Eu sou viciado em comprar livros. Não em lê-los, mas em comprá-los. Eu já sabia disso, mas confirmei ontem enquanto separava alguns livros para vender. Inicialmente separei 144 livros para serem colocados à venda. Tenho mais dois emprestados com uma amiga e eles também serão vendidos.
Eu achava que era um grande número, até hoje contar os livros com os quais decidi ficar. Foram 77 mais 4 dicionários. Ou seja, eu aceitei me livrar de dois terços dos meus livros e ainda assim sobraram inúmeros. Li agorinha uma citação que diz "a estante de livros de uma pessoa lhe dirá tudo o que precisa saber sobre essa pessoa". Acho verdade. Os livros que estão sobrando na minha estante dizem muito sobre mim.
Eu não preciso de tantos livros. A maioria deles está na minha vida porque um dia eu considerei que seriam lidos ou necessários. Nem todos eu li. A maioria nunca foi necessária. O que eles dizem de mim, além do óbvio vício de comprar livros, é que tenho medo de deixar as coisas partirem. Ser dono de tantos livros me fornece a sensação de que estarei seguro, de que terei ao que recorrer no dia em que precisar não importa para onde eu ir.
Porque não sabia aonde queria ir.
Hoje eu tenho uma ideia mais clara da vida que quero para mim e ela não inclui uma estante cheia de livros. Não porque eu não lerei mais, minhas visitas à biblioteca estadual provam o contrário, mas sim porque eu não acredito em ser dono de nada. Ser dono é uma ilusão, uma tentativa de controle sobre a vida e a vida não gosta de ser controlada.
Minha meta é chegar a 15 livros para carregar comigo. Parece um número razoável, suficiente para uma prateleira, não o bastante para que eu pague excesso de bagagem. Será uma escolha difícil, agora que estou reduzido a 77 livros separados entre eróticos, sobre escrever, sobre zen e sobre shiatsu. Quando eu decidir um critério para essa safra, volto a falar a respeito. Até porque agora preciso viver a experiência de vender 144 livros.
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segunda-feira, outubro 14, 2013
domingo, outubro 13, 2013
Limpar a casa é agir
Hoje eu e o meu namorado limpamos o meu apartamento. Preciso mesmo dizer o quanto estou me sentindo bem por isso? Acho que descobri o motivo pelo qual limpar minha casa faz com que eu fique tão aliviado: é porque estou fazendo algo pela minha vida.
Estou lendo o livro A arte da não conformidade, do Chris Guillebeau. Jogado na cama, fui absorvendo as ideias sobre como devemos agir para alcançar a vida que desejamos. A palavra central? Agir. Não adianta ficar imaginando e repetindo para nós mesmos que queremos algo. Podemos acreditar piamente que realmente estamos dispostos a buscar algo, mas isso é superconfortável enquanto estamos deitados no sofá. A realidade só nos morde quando chega a hora de fazer alguma coisa.
O problema, na maior parte das vezes, é que essa hora nunca chega. Desculpas para não agir existem aos montes. Jogos novos na internet, livros fantásticos para ler, sexo para animar o dia (e a noite e a madrugada...), filmes e seriados para assistir abraçado... Contudo, nosso tempo é limitado, por mais que não tenhamos noção do prazo de validade de cada um. Um dia, infelizmente, só tem vinte e quatro horas. Desperdiçá-las é uma escolha sem volta.
Estou lendo o livro A arte da não conformidade, do Chris Guillebeau. Jogado na cama, fui absorvendo as ideias sobre como devemos agir para alcançar a vida que desejamos. A palavra central? Agir. Não adianta ficar imaginando e repetindo para nós mesmos que queremos algo. Podemos acreditar piamente que realmente estamos dispostos a buscar algo, mas isso é superconfortável enquanto estamos deitados no sofá. A realidade só nos morde quando chega a hora de fazer alguma coisa.
O problema, na maior parte das vezes, é que essa hora nunca chega. Desculpas para não agir existem aos montes. Jogos novos na internet, livros fantásticos para ler, sexo para animar o dia (e a noite e a madrugada...), filmes e seriados para assistir abraçado... Contudo, nosso tempo é limitado, por mais que não tenhamos noção do prazo de validade de cada um. Um dia, infelizmente, só tem vinte e quatro horas. Desperdiçá-las é uma escolha sem volta.
sexta-feira, outubro 11, 2013
Deixando o homossexualismo (aff)
Na minha visita semanal à biblioteca estadual encontrei um livro maligno. Eu sempre disse aos quatro ventos que livro não é algo que a gente deva queimar, mas minha primeira vontade foi a de levar o danado até a bibliotecária e perguntar como eles têm coragem de expor aquele material nojento num lugar acessível a crianças e adolescentes.
Eu não sei no que acreditar. É muito, muito difícil respeitar a crença de quem defende que eu não deveria existir. Talvez seja assim que machistas homofóbicos psicopatas se sentem quando leem blogs como o da Lola. Nem posso dizer que minha crença é melhor do que a deles só porque não quero que eles morram lenta e dolorosamente (não sempre, ao menos).
A verdade é que busco um jeito para a minha forma de ver o mundo ser hegemônica. A verdade é que estar vivo em sociedade é sempre uma guerra em busca de definir qual ponto de vista predominará e quais serão extintos pelo caminho. Que vivências serão consideradas normais, que experiências serão julgadas como más ou inumanas. Por eu não haver nascido há mil anos, acho que matar para alcançar os meus fins e preservar meus afetos não é uma possibilidade cogitável. O que realmente me incomoda é que meus algozes não jogam pelas mesmas regras.
Eu não sei no que acreditar. É muito, muito difícil respeitar a crença de quem defende que eu não deveria existir. Talvez seja assim que machistas homofóbicos psicopatas se sentem quando leem blogs como o da Lola. Nem posso dizer que minha crença é melhor do que a deles só porque não quero que eles morram lenta e dolorosamente (não sempre, ao menos).
A verdade é que busco um jeito para a minha forma de ver o mundo ser hegemônica. A verdade é que estar vivo em sociedade é sempre uma guerra em busca de definir qual ponto de vista predominará e quais serão extintos pelo caminho. Que vivências serão consideradas normais, que experiências serão julgadas como más ou inumanas. Por eu não haver nascido há mil anos, acho que matar para alcançar os meus fins e preservar meus afetos não é uma possibilidade cogitável. O que realmente me incomoda é que meus algozes não jogam pelas mesmas regras.
O reino do dragão de ouro
Quando vou à biblioteca estadual, procuro livros baseado em nomes conhecidos, títulos chamativos ou capas lindas. De cara isso já me sussurra algo para meu futuro como escritor: enquanto eu não for mundialmente famoso, seria inteligente pensar melhor meus títulos e em quem se responsabilizará pelas capas dos meus livros.
Não sei quando nem onde ouvi falar em Isabel Allende, mas passei meses namorando seus livros em nossos breves encontros entre prateleiras. Sempre que ia à biblioteca, lembrava dela, mas acabava não cruzando com nenhum livro seu e deixava para depois. Meu método de seleção é pouco lógico, simplesmente vou caminhando pelos corredores e deixando que eles me mostrem o que quiserem. É uma disputa injusta para com os livros mal diagramados, verdade.
A aventura de O reino do dragão de ouro é a segunda parte de uma trilogia, mas a história foi bem amarrada e não senti falta da primeira. Lendo este livro, fiquei por dentro dos principais acontecimentos do anterior, mas não necessariamente sem as possíveis surpresas que encontraria lendo-o. Por falar em surpresas, o estilo da Isabel Allende é um convite à aventura. Não se trata de um texto poético ou reflexivo, mas sim de uma história gostosa de imaginar. Os personagens não são particularmente profundos, o que oferece certa consistência do início ao fim, especialmente depois que reconhecemos os padrões. Todos os desafios enfrentados são externos, ou seja, os conflitos não precisam ser resolvidos em termos de motivações e moral, mas sim de astúcia, magia e habilidade.
Mesmo sem haver terminado a leitura de Para ler como um escritor (ainda lerei, prometo), venho lendo meus livros com esse olhar. Procuro formas de descrever personagens, cenários, ações etc. Metáforas. Ideias para personagens. Com a Isabel Allende pude perceber exemplo de algo que já havia lido a respeito: em alguns diálogos há personagens que simplesmente não falariam certas coisas. Uma das protagonistas é brasileira e tem quase treze anos, mas discursa lindamente em inglês. Outro protagonista, com uns quinze ou dezesseis, é quase um doutor no jeito com que expõe suas ideias. Isso me incomodou. Não o bastante para que eu largasse o livro, mas o suficiente para fazer um rasgo no universo fantástico tecido pela autora.
Também observei, além dos diálogos, o modo como a autora prende nossa atenção enquanto descreve acontecimentos. É tudo ação. Mesmo quando as descrições estão sendo feitas, elas surgem em meio a movimento e mudança. Isso confere ritmo à narrativa. Ao final das 305 páginas do livro, senti como se não tivesse lido mais do que 120. A história fluiu e não mais do que duas ou três vezes eu considerei pular parágrafos. Excelente!
Não sei quando nem onde ouvi falar em Isabel Allende, mas passei meses namorando seus livros em nossos breves encontros entre prateleiras. Sempre que ia à biblioteca, lembrava dela, mas acabava não cruzando com nenhum livro seu e deixava para depois. Meu método de seleção é pouco lógico, simplesmente vou caminhando pelos corredores e deixando que eles me mostrem o que quiserem. É uma disputa injusta para com os livros mal diagramados, verdade.
A aventura de O reino do dragão de ouro é a segunda parte de uma trilogia, mas a história foi bem amarrada e não senti falta da primeira. Lendo este livro, fiquei por dentro dos principais acontecimentos do anterior, mas não necessariamente sem as possíveis surpresas que encontraria lendo-o. Por falar em surpresas, o estilo da Isabel Allende é um convite à aventura. Não se trata de um texto poético ou reflexivo, mas sim de uma história gostosa de imaginar. Os personagens não são particularmente profundos, o que oferece certa consistência do início ao fim, especialmente depois que reconhecemos os padrões. Todos os desafios enfrentados são externos, ou seja, os conflitos não precisam ser resolvidos em termos de motivações e moral, mas sim de astúcia, magia e habilidade.
Mesmo sem haver terminado a leitura de Para ler como um escritor (ainda lerei, prometo), venho lendo meus livros com esse olhar. Procuro formas de descrever personagens, cenários, ações etc. Metáforas. Ideias para personagens. Com a Isabel Allende pude perceber exemplo de algo que já havia lido a respeito: em alguns diálogos há personagens que simplesmente não falariam certas coisas. Uma das protagonistas é brasileira e tem quase treze anos, mas discursa lindamente em inglês. Outro protagonista, com uns quinze ou dezesseis, é quase um doutor no jeito com que expõe suas ideias. Isso me incomodou. Não o bastante para que eu largasse o livro, mas o suficiente para fazer um rasgo no universo fantástico tecido pela autora.
Também observei, além dos diálogos, o modo como a autora prende nossa atenção enquanto descreve acontecimentos. É tudo ação. Mesmo quando as descrições estão sendo feitas, elas surgem em meio a movimento e mudança. Isso confere ritmo à narrativa. Ao final das 305 páginas do livro, senti como se não tivesse lido mais do que 120. A história fluiu e não mais do que duas ou três vezes eu considerei pular parágrafos. Excelente!
terça-feira, setembro 24, 2013
Como lidar com a insegurança
Tenho lido muitos livros para escritores e os dois mais recentes, Escrevendo com a alma e Becoming a writer, tocam em um ponto essencial: o sentimento de fraude que acompanha a pessoa que trabalha artisticamente com as palavras. A razão é simples: todo mundo usa a linguagem no dia a dia e já muita gente escreveu coisas magníficas. No fim do dia bate aquela insegurança: será que o que eu faço é bom o suficiente para valer a pena?
Tanto Natalie Goldberg quanto Dorothea Brande tratam nossas dúvidas e inseguranças observando que temos uma parcela da nossa mente dedicada a julgar e censurar aquilo que fazemos. Esse pedacinho de nós é responsável por nos frear, por ficar repetindo "não vai dar certo" bem no cantinho do nosso ouvido. Dependendo da nossa disposição, é capaz de acreditarmos nessa vozinha e desistirmos.
A insegurança é um hábito de imaginarmos um mundo ideal e só agirmos quando temos certeza de que os resultados alcançados serão exatamente aqueles esperados. Geramos tanta expectativa que nos paralisamos diante da primeira resistência oferecida pela realidade. Logo estamos pensando: se é tão difícil e não vai dar certo como eu imaginava, pra que tentar? A verdade é que não há uma boa resposta para essa pergunta, especialmente porque é uma péssima pergunta.
As coisas não precisam ser como nós imaginamos, não é assim que a realidade funciona. Elas só precisam ser como são, o resto é com a gente. A reflexão vem do budismo: nós sofremos porque criamos expectativa de que a vida seja diferente do que ela é. Ah, então tenho que aceitar que sou ruim e não escrever mesmo, né? Não. Esse é o segredo para lidarmos com a insegurança: precisamos mudar nosso hábito de criar expectativas. No meu caso, a prática vai melhorar o meu texto e eu continuarei escrevendo porque acredito que essa é uma arte que dá sentido para a minha existência.
Para acreditar nisso, tenho me forçado a duas coisas:
1. Agir. Não adianta nada eu querer o mundo e ficar em casa jogando, na rua bebendo ou no trabalho vendendo meu tempo. A vida só responde a ações, nunca a pensamentos. Minhas desculpas para quem acredita no "Segredo", mas não adianta só mentalizar coisas positivas. Se não agir, puf, não muda nada.
2. Mudar ideias. Toda vez que me pego pensando que meu texto é ruim ou que ninguém vai publicá-lo ou que eu deveria ter um trabalho convencional ou que ninguém lê mais ou qualquer outra coisa cuja função é simplesmente me colocar para baixo, eu paro e penso: de onde vem essa ideia e para o que ela serve? Quase sempre a resposta é: vem da minha insegurança, do meu eu que faz julgamentos e tem medo de errar, e serve apenas para deixá-lo confortável. Eu não quero que meu lado medroso fique confortável! Eu quero que meu lado raposa, esse lado criativo e emocional que todos nós temos, esteja solto e sadio para viver e experimentar o mundo. Quando essas ideias tentam invadir minha cabeça, então, eu olho para o papel colado na parede dizendo "Escreva!" e obedeço, porque sei que pensamentos são mais fracos que ações e que se algo vai me ajudar a alcançar o que desejo para a vida são minhas ações e não os meus pensamentos.
Eu não tenho uma fórmula mágica para acabar com a insegurança. O que tenho é meu próprio caminho na busca por ser menos refém do meu eu medroso e mais aliado do meu eu raposa.
Tanto Natalie Goldberg quanto Dorothea Brande tratam nossas dúvidas e inseguranças observando que temos uma parcela da nossa mente dedicada a julgar e censurar aquilo que fazemos. Esse pedacinho de nós é responsável por nos frear, por ficar repetindo "não vai dar certo" bem no cantinho do nosso ouvido. Dependendo da nossa disposição, é capaz de acreditarmos nessa vozinha e desistirmos.
A insegurança é um hábito de imaginarmos um mundo ideal e só agirmos quando temos certeza de que os resultados alcançados serão exatamente aqueles esperados. Geramos tanta expectativa que nos paralisamos diante da primeira resistência oferecida pela realidade. Logo estamos pensando: se é tão difícil e não vai dar certo como eu imaginava, pra que tentar? A verdade é que não há uma boa resposta para essa pergunta, especialmente porque é uma péssima pergunta.
As coisas não precisam ser como nós imaginamos, não é assim que a realidade funciona. Elas só precisam ser como são, o resto é com a gente. A reflexão vem do budismo: nós sofremos porque criamos expectativa de que a vida seja diferente do que ela é. Ah, então tenho que aceitar que sou ruim e não escrever mesmo, né? Não. Esse é o segredo para lidarmos com a insegurança: precisamos mudar nosso hábito de criar expectativas. No meu caso, a prática vai melhorar o meu texto e eu continuarei escrevendo porque acredito que essa é uma arte que dá sentido para a minha existência.
Para acreditar nisso, tenho me forçado a duas coisas:
1. Agir. Não adianta nada eu querer o mundo e ficar em casa jogando, na rua bebendo ou no trabalho vendendo meu tempo. A vida só responde a ações, nunca a pensamentos. Minhas desculpas para quem acredita no "Segredo", mas não adianta só mentalizar coisas positivas. Se não agir, puf, não muda nada.
2. Mudar ideias. Toda vez que me pego pensando que meu texto é ruim ou que ninguém vai publicá-lo ou que eu deveria ter um trabalho convencional ou que ninguém lê mais ou qualquer outra coisa cuja função é simplesmente me colocar para baixo, eu paro e penso: de onde vem essa ideia e para o que ela serve? Quase sempre a resposta é: vem da minha insegurança, do meu eu que faz julgamentos e tem medo de errar, e serve apenas para deixá-lo confortável. Eu não quero que meu lado medroso fique confortável! Eu quero que meu lado raposa, esse lado criativo e emocional que todos nós temos, esteja solto e sadio para viver e experimentar o mundo. Quando essas ideias tentam invadir minha cabeça, então, eu olho para o papel colado na parede dizendo "Escreva!" e obedeço, porque sei que pensamentos são mais fracos que ações e que se algo vai me ajudar a alcançar o que desejo para a vida são minhas ações e não os meus pensamentos.
Eu não tenho uma fórmula mágica para acabar com a insegurança. O que tenho é meu próprio caminho na busca por ser menos refém do meu eu medroso e mais aliado do meu eu raposa.
segunda-feira, setembro 16, 2013
Maré vazante
No início de junho fui à festa literária Escandaliza, da Editora Escândalo (dedicada a títulos com temática LGBT), para o lançamento do Loveless, meu primeiro filhote (em conjunto com vários outros autores que aos poucos têm se tornado parceiros de conversas e agonias e prazeres de escrita). Foi lá que eu conheci Alexandre Melo, autor do livro Maré Vazante e outras estórias, também pela Editora Escândalo.
Eu não pretendia comprar nenhum livro do catálogo da Editora Escândalo naquela noite. Não que nenhum me interessasse, até pelo contrário, mas a verdade é que aquela noite era minha, só minha (e também dos meus amigos e dos colegas escritores, mas ei, meu blog, meu egocentrismo). Em meio aos vinhos e conversas, eu estava tão extasiado que nem sabia pra onde olhar. Informação demais, tesão demais junto, muita coisa acontecendo. Então ouvi meus amigos conversando com um moço que usava uma camisa engraçada (de bichinhos ou martelinhos ou alguma outra coisa inha, mas que chamava a atenção) e alguém disse pra mim, entregando esse livro branco com capa de roupinhas dobradas:
– Abre em qualquer página e lê, tu vai gostar. – O "tu" é licença poética minha para transformar todos meus amigos e conhecidos em gaúchos.
Eu folheei e nem achei tudo isso. Pensei que seria um livro de aforismos ou algo do gênero, ou que a narrativa seria tão mágica que cada parágrafo me amarraria sem saída. Aí eu conheci o autor, moço simpático e fofo (porque na hora de discursar ele fez a declaração de amor mais love story que já vi pessoalmente e achei bem mágico, só não chorei porque esqueci como se faz isso, mas o namorado-marido-companheiro dele chorou e foi bem lindo mesmo).
Ele foi um dos avaliadores do concurso de seleção de contos para o Loveless, então havia lido todos os textos. Conversando com ele, ganhei o maior elogio que eu poderia ter recebido de um escritor. Ou pelo menos o que eu até hoje considero o melhor, algum dia pode aparecer algum que o supere, mas já ali fiquei todo coração batendo forte e rosto ruborizado. As palavras dele me tocaram a tal ponto que coloquei imediatamente uma ideia na cabeça: eu só posso aceitar esse elogio e ser feliz com ele se o cara for um escritor que eu goste. De pouco adiantaria um elogio de alguém que não sabe escrever. Tá, eu sei, arrogância absurda, mas foi o que eu pensei, só estou sendo sincero. É a minha licença poética pra ser cretino mentalmente.
Daí eu comprei o livro, uma semana passou e li o danado. Aliás, verbo errado. Devorei, comi, introjetei, sorvi, me embriaguei no livro do Alexandre. Fiquei ao mesmo tempo alegre por haver conhecido um bom escritor e recebido um elogio dele e admirado pelo longo caminho que tenho a percorrer escrevendo. Não sei se faz sentido falar em níveis, mas sinto que não estou no nível dele. O conto que dá nome ao livro é maravilhoso; o que abre a seleção de histórias é iniciado auspiciosamente com uma chave na fechadura; o último é tão de adeus que chega a nos dar tchau quando termina.
Não é um livro sobre gays. É um livro com gays sobre questões da vida. Acho que o único defeito, se é que é um defeito e não sua principal fonte de impacto, é ser tão pequeno, tão efêmero, tão passageiro. Vem, alfineta nossas emoções e vai embora. Leiam.
Eu não pretendia comprar nenhum livro do catálogo da Editora Escândalo naquela noite. Não que nenhum me interessasse, até pelo contrário, mas a verdade é que aquela noite era minha, só minha (e também dos meus amigos e dos colegas escritores, mas ei, meu blog, meu egocentrismo). Em meio aos vinhos e conversas, eu estava tão extasiado que nem sabia pra onde olhar. Informação demais, tesão demais junto, muita coisa acontecendo. Então ouvi meus amigos conversando com um moço que usava uma camisa engraçada (de bichinhos ou martelinhos ou alguma outra coisa inha, mas que chamava a atenção) e alguém disse pra mim, entregando esse livro branco com capa de roupinhas dobradas:
– Abre em qualquer página e lê, tu vai gostar. – O "tu" é licença poética minha para transformar todos meus amigos e conhecidos em gaúchos.
Eu folheei e nem achei tudo isso. Pensei que seria um livro de aforismos ou algo do gênero, ou que a narrativa seria tão mágica que cada parágrafo me amarraria sem saída. Aí eu conheci o autor, moço simpático e fofo (porque na hora de discursar ele fez a declaração de amor mais love story que já vi pessoalmente e achei bem mágico, só não chorei porque esqueci como se faz isso, mas o namorado-marido-companheiro dele chorou e foi bem lindo mesmo).
Ele foi um dos avaliadores do concurso de seleção de contos para o Loveless, então havia lido todos os textos. Conversando com ele, ganhei o maior elogio que eu poderia ter recebido de um escritor. Ou pelo menos o que eu até hoje considero o melhor, algum dia pode aparecer algum que o supere, mas já ali fiquei todo coração batendo forte e rosto ruborizado. As palavras dele me tocaram a tal ponto que coloquei imediatamente uma ideia na cabeça: eu só posso aceitar esse elogio e ser feliz com ele se o cara for um escritor que eu goste. De pouco adiantaria um elogio de alguém que não sabe escrever. Tá, eu sei, arrogância absurda, mas foi o que eu pensei, só estou sendo sincero. É a minha licença poética pra ser cretino mentalmente.
Daí eu comprei o livro, uma semana passou e li o danado. Aliás, verbo errado. Devorei, comi, introjetei, sorvi, me embriaguei no livro do Alexandre. Fiquei ao mesmo tempo alegre por haver conhecido um bom escritor e recebido um elogio dele e admirado pelo longo caminho que tenho a percorrer escrevendo. Não sei se faz sentido falar em níveis, mas sinto que não estou no nível dele. O conto que dá nome ao livro é maravilhoso; o que abre a seleção de histórias é iniciado auspiciosamente com uma chave na fechadura; o último é tão de adeus que chega a nos dar tchau quando termina.
Não é um livro sobre gays. É um livro com gays sobre questões da vida. Acho que o único defeito, se é que é um defeito e não sua principal fonte de impacto, é ser tão pequeno, tão efêmero, tão passageiro. Vem, alfineta nossas emoções e vai embora. Leiam.
quarta-feira, setembro 11, 2013
Memórias de minhas putas tristes
Gabriel García Marquez é ótimo. Ele me puxou pela mão em Memórias de minhas putas tristes desde o primeiro parágrafo, em que descobrimos um nonagenário ligando para uma dona de bordel e requisitando uma adolescente virgem para foder. Cheguei ao final com aquele gostinho de tristeza e saudade por uma boa história concluída.
Meu encontro com o livro e com Gabriel se deu numa biblioteca pública que fica a menos de cinco minutos da minha casa. Decidi ler mais e ter menos, então a solução óbvia foi cadastrar-me na biblioteca. Junto com Memórias de minhas putas tristes peguei também Menino de engenho, no José Lins do Rego. Um autor estrangeiro e um autor brasileiro para temperar minhas leituras.
Meu encontro com o livro e com Gabriel se deu numa biblioteca pública que fica a menos de cinco minutos da minha casa. Decidi ler mais e ter menos, então a solução óbvia foi cadastrar-me na biblioteca. Junto com Memórias de minhas putas tristes peguei também Menino de engenho, no José Lins do Rego. Um autor estrangeiro e um autor brasileiro para temperar minhas leituras.
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