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sexta-feira, outubro 11, 2013

O reino do dragão de ouro

Quando vou à biblioteca estadual, procuro livros baseado em nomes conhecidos, títulos chamativos ou capas lindas. De cara isso já me sussurra algo para meu futuro como escritor: enquanto eu não for mundialmente famoso, seria inteligente pensar melhor meus títulos e em quem se responsabilizará pelas capas dos meus livros.


Não sei quando nem onde ouvi falar em Isabel Allende, mas passei meses namorando seus livros em nossos breves encontros entre prateleiras. Sempre que ia à biblioteca, lembrava dela, mas acabava não cruzando com nenhum livro seu e deixava para depois. Meu método de seleção é pouco lógico, simplesmente vou caminhando pelos corredores e deixando que eles me mostrem o que quiserem. É uma disputa injusta para com os livros mal diagramados, verdade.

A aventura de O reino do dragão de ouro é a segunda parte de uma trilogia, mas a história foi bem amarrada e não senti falta da primeira. Lendo este livro, fiquei por dentro dos principais acontecimentos do anterior, mas não necessariamente sem as possíveis surpresas que encontraria lendo-o. Por falar em surpresas, o estilo da Isabel Allende é um convite à aventura. Não se trata de um texto poético ou reflexivo, mas sim de uma história gostosa de imaginar. Os personagens não são particularmente profundos, o que oferece certa consistência do início ao fim, especialmente depois que reconhecemos os padrões. Todos os desafios enfrentados são externos, ou seja, os conflitos não precisam ser resolvidos em termos de motivações e moral, mas sim de astúcia, magia e habilidade.

Mesmo sem haver terminado a leitura de Para ler como um escritor (ainda lerei, prometo), venho lendo meus livros com esse olhar. Procuro formas de descrever personagens, cenários, ações etc. Metáforas. Ideias para personagens. Com a Isabel Allende pude perceber exemplo de algo que já havia lido a respeito: em alguns diálogos há personagens que simplesmente não falariam certas coisas. Uma das protagonistas é brasileira e tem quase treze anos, mas discursa lindamente em inglês. Outro protagonista, com uns quinze ou dezesseis, é quase um doutor no jeito com que expõe suas ideias. Isso me incomodou. Não o bastante para que eu largasse o livro, mas o suficiente para fazer um rasgo no universo fantástico tecido pela autora.

Também observei, além dos diálogos, o modo como a autora prende nossa atenção enquanto descreve acontecimentos. É tudo ação. Mesmo quando as descrições estão sendo feitas, elas surgem em meio a movimento e mudança. Isso confere ritmo à narrativa. Ao final das 305 páginas do livro, senti como se não tivesse lido mais do que 120. A história fluiu e não mais do que duas ou três vezes eu considerei pular parágrafos. Excelente!

sexta-feira, outubro 04, 2013

O que as pessoas leem

Quando estava lendo Paulo Coelho, tomei um grande cuidado para não sair à rua com o livro exposto. E se alguém me reconhecesse e observasse o que eu estava lendo? Vai que alguém não me conhecesse e desistisse de me oferecer um milhão de dólares porque pensou mal de mim? Eu já disse, gostei de O Alquimista, mas esse é um segredo só nosso.

Brincadeiras à parte, enquanto voltava da biblioteca com o livro O reino do dragão de ouro, da Isabel Allende, fiquei pensando no que aquilo que nós portamos diz ao mundo sobre nós. Se eu vejo alguém lendo Dan Brown, possivelmente terei uma impressão diferente e menos interessada do que se encontrar uma pessoa devorando um livro do Neil Gaiman. Numa cidade do interior aqui de Goiás vi dois caras discutindo fervorosamente. Olhei para a mesinha e reparei um tomo gigantesco do Lacan. Preciso dizer que os sujeitos ganharam pontos positivos na minha tabelinha do preconceito?


Depois de escrever isso tudo, acho que muita gente usaria aquele discurso "é necessário cuidar das nossas aparências e das mensagens que passamos aos outros". Sim, isso pode ser verdade. Certamente é o que eu digo para os meus alunos na sala de aula, afinal serão profissionais da Comunicação. Daí a eu achar que a opinião alheia deveria ser uma preocupação constante nossa já é outra história.

Para mim interessa principalmente lembrar, da próxima vez que eu ver alguém com um livro, que a pessoa pode ter milhões de motivos para estar com ele. Se ela já está com um livro aberto nas mãos, provavelmente já é um ponto positivo a ser considerado, seja esse livro qual for (há uma exceção que ainda não venci o preconceito, mas é questão de tempo, prometo!). Portanto, fica a dica: julgar uma pessoa pela capa (do livro que ela está lendo) não revela nada sobre a pessoa ou sua história, apenas sobre nossos próprios preconceitos.

Em tempo: escrever sobre isso me lembrou o projeto de um amigo, o Common People Reading (pessoas comuns lendo). Foi de lá que roubei a foto.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Minha nova regra com livros

Li na biblioteca a sinopse de um livro que parecia maravilhoso. Talvez ele até seja, de fato. Não sei e não descobrirei tão cedo. Trouxe o danado para casa e li a primeira página. Depois a segunda, a terceira, a trigésima, a centésima e a última. Pronto, perdi a paciência.


Quase todo manual para escritores que eu encontro diz que o começo de uma história deve cativar o leitor. A primeira frase, parágrafo ou página. Nem sempre acontece. Para falar a verdade, não acontece com a maior parte dos textos clássicos que encontro por aí. Talvez isso aconteça porque na época em que viraram clássicos ainda não precisavam competir com tantos clássicos (faz sentido?).

Então, para desespero da Virginia Woolf (como se ela se importasse), criei uma nova regra (sou cheio de regras, já perceberam?) para a leitura de livros: se eu não me encantar com as primeiras palavras... tá bom, com as primeiras frases e parágrafos, se eu não me encantar até a terceira página, não leio. Não leio e ainda reclamo depois, porque não sou obrigado a fingir que gostei ou que li. Se for clássico dos clássicos até tento mais um pouco.

Claro, vale uma ressalva.
Eu não estou dizendo "não leio pra sempre nunca nunca mais me fale desse livro". Estou dizendo meramente que neste momento da vida não lerei o dito cujo. Amanhã, quem sabe, tento de novo. Ano que vem. O tempo muda os livros porque transforma o leitor. Vai que a raposa leitora de amanhã curte mais o que está lendo? Enquanto isso não acontece, porém, a Virginia Woolf permanecerá na estante.

domingo, setembro 22, 2013

Uma leitura nada zen

Estava eu feliz e contente lendo meu livro sobre escrita a partir de uma perspectiva zen (Escrevendo com a alma) quando me dei conta que faltava ainda metade do livro. Pensei "nossa, tudo isso!". Em seguida ri de mim mesmo, tão interessado no fim da leitura e tão pouco no processo em si. Onde está o meu zen nisso tudo? Ai, ai...

sábado, setembro 21, 2013

Falar de escritores

Ontem eu escrevi no Facebook que não gostava do texto rebuscado da Virgínia Woolf. Estou arrependido até agora dessa afirmação. Imaginei repórteres me entrevistando trinta anos no futuro e retomando essa questão como se fosse uma falha no meu currículo. Acho que realmente é.

Tenho para mim que há um momento para fazermos as coisas. Eu já tentei em duas ocasiões ler alguma coisa da Virginia Woolf e em ambas as vezes fiquei perdido, cansado, distante do texto. Isso pode, sim, ser um problema dela, mas muito provavelmente é uma dificuldade minha. O que levo de mim para a leitura não está sendo suficiente – não, não tem nada a ver com quantidade, deixa eu reformular – ... O que levo de mim para a leitura não está sendo adequado ao que ela escreveu. Meu olhar tem caçado outro tipo de palavras e frases e parágrafos, talvez por isso nossa relação não esteja fluindo. Isso não é um erro de nenhum de nós, é apenas um desalinho que pode, eventualmente, ser consertado.


Comecei Para ler como um escritor, de Francine Prose, mas já me irrita o fato de que nas primeiras 30 páginas ela já questionou leituras feministas. Para ela aparentemente vale mais o texto em si do que as ideias evocadas por ele, o que acho meio contraditório – talvez me falte leitura para pensar o contrário –, uma vez que as ideias saem do texto em si. Incomoda sobremaneira a forma como ela trata a predominância de escritores brancos como um dado artístico e não sociocultural.

Por outro lado, já estou cativado pela Natalie Goldberg no livro Escrevendo com a alma. Não foi novidade: estive antecipando esse prazer desde que soube – pela contracapa – que a autora escrevia a partir de uma abordagem fundamentada no zen-budismo. Não deu outra, já estou fã e nem passei da introdução.

O alquimista

Sempre tive preconceito com o Paulo Coelho, daqueles preconceitos que a gente não sabe de onde vem nem por que está ali. Com o tempo, parei com as críticas vazias e me agarrei à ideia de que só poderia criticá-lo quando tivesse finalmente lido algo seu. Esse dia chegou.


É claro que não falarei sobre toda a sua obra, que é bastante extensa, mas apenas sobre O Alquimista, que conta uma história muito bacana em um formato parecido com fábula. É a história de um pastor que vai atrás de sua Lenda Pessoal, de seus sonhos, de seu papel na vida. É uma narrativa com a qual posso e quero me identificar.

Parte das minhas leituras tenho feito com um olhar de escritor, buscando no estilo de cada texto pistas, ingredientes e técnicas para reproduzir na minha própria arte. O que me chamou atenção no jeito do Paulo Coelho escrever é a maneira como o texto se repete (sem necessariamente ficar cansativo). A cada três ou quatro páginas somos relembrados dos conceitos que ele vem apresentando, tal como se fosse uma aula e não um romance. Isso não é ruim, mas dá suporte aos argumentos de que trata-se de um livro de leitura fácil.

O que me deixa matutando é a seguinte questão: o que faz boa literatura? Já li alguém comentar que seria a potência de releitura, aquele texto que continua a nos afetar mesmo depois que lemos uma, duas, dez vezes. Se esse for um critério, O Alquimista não me sugere uma segunda leitura. Para falar a verdade, quase nada que não seja absurdamente complexo o faz. Talvez boa literatura seja aquele texto difícil, que exija mais do que poesia e interpretação, exija recriação, envolvimento profundo. Não sei.

Paulo Coelho explica tudo. Não há margem para interpretações outras, ele lança a questão e em seguida diz o que devemos entender daquilo. Talvez seja isso que o torna tão agradável: além de contar uma história que aquece nossos corações e esperanças, ainda o faz dizendo com todas as letras que essa é a intenção. Eu terminei a leitura dO Alquimista desejando buscar a minha Lenda Pessoal. É um livro que me afetou. Será que isso é suficiente para fazê-lo boa literatura?

Será que, no fim das contas, é importante discutir o que é boa ou má literatura?
Tenho certeza: se eu tivesse lido O Alquimista um ano atrás, teria odiado. Eu não tinha, à época, bagagem ou interesse pelas suas questões. É realmente complexa essa balança entre estilo (forma) e conteúdo (função?)...

sexta-feira, setembro 20, 2013

Bom-Crioulo

Li hoje o Bom-Crioulo inteiro numa sentada. Um livro de 1895 escrito por Adolfo Caminha surpreende por tratar de homossexualidade na marinha brasileira misturando um escravo fugido e um adolescente.


"Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico de posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante coisa, nunca homem algum ou mulher alguma produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia! Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo naquele mesmo instante, como a força magnética de um ímã"
Fui pego de surpresa várias vezes ao longo da história. O autor não enrola: o que importa é a paixão sôfrega que o Bom-Crioulo Amaro carrega pelo ninfeto Aleixo e desde o início fica muito claro que o negro está de amores pelo branquinho.

Mesmo não me identificando com a maneira como o autor explora a homossexualidade como um ato impuro, um "delito contra a natureza", e odiando os pensamentos homofóbicos do guri novo, não dá para negar a ousadia em escrever sobre esse tema em 1895, muito menos o tom erótico que o texto assume de quando em vez. É um livro gostoso de ler em muitos sentidos.

segunda-feira, setembro 16, 2013

Maré vazante

No início de junho fui à festa literária Escandaliza, da Editora Escândalo (dedicada a títulos com temática LGBT), para o lançamento do Loveless, meu primeiro filhote (em conjunto com vários outros autores que aos poucos têm se tornado parceiros de conversas e agonias e prazeres de escrita). Foi lá que eu conheci Alexandre Melo, autor do livro Maré Vazante e outras estórias, também pela Editora Escândalo.


Eu não pretendia comprar nenhum livro do catálogo da Editora Escândalo naquela noite. Não que nenhum me interessasse, até pelo contrário, mas a verdade é que aquela noite era minha, só minha (e também dos meus amigos e dos colegas escritores, mas ei, meu blog, meu egocentrismo). Em meio aos vinhos e conversas, eu estava tão extasiado que nem sabia pra onde olhar. Informação demais, tesão demais junto, muita coisa acontecendo. Então ouvi meus amigos conversando com um moço que usava uma camisa engraçada (de bichinhos ou martelinhos ou alguma outra coisa inha, mas que chamava a atenção) e alguém disse pra mim, entregando esse livro branco com capa de roupinhas dobradas:

– Abre em qualquer página e lê, tu vai gostar. – O "tu" é licença poética minha para transformar todos meus amigos e conhecidos em gaúchos.

Eu folheei e nem achei tudo isso. Pensei que seria um livro de aforismos ou algo do gênero, ou que a narrativa seria tão mágica que cada parágrafo me amarraria sem saída. Aí eu conheci o autor, moço simpático e fofo (porque na hora de discursar ele fez a declaração de amor mais love story que já vi pessoalmente e achei bem mágico, só não chorei porque esqueci como se faz isso, mas o namorado-marido-companheiro dele chorou e foi bem lindo mesmo).

Ele foi um dos avaliadores do concurso de seleção de contos para o Loveless, então havia lido todos os textos. Conversando com ele, ganhei o maior elogio que eu poderia ter recebido de um escritor. Ou pelo menos o que eu até hoje considero o melhor, algum dia pode aparecer algum que o supere, mas já ali fiquei todo coração batendo forte e rosto ruborizado. As palavras dele me tocaram a tal ponto que coloquei imediatamente uma ideia na cabeça: eu só posso aceitar esse elogio e ser feliz com ele se o cara for um escritor que eu goste. De pouco adiantaria um elogio de alguém que não sabe escrever. Tá, eu sei, arrogância absurda, mas foi o que eu pensei, só estou sendo sincero. É a minha licença poética pra ser cretino mentalmente.

Daí eu comprei o livro, uma semana passou e li o danado. Aliás, verbo errado. Devorei, comi, introjetei, sorvi, me embriaguei no livro do Alexandre. Fiquei ao mesmo tempo alegre por haver conhecido um bom escritor e recebido um elogio dele e admirado pelo longo caminho que tenho a percorrer escrevendo. Não sei se faz sentido falar em níveis, mas sinto que não estou no nível dele. O conto que dá nome ao livro é maravilhoso; o que abre a seleção de histórias é iniciado auspiciosamente com uma chave na fechadura; o último é tão de adeus que chega a nos dar tchau quando termina.

Não é um livro sobre gays. É um livro com gays sobre questões da vida. Acho que o único defeito, se é que é um defeito e não sua principal fonte de impacto, é ser tão pequeno, tão efêmero, tão passageiro. Vem, alfineta nossas emoções e vai embora. Leiam.

domingo, setembro 08, 2013

Um livro gostoso


Eu estava com os editores da Escândalo (Giselle e Roberto) numa mesa grande dentro de um restaurante ou um salão de festas. Tínhamos pratos à nossa frente e conversávamos sobre a arte de escrever. Coisa simples, autor conversando com autores editores. Logo chegaram alguns amigos que ainda não conheciam o Loveless, então entreguei-lhes um exemplar (de onde tirei? Não sei, era sonho, pô!) para que olhassem. Eram uns quatro, ao todo.

Olho para Giselle e Roberto, troco qualquer palavra e me volto aos amigos a fim de informá-los do preço. Eis que vejo-os com o livro aberto e percebo diversas folhas já arrancadas. Em seus pratos, uma macarronada toda colorida de temperos e sabores. Um deles ainda teve a audácia de comentar entre uma garfada e outra: "nossa, seu conto é muito gostoso". Alguns livros só podem ser devorados uma vez...

sábado, setembro 07, 2013

Abraços coloridos



– Como vocês têm coragem de fazer isso? – a colega de trabalho do meu namorado perguntou apavorada. Fazia referência, é claro, a nós dois caminhando de mãos dadas na praça de alimentação do shopping. – Todo mundo ficou olhando!

Ele deu exatamente a mesma resposta que eu daria:

– Você não anda de mãos dadas com o seu namorado?

A garota concordou e ficou pensativa. Acho que só meus olhos de raposa enxergaram o que verdadeiramente aconteceu. Ocorre sempre que dois homens dão-se as mãos (e ainda mais forte quando se abraçam ou se beijam): numa frequência impossível de enxergar por reles seres humanos, impulsos de luz colorida emanam do toque, espalhando uma energia arco-íris por todo o ambiente. Mesmo que não consigam enxergar, os humanos percebem que há algo acontecendo ali, algo fora de sua compreensão, algo que escapa a seu mundinho de cores banais.

O grande medo é de que essas cores sejam contagiosas, que ver um beijo possa dar-lhes vontade de beijar também. Hoje em dia ninguém mais tem certeza do que gosta de verdade.

sexta-feira, setembro 06, 2013

A sedução dos livros

Não tenho mais para onde fugir. Antes bastava passar longe das tentadoras estantes das livrarias e eu mantinha meu dinheiro no bolso, o que já não era fácil. Como lidar com a internet que traz a possibilidade de comprar meus livros a partir de alguns cliques inocentes? Quando vejo já estou no portão esperando o carteiro e a conta do cartão de crédito, ai ai...

quinta-feira, setembro 05, 2013

A carne é fraca

César sempre foi um cara macho. Desde criança pega geral, se as meninas se descuidassem lá estava ele chegando junto, dando aquela encochada disfarçada de abraço ou procurando a boca das amiguinhas pra beijar "só de brincadeira". Aos doze anos já não era virgem há pelo menos quatro, ou ao menos era o que as histórias contavam. Aos dezessete, festa boa era aquela em que pegava no mínimo cinco garotas.

Poderíamos pensar que alguém com esse perfil seria um machista abusado e sacana, mas César até que era um cara legal. Ele protegia, por exemplo, os colegas de escola mirradinhos dos outros, deixando bem claro pra quem quisesse briga - e brigava mesmo - que ninguém podia mexer com os amigos dele. Tinha até aquele tal de Greguinho, que diziam que era homossexual, mas César defendia igual. Sempre dizia: "quer ser gay, de boa, é só não dar em cima de mim". Como Greguinho respeitava sem problemas esse mandamento, a relação dos dois era perfeita.

Um belo dia, porém, uma festa veio e o álcool foi misturado em todas as variantes possíveis. César ficou mais do que bêbado e depois de algumas tentativas frustradas, descobriu que nenhuma das garotas presentes estavam minimamente interessadas em corresponder seus avanços. Bêbado e entediado (além de excitado), César viu Greguinho num canto e foi conversar com ele. Papo foi, bebida veio, mais papo foi, o que todo mundo sabe é que os dois sumiram e só foram vistos novamente na segunda-feira seguinte.

Ninguém sabe bem o que, ou se, aconteceu. Entretanto, todo mundo passou a entender o verdadeiro significado da advertência de César: "quer ser gay, de boa, é só não dar em cima de mim".

A buzina e os anjos

Aconteceu numa dessas esquinas cheias de gente e de carros, às vezes mais de carros do que gente. Barulheira típica, sinal fechado pra uns, cruzamento trancado para outros. Então uma caminhonete preta (na verdade era outro tipo de carro, mas ficou na minha cabeça a impressão de que somente alguém dirigindo uma imensa caminhonete preta agiria desta forma) começou a buzinar. Não foi um bi bi ligeiro, daqueles que a gente dá para avisar alguém de algo (buzina tem outra função?), mas um biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii tão contínuo e desproporcional que não parou de buzinar (não sei se na memória ou na vida real) mesmo enquanto a caminhonete preta já estava muito além do cruzamento.

Foi um momento mágico. Embalados pelo som mágico da buzina, sete anjos desceram dos céus e ergueram um pequeno fusca (também não era um fusca, mas achei fofo o contraponto) que trancava o cruzamento para que a caminhonete passasse. Graciosos, eles devolveram o fusca ao seu lugar e, quando a buzina parou de soar (metros adiante), bateram suas asas plumadas e voltaram ao ar.

Enquanto tomava meu suco e comia meu misto quente, percebi que ninguém mais notara os anjos. Para todos os outros, a caminhonete havia simplesmente desviado do fusca e a buzina era de xingamento, não de invocação divina. Logo estávamos todos acomodados com os sons típicos de uma esquina movimentada. Para mim, porém, ficaram os resquícios daquele momento mágico a temperar meu pão e minha tarde.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Minha casa sou eu

Hoje acordei num lugar estranho. Tudo empoeirado, livros espalhados por cima de todos os móveis, roupas acumuladas num cesto enorme, louças jogadas pela pia. Olhei ao redor tentando reconhecer alguma coisa, encontrar uma pista sobre aquele ambiente misterioso. Quem moraria ali? Uma pessoa desleixada, ou no mínimo ocupada demais para cuidar da própria casa. Talvez até alguém que há muito se foi e estava tão perdido em si mesmo que nem teve tempo de arrumar suas coisas.

A verdade bateu na porta com um sorriso irônico. "A casa é sua", ela disse. Eu quis responder que não, mas ela tinha razão, sempre, sempre tinha. Eu acordara não na casa que imagino e desejo para mim, mas na que tenho permitido existir. A casa em que acordei é o resultado de mim, é o reflexo do que eu faço com meu tempo e com os meus espaços.

Esta casa pegando pó sem ninguém para limpar, espalhando livros sem alguém para organizá-los e acumulando roupas e louças em lugares impróprios sou eu, simplesmente. Não gostei do que vi e voei para limpar, ajeitar, espanar, guardar. Não é o suficiente. Ela voltará a ser o lugar em que acordei e não o lugar com que sonhei. A única saída é eu deixar de ser a pessoa que simplesmente deixa as coisas acontecerem e, no lugar, assumir o papel de uma raposa que gerencia o seu mundo, o seu tempo e, também, seus espaços.

O convite da moto

Sentei escorado num poste com o livro aberto e óculos escuros me distanciando do mundo. Entretido pela companhia das letras, não olhei para ninguém até uma moto passar zunindo. Perdi o ritmo das frases e em seguida notei o que estava ao meu redor: estudantes da universidade ansiosos pelo ônibus que não chegava nunca, uma garota de cabelos cacheados rindo, dois rapazes agitados em movimentos espasmódicos, o céu cinza numa cidade que costumava ser apenas ensolarada. Distante, a moto ainda espalhava o seu rastro sonoro cada vez mais insignificante. O piloto levava consigo o convite feito à minha atenção.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Planos para o futuro

Setembro chegou e, com ele, a hora de fazer os planos para o meu futuro. Ainda não pretendo entrar em detalhes, embora meus amigos e namorado já estejam cientes e participantes do processo. São muitas coisas a acertar até o final do ano, o que certamente inaugura uma nova temporada na vida desta raposa. Por ora, deixo registrado minha intenção: ter escrito um livro de contos com temática LGBT antes do fim de 2013.

O plano inicial era ter um livro meu publicado, mas estou em dúvida se vou investir pessoalmente em editar/publicar ou se vou batalhar por uma editora. De toda forma, ainda estou a meio caminho no material, portanto nem vou gastar neurônios considerando como editar um livro que ainda não existe.

Um dos planos para 2014 é retomar a escrita de literatura fantástica. Esses são os dois universos com os quais me sinto mais a vontade para criar, por isso pretendo investir profundamente neles.

segunda-feira, agosto 26, 2013

Oficina de escritores

Comecei a ler Oficina de escritores, de Stephen Koch, e desde a primeira página estou experimentando a estranha vontade de ler devagar para que ele nunca acabe. Um livro, ao contrário de muitas outras coisas na vida, sempre estabelece desde o início da relação quando chegará ao fim. Pode acabar antes, mas nunca depois da última página. Há a releitura, alguém dirá, mas reler é reviver a memória, retornar a um amor que deu certo, mas sei foi.



Ao longo do livro (estou na página 110 de 270), o autor vai não tanto ensinando o que fazer ou como fazer, mas inspirando o que e como construir na arte da ficção. Recentemente abandonei frustrado a construção de um romance que esteve na minha cabeça há anos. Agora sinto-me confiante para dar uma chance maior a essa semente, de modo que ela continue crescendo. Desistir simplesmente porque não alcancei a melhor maneira de expressar minhas ideias na primeira tentativa é infantil, mas uma lição valiosíssima para alguém como eu, todo cheio de medos.

É tão bom ler um livro que foi escrito diretamente para mim. Os conselhos de Koch são para esse meu momento: escritor iniciante. Fere o orgulho admitir que meu texto ainda é muito frágil e que sei quase nada sobre a construção de narrativas. Por outro lado, estou feliz de cruzar com eles agora. Num passado talvez eu não tivesse compreendido suas propostas... provavelmente diria que ele fala besteiras ou obviedades. Não é incrível como as coisas só fazem sentido no momento exato de sentir, nunca antes e certamente não tão exato depois?

terça-feira, agosto 13, 2013

O que nós escritores temos a ver com os cinquenta tons de cinza

Como eu não li os livros, peço que alguém me corrija se eu estiver errado. Na história a protagonista conhece e se apaixona por um cara e passa a atender aos seus desejos e a se submeter às suas vontades, muitas vezes ignorando ou negando os próprios desejos e vontades em nome desse 'amor'. Vejo aí dois problemas: isso é machismo e isso não é o que eu entendo por amor. O gatilho para esse post foi uma notícia (aqui) e alguns comentários em um grupo do Facebook.


Isso é machismo

Formas de arte são apenas histórias e entretenimento. Certo? Errado. A arte, como qualquer forma de discurso humano, carrega ideias que dão sustentação ao que acontece. Nós entendemos algo como coerente quando essas ideias estão afins com algo que nós acreditamos ou que reconhecemos que os outros acreditam. Pergunta teste número 1: esse livro pareceria coerente se fosse a história de um homem rico e bem sucedido que se submete a uma mulher e passa a abrir mão de sua própria vida em nome dela? Suponho que não (e tampouco ele carregaria uma mensagem melhor).

Certo, e qual é o discurso dominante neste livro? O do machismo, ou seja, da supremacia do homem sobre a mulher. De acordo com os discursos machistas, a mulher é um objeto para o homem. O problema é que nem todo machismo é óbvio e ululante. Vamos a exemplos mais cotidianos? Hoje vi uma foto no Facebook de mulheres tirando selfies, aquelas fotos de nós mesmos no espelho, e embaixo uma outra imagem mostrando um bando de louça suja. A narrativa é bem óbvia: "fica aí se mostrando e se fotografando ao invés de cumprir seus deveres". Novidade: lugar de mulher não é na cozinha, é onde quiser. Pergunta teste número 2: que tal a gente substituir as mulheres se fotografando por nerds jogadores de videogame ou por frequentadores de academia? É, não seria a mesma coisa. Por quê? Porque nossa sociedade sugere que é da mulher o dever de limpar a casa enquanto o macho providencia o sustento e, claro, manda em tudo.

Quando um livro é publicado e alcança o sucesso que Cinquenta tons de cinza alcançou, é importante refletirmos sobre o papel social que ele tem. Milhares de pessoas estão assimilando sua narrativa sem sequer considerar que ela pode ser espelho de um comportamento cruel. Esse comportamento, repetido na mídia à exaustão, assume o caráter de normalidade e passa a servir de exemplo sobre como as coisas são. Ou seja, não é a leitura do livro que vai te transformar em um machista. É o machismo já entranhado nas veias do leitor que vai encontrar conforto e se tornar ainda mais difícil de sair.

Isso não é amor

Eu certamente não sou especialista em amor, mas o entendo como um sentimento que busca o bem do próximo. O bem do próximo, para mim, envolve não negar a subjetividade da pessoa e não criar uma grade em volta dela. Amor não é controle, não é exercício de poder sobre outra pessoa. Amar é cultivar, é gostar, é dar atenção e carinho, é proporcionar felicidade. Já escrevi algumas várias vezes sobre amor (aqui) e por isso vou manter o tópico curto.

O resumo é: fazer com que uma pessoa abra mão da própria vida em nome de outra pessoa não é amor, é egoísmo.

O que nós escritores temos a ver com isso?

Certo, o mundo no qual vivemos está estragado e cheio de exemplos ruins. Danou, então, né? Quase. Nós escritores e artistas temos na mão um poder muito interessante, o de convidar pessoas às nossas narrativas e com elas oferecer outros mundos possíveis. Não estou dizendo que devemos escrever só histórias boazinhas de pessoas que encontram o 'amor verdadeiro' sem desafios nem preconceitos ou machismos. Salvo ficções científicas dedicadas à utopia, nossas histórias se passam em mundos maculados por esses problemas.

Aí que está a questão: nós não devemos reproduzir esses problemas inconscientemente. Nosso trabalho é importante demais para que não estejamos conscientes do que fazemos e de quais discursos estamos reproduzindo. Como escrevi esses dias na Raposa do Face, peço apenas coerência: quer ser machista, sexista, homofóbico, racista, transfóbico etc? Beleza, mas assume. Isso se chama honestidade intelectual, algo que só é possível quando a gente sabe o que está fazendo.

Tu sabe o que está fazendo quando escreve?
Sabe quais discursos está reproduzindo através das tuas letras?

Se não, convém estudar mais.

segunda-feira, agosto 12, 2013

Procure pessoas como você

Quando fui ao lançamento do livro em que tenho um conto publicado, meu primeiro filhote (não, eu nunca vou parar de falar dele. Tá, mentira, um dia eu provavelmente falarei bem menos porque terei outros filhos favoritos, mas por enquanto ainda é o Loveless), duas coisas foram superimportantes. A primeira delas é óbvia: poxa, eu lancei um livro. Não eu sozinho, junto com outras pessoas, mas especialmente a partir do olhar e aval de uma editora, o que significa que alguém acreditou no meu trabalho artístico. Beleza. A segunda coisa e ainda mais importante é que eu conheci pessoas como eu, pessoas que não só escrevem, mas escrevem sobre os mesmos temas que eu. Pouco a pouco, conversa a conversa, estou conhecendo outras histórias de pessoas que vivem dramas muito parecidos com os meus (Será que o texto está bom? Conseguirei uma editora? Como escrever bem? Quem sou eu? Dá pra viver de literatura? Aaaaah?) e iniciando algumas amizades.

Isso tudo se soma em uma grande descoberta: procurando pessoas como eu, descobri que tenho com quem compartilhar questões específicas que nem todo mundo entende. Isso ajuda. Muito. A internet é um grande mar de interesses diversos, a única coisa que nos separa de encontrar pessoas fabulosas e dispostas a compartilhar tempo com a gente é nosso próprio medinho (ou falta de conexão, mas né...) de encarar aquilo que colocamos como sendo nosso sonho, nosso objetivo.

Saia do casulo e procure pessoas que possam compartilhar o seu sonho. É ótimo!

domingo, agosto 11, 2013

Devo contratar um agente literário?

Hoje fui pesquisar sobre agentes literários e, mais uma vez, cheguei à conclusão de que quero que alguém me diga Tales, tu pode fazer isso. É como se eu precisasse de permissão alheia não apenas para tomar as minhas decisões, mas para viver com elas. Essa é a razão pela qual eu quis procurar um agente literário, para me livrar da responsabilidade de fazer um trabalho que inicialmente deve ser meu: o de buscar meu espaço entre quem publica.

A mesma coisa tem acontecido sobre eu me dedicar a escrever mais e talvez não fazer o doutorado ano que vem. Estou o tempo inteiro conversando com meus amigos e perguntando o que acham disso. Eu já sei o que eu acho e já estou mais ou menos decidido, então não são as opiniões que estão mudando alguma coisa no meu pensar. São as permissões. Eu estou pedindo permissão para ser quem eu sou e isso não é legal.

De toda forma, estou no meio desse processo louco de descobrir meu lado raposa escritora, o que é um sofrimento, mas também um prazer sem igual. Entre sexta e hoje concluí dois contos. O meu medo de escrever e de dar a cara a tapas está diminuindo à medida em que aumenta minha confiança nas letras.

Em resumo, respondo a pergunta do título: se tu já tem um caminho na literatura se formando, beleza, talvez seja bacana ter um profissional mediando o processo. Isso é o que eu aprendi na minha breve pesquisa. Do contrário, te concentra em aprimorar a tua técnica e a tua arte. Sem a produção não há resultado. Não há como eu alcançar o meu sonho de ser escritor famoso sem colocar em prática a obviedade de ser escritor.
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