o poder da heterossexualidade/normalidade é tão comum e invisível que as coisas simplesmente são como são, as pessoas riem de quem passa, apontam o dedo e gritam. Eu, por fugir da norma, precisava imediatamente ser colocado de volta no meu lugar. No meu lugar correto, de machinho. A vida está cheia de exemplos piores de como isso é feito.


Esse texto é uma continuação do post anterior, O olhar heterossexual.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

A primeira camisinha

Dizem que o primeiro sutiã a gente nunca esquece. Eu não sei, ainda não vesti o meu primeiro, mas tenho certeza que, na sociedade em que a gente vive, vesti-lo provavelmente seria uma situação marcante e inesquecível.


Enquanto eu lia o livro Cem homens em um ano, da Nádia Lapa (sobre o qual escreverei em algum momento futuro, espero que até o fim de semana), um dos relatos que ela faz me chamou a atenção justamente por tratar de um fulano que parava na farmácia para comprar camisinhas e, cheio de pudores, sempre comprava também sabonete líquido como "desculpa" para ter ido à farmácia. Como se transar fosse algo que precisasse de permissão ou, pior, de ser desculpado pela sociedade.

Eu escrevi essa semana sobre o fato de que professores também têm vida sexual. Fiz isso não para dizer "vejam, eu transo" ou "notem, mesmo sendo um professor homem, eu posso namorar outro cara". É muito mais do que isso. Eu escrevi para mostrar, para tornar visível algo que a gente normalmente esquece. Ontem meu coordenador me chamou de vulgar, em tom de brincadeira, por falar abertamente de sexo, pau, bunda e boceta na sala de aula. Mesmo brincando, porém, ser vulgar por falar de sexo demonstra o quanto nós precisamos deixar de nos esconder e de fingir que não transamos ou que não queremos transar.

Essa minha postura é muito diferente da que eu tinha há alguns anos. Lembro-me perfeitamente não do primeiro sutiã, mas da primeira camisinha que comprei. Eu teria um encontro naquela noite (com aquele que viria a ser o meu primeiro namorado, mas não sabíamos disso ainda) e entrei na farmácia meio confiante, meio amedrontado. Fui lá, todo pimpão, crente de que minha noite terminaria em sexo (não terminou). Olhei as embalagens de camisinha, tentando entender as diferenças de cores e nomes e marcas, até que senti o olhar de uma atendente e ouvi as piores palavras que poderiam aparecer naquele momento: "posso ajudar?". Resultado? Peguei o primeiro pacote que estava ao alcance das mãos (daquelas com bolinhas pra estimular o parceiro, sabe?), agradeci e fui imediatamente ao caixa. Não comprei nenhum sabonete liquido (ainda não sabia desses truques!), mas se tivesse algo à venda que reduzisse vermelhidão de vergonha, eu teria levado na hora.

terça-feira, dezembro 11, 2012

As invisíveis

Já falei disso em outra ocasião, perguntando como a gente sabe quando não sabe de algo. A dúvida continua e creio que jamais vai me abandonar. Desta vez, ela foi disparada com uma imagem.


Meu primeiro pensamento foi: "mais uma narrativa do branco generoso que vai lá e salva o negro sofredor". A caridade, no caso, estaria reforçando a ideia de que negros precisam de cuidados advindos de brancos, que podem cuidar, que podem dispor de seu tempo para "ajudar" aos outros. Isso, claro, ignora anos de opressão. Estão  imagem e mensagem sendo veladamente preconceituosas? Essa questão voltou a me incomodar semana passada, quando reli o parecer de um dos professores na minha banca de defesa do mestrado, que dizia o seguinte:

De outra parte, também cheguei a me perguntar se o texto não estaria trazendo muitas evidências (imagens, textos, referências) sobre homossexuais homens? Afinal, muito pouco ou quase nunca referes ou apresentas imagens ou referências textuais sobre as mulheres lésbicas ou mesmo travestis, para além de Laila? Mesmo quando são as tuas entradas de texto-imagem, não as das interlocutoras ou interlocutores, as imagens são sempre masculinas.

Na hora em que ouvi isso (pois me foi lido) e nos meses seguintes, pensei indignado que eu não era obrigado a mencionar aquilo que não me interessava pesquisar. No caso, meu foco era homossexualidade masculina e eu acreditava que da forma que o texto da dissertação se desenvolvia, isso ficava claro. E ficava.

O que também ficava claro, ao menos para bom entendedor, é que eu estava excluindo e invisibilizando a importância de outras personagens que também compõem o espectro da sexualidade. Eu não estava ativamente dizendo que lésbicas, travestis e transexuais não me interessam enquanto tópico de investigação ou reflexão, ou que mereceriam menos atenção que homens homossexuais. Isso sim seria um baita preconceito, não é? O que eu fiz foi ignorá-las, considerando que não era necessário sequer mencionar sua existência. Talvez eu esteja sendo exagerado, mas parece-me o mesmo que falar de "padrão de beleza ocidental" e não mencionar que ele desconsidera corpos negros. Ou asiáticos, gordos, queer etc.

Eu já escrevi sobre preconceito antes aqui e não quero me alongar muito. Queria apenas manifestar, neste texto, o quanto essas questões estão presentes em minhas reflexões e o quanto eu não enxergo nenhum horizonte próximo de solução para elas. Não sei nem o que seria uma "solução". O que fica de conselho, desta vez, é mais um convite: que tal tentarmos sempre percebermos o que ou quem estamos tornando invisíveis pelas escolhas que fazemos? Sobre quem (no sentido de "em quem estamos pisando") estamos construindo nossas percepções da realidade?

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Só não pode ficar calado

Quando criança e adolescente, eu era franzino, tímido e não muito social. Até a oitava série, pessoas do ensino médio passavam por mim e me xingavam. Havia um menino – pelo qual eu desenvolvi um misto de nojo e ódio – que passava por mim e chamava de bixa, que tinha um olhar pesado, um olhar que me fazia sentir mal só de saber que existia. Ele pegava o mesmo ônibus que eu e sempre me olhava na hora de descer e falava alguma coisa. Bem, ele não falava, apenas gesticulava com boca. Bixa. Viado. Morre.

Havia também um outro menino do ensino médio que me provocava. Quando passava por mim, ele me bolinava. Eu tinha medo daquilo. Uma vez me puxou para um canto dizendo que queria ficar comigo. Ou que tinha alguém que queria ficar comigo, algo assim. Eu era absolutamente inocente nessa época, não conseguia me imaginar ficando com pessoas. Não sei o que, exatamente, disparava esse medo crônico de beijar ou transar com alguém, mas era basicamente o que me definia. Eu fugia. Obviamente fugi dele. Quando reclamei para uma supervisora, o rapaz disse que estava apenas brincando. Na cabeça dele, talvez estivesse mesmo. Ficou por isso.

No ensino médio, em outra escola, as coisas não foram diferentes. Lembro perfeitamente do dia em que as aulas do segundo ano começaram e eu cheguei atrasado. Perguntei à professora se podia entrar e, após confirmar que aquela era de fato a minha sala, um colega (o tipo é bem reconhecível: grandão, com cara e corpo de adulto, aquele que todo mundo pensa que já reprovou trinta vezes) grita "gay" enquanto esconde o rosto. Uma coisa meio "ninguém viu que fui eu".

"Idiota, perdedor, estranho, tonto..."

O problema é que todo mundo sabia quem fez. Outro problema é que todo mundo sabia que eu provavelmente não estava gostando daquilo. E, claro, ninguém fez nada a respeito além de rir de mim.

Daí aos poucos aparecem pessoas interessadas em fazer a diferença. Surge o projeto It Gets Better, com a mensagem de que devemos resistir a esses tormentos juvenis, pois no futuro teremos força e poder para lidar com eles. Acho que, para algumas pessoas, isso faz sentido. Infelizmente, a vida não é justa e muita gente ou não aguenta até ter esse poder ou nunca chega a de fato tê-lo. Muita gente comete suicídio. Muita gente se tranca em si mesmo.

"Você não pode se livrar dos seus medos, mas pode aprender a viver com eles"

Não sei se havia algo que eu pudesse ter feito, sendo quem eu era, contra esses insultos e ataques. Acredito que não. Eu não sabia a quem recorrer e muito menos entendia o que estava acontecendo. Na época desses insultos, eu não era gay. Não era viado. Os menores pensamentos que eu tinha nessa direção eram tão reprimidos que eu acreditava firmemente que gostava de meninas – ao ponto de me apaixonar por elas – e fazia o possível para viver essas paixões. Do meu jeitinho tímido e calado, é claro. Escondido, inclusive. Platônico.

O que poderia ser diferente? Hoje eu vejo da seguinte forma: alguém com mais consciência do que eu poderia não ter ficado calado. A orientadora pedagógica que me atendeu um dia poderia ter me ajudado a enxergar a vida, ao invés de dizer para o meu melhor amigo se afastar de mim porque eu era uma má influência para ele. Os meus colegas poderiam ter me defendido. Não é questão de "ser fraco" e precisar ser defendido sempre. É questão de ensinar àquele que ainda não sabe que pode ter voz, ter força, resistir. Pode lutar pelo que acredita, pelo que vive, pelo que sente. Ou, se não por nada disso, pode simplesmente lutar para ser o que é, o que vem sendo ou o que se quer ser.

Pode tudo, só não pode ficar calado. Professor: não fique calado. Colega: não fique calado. Amigo. Irmão. Pai. Mãe. Vizinho. Pessoa desconhecida na rua.
Se a gente se cala, ajuda também a calar quem poderia estar sendo mais do que é.


quarta-feira, dezembro 05, 2012

Cem homens em um ano

Eu concordo totalmente com a última postagem do Cem homens em um ano. Se tem algo que eu defendo veementemente é o direito e a liberdade da sexualidade alheia, independente da idade. Não sei nem quero estabelecer um ponto que separe "infância pura assexual" de um momento "ok, estou pronto para trepar". Esse ponto vai ser diferente para todo mundo, como basicamente qualquer coisa no desenvolvimento humano. Aliás, como a autora do blog explica, não existe "infância pura assexual", já que somos seres sexuais desde que nascemos.

O projeto original do blog Cem homens, aliás, é muito interessante. Ela decidiu contar virtualmente a experiência de transar com cem homens ao longo de um ano. Parece simples, parece putaria, parece bobagem. Pode até ser tudo isso. A grande questão é que, como feminista, a autora discute temas que escapam à compreensão mediana e, com isso, toca pontos interessantes. O principal: por que diabos julgamos tanto a sexualidade feminina, enquanto ignoramos a masculina? Se o blog fosse "Cem hímens em um ano", será que estranharíamos? Será que estranharíamos tanto um homem querendo comer cem mulheres no lugar de uma mulher querendo dar para cem homens? Isso se chama desigualdade de gênero. Dá pra chamar também de hipocrisia.

Hoje a autora já completou a missão e agora escreve, em geral, sobre as bobajadas que as pessoas publicam na internet, como no post cujo link eu trouxe aqui hoje. Leio sempre que posso, na esperança de aprender mais sobre modos de lidar com a ignorância humana relativa à sexualidade (dentro da qual englobo gênero, desejo, corpos, práticas, prazeres e mais um caminhão de coisas).

Já escrevi algumas vezes aqui sobre esses temas:
- por que falar de sexualidade na escola?
- a marcha das vadias de Goiânia
- publicidade com pais gays
- como ensinar sobre sexualidade?
- a tal democracia e a sexualidade
- um pouco sobre a academia e as sexualidades

Há muito o que se pensar sobre sexo, gênero, desejo, prazeres... Fica aqui o meu convite =)

sábado, julho 07, 2012

Marcha das vadias

Hoje rolou em Goiânia a Marcha das Vadias. De início, fiquei meio receoso pela pouca quantidade de pessoas, mas nada impediu o movimento e o barulho. Conforme a trupe avançava pelas avenidas Dez e Goiás, mais e mais pessoas se juntavam ao grupo, tornando-o um movimento certamente compacto, mas chamativo. Entre os participantes, um clima envolvente de protesto e companheirismo. Em meio às vadias, se é que não posso me considerar uma, encontrei demonstrações felizes de que há desejo de mudança social.


As reclamações das vadias são diretas: direitos iguais para todos. Não se trata de abraçar uma permissividade doentia, como alguns acusam, mas sim de defender o direito à gerência dos corpos pelos próprios sujeitos, ao invés de por tradições e instituições moralistas. As mulheres, historicamente afetadas pelo domínio masculino, erguem a voz para não apenas serem ouvidas, mas também levadas em conta.


Diversos momentos na caminhada me tocaram. Em certo ponto, uma senhora me perguntou se eu tinha algo a considerar sobre a presença dela na marcha. Só entendi do que ela estava falando quando colocou na questão a idade, pois tinha cerca de setenta anos. Não, a idade não importa, como também é irrelevante a cor, a classe, o nível de instrução. O respeito e a busca por ele devem perpassar todos e quaisquer marcadores sociais.


No fim das contas, a marcha foi bem legal. Ainda tem muito a crescer, tanto em tamanho quanto em visibilidade (poucos repórteres cobrindo o evento), mas existe ali uma semente que pode florescer. Para concluir a postagem, algumas outras fotos.



















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