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terça-feira, dezembro 10, 2013

Como fazer um professor feliz

Hoje aconteceu algo digno de acordar a Raposa. Cheguei na faculdade feliz e contente para a penúltima semana de aula e dei de cara com uma festa de despedida absolutamente linda preparada pelos meus alunos. Fizeram até um blog com mensagens pra mim!

Estar em sala de aula implica estar em relação e hoje à noite tive a certeza de que alguma coisa eu fiz certo nesses últimos semestres. Não foi perfeito, sem dúvida, mas esse um ano e meio de aulas para três turmas me ensinou tanto sobre docência, sobre pessoas, sobre mim mesmo, que nem sei direito como resumir. Estou há quase uma hora tentando expressar aqui o quanto eu me sinto realizado.

A verdade é essa: eu estou orgulhoso das pessoas que conheci, do tempo que passamos juntos, das coisas que aprendi. Estou muito feliz por ter meu trabalho reconhecido, claro. Ego lá em cima. Ao mesmo tempo, estou feliz por saber que não é só a profissão que está sendo celebrada, não são boas aulas, bons ensinamentos. Não é só isso.

É também a porta aberta para a amizade, algo que a gente sabe bem que é raro, mas que aconteceu.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Algumas coisas fora do meu alcance

O que acontece quando nossos limites (sobre os quais falei para superarmos) não são apenas nossos, mas sim impostos por outras pessoas e instituições? O que fazer quando nossas fragilidades são mais do que falta de coragem? Como lidar caso haja dificuldades que vão além do individual? Dráuzio Varella estabelece uma relação entre inteligência e indigência, por exemplo.

Eu não sei o que pensar sobre isso. Sempre foi muito confortável acreditar que basta disposição individual para superarmos os desafios, mas a verdade é que eu escrevo de uma posição extremamente privilegiada. Talvez outras pessoas gostariam de estar em meu lugar, mas não podem por motivos de tempo, acesso ou mesmo fatiga. Uma coisa é certa: nossa vida não depende apenas de nossas escolhas.

A questão é: o que fazemos a respeito?
Eu sou professor e cada vez mais tenho a certeza de que isso não é o suficiente para realmente alcançar os estudantes e lhes oferecer algo valioso. Ou talvez eu esteja novamente querendo chegar a todos ao mesmo tempo, me concentrando nas ovelhas negras desinteressadas e ignorando as pessoas que realmente podem aprender algo do contato comigo. Ou talvez eu esteja superestimando a minha participação nas vivências alheias.

Aceito sugestões, porque sozinho anda difícil de pensar sobre isso...

quarta-feira, outubro 16, 2013

Os limites que nos colocamos

Eu faço natação há anos. Sempre foi um exercício que me enchia de motivação, que me cansava litros e que me deixava bem disposto por horas. De uns dias pra cá, porém, percebi que isso não estava acontecendo. Eu obviamente cheguei a um nível como nadador em que 45 minutos de natação já não me cansam mais.

Pausa para os risos.


A coisa mais fácil que existe é colocar a culpa pelas nossas facilidades ou dificuldades no resto do mundo. Hoje faltavam 10 minutos para encerrar a aula e a professora pediu que eu fizesse mais 18 piscinas (nesta academia, cada piscina são 25 metros). Como eu normalmente faço menos de uma piscina por minuto, precisaria acelerar um bocado. Fiz as seis primeiras até bem rápido, embora já na segunda eu estivesse completamente sem fôlego. Consegui apenas doze nos dez minutos. Nesse momento lembrei de algo que li sobre a natação enquanto exercício: quem faz a dificuldade somos nós. O exercício só será produtivo para mais do que recreação se desafiarmos nossos limites, se chegarmos àquele ponto no qual estamos confortáveis fazendo algo e forçarmos um pouquinho além.

Enquanto nadava com o máximo da velocidade que conseguia alcançar, percebi que nas últimas semanas tenho feito uma média de 40 piscinas por aula de 45 minutos. O problema não é o tempo ou o tipo de exercício. O problema é o limite que estabeleci para mim, um limite de velocidade e esforço que torna esses 45 minutos mais suportáveis e menos desafiadores. Fazendo 40 piscinas por aula posso chegar em casa depois, inflar o peito e dizer "eu faço natação três vezes por semana, estou me exercitando".

Quando a gente se contenta com a mediocridade e em ficar dentro da nossa zona de conforto, é muito fácil dizer qualquer coisa e acreditar nisso. Difícil é desafiar nossos próprios limites sem colocar a culpa fora de nós.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Deixando o homossexualismo (aff)

Na minha visita semanal à biblioteca estadual encontrei um livro maligno. Eu sempre disse aos quatro ventos que livro não é algo que a gente deva queimar, mas minha primeira vontade foi a de levar o danado até a bibliotecária e perguntar como eles têm coragem de expor aquele material nojento num lugar acessível a crianças e adolescentes.


Eu não sei no que acreditar. É muito, muito difícil respeitar a crença de quem defende que eu não deveria existir. Talvez seja assim que machistas homofóbicos psicopatas se sentem quando leem blogs como o da Lola. Nem posso dizer que minha crença é melhor do que a deles só porque não quero que eles morram lenta e dolorosamente (não sempre, ao menos).

A verdade é que busco um jeito para a minha forma de ver o mundo ser hegemônica. A verdade é que estar vivo em sociedade é sempre uma guerra em busca de definir qual ponto de vista predominará e quais serão extintos pelo caminho. Que vivências serão consideradas normais, que experiências serão julgadas como más ou inumanas. Por eu não haver nascido há mil anos, acho que matar para alcançar os meus fins e preservar meus afetos não é uma possibilidade cogitável. O que realmente me incomoda é que meus algozes não jogam pelas mesmas regras.

terça-feira, outubro 01, 2013

Minorias preconceituosas

Ser parte de minorias não te impede de ser preconceituoso. Ponto. Exemplo básico que ouvi esses dias: uma moça negra lésbica viu um rapaz hetero branco de cabelos claros sentado na mesma mesa que ela e amigos em comum e disparou "você é tudo que eu desprezo".

Pausa para avaliar o quanto essa pessoa foi cretina. É, idiota mesmo, trouxa, palhaça, inadequada para o convívio com outros seres humanos. De onde veio esse desprezo todo por uma pessoa baseado numa série de informações superficiais? O que há de tão odioso em ter uma cor de pele, um pênis e uma namorada? No mundo dessa gentil moça, muita coisa. Não vou negar nem de longe que zilhões de ofensas e ações cruéis ao longo da história vieram das mãos de sujeitos com essas mesmas características, só que nada disso faz dele perpetuador desses atos.

Trago-a como exemplo para refletirmos brevemente sobre esses paradoxos ambulantes. Homossexuais homofóbicos e mulheres machistas, por exemplo. Volta e meio vejo gays criticando pessoas "afetadas", ou seja, homens afeminados e mulheres masculinas. Sério, gente? Além da obviedade de o comportamento alheio não ter nada a ver com a gente se não estiver prejudicando ninguém, qual é o problema de um homem agir afeminadamente? (seja lá o que for isso, discussão complexa que vamos guardar para outro dia) Tem a ver com pensarmos que mulheres são inferiores aos homens? (olha o machismo aí) E mulheres masculinas, será que não gostamos porque estão ousando ser "mais" do que são? (olha o machismo aí de novo) Temos também as famosas mulheres machistas, doutrinadas por um sistema que se sustenta em pisar nas mulheres e em obrigá-las a servir apenas de alimento para os desejos machos.

"O ódio é fácil; o amor exige coragem".

Acontece que é difícil escapar desse tipo de pensamento nocivo, por mais que ele seja contra nós mesmos ou contra pessoas que compartilham espaços semelhantes no mundo. Sofrer não é pré-requisito para a solidariedade. Para escapar do círculo vicioso do ódio (contra si mesmo, inclusive) é necessário aquele tipo particular de coragem sobre o qual escrevi recentemente. É coisa que se aprende, que se ensina, que se compartilha.

Odiar é um hábito ruim contra o qual temos que lutar. Se aceitamos alguém odiando perto de nós, estamos permitindo que alguém seja odiado. Ao fazermos isso pactuamos com dois pensamentos: que é certo odiar e que ninguém vai mover um dedo para evitar que outras pessoas sejam odiadas. A vida muda pelo exemplo e a coragem cresce junto. Fecharei esse texto com Gandhi: "Olho por olho torna todo o mundo cego". O ódio direcionado contra o outro nunca é algo positivo. Não quer dizer que o desgosto não possa nos motivar a agir, que a irritação e o desejo por mudanças não possam nos dar forças. Quer dizer apenas que não devemos repetir sobre os outros aquilo que odiamos que façam conosco. Espero que a moça-exemplo lá do começo leia esse texto e reflita.

domingo, setembro 29, 2013

Sobre ter coragem, parte 2

Quando escrevi sobre ter coragem para enfrentar o mundo, esqueci de mencionar uma coisa muito importante. Eu acho sim que muita gente nasce com uma espécie de dom para tomar as rédeas de vida e sair galopando, enquanto outras se encolhem para não serem pisoteadas. Contudo, não somos feitos somente do que vem de fábrica: aprendemos muito pelo caminho.


No começo desse caminho temos pelo menos duas instituições importantíssimas: a família e a escola. Isso para nem entrarmos na discussão sobre igrejas, mídia, vizinhos etc.

Lembro que, quando criança, aprendi muito sobre como eu não deveria ser, as coisas que deveria não fazer. Vou aqui citar o Mario Quintana, li hoje uma entrevista dele que fala por mim:
Como eu era o caçula, todos me observavam, me aconselhavam, me dirigiam. Havia um mundaréu de coisas que não se podia dizer, que não se podia fazer.
Parece que meu irmão foi o teste enquanto a minha vida era pra valer: todos os equívocos e medos surgidos pela existência dele foram repensados e reorganizados para que eu não repetisse qualquer ponta de decepção. Aprendi criança que não poderia falar alto, chamar atenção, fazer traquinagens nem nada. Sempre fui muito consciente dos limites e muito hábil a colocá-los na vida real, deixando apenas à imaginação a louca tarefa de se transgredir.

Já no colégio, provavelmente por esse silêncio que aprendi a cultivar frente a autoridades, fui vítima fácil de bullying. Eu era pequeno, meiguinho e frágil, uma combinação perfeita para aqueles que não tinham tantas reservas em torturar as existências alheias. Se a escola é o espaço de treinamento para a vida em sociedade, estava muito claro desde o início que o meu papel era o de baixar a cabeça e sofrer calado.

Aos poucos, porém, a gente vai aprendendo. É nesse lento aprender que tenho procurado caminhos que sejam meus no processo de ser quem sou. Conforme "me assumo", vou tomando coragem de manter esses espaços e essas experiências. Sou raposa, gay, escritor, amigo, professor, namorado. Hoje só consigo me posicionar em cada um desses nomes porque sei que eles não são o suficiente para me resumir, algo que eu gostaria de ter aprendido ainda criança.

É muito por isso que ensino e escrevo: para que talvez as palavras que sopro cheguem ao ouvido de alguém e façam a diferença que um dia fizeram por mim. "É possível".

terça-feira, setembro 17, 2013

Aquele olhar

Entro na sala toda semana e invariavelmente alguém me dá aquele olhar. Eu não saberia descrever, mas acho que todo professor conhece. O olhar da criatura parece te secar, é quase um beijo de dementador. Sentada lá no fundão, a pessoa mal aguenta a cabeça nos braços e fica te lançando aquela mirada de desprezo e cansaço misturados com sono.


No início da minha carreira docente presencial (err, ano passado) eu ficava muito tristinho quando percebia esses olhares entre meus alunos. Na minha cabeça, isso significava que a minha aula estava chata, que minha maneira de explicar era ruim ou algo desse gênero. Que talvez se eu fosse diferente os olhares seriam outros.

Hoje, um pouco mais confiante, sei que não há como evitar que me olhem assim. A verdade é que não estão me olhando, mas olhando a vida. São pessoas cansadas, insatisfeitas consigo mesmas ou talvez estressadas com o filho, o cachorro, a mãe, o futebol etc. Eu posso tentar ajudá-las a olhar para o mundo de outras maneiras, em particular dentro da sala de aula. Entretanto, não posso fazer mais que isso. É um passo, uma mãozinha estendida e olhe lá.

O resto depende de quem olha.
De quem quer olhar.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Os russos me confundem

Então na Rússia é proibida propaganda homossexual para menores de idade. Não, eu não vou passar o texto inteiro reclamando sobre como essa lei é retrógrada e viola os direitos humanos e é mais um exemplo de como a humanidade anda precisando de uns corretivos. Não, também não vou citar a onda de violência contra sujeitos homossexuais que vem aumentando desde que o ódio foi institucionalizado e legalizado. Acho que já somos grandinhos o suficiente para sabermos que censurar o direito do outro de existir não é bom para ninguém, muito menos para as crianças.

A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.


Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.

É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.

Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.

Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).

Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Teoria queer (parte 3)

Esta é a terceira e última parte da série sobre a teoria queer. Isso não quer dizer que não escreverei nunca mais sobre ela, apenas que estou concluindo aqui esse projeto de introdução às ideias estranhas que ela propõe.

Deborah Britzman (1995) sugere, para uma pedagogia que se possa dizer queer, o que chama de três técnicas: o estudo dos limites, da ignorância e das práticas de leitura. Para a autora, é muito importante considerar o que temos permissão para pensar e que perguntas não deveríamos fazer dentro da sociedade com a qual negociamos. Desse ponto de vista, é necessário questionar os limites impostos ao saber e duvidar dos conhecimentos já estabelecidos, em particular os que se sustentam em oposições binárias. O que define, e a partir de quais critérios, que tópicos são relevantes de serem pensados em determinados contextos? Pensar os limites significa também levar em consideração de que forma a normalidade é produzida e que efeitos ela tem, principalmente (mas não apenas) nos sujeitos que se situam fora dela. A teoria queer “constitui normalidade como uma ordem conceitual que se recusa a imaginar a própria possibilidade do Outro precisamente porque a produção da alteridade como externa é central para seu próprio autorreconhecimento” (BRITZMAN, 1998, p. 82). Aos nos preocuparmos com os limites, também surge o questionamento sobre quando acreditamos que sabemos o suficiente sobre uma outra pessoa a ponto de nos crermos capazes de falar sobre (por) elas ou de determinar o que devem saber ou não.

A ignorância, num entendimento queer, não se trata do oposto ao conhecimento ou da falta deste. Ela é, na verdade, um efeito do modo como se conhece, uma relação com as informações que opera de tal maneira a colocar o sujeito em posição de não interagir com determinados conhecimentos. Portanto, antes de se perguntar por que um indivíduo não compreende algo que cremos que ele deva aprender, é essencial buscar de que saberes ele dispõe e quais considera pertinentes para a sua vivência.

O modo como o sujeito interage com o mundo, os textos que lê, as imagens de que se apropria: sem a compreensão dessas questões o ensino fica comprometido. É necessário entender qual a posição desse sujeito estudante, de que forma ele entra em contato com um conhecimento diferente daquele que já carrega como parte de si e como se dá a sua relação com o desconhecido. De que maneiras o que ele não conhece reorganiza, desmonta ou bloqueia seus pensamentos? Como se estabelecem conexões com o que ele já conhece, de que forma um texto muda ao ser lido por ele em um momento ou em outro? Qual é o esforço, impacto ou estresse produzido ou exigido para lidar com o que ainda não se sabe, ou para deixar de conhecer algo de uma determinada maneira? Conforme comenta Gablik (1994), existe um forte investimento emocional nas posições já ocupadas pelos sujeitos, uma vez que elas constroem a realidade com a qual eles estão acostumados.

Requisitar que uma pessoa desmonte suas compreensões anteriores, revisite conceitos e reorganize toda sua existência não é um convite simplório. É preciso entender que, como recorda Britzman (1995), não é uma mera questão de recusa ou resistência ao conhecimento, mas o conhecimento que se tem é uma forma de resistência. Também se faz necessário perguntar, como faz Luhmann (1998), de que maneira o leitor se insere no texto, em oposição ao que o autor quis dizer ou como a leitura deveria ser compreendida, e de que modo determinadas identificações se fazem possíveis ou impensáveis.

Além de se perguntar como um professor pode endereçar tópicos sobre (homo)sexualidades em sua atuação, também cabe refletir sobre o porquê. Creio que a minha resposta decorre do que Villela e Ratto (2009) chamam de projeto de existência: acredito que a função do educador não é oferecer conteúdos padronizados, mas sim construir junto com os estudantes condições para vivências significativas e protegidas contra opressões. Isso significa que a sala de aula se transforma em um espaço tático, um local em que o educador pode assumir uma postura combativa frente a verdades estabelecidas e noções carregadas sem questionamento.

Entretanto, mesmo o desejo de mudança abraçado pelos estudantes pode enfrentar adversários inesperados, algumas vezes encrustados nas próprias iniciativas que se tentam libertadoras. Conforme aponta Kevin Kumashiro (2002), o desejo de seus estudantes lutarem contra a opressão se limitava a não perceber de que maneira eles próprios eram privilegiados e, nesse sentido, cúmplices. Percebi essa mesma resistência se configurar quando os alunos em meus cursos questionavam se eles não tinham o direito de se sentirem ultrajados pela presença de um corpo estranho ocupando o mesmo espaço que o seu. O desconforto com o diferente figurou como uma desagradável surpresa entre as percepções que tive ao longo deste estudo. O desejo de ajudar o outro e de tomar ciência de suas aflições enfrenta a barreira do conforto do observador. Parece importante, nesse contexto, que a separação eu-outro permaneça real e visível, de modo a não produzir rupturas na noção de si (próprio) ou no entendimento do anormal.

Lutar contra comportamentos e situações que se mostrem opressivos a sujeitos por conta de características e ações pessoais que não dizem respeito a outros indivíduos é o que tem me motivado a insistir na minha construção como pesquisador e educador. Auxiliado pela cultura visual e pela teoria queer, o ato de percorrer esse caminho não tem sido reto como se poderia esperar, tampouco claro e sem desvios.

quarta-feira, agosto 21, 2013

Macho que é macho não... existe

Perdoem-me os escritores de plantão, mas eu repito a palavra macho exageradamente nesse texto. Eu mesmo estou me sentindo meio mal, porque não escrevo textos de fantasia há tanto tempo...

Eu não acredito em machos e isso não tem nada a ver com a foto abaixo. Ou tem tudo, deixo o leitor decidir. Eu deixei de acreditar neles há muito tempo e esse texto é a minha tentativa de explicar o porquê.


Eu não acompanho futebol, por isso não saberia nunca que o moço de boina é Sheik, um jogador do Corinthians. Sheik é não só um jogador do Corinthians, mas um jogador do Corinthians autodeclaradamente heterossexual. Aí uma noite ele sai com os amigos e dá um selinho num deles e o mundo desaba.

Sabe por que eu acho que machos não existem? Porque ser macho é tão instável e frágil que basta um selinho num outro cara para que a torcida do Flamen, ops, do Corinthians se revolte e resolva roubar a carteirinha de macho do Sheik. Macho que é macho não beija outro macho.

Ser macho é uma condição tão frágil que a galera precisa ficar repetindo e provando o tempo inteiro que é macho. Quem nunca viu na escola, por exemplo, a ofensa mortal a qualquer macho: xingar a mãe, ops, chamar de viadinho? Homem que é homem tem que gostar de mulher e falar de mulher e pegar mulher e fazer o que for com mulher (ou com o viadinho mais próximo, na falta de mulher, o famoso caso dos heteros que comem viados). Detalhe: homem que é homem só tem amigo homem, fica pelado em vestiário cheio de macho e de vez em quando aperta a bunda do outro pra ver se o outro é macho e reclama (oi?).


O que é um macho? Macho, em uma sociedade machista, é o sujeito que se acredita detentor do Poder do Pênis. Com esse superpoder, ele acha que pode maltratar as mulheres, ops, usufruir das outras pessoas (em geral mulheres, macho só usa outro homem se este for viadinho e ainda assim se ninguém ver... aliás, vamos todos ignorar as brincadeiras de medir o maior pinto, ver quem mija mais longe, bater punheta junto e fazer troca-troca). Todo mundo que nasceu com um pênis tem o dever moral de agir como macho, afinal, tem um pênis. É lógico.

Só que não é fácil ser macho. Macho não chora, não pede ajuda, não erra nunca, não fraqueja, não goza rápido demais, tem pau grande, é musculoso, bate em quem duvida, bate em quem tem alguma certeza contrária (o que não é difícil, porque machos geralmente têm poucas certezas – poucas em quantidade, fique claro), bate em que não é macho... Ser macho é tão complicado que há uma polícia especializada em verificar se outros caras são machos, o que nos leva de volta ao Sheik, já que macho não beija outro macho. Logo os dois são viadinhos e estão escondendo o jogo o tempo inteiro.

Agora uma pausa geral. Ser macho é tão difícil que antes de ser qualquer outra coisa, tem que ser macho. Jogador de futebol? Não, tem que ser macho antes, logo tem que ser um jogador de futebol macho.

Agora uma segunda e última pausa geral. Ser macho é tão difícil porque macho não existe. É como a roupa nova do rei, que só os inteligentes podem ver. Aqui, no caso, só os machistas veem quem é macho e quem não é. Para falar a verdade, só machistas se importam com quem é macho ou deixa de ser. As outras pessoas, não afetadas pela responsabilidade do superpoder do pênis (e muitas delas têm pênis!), são livres para serem o que são ou o que quiserem ser. Talvez seja esse o problema dos machos: inveja de quem é livre.

terça-feira, agosto 20, 2013

Teoria queer (parte 2)

Essa é a segunda parte da série de três textos sobre a teoria queer. O primeiro pode ser encontrado aqui e o terceiro será lançado amanhã. Não é minha intenção esgotar (seria pretensioso demais!) a teoria queer, mas sim apresentar alguns pontos introdutórios para quem se interessar.

Um sujeito nasce já inserido numa trama de expectativas e normatizações que estabelecerão um campo de confronto entre ser normal ou desviante em uma infinidade de critérios, e creio que é menos importante saber a origem de seus desejos do que pensar a respeito dos efeitos que eles têm sobre essa trama e, principalmente, dos esforços engendrados para conter esse alegado desvio; não podemos esquecer que a própria existência do desvio permite perceber que os fios dessa trama não só são instáveis, como também são impostos e insuficientes.

Como um professor que trata sobre (homo)sexualidades, tenho enfrentado o desafio constante de projetar propostas de ensino e ambientes de aprendizagem que sejam ao mesmo tempo eficazes no objetivo de compartilhar saberes e amplos o bastante para que não se reduzam a um ponto de vista particular e reducionista. Não posso ignorar, contudo, que essa é uma escolha que já exclui temas e interpretações que poderiam ser abordados em cursos cujos fins fossem outros e que minha afiliação à cultura visual e teoria queer me coloca em uma posição diferente do que a assumida por sujeitos que não compartilham desses embasamentos. É particularmente difícil não considerar outras posturas equivocadas ou incorretas, mas se trata de um desafio que acredito ser fundamental para o tipo de educação que antevejo, ou seja, uma forma de aprendizagem que não se aceite opressiva e que se permita duvidar de si própria ou ouvir a vozes que anunciem posições diferentes.

Uma das abordagens mais comuns que tenho observado no tratamento da homossexualidade em contextos escolares é a tentativa de incluir esses sujeitos e suas práticas no círculo da normalidade. A busca por inclusão reitera uma noção que deve ser analisada mais detidamente: a da aceitação do diferente. Essa postura relaciona-se com a ideia de uma generosidade por parte dos normais, que estão se predispondo a permitir que os anormais tenham espaço legitimado, assim como com a crença de que o grupo excluído necessita de maior autoestima, podendo buscar aumentá-la através de representações positivas de sua existência (BRITZMAN, 1995). Britzman questiona, ainda, a validade de uma política de tolerância, marcada pela apresentação e representação das minorias, que em teoria seria legitimada pela ideia de que as pessoas se identificariam com os modelos propostos. Não somente, essa perspectiva alimenta a noção de que os sujeitos normalizados reconheceriam as diferenças e as aceitariam: “mas como, exatamente, deve acontecer a identificação com um outro se somos requeridos apenas a tolerar e, portanto, confirmar nós mesmos como generosos?” (BRITZMAN, 1995, p. 159). A postura de enxergar o outro como um inferior que precisa de ajuda pode, portanto, encaminhar as tentativas de inclusão para um mero emparelhamento com as representações de heterossexuais.


Se a homossexualidade é compreendida como um desvio em relação à norma da heterossexualidade, então a representação positiva dessa identidade estaria na repressão de características que pudessem se configurar como destoantes da expectativa de um comportamento considerado adequado. Isso inclui relações não monogâmicas, práticas sexuais como submissão e sadomasoquismo, seguindo o axioma da hierarquização discutido por Rubin (1993b) e apresentando um limite bastante claro à noção de tolerância: ela pode existir, contanto que seja apenas até certo ponto. Só ganham acesso à inclusão aqueles que se assemelham com a norma heterossexual monogâmica, o que justifica as lutas que atualmente ocorrem em torno da legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas também explica o silêncio que existe em torno de sujeitos transexuais e a conivência pública com violências físicas e morais contra indivíduos cujas ações dificultam que sejam imediatamente posicionados em algum critério inteligível e comparável à norma. “Seja gay, mas não pareça uma mulherzinha” e “Não tenho problema com homossexuais, contanto que não deem em cima de mim” são declarações que exemplificam essa postura de inclusão limitada.

Ao indicar tais contradições que resultam da ideia de inclusão, não estou posicionando-me contra iniciativas que tenham esse objetivo. Representações positivas de sujeitos marginalizados são bem-vindas, pois os inserem em espaços que usualmente não ocupam ou não são vistos ocupando. Porém, creio com Silva (2000) que “antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida” (p. 100). Entender como são produzidas as diferenças que dão contorno para as identidades e em que medida elas são estabelecidas ou alteradas discursivamente é uma preocupação que deve ser levada em conta. Contudo, não se pode esquecer o papel dos indivíduos que negociam com essas instituições e também com os demais sujeitos articulando suas próprias experiências com os enquadramentos sugeridos, requisitados ou impostos. Essas relações envolvem o modo como se percebem e identificam, mas também como são identificados e o que, no trânsito entre esses muitos entendimentos, resulta na forma de ação.

Na terceira parte desta série tratarei de alguns técnicas sugeridas por Deborah Britzman para uma abordagem queer.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Teoria queer (parte 1)

Este texto é a primeira parte de uma série de três postagens dedicadas a pensar o que é a teoria queer e como ela pode se inserir em contextos pedagógicos. Nesta primeira parte, o foco da discussão está em compreender a base da teoria e sua "missão".

O queer que acompanha e nomeia a teoria surge como uma jocosa ironia, na medida em que se apropria de um xingamento para se posicionar criticamente a favor do ofendido. Traduzindo do inglês, queer significa estranho, e por derivação passa a significar bixa, viado, sapata. É aquilo que não se encaixa e causa desgosto, que não pertence. A língua portuguesa não possui uma tradução que concentre adequadamente a carga histórica que o termo queer possui no inglês, onde frequentemente era utilizado para atacar e condenar sujeitos cujas sexualidades não se conformavam às expectativas normativas. Enquanto termos como “bixa” e “transviado” possam soar semelhantes, eles reduzem o xingamento ao masculino, ignorando o feminino e prestigiando binários contra os quais a teoria se opõe. Por conta dessa dificuldade de tradução, seguirei trabalhando com o conceito em inglês, a fim de preservar o seu sentido e, principalmente, o seu potencial de disrupção de sentido.


Tomado como ponto de partida para uma ressignificação, os teóricos assumem-se como estranhos e como corruptores: a teoria queer não tem a intenção de ser mais um campo teórico, mas sim de questionar estabilidades, e por isso mesmo é tão difícil defini-la, uma vez que torná-la completamente inteligível esvaziaria sua força e potencial subversivo. Envolve teorizar o esquisito e, ao mesmo tempo, estranhar a teoria (LUHMANN, 1998). Mais do que se limitar ao estudo de gays e lésbicas, a teoria queer confronta noções de identidades fixas, classificações binárias e suas consequentes exclusões, focando esforços na compreensão dos papéis exercidos socialmente por aqueles sujeitos que ocupam posições ininteligíveis aos olhos das normas.

O queer não apenas é estranho e fora de lugar, ele também é ignorado, esquecido e negado. Os sujeitos que não se identificam com os discursos normativos das sexualidades na sociedade contemporânea ocidental estão relegados a uma existência inferior: são reconhecidos como desviantes, mas seu “desvio” não gera reflexão, é assumido como essencialmente errado ou, quando muito, como uma diferença que devemos aceitar e incluir.

É fácil pensar que queer institui uma categoria de identidade, um tipo de sujeito que não corresponde às normas. Contudo, Morris (1998) nos pergunta e alerta: “Essa categoria simplesmente instala um outro binarismo – queer ou não queer? Nós poderemos em algum momento dissolver o pensamento binário como um todo, e seria essa estratégia do não binarismo sequer útil?” (p. 276). Se pensarmos a definição de queer como simplesmente aquilo que não está normalizado, temos imediatamente uma normalização do que é ser queer. O estranho, subversivo e incompreensível passa a estar domado, controlado e seguro, sendo mais um conhecimento pronto para ser anexado em dicionários e para que pesquisadores possam identificar com certa facilidade: “isso é queer, isso é normal”. Uma vez compreendido e aceito, o poder que se instalaria pela dúvida se perde, dando lugar novamente às certezas.

Não devemos nos esquecer que, como nos alerta Britzman (1995), o queer não está nos atores, mas sim nas ações. Nomear um determinado grupo como queer é posicioná-lo fora da normalidade, mas antes de tudo significa posicioná-lo, estabilizá-lo. Esse é um movimento (e congelamento) ao qual a teoria queer não pode se permitir: o queer está no trânsito, no cruzamento de fronteiras e na indefinição de identidades. Não há como uma determinada identidade ser subversiva permanentemente, em qualquer espaço ou instante. A partir do momento em que for compreendida e nomeada, ela passa a não causar mais o impacto da indefinição.

Citando Berry, a respeito da forma como a “cultura do individualismo” espera que os sujeitos não mudem, Doll (1998) aponta: “Não importa de que forma o sujeito é reto [em inglês a palavra straight significa também heterossexual, e pode ser compreendida também como honesto ou normal], apenas que todas as perversões sejam amaciadas, de forma que a pessoa seja identificada completamente e sem ambiguidade” (p. 289). A teoria queer nos alerta para questionarmos categorias de identidade tais como “homossexual”, “travesti" etc., mas também sugere que levemos em consideração quais são os poderes e raízes históricas por trás da instituição e manutenção da heterossexualidade enquanto norma.

Na segunda parte desta série, discutirei a noção de inclusão da diferença. Na terceira e última, abordarei algumas "técnicas" para um olhar que se proponha queer. Caso alguém deseje as referências, basta pedi-las nos comentários ou por mensagem na Raposa do Face.

sexta-feira, maio 24, 2013

Ninguém precisa ouvir tudo o que a gente pensa

Um aluno veio a mim e explicou seu projeto de trabalho, que envolvia animais abandonados e uma campanha para que as pessoas prevenissem seu sofrimento através da castração. Eu respondi-lhe que era uma luta válida e interessante, mas que não me engajaria nela, pois não faz parte da minha agenda política. Gostaria de apontar duas coisas sobre esse incidente: como a linguagem pode nos enganar e como existem coisas que não precisamos dizer.

A linguagem é traiçoeira

Com frequência, o que dizemos com uma intenção é interpretado como se fosse fruto de outra intenção completamente diferente. Poucos minutos após haver conversado com o aluno, encontrei-o comentando com outros professores sobre como eu havia destruído suas ideias e como meu comentário era de que seu projeto não tinha valor e não deveria ser feito. Isso obviamente foi um equívoco interpretativo. Eu afirmar que não tenho interesse numa determinada ação de forma alguma significa que a ação é ruim. Seria o mesmo que dizer que tudo que me interessa é bom, interessante e produtivo, o que certamente não é verdade.

Esses enganos geralmente acontecem porque nós gostamos de reduzir as coisas. Ouvimos uma ideia e a quebramos em resumos. Esses resumos deixam de lado partes importantes para a interpretação correta daquilo que foi falado. Isso também acontece quando achamos que entendemos um texto lendo seu título ou apenas um parágrafo, como já escrevi antes.

Outra coisa que acontece é que pegamos nojo de algumas palavras. Se as ouvimos, imediatamente tudo que as circunda vira igualmente desprezível. Aconteceu na minha aula de filosofia: o aluno perguntou se crítica era algo bom e a professora imediatamente disse que não, pois crítica é sinal de medo e de ataque desnecessário às coisas que não conhecemos. Creio que ele se referia a pensamento crítico, reflexivo e analítico, mas que a professora compreendeu 'crítica' como um ataque, uma desqualificação.

A maior parte das pessoas não escuta com a intenção de entender, mas escutam com a intenção de responder.

Ninguém precisa ouvir tudo o que a gente pensa

Percebi enquanto escrevia esse texto que não havia necessidade alguma de dizer ao aluno que eu não me engajaria no tipo de luta que ele estava propondo. Que benefício isso trouxe à nossa conversa? Adicionou alguma coisa, além de impor uma característica negativa ao diálogo? Não. Simplesmente achei que meu ego precisava se manifestar e deixar ali a marca de sua magnânima importância. Afinal, ele saber se eu agiria ou não conforme a proposta dele mudaria completamente o rumo do mundo, não é mesmo?

Esse é um exercício realmente difícil: distinguir quais verdades são importantes de serem ditas e quais os outros não precisam ouvir. Isso não significa que eu não possa desgostar de algo ou que não possa escolher não tomar parte de algo. Pelo contrário, temos todo direito à opinião própria. O porém é que muitas vezes a nossa "opinião própria" não está sendo requisitada. Meu aluno não queria saber se eu estava interessado em castrar cachorrinhos, mas sim se aquele seria um trabalho bacana de desenvolver. Ao colocar a minha posição frente ao tema e não ao trabalho em si, facilitei que meu comentário fosse compreendido negativamente.

Devemos filtrar aquilo que falamos aos outros pelo bem do respeito e da convivência. Três filtros atribuídos a Sócrates parecem uma boa medida: falamos aquilo que é verdadeiro, bom e útil. Do contrário, podemos guardar para nós. O que eu falei a meu aluno era verdadeiro? Sim. Era bom? Creio que não, pois em certa maneira desqualificou sua posição. Se não for já suficiente entender que não era bom, posso ainda pensar se era útil e perceber que na verdade foi absolutamente inútil e contraproducente.


Esses momentos em que tudo o que temos para comentar é falso, ruim ou inútil podem ser lindos convites ao silêncio, a ouvir o que o outro tem a dizer sem o irritante e persistente ego se manifestando. Como eu disse, não é um exercício fácil. Ouvir os outros nunca é fácil, pois demanda calar primeiro.

sexta-feira, maio 17, 2013

Você sabe o que significa ser normal?

"Você não está sendo oprimido quando outro grupo conquista os direitos que você sempre teve". Essa é uma das frases que circulam na internet na tentativa de conscientizar as pessoas que absurdos como preconceito contra heterossexuais e marchas do orgulho branco são somente isso: absurdos. Afinal, como sabemos, o padrão da normalidade é criado em nossa sociedade por uma série de características arbitrárias: a cor da sua pele, a sua anatomia sexual, quanto dinheiro há em sua conta bancária, o tipo de relacionamentos estáveis mantidos, a sua crença monogâmica em alguma divindade, o seu acesso cultural a uma forma específica de arte e entretenimento etc.

curva normal
Encontrei aqui: http://www.anormais.com.br/

Estatisticamente, agrupamentos de pessoas têm a tendência de parecer como essa curva aí. A linha do meio é o ponto médio, com maior quantidade de pessoas. São as características medianas, típicas, mais prováveis de serem encontradas entre qualquer sujeito que puxemos do grande grupo. Quanto mais para esquerda no gráfico, menos temos daquela característica. Quanto mais para direita, mais temos. Para fins de ilustração, vamos pensar no quociente de inteligência: a grande maioria está ao redor do meio, que concentra 68,2% da população. É muita gente.

A área em azul escuro está a menos de um desvio padrão (σ) da média. Em uma distribuição normal, isto representa cerca de 68% do conjunto, enquanto dois desvios padrões desde a média (azul médio e escuro) representam cerca de 95%, e três desvios padrões (azul claro, médio e escuro) cobrem cerca de 99.7%. Este fato é conhecido como regra 68-95-99.7, ou a regra empírica, ou a regra dos 3-sigmas. (copiado diretamente da Wikipedia)

Em termos práticos, ser normal significa se encaixar nessa faixa azul mais escura. Quanto mais distantes dessa medida média, menos gente tendemos a encontrar, tanto para menos (esquerda) quanto para mais (direita).

Então é bom ser normal, certo?

Depende. Na verdade, não é nem bom nem ruim. É normal. Só isso. Contudo, acontece em nossa sociedade ocidental um tipo de pensamento binário que funciona assim: a gente é ou uma coisa, ou outra. É homem ou é mulher. É alto ou baixo. É rico ou pobre. É feliz ou triste. É hetero ou homossexual. É ativo ou passivo. É magro ou gordo. A essa altura, creio que já está bastante evidente essa polaridade, mas não podemos esquecer de mais uma: bom ou ruim. Todos os primeiros elementos destes binários são considerados positivos, enquanto seus opostos são considerados negativos. Por essa lógica, ser homem é melhor, em nossa sociedade, do que ser mulher. Todos nós sabemos o quanto isso é um absurdo, não? Bem, deveríamos saber.

Então, ainda que ser normal não seja em si nem bom nem ruim, nós o colocamos no binário normal x anormal. Obviamente, o 'anormal' está pareado com 'ruim', portanto fazemos cara feia e desgostamos.

E se o normal fosse ser o que é?

Nas aulas que leciono, meus alunos são proibidos de usarem as palavras 'normal' e 'normalidade', uma vez que entendemos que qualquer normalidade decorre de um ponto de vista específico (que por tabela está ignorando as experiências e vivências de todo um grupo de pessoas que não está enquadrado no 'normal'). Junto com isso, busco aprofundar com eles o entendimento de que os conceitos não são meramente opostos, eles são complementares, dependentes de uma posição determinada para serem compreendidos. Uma perspectiva.

Desafiar o paradigma binário da normalidade não é fácil. Na verdade, é até pouco inteligente, de um ponto de vista egoísta, caso nós desfrutemos dos privilégios de sermos normais. Como uma raposa que vez ou outra experimenta ser humano, porém, faço um convite: que tal tentarmos ser menos normais e mais humanos?

quarta-feira, maio 15, 2013

Tem horas que ser zen é muito difícil

Esses dias uma humana me disse que entendia a opressão de gênero sofrida pelas mulheres, que achava errado e tudo mais, mas que ensinaria o filho a ser machão, pegador e cafajeste, porque senão outras mulheres iriam fazer gato e sapato dele. Na hora, fiquei completamente sem resposta. Afinal de contas, eu consigo entender por que um filho é mais importante para a mãe do que a igualdade e a justiça social.

Só que eu não sossego. Posso não ter encontrado uma resposta na hora, mas a sementinha do incômodo ficou germinando em mim. Então ontem participei de uma discussão sobre homens que usam saia. De um lado, gente reclamando que acham isso intolerável, inaceitável, nada a ver com as normas do comportamento social masculino. De outro, humanos e raposa defendendo que roupas não deveriam ser base para discriminação. Em meio a essa discussão, um vivente comentou que não iria lutar por algo que ele não acreditasse. Ora, eu não tenho argumentos contra alguém que defende o direito de não lutar, ainda mais por algo que não acredita ser certo.

Hoje as coisas parecem mais claras: nós vivemos centrados nessa ficção de que temos 'eus' bem definidos e desconectados do mundo. Eu aqui, o resto do mundo fora de mim. No máximo uma interação aqui e outra ali, tipo respiração e calor e coisa e tal. Para o zen budismo, tradição filosófica oriental com a qual tenho flertado muito, nós somos parte integrante do mundo, mas nos apoiamos em algumas capacidades (como a memória) e, com isso, criamos uma ilusão de um 'eu' permanente, constante. Essa é uma constatação de mais de dois milênios que continua atual, sendo responsável por muitos dos nossos conflitos, uma vez que inventamos uma ilusão sobre quem somos (separados do mundo) e precisamos aguentar as consequências dessa separação enganosa. Da mesma forma, imaginamos posições e comportamentos ideais com os quais nos comparamos constantemente, produzindo frutos para a nossa insatisfação e infelicidade.

Os dois casos que citei são bastante diversos, mas nascem do mesmo lugar: da crença num 'eu' que deve se sobressair frente ao mundo, que deve se destacar desse mundo. No caso da mãe, a preocupação com o filho e a expectativa que ele tenha um determinado estilo de vida interfere nas suas ações e escolhas frente a esse sujeito. Ao invés de viver o mundo, ela deseja controlar o mundo, o que é em si um engano. Ela é parte do mundo e certamente tem efeito sobre ele, mas é ingenuidade acreditar que as chances de concretizar seu projeto sejam maiores do que as de se decepcionar com as expectativas criadas. A minha mãe, quando pela primeira vez soube que eu namorava um rapaz, disse-me que aquilo não era o que ela esperava ou havia imaginado para mim, mas que ela desejava minha felicidade acima de qualquer outra expectativa que houvesse criado a meu respeito. Sem dar esse nome para as coisas, minha mãe estava sendo zen. À sua própria maneira, ela entendeu que o mundo segue seu fluxo quer nós aprovemos ou não a maneira como as coisas se dão.

Quando um sujeito diz que não lutará por aquilo que não acredita, o que me incomoda não é ele não lutar, mas sim o que, especificamente, ele não acredita. Entendo que não há muito que eu possa fazer a esse respeito: o poder de mudar opiniões e crenças vem da experiência pessoal e de seus afetos. Ainda assim, eu gostaria que as pessoas pensassem diferente. Isso é uma armadilha: eu estou construindo uma expectativa de como gostaria que o mundo fosse. Pior ainda: é uma armadilha ególatra, pois estou querendo que o mundo seja como 'eu' quero.

Parece-me que, em ambos casos, a única solução (aceitável para mim) é agir como julgo correto. Conversar, debater e, na medida do possível, procurar entender. Eles não são eu. Eu não sou eles. Se nada mais, eles são humanos e eu sou uma raposa. Eu posso esperar que também ajam como julgo correto, mas desesperar-me por isso não acontecer seria ingenuidade.

domingo, abril 14, 2013

Homofobia mata

O leitor já conhece essa história: eu e meu namorado passeamos de mãos dadas pela rua e alguém nos olha atravessado. Desta vez, porém, fizeram mais do que apenas olhar. Era um rapaz num ônibus, algo entre dezesseis e vinte anos. Cabelo descolorido. Ele colocou a cabeça pra fora da janela do seu ônibus e gritou para soltarmos as mãos, do contrário iria nos matar. Iria descer na próxima parada e nos matar.

Estou ainda tentando compreender o que aconteceu. Por que exatamente minha vida esteve em perigo? Por que dois homens de mãos dadas causam tanto temor? Por que a minha existência e a minha felicidade produziram tanto ódio num sujeito, a ponto dele ameaçar essa mesma existência e felicidade?

Eu já tentei pensar uma vez sobre a violência e cheguei cheguei à conclusão que se trata de um exercício direto de poder sobre algo que te incomoda emocionalmente. Como se a realidade não fosse tolerável daquela forma e a pessoa precisasse agir. O que há de intolerável no amor?

Talvez sabendo do que acontece nas ruas da vida algumas pessoas que acham correto ensinar a seus filhos que não pode homem com homem e mulher com mulher repensem suas atitudes. Quando alguém ensina que algo está errado, implicitamente está ensinando que a coisa certa a se fazer é corrigir o erro. Será que andar de mãos dadas é um erro que mereça ser "corrigido" com a morte?

Ou o erro a ser corrigido não seria o ódio e a intolerância?

quinta-feira, abril 11, 2013

Mães que existem por aí

Algumas mães me deixam preocupado. Outras, instigado. Outras ainda, como a minha, feliz. Nos últimos dias, cruzei com dois exemplos no mínimo curiosos.

De um lado, a mãe que acha que não é homofóbica quando defende o direito de ensinar ao filho a não gostar de gays. Ou melhor, que diz que ama, só não ensinaria o filho que se ele quiser amar alguém do mesmo sexo, ele pode. A impressão que fica é que falta dicionário nesse mundo. Não é uma mera questão de desaprovar um comportamento: é questão de ensinar uma pessoa a considerar outras pessoas como inferiores. "Ah, mas vou dizer pra amar". Sim, tu pode amar, pode tolerar, só não pode ser. Se for, faz o quê? Exorciza?

Aí hoje cruzei, também virtualmente, com uma mãe que fotografou o filho segurando uma placa dizendo que o Feliciano não o representa. A criança deve ter uns cinco anos, no máximo. Lindo, bacana, fofo, razoavelmente apelativo (o que não é, em si, ruim). Aí vem um sujeito e comenta que a mãe está impondo um pensamento na cabeça da criança, que ela deveria ser livre pra crescer e decidir por conta. Peraí, pausa geral. O carinha está mesmo dizendo que não é pra ensinar à criança a amar e defender os direitos humanos, se possível os direitos dos outros humanos? Hummm...

Por que fico com a impressão, assim de leve, que esse mesmo sujeito concordaria com a mãe que ensina a amar, mas só a amar, nunca a ser? Naquela linha de amar ao próximo, mas só enquanto ele fica distante.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=444933582254805&set=a.251608918253940.60133.100002145024680&type=1&theater

quarta-feira, abril 10, 2013

O tempo do olhar

Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que não lê vive só uma.
Atrasado para a aula, o esperto aluno folheou Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, e descobriu que o autor era fácil de ler e entender porque escrevia tudo em subtítulos. Ora, por que ler os capítulos se ele já resumia todo o seu argumento desta forma? Leu no ônibus, rabiscou algumas coisas com o lápis balançando e se encaminhou para a sala de aula a tempo de contribuir com uma ou outra colocação. Desde esse dia, o nome Paulo Freire lhe acendia no cérebro luzes de ingênuo, simplista e auto-ajuda para educadores. Afinal, que bom argumento poderia ter um autor que escreve por meio de subtítulos óbvios?

Por sugestão de amigos, uns dois anos depois, o então professor se pegou novamente lendo Paulo Freire, desta vez na companhia de um chá quentinho através da madrugada, não da pressa desenfreada de um ônibus sacolejante. Desta vez com algum tempo, dedicou-se a ler a introdução. As palavras todas pareceram diferentes. Teria o livro se transformado ao longo dos dias em que esteve guardado na estante, se reescrito e se tornado mais profundo, menos ingênuo, menos simplista?

No trânsito das identidades, o aluno que virara professor voltou a ser estudante e decidiu dar uma chance ao autor e também a si mesmo: a chance de um olhar humilde, de um olhar que só se permitiu ser humilde por haver compreendido que, não muito antes, se sentia no direito de julgar o mundo. Um olhar de criança com o dom de saber tudo tornado em um olhar de quem entende a mágica dos livros que se transformam na estante.

quinta-feira, março 28, 2013

O diabinho da interpretação

Recentemente um texto meu foi mal interpretado e coisas que eu não disse foram espalhadas. Mesmo a Raposa tendo um público bem pequeno, vez ou outra alguém comenta a respeito. Acho ótimo, principalmente quando as pessoas comentam sobre algo que eu de fato escrevi.

"Você quer armas? Nós estamos em uma biblioteca. Livros! As melhores armas do mundo" - Doctor Who

Toda a nossa relação com o mundo é definida pela maneira com que nós o percebemos e interpretamos. É claro que nossas capacidades fisiológicas de enxergar, ouvir, cheirar e processar informações em grande parte limitam aquilo que podemos ou não perceber. Entretanto, é a nossa capacidade de interpretação que dirá como nos relacionaremos com determinados tipos de conhecimento. Como melhorar nossa capacidade interpretativa? Penso em apenas um modo, que na verdade é tão complicado quanto interessante:

Leia mais o mundo

Parece estranho dizer assim, mas é o que nos falta na vida: leitura. Não só qualquer leitura, não sempre a mesma leitura. Ler o mesmo livro a vida inteira é se viciar nas mesmas perguntas e respostas, é limitar o campo de visão e as possibilidades de interpretação. O pensamento e a criatividade são organizados através de interações entre ideias, conceitos e possibilidades distintas entre si. É como cozinhar: se nossos ingredientes são sempre os mesmos, não faremos pratos diferentes.

Ler o mundo de outras formas é um desafio. Arrisco dizer que é uma vocação: nem todo mundo é leitor, nem todo mundo tem a curiosidade de desbravar o mundo. Explorar as narrativas da vida é um convite a se reescrever, mas esse é um exercício que nem todo mundo está interessado ou preparado para fazer. É um processo que dói, aprender, porque nos tira o centro, nos coloca em deslocamento, nos joga na incerteza de perceber que aquilo que sabíamos não é tudo que há para se saber. Para muitos, o conforto da certeza é a única forma de conseguir lidar com a vida.

"Aprenda as regras como um profissional, para que você possa quebrá-las como um artista" - Pablo Picasso

Não são apenas livros que nos informam. São filmes, fotos, desenhos, pessoas, viagens, comidas, roupas, danças, festas, conversas, brigas, blogs, bulas de remédio, shopping centers, lojas, jornais, publicidades, brinquedos... Em cada um desses casos, nós temos no mínimo dois caminhos: nos fechar para a diferença e persistir com aquilo que acreditamos, ou abraçar a possibilidade de que o contato com o outro nos torne alguém um pouquinho diferentes. Isso é bom? Não sei, mas só podemos descobrir experimentando.

quarta-feira, março 27, 2013

Alfabetismo erótico

Como você aprendeu a fazer sexo?

Quando criança, assisti a um pedaço de filme em que um casal de amigos se relacionava de diversas formas. Os dois tinham um estilo roqueirinho quase gótico, o rapaz mais do que moça, e tinham entre dezesseis e vinte anos. Ao começar a assistir, fui atraído pela beleza dos dois e foi isso que me prendeu por alguns minutos. Eles falavam sobre amor. Em certo momento, os dois decidem experimentar seus corpos – como amigos, embora a moça pareça ter mais interesse no rapaz do que ele nela – e nessa hora fica claro que o moço sente tesão por outros moços (o mais provável é que eles tenham falado sobre isso). Enquanto eles brincam e exploram seus corpos, a garota sobe no rapaz por trás e simula um pênis com os dedos, usando-os em conjunto com os movimentos de seu corpo para transar com o moço. O rapaz, em seguida, se recusa a prosseguir com a transa com ele próprio no papel de penetrante, o que leva os dois a discutirem.

Essas cenas estão marcadas na minha cabeça até hoje. Elas são de uma época em que eu não existia para o mundo e que, principalmente, não entendia meus próprios desejos. De um tempo em que eu acreditava que não haveria possibilidade nenhuma de explorar aquilo que me excitava (ah, as incertezas absolutas da adolescência!). Foi um período bastante longo da minha vida, verdade, mas também confuso. Minha relação com o bullying (muito frequente, constante e cruel) era dúbia: ao mesmo tempo que aquilo me machucava absurdamente, eu imaginava soluções que envolviam sexo. Até eu efetivamente transar pelas primeiras vezes, sexo era algo muito mágico e difícil de compreender, mas eu já entendia que ele tinha um poder de persuasão absurdo. Ou talvez apenas estivesse sendo ingênuo de novo.


Duas amigas estiveram no Museu de l'eròtica em Barcelona e lembraram de mim. Faz sentido, meu mestrado foi sobre sexualidade. Recentemente a autora do Cem Homens me perguntou por que eu decidi estudar sexualidade. Esse texto é muito provavelmente uma resposta.

Eu não entendia nada de sexo quando era criança. Masturbava escondido, frequentemente com imagens de homens. Meu irmão tinha filmes pornôs e minha avó tinha revistinhas com sexo explícito. Outra memória forte é do dia em que colocaram fora tudo isso e eu não consegui esconder rápido o bastante esse material todo. Corria para o quarto para folhear as revistas uma última vez, memorizando as histórias enquanto fingia que estava pegando mais coisas para jogar fora. Uma delas tinha um casal de rapazes que se relacionavam com a mesma mulher e, eventualmente, se relacionavam entre si. Eu me identificava com essa história, mesmo que não conseguisse dar nome para o que eu sentia.


Antes de transar pela primeira vez, eu já tinha uma ideia bastante complexa do que era sexo e como tudo deveria acontecer. Sexo, ora, pênis e bunda, pênis e boca, pênis e boceta. Nessa ordem. O que eu aprendia vendo filmes, pesquisando sites e lendo revistinhas, tudo escondido, era uma série de regras sobre como o ato sexual deveria acontecer, a importância de seus participantes e, principalmente, uma certa normatização: sexo é penetração. Sexo é masculino sobre o feminino. Ativo sobre o passivo. Mesmo depois de transar algumas vezes, ou mesmo muitas, eu ainda tinha dificuldade de mastigar a ideia de que sexo não é algo que se faz em alguém, mas sim com alguém.

Por muito tempo, eu fui um analfabeto erótico. Minhas primeiras incursões ao erótico eram rápidas, escondidas, proibidas. Ingênuas, inclusive. Era como aprender um idioma: ouvindo algumas expressões, até posso começar a entender algumas coisas por conta se tiver facilidade para a coisa. Porém seria muito mais fácil se alguém me desse a mão (e outras partes do corpo) e me ajudasse a vivenciar essas experiências. Para minha tristeza, eu nunca tive um perfil autodidata ou muito ativo na busca de novos conhecimentos por conta própria, o que certamente retardou meu acesso a experiências eróticas e sexuais.

Então me pergunto: será que tudo isso não tem a ver com a forma como as pessoas pensam o sexo? Se o erótico é um idioma, por que não temos escolas de idiomas que o ensinem? De alguma forma, quase todo mundo se relaciona de alguma maneira erótica com outros sujeitos, objetos ou ideias. A gente faz isso às cegas, sem orientação, sem entender direito, aprendendo pela experiência. É gostoso ir descobrindo? É sim. Poderia ser ainda melhor? É o que acredito.

Sexo na escola, por exemplo, são espermatozoides e óvulos. Desculpa, gente, mas isso é totalmente desconectado da sensação de uma mão percorrendo os pelos da tua perna e fazendo um misto de cócegas com tesão. Não tem nada a ver com a dúvida se aquele beijo será seguido por mais outro (no próximo segundo ou na próxima semana). Justamente por não ter nada a ver com como o sexo e o erótico são experimentados, a escola não consegue ensinar uma série de coisas que seriam importantes de se saber: que não é bacana abusar, que a proteção é responsabilidade de todos, que a mulher tem direito sobre seu corpo, que o prazer sexual não se resume ao pênis e à penetração...



É por isso que eu estudo sexualidade: porque eu sei que não tenho o menor poder de voltar ao passado e modificar a maneira como eu aprendi a ser eu, mas posso agir e talvez modificar a maneira como eu e as pessoas viverão seus futuros. É por isso que me dedico a não ser um analfabeto erótico e busco espalhar esse "idioma" por aí.

E, claro, porque é gostoso e pode ser muito mais.
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