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quarta-feira, outubro 23, 2013

A raposa e a coruja

Uma das razões para 2013 ser um ano no qual tenho sido muito feliz está no relacionamento que tenho com meu namorado, de longe o mais maduro que já vivenciei. Nós compartilhamos nossas ideias e anseios, conversamos sobre tudo e passamos muito tempo juntos, seja dormindo aqui em casa, seja passeando sozinhos ou entre amigos. Se há uma palavra para definir o que vivemos, é amor.


É justamente por termos uma relação construída na base de confiança mútua e desejo pela felicidade do outro que São Paulo é uma armadilha maldosa para nós dois. Ele sabe a importância que esse passo tem para mim e compreende que minha partida implicará em eu alcançar uma felicidade ainda maior do que temos hoje. Sim, eu estou sendo egoísta nisso e é uma droga admitir que meu sonho de futuro não tem espaço para os abraços e beijos que fizeram esse ano tão melhor do que poderia ser. É uma trajetória que preciso trilhar sozinho, do contrário não conseguirei me tornar a pessoa que preciso. Eu realmente acredito nisso. Eu, eu, eu.

A nossa relação vai mudar, não seremos mais um do outro, não dormiremos juntos quase todas as noites (talvez mais nenhuma), não viveremos nossos dias de mãos dadas ou com medo de dar as mãos porque algum louco gritou com a gente. Temos pela frente muitas noites regadas a lágrimas e memórias felizes convertidas em saudade. Saber que o carinho, a confiança e o desejo pela felicidade não mudarão de nada adianta frente à vontade grande de continuar dono, de continuar pertencendo.

Eu sei que é amor porque, apesar de todas os desejos contrários, estou livre para perseguir meus sonhos. Uma união improvável, raposa com coruja, mas prova viva de que é possível dividir tempo e carinho com outro alguém e ser e fazer feliz enquanto juntos. Mais do que isso, na verdade, porque a coruja todos os dias tem me dado sempre mais motivos para sorrir enquanto construímos juntos novas memórias.

domingo, outubro 20, 2013

Uma mudança se aproxima

Começou aquela sensação estranha de ansiedade e despedida. Meu tempo em Goiânia está se esgotando. Percebi isso sexta-feira à noite, quando saí com meu namorado e dois bons amigos. Percebi também no dia anterior, quando saí apenas com dois amigos. Ou ainda no dia seguinte, quando encontrei um punhado de gente que admiro e de cujas vidas me orgulho de participar.


Eu tenho uma boa vida aqui em Goiânia. Quando falo em ir embora, não penso nisso com raiva, decepção nem nada de ruim parecido. Quase tudo que vivi ou vivo aqui me enche de sorrisos. Conto nos dedos as experiências ruins, que ao menos servem como coisas a serem evitadas no futuro.

Vindo de Porto Alegre para Goiânia aprendi que as pessoas especiais que fazem parte da minha vida não desaparecerão. Eu tinha medo disso, hoje não tenho mais. A parte superficial dos relacionamentos pode mudar: a frequência das conversas e dos abraços, por exemplo. O que não muda, como meus melhores amigos podem atestar, é o carinho e o cuidado pelas pessoas que amamos. Eu sei que as pessoas maravilhosas que conheci em Goiânia não deixarão de participar dos meus dias, da mesma forma que ainda hoje Porto Alegre vive comigo. Saber disso me deixa mais confortável rumo a essa nova etapa da vida.

O amor que a gente sente não desaparece na distância. Ainda bem.

segunda-feira, outubro 07, 2013

O amor não serve para nada

Li hoje uma notícia/entrevista sobre um sujeito que só come carne crua há cinco anos. Ele tem uma namorada vegetariana. Um amigo, ao me enviar esse link, comentou como o amor é algo interessante, em muitos casos contraproducente. Afinal, como uma vegetariana namoraria um carnívoro? A minha resposta é simples: ora, o amor não serve para nada.


Calma, eu explico. Acho o amor uma coisa muito fofa e cuticuti, mas tenho a impressão de que a minha abordagem é bem pouco romântica. Amar, pra mim, e já falei isso antes várias vezes (aqui e aqui, por exemplo), é querer e tratar bem, cuidar, dar atenção e carinho, se preocupar. Não tem nada a ver com procurar no resto do mundo alguém que reflita os nossos ideais. Talvez eu até seja um pouco romântico, veja só, porque acho que a gente ama por amar, não para alcançar alguma coisa. No caso da moça vegetariana, qual é o problema, exatamente, em ela namorar um cara que tem a geladeira recheada de carne crua?

Eu não amo todo mundo. Tenho a impressão de que só os sujeitos mais evoluídos espiritualmente conseguem essa proeza que, para ser bem sincero, seria muito útil à nossa existência coletiva. Um mundo em que as pessoas se preocupassem e cuidassem uns dos outros certamente seria um mundo melhor. Ou menos cretino, ao menos. Acho que o título deste texto está errado, afinal. O amor serviria para alguma coisa se fosse universal. Pena que é um enorme se.

sexta-feira, outubro 04, 2013

Ciúme não é prova de amor

Quero começar deixando claro que não acredito que namorar com alguém signifique ser dono desse alguém. É uma ideia simples, mas acho que muita gente vai discordar. Por esses tempos namorei com um angry bird que achava um ultraje as pessoas me olharem na rua, como se estivessem trespassando alguma área privada. Eu mesmo já me peguei enfurecido de pensar em algum digníssimo conversando com outros sujeitos. Só depois de muitas fúrias aleatórias é que pensei sobre o motivo disso.

Sempre achei que ciúme fosse prova de amor. Afinal de contas, se tu ama alguém, quer que essa pessoa esteja contigo para sempre, não é mesmo? Não, não é. A não ser que eu esteja entendendo errado essa coisa toda do amor, amar não significa querer estar sempre do lado grudado sem deixar respirar. O nome disso é egoísmo, dependência, posse, ou várias outras coisas, mas não amor.

Amar, da forma que entendo, é querer bem, se preocupar, dar carinho, oferecer ombro, sorrir pelas conquistas, torcer pela felicidade. Não é a toa que ter amor próprio significa fazer tudo isso em relação a si mesmo. Amar não é ver a pessoa realizar aquilo que imaginamos para ela. Amar não é algo eterno, pode mudar de uma hora para outra (as pessoas mudam!). Amar não é justificativa para loucuras (o nome disso é loucura, veja só).


Então o que é o tal do ciúme? Ciúme é um exercício do nosso ego, nossa tentativa (frustrada) de controlar o mundo, geralmente a partir de alguém que a gente ama ou acha que ama. Quando a gente diz "ele é meu namorado", o meu ganha mais importância que tudo e pensamos que podemos controlar como a pessoa respira, para onde olha, o que sente e o que faz. Isso é um problema, especialmente porque no geral as pessoas que namoram firmam um acordo baseado em poucas coisas explícitas. Por exemplo, quase todo namoro é monogâmico, ou seja, uma relação que não envolve sexo com outras pessoas. Por outro lado, quase ninguém define comportamentos relacionados a flertes, conversas com exs e saídas com os amigos.

Uma hora ou outra, porém, o mundo imaginário do namoro perfeito que idealizamos bate de frente com a realidade e a pessoa sofre porque a imaginação era melhor do que a verdade. É nessa hora que nasce o ciúme. Em resumo, o ciúme é o nosso mimimi por o mundo (e as outras pessoas) não serem exatamente como nós queríamos. Se for criança, chamamos de mimada. Se for namoro, dizemos que é ciúme.

Quando a gente sente ciúme, o problema não está na outra pessoa, mas sim em nós e em nossas expectativas. É o nosso mundo que está a perigo, a nossa visão da vida que está sendo ameaçada pela força mordaz da verdade. É possível escaparmos do ciúme? Não sei. Podemos nos libertar das nossas expectativas? Por essas e outras acho que nem todo mundo pode namorar e que devemos pensar menos. Só abrindo mão de nós mesmos, me parece, é que somos capazes de verdadeiramente amar...

terça-feira, agosto 13, 2013

O que nós escritores temos a ver com os cinquenta tons de cinza

Como eu não li os livros, peço que alguém me corrija se eu estiver errado. Na história a protagonista conhece e se apaixona por um cara e passa a atender aos seus desejos e a se submeter às suas vontades, muitas vezes ignorando ou negando os próprios desejos e vontades em nome desse 'amor'. Vejo aí dois problemas: isso é machismo e isso não é o que eu entendo por amor. O gatilho para esse post foi uma notícia (aqui) e alguns comentários em um grupo do Facebook.


Isso é machismo

Formas de arte são apenas histórias e entretenimento. Certo? Errado. A arte, como qualquer forma de discurso humano, carrega ideias que dão sustentação ao que acontece. Nós entendemos algo como coerente quando essas ideias estão afins com algo que nós acreditamos ou que reconhecemos que os outros acreditam. Pergunta teste número 1: esse livro pareceria coerente se fosse a história de um homem rico e bem sucedido que se submete a uma mulher e passa a abrir mão de sua própria vida em nome dela? Suponho que não (e tampouco ele carregaria uma mensagem melhor).

Certo, e qual é o discurso dominante neste livro? O do machismo, ou seja, da supremacia do homem sobre a mulher. De acordo com os discursos machistas, a mulher é um objeto para o homem. O problema é que nem todo machismo é óbvio e ululante. Vamos a exemplos mais cotidianos? Hoje vi uma foto no Facebook de mulheres tirando selfies, aquelas fotos de nós mesmos no espelho, e embaixo uma outra imagem mostrando um bando de louça suja. A narrativa é bem óbvia: "fica aí se mostrando e se fotografando ao invés de cumprir seus deveres". Novidade: lugar de mulher não é na cozinha, é onde quiser. Pergunta teste número 2: que tal a gente substituir as mulheres se fotografando por nerds jogadores de videogame ou por frequentadores de academia? É, não seria a mesma coisa. Por quê? Porque nossa sociedade sugere que é da mulher o dever de limpar a casa enquanto o macho providencia o sustento e, claro, manda em tudo.

Quando um livro é publicado e alcança o sucesso que Cinquenta tons de cinza alcançou, é importante refletirmos sobre o papel social que ele tem. Milhares de pessoas estão assimilando sua narrativa sem sequer considerar que ela pode ser espelho de um comportamento cruel. Esse comportamento, repetido na mídia à exaustão, assume o caráter de normalidade e passa a servir de exemplo sobre como as coisas são. Ou seja, não é a leitura do livro que vai te transformar em um machista. É o machismo já entranhado nas veias do leitor que vai encontrar conforto e se tornar ainda mais difícil de sair.

Isso não é amor

Eu certamente não sou especialista em amor, mas o entendo como um sentimento que busca o bem do próximo. O bem do próximo, para mim, envolve não negar a subjetividade da pessoa e não criar uma grade em volta dela. Amor não é controle, não é exercício de poder sobre outra pessoa. Amar é cultivar, é gostar, é dar atenção e carinho, é proporcionar felicidade. Já escrevi algumas várias vezes sobre amor (aqui) e por isso vou manter o tópico curto.

O resumo é: fazer com que uma pessoa abra mão da própria vida em nome de outra pessoa não é amor, é egoísmo.

O que nós escritores temos a ver com isso?

Certo, o mundo no qual vivemos está estragado e cheio de exemplos ruins. Danou, então, né? Quase. Nós escritores e artistas temos na mão um poder muito interessante, o de convidar pessoas às nossas narrativas e com elas oferecer outros mundos possíveis. Não estou dizendo que devemos escrever só histórias boazinhas de pessoas que encontram o 'amor verdadeiro' sem desafios nem preconceitos ou machismos. Salvo ficções científicas dedicadas à utopia, nossas histórias se passam em mundos maculados por esses problemas.

Aí que está a questão: nós não devemos reproduzir esses problemas inconscientemente. Nosso trabalho é importante demais para que não estejamos conscientes do que fazemos e de quais discursos estamos reproduzindo. Como escrevi esses dias na Raposa do Face, peço apenas coerência: quer ser machista, sexista, homofóbico, racista, transfóbico etc? Beleza, mas assume. Isso se chama honestidade intelectual, algo que só é possível quando a gente sabe o que está fazendo.

Tu sabe o que está fazendo quando escreve?
Sabe quais discursos está reproduzindo através das tuas letras?

Se não, convém estudar mais.

terça-feira, junho 25, 2013

Aquela xícara de chá

Enquanto eu escrevo furiosamente – mas sem fúria nenhuma, apenas furor –, tu me observa ora de canto de olho, ora do canto da sala. Tu me sabe, entende que esses momentos não são de ninguém, não são de nós e certamente não são de mim mesmo. São do texto, das letras, da imaginação poética. Envolvido e encantado, demoro a perceber que tu já não está mais ali no canto a me esperar. Eu entendo, o amor às letras é tão antigo, tão de infância que não há como lutar contra ele, que está lá desde que me reconheci pela primeira vez. Algumas vezes adormecido, mas jamais esquecido. Como confrontar algo que é tão antigo quanto a minha identidade? Tu não é o primeiro a desistir, a ceder frente à impossibilidade de superar esse amor antigo. Daí que me assusto quando te noto ao meu lado. Não tinha fugido? Não, tinha ido fazer o que faz de melhor: com uma xícara de chá quentinho nas mãos, estava ali a cuidar de mim. Pelo jeito tu sabe bem escolher as tuas lutas e eu, os meus amores.

sábado, junho 08, 2013

Pequeno projeto: abraçar quem a gente gosta

Em uma noite em que tudo estava mal e a ponto de explodir, ele entrou em casa apressado. Assalto, dia longo de trabalho, ônibus lotado – queria esquecer isso tudo. Olhou para um lado, olhou para outro, mas em canto algum encontrou o que precisava. Jogou-se no sofá para se relacionar com o desespero e a solidão, fragilizado pelo silêncio, mas então um pequeno som levantou-se em esperança: as chaves na porta. Quando ela se abriu, ergueu-se e sem limpar as lágrimas jogou-se aos braços da pessoa amada. Assalto, dia longo, ônibus lotado – tudo isso sumiu num instante que, enquanto durou o abraço, durou para sempre.


quarta-feira, junho 05, 2013

Pequeno projeto: cozinhar algo novo que fique gostoso

Conforme comecei a aprender a cozinhar, fui descobrindo que não estava apenas fazendo comida. O que eu fazia toda vez que acendia o fogo e borbulhava ingredientes não era cozinhar alimentos nem organizar refeições. Era feitiçaria, artesania, criação poética. Cada novo prato ou combinação abria um leque de possibilidades de atuação sobre a vida. Cozinhar é exatamente isso: atuar sobre a vida, sobre aquilo que nos mantém vivos.

Sempre admirei, quando criança, a maneira inventiva com que meu padrasto cozinhava. Percebia nele um grandioso prazer em transformar ingredientes soltos em prazer estésico, em sabor. Na época, para minha atual tristeza e, suponho, decepção passada dele, eu não me interessava em conhecer esses ofícios secretos que envolvem transformar o cru no cozido, no frito e no assado. Eu achava, e muitas vezes ainda me pego achando, que não precisava exercer nenhum poder sobre o mundo e que isso seria liberdade de verdade, viver sem me comprometer, sem colocar as mãos na massa (que metáfora apropriada!). Tolinho, eu.


Cozinhar algo novo que fique gostoso é parte do meu pequeno projeto para dias felizes porque é daquelas coisas que não envolvem apenas resolver problemas cotidianos: envolve encantar os paladares alheios, reunir pessoas queridas e dar sustento aos corpos. Envolve também ter algum controle ou influência sobre o que acontece na vida, ao invés de apenas deixar-se levar pelos rios do tempo.

Como todo conhecimento, o saber cozinhar também amplia a forma como vemos o mundo. Hoje percebo sabores que antes passavam em branco. Isso sem contar as amizades que se aprofundaram ao redor de mesas ou de fogões e os carinhos que se demonstram no cuidado quentinho de um prato gostoso. Cozinhar é algo sério e, principalmente, feliz. Cada minuto passado na frente do fogão me remete a todos os sabores que vivi, temperados com amores e cuidados de quem dedicou seu tempo a me permitir o paladar. Cozinhar não é perda de tempo: é investimento.

terça-feira, junho 04, 2013

Desculpas a um amigo

Nesse fim de semana de felicidades e sorrisos aprendi uma coisa importante sobre amizades: nem sempre liberdade para ser amigo significa que não machucaremos a quem gostamos. Aprendi isso com uma aula prática no percurso de um elevador.

Para começar, me defendo com a crença que amizades não devem ter limites, devemos poder dizer tudo para aquelas que compartilham laços de carinho e confiança conosco. Realmente acredito nisso, pois sem essa abertura, nós estaremos sendo parceiros, companheiros, colegas... mas não necessariamente amigos. Tenho ainda essa visão ingênua, porém esperançosa, da amizade como algo que transcende as relações humanos típicas, essas cheias de fingimentos e segundas intenções.

Mas, contudo, porém, entretanto... ter liberdade para falar qualquer coisa não significa que podemos falar qualquer coisa a qualquer hora. Algumas vezes me falta tato para perceber quando seria melhor ficar quieto, quando seria melhor deixar que uma ferida se feche um pouco, se cure um pouquinho, antes de colocar o dedo nela mais uma vez. Cada um tem o seu tempo e, principalmente, a sua vida para lidar. Eu ser amigo não me dá o direito mágico de entrar na vida alheia e bagunçar as temporalidades de cada um. O que eu ser amigo deveria me dar é o poder de escutar, de abraçar para curar e, num momento mais calmo ou menos dolorido, dizer e conversar.

Um bom amigo, algo que em vários momentos não fui (no fim de semana ou na vida), provavelmente escutaria mais do que diria. Um bom amigo não é aquele que toma as decisões por nós e nos diz (manda aos gritos!) o que fazer, mas sim aquele que nos dá a mão para ajudar a retomar um bom caminho ou para comemorar uma escolha feliz. Ter o poder de ser absolutamente sincero e transparente não quer dizer que isso seja a mesma coisa que ter que fazer isso sempre.

Algumas vezes, o silêncio é tudo que uma amizade precisa para cultivar reflexões, carinhos e, principalmente, presenças. Peço desculpas ao amigo que, ao invés de ouvir, fiz calar.

terça-feira, maio 07, 2013

Namorar não é para todo mundo

Tenho um amigo cujo namorado estará viajando na época da Parada Gay de São Paulo. Meu amigo quer ir à Parada, mas o seu namorado não pode nem imaginar isso. Até onde entendo, o meu amigo não está interessado em ir à Parada e pegar geral – ele respeita o contrato de namoro que firmou. Antes de mais nada, vamos definir uma coisa: o contrato de namoro é geralmente aquele em que duas pessoas concordam em se abster de relacionamentos afetivo-sexuais com outros viventes, priorizando, ou melhor, mantendo de forma exclusiva um relacionamento um com o outro. Existem variações, as quais muito me agradam e interessam, mas não são o caso neste momento (tanto por não ser o foco do texto quanto por eu estar, assim como meu amigo, vivendo um contrato de namoro).


Sobre o que eu quero discutir hoje, então? Sobre o fato do namorado do meu amigo sequer sonhar que seu amado deseja ir à Parada (sozinho, já que o digníssimo estará viajando no dia). Vejo pelo menos duas questões fundamentais de serem pensadas: a confiança e abertura para o diálogo.

Eu confio, mas não falo tudo...

Tem gente que acha que namorar é virar dono. Já falei antes e repito: ninguém é dono de ninguém. Se a pessoa te namora, ela entrou em acordo contigo por escolha própria (na maior parte dos casos, ao menos) e é isso que determina a parte de confiar na criatura. Se não confia, vai namorar por quê? "Ai, eu amo, mas não confio". Trouxa. Pode amar, mas se não confia, vai namorar pra quê? Namoro é um contrato que exige confiança basicamente porque nós não estamos 100% do tempo com a outra pessoa e nem temos como estar caso queiramos ter uma coisa chamada vida. Ama e não confia? Beleza, dá uns pegas de vez em quando. Desapega.

Se a gente ama e confia, então a pessoa pode estar com o capeta rebolando na cara que vai continuar fiel. Essa é a base da confiança: acreditar que a pessoa vai honrar com aquilo que se comprometeu conosco. "Ai, mas não tenho certeza". Então não confia, volta e lê o parágrafo anterior. Não existe meia confiança. Ou a gente se entrega ou não se entrega. "Ah, eu confio, mas só um pouco". Eu já disse para voltar ao parágrafo anterior?

Tem gente que não consegue confiar. Tem ciúmes demais, insegurança demais, coisa ruim demais. Minha opinião é que essas pessoas não deveriam namorar. Devem se relacionar, sim, mas não namorar. Namoro é pesado, gente, namoro exige compromisso, exige confiança, exige a capacidade de tirar o próprio umbigo da reta e pensar que outra pessoa também pode tomar decisões e que em dado momento essa pessoa decidiu abrir mão da possibilidade de se relacionar com sete bilhões de pessoas para ficar com uma só. Não confia ou não acha que a pessoa é digna de confiança? Procura outra pessoa (ou seja outra pessoa, enfim).

"Eu sei que se disser/fizer isso, ele vai brigar comigo". Então tu tem interesse em falar ou fazer coisas, mas acha que não pode porque a pessoa com a qual tu namora vai brigar contigo? Sério? A autonomia ficou aonde? Tem gente que acha que namoro é subtração, que é aquele pedacinho em comum entre duas pessoas e o resto a gente abandona, esquece ou engole. Não é! Relacionamento é soma, é tu trazer a tua vida e colocar em contato com a vida do outro. "Ah, mas ele não entende tal coisa...". Que interessante, tu resolveu te relacionar com uma pessoa que não te quer por inteiro, que quer só uma parte de ti?

Nem toda relação precisa ser namoro

Dica para quem se sente preso: cria coragem e se liberta. Fulano não gosta de uma característica X e tu não está disposto a deixá-la desaparecer? Bem, em algum momento um dos dois terá que ceder. Se tu não acha que teu namorado vai fazer isso e tu não tem a menor vontade de fazê-lo, então por que cargas d'água está namorando essa criatura? "Ai, eu amo, mas ele não me entende...". Eu já falei alguma coisa sobre outros tipos de relacionamento? Namoro não é a única possibilidade da vida! É como se a gente pegasse todas os desejos e os condensasse dentro de uma única forma (bastante restrita) de ser e agir.

Se há uma parte de ti que está sendo negligenciada ou anulada, sinto muito, mas esse não é um relacionamento positivo, mas sim violento e opressor. Isso vale para a mulher que baixa a cabeça e lava os pratos, para o homem que não vai na Parada Gay e para qualquer pessoa que desiste de um pedaço de si em nome de outra pessoa. Quer insistir e fazer isso mesmo assim? Quer realmente namorar, não consegue nem cogitar outra possibilidade? Namora, mas aceita o preço.

Um último lembrete

Ah, e por fim não vamos esquecer uma coisinha... tudo o que vai, volta. Se tu tem coisas de si que não fala para o digníssimo porque sabe que ele não vai gostar, coisas que gostaria de fazer, pensar e sentir, parece-me minimamente óbvio que o digníssimo também terá essas reservas em relação a ti. Se um namoro é baseado em confiança, como podemos namorar com alguém que precisa esconder coisas de nós? Ou, invertendo a questão ética, como podemos namorar alguém sabendo que precisamos esconder partes significativas de nós?

Vale também lembrar, para realmente encerrar, que se não somos honestos com nós mesmos e nossos desejos, anseios etc., não deveríamos nos comprometer à honestidade para com outras pessoas. Namorar não é para tudo mundo.

sábado, maio 04, 2013

Apaixonar-se não é garantia de felicidade

Tenho um amigo que, em uma noite de outono, conheceu um rapaz numa boate e se apaixonou por ele. Era tudo que ele queria: um cara gentil, amável, bonito e com uma vida profissional promissora. Como o moço morava em outra cidade, combinaram se ver quando conseguiam e a vontade foi crescendo. Para resolver os problemas, meu amigo mudou-se para a cidade do moço que lhe roubara o coração e passou a morar com o dito rapaz.

Parece filme na sessão da tarde: carinha conhece alguém, apaixona-se, sofre, conquista e vive feliz pra sempre. Essa fórmula, repetida à exaustão, pode ter nos levado a acreditar que ela funcionará assim na vida real. Desculpem-me quebrar essa expectativa, mas isso não é verdade. A gente cresce acreditando no amor romântico e em suas promessas reforçadas pelos filmes de amor docinho, mas a realidade tem a mania de nos passar a perna.

Um dia, meu amigo acordou e tinha ao seu lado alguém diferente daquela pessoa pela qual se apaixonara. Na verdade, era a mesma pessoa, mas não era a mesma pessoa. Algo ali havia mudado. Meu amigo foi rápido em detectar o problema: seu namorado não o procurava mais para o sexo, andava cansado, reclamava disso e daquilo etc. O problema obviamente é o tal namorado que mudou, não é mesmo? Não, não é.

Paixão animais

O que significa apaixonar-se?

Quando nos apaixonamos por alguém ou alguma coisa, é como se todo o resto perdesse a importância. A mera presença do alvo de nossa paixão já nos completa. Apaixonar-se é encantar-se, é estar sob efeito de um feitiço que nos faz querer estar perto, conviver e compartilhar. Estar apaixonado não é amar, querer bem, ter vontade de cuidar. Estar apaixonado é um sentimento egoísta de querer para si, de ser atraído independentemente do bom senso.

A paixão é viciante: quanto mais do que nos enfeitiça nós ganhamos, mais nós queremos. Se não recebemos, corremos atrás. Por outro lado, quanto mais temos, mais precisamos, ao ponto que um dia o efeito perde-se de nós. Um dia acordamos para descobrir que aquela mágica que nos prendia a outra pessoa deixou de estar ali.

O que acontece quando a paixão acaba?

A resposta a essa pergunta depende do que foi construído enquanto ela existia. Isso varia de pessoa para pessoa, relação para relação. Alguns se jogam no encanto e largam suas vidas para se alimentar ao máximo e exclusivamente da paixão. Outros são cautelosos, até mesmo resistentes. Há um jeito certo de lidar com essa magia de apaixonar-se? Não. Algumas vezes descobrimos, depois que o feitiço passou, que realmente gostamos daquela pessoa. Algumas vezes nós a amamos. Outras vezes, porém, descobrimos que sem o efeito mágico aquela pessoa não se encaixa em nossas vidas.

A paixão é, como todas as coisas, passageira. O que fica após o seu término é mais ou menos a mesma coisa que havia antes dela surgir, somada e subtraída pelas mudanças vividas no processo. Nenhum relacionamento, seja ele com uma pessoa ou uma ideia, passa por nós sem deixar marcas, sem alterar o nosso caminho mesmo na mais ínfima proporção. Em meio a esse turbilhão confuso que envolve ser alguém e viver, cabe a nós conhecermos quem somos e o que queremos para as nossas vidas.

A felicidade depende do quê, então?

De nós mesmos, única e exclusivamente. Sei que é difícil acreditar, afinal, foi outra pessoa que lançou um feitiço sobre nós! Contudo, a verdade é que nossos amores começam e terminam dentro daquilo que nós somos. O contato com o outro pode aumentar, diminuir ou modificar o que sentimos, mas apenas em função de nossa percepção sobre este contato. O que sentimos e desejamos conversa com o mundo, não depende dele.

O budismo apresenta quatro nobre verdades: (1) o sofrimento é parte da vida, da doença e da velhice; (2) a origem do sofrimento é o nosso desejo e anseio pelas coisas; (3) para livrarmos do sofrimento, devemos nos desapegar destes desejos e anseios; (4) o caminho para esse desapego passa por comportamentos 'corretos', ou seja, justos, cheios de compaixão etc. Meu interesse está na segunda e terceira verdades: o nosso apego ao desejo de que as coisas sejam diferentes do que são. No caso do fim da paixão, desejamos que as coisas continuem do jeito que eram antes, que nossos sentimentos voltem a ser o que eram. Com muita frequência, nós culpamos a outra pessoa pelo esvaziamento das nossas sensações.

De quem é a culpa, afinal? 

Penso que encontrar culpados não seja a resposta. O que precisamos entender é que apaixonar-se não é garantia de felicidade, mas também não é algo a ser evitado. A paixão é como uma chama atraindo a nossa atenção: sua luz nos mostrará coisas que não veríamos sem ela. Cabe-nos continuar nossas vidas sem nos jogarmos ao fogo, aproveitando a sua luz e o seu calor. Se o fogo se apagar, talvez seja o momento de acender outras chamas ou de procurar outras luzes para nos atrair. Ou, quem sabe ainda, o verdadeiro trabalho envolva não deixar o fogo se extinguir.

A paixão – e o fogo – não são garantias de nada. Eles são parte da vida, meramente. O que faremos com eles depende do que queremos fazer com as nossas vidas. Para alguns, a resposta é alimentar o fogo e a paixão com tudo o que estiver ao alcance, inclusive com o próprio corpo e a própria vida. Para outros, um fogo, uma luz e um calor não são suficientes. Para outros ainda, o fogo é algo cujo calor deve-se aproveitar enquanto queima, não mais, não menos.

Para a vida – e para as paixões – não há respostas. Elas dependem de quem nós somos naquele preciso instante em que os eventos da vida acontecem. Só há uma constante para a vida: a mudança é a regra. Se não aceitarmos isso, estaremos condenados a viver de passados e chamas apagadas, o que é garantia de infelicidade.

terça-feira, abril 16, 2013

Conhecendo a sogra

Foi no sábado. Conheci ao mesmo tempo sogra e cunhada. Até alguns minutos antes delas chegarem na minha casa (eba, ao menos o território não era o delas!), eu acreditava que haveria outras pessoas ao redor para nos distrair e não obrigar as atenções a ficarem apenas entre nós. Meu namorado, ainda que o protagonista dos afetos das três outras pessoas na sala (quarto-sala, na verdade), não tinha muito o que fazer. Estávamos ali para construir um terreno comum sobre o qual pudéssemos pisar. Ela(s), de um lado, me analisando e decidindo se sou uma pessoa aprovável. Eu, do outro, analisando algumas das influências que tornaram meu digníssimo na pessoa que ele é hoje.

Conhecer a sogra é um momento especial em qualquer relacionamento. Por sogra quero dizer qualquer pessoa responsável pela criação de alguém que a gente gosta. De certa forma, é um momento de ingresso em uma nova família. Ou melhor, um momento de ampliar a família que se está estabelecendo com alguém. O risco de conflito está na percepção de qual relação importa mais: para mim, é a minha com o digníssimo. Para a sogra, provavelmente é a dela com o filho. Grandes conflitos podem surgir dessa diferença de percepção de realidade, especialmente se adicionarmos pitadas de egoísmo ou de ciúmes.

Em resumo, posso dizer que deu tudo certo em nosso encontro. Durou uma hora. Estávamos ambos nervosos e tateando as palavras com absoluto cuidado. Rimos bastante. Rir, aliás, é uma dica preciosa quando o contexto permite. Não estávamos rindo de confortáveis, não, certamente não, mas mesmo nosso riso nervoso indicava que tiramos do caminho possíveis farpas. Éramos duas pessoas com interesses em comum (o bem de uma mesma pessoa) avaliando como poderíamos desempenhar nossos papéis da melhor forma possível.

Por isso digo que aconteceu tudo bem. O maior exemplo disso talvez seja nosso encontro, que começou com um distante e nervoso aperto de mão, mas terminou com um aproximado e nervoso abraço.

quinta-feira, abril 11, 2013

Mães que existem por aí

Algumas mães me deixam preocupado. Outras, instigado. Outras ainda, como a minha, feliz. Nos últimos dias, cruzei com dois exemplos no mínimo curiosos.

De um lado, a mãe que acha que não é homofóbica quando defende o direito de ensinar ao filho a não gostar de gays. Ou melhor, que diz que ama, só não ensinaria o filho que se ele quiser amar alguém do mesmo sexo, ele pode. A impressão que fica é que falta dicionário nesse mundo. Não é uma mera questão de desaprovar um comportamento: é questão de ensinar uma pessoa a considerar outras pessoas como inferiores. "Ah, mas vou dizer pra amar". Sim, tu pode amar, pode tolerar, só não pode ser. Se for, faz o quê? Exorciza?

Aí hoje cruzei, também virtualmente, com uma mãe que fotografou o filho segurando uma placa dizendo que o Feliciano não o representa. A criança deve ter uns cinco anos, no máximo. Lindo, bacana, fofo, razoavelmente apelativo (o que não é, em si, ruim). Aí vem um sujeito e comenta que a mãe está impondo um pensamento na cabeça da criança, que ela deveria ser livre pra crescer e decidir por conta. Peraí, pausa geral. O carinha está mesmo dizendo que não é pra ensinar à criança a amar e defender os direitos humanos, se possível os direitos dos outros humanos? Hummm...

Por que fico com a impressão, assim de leve, que esse mesmo sujeito concordaria com a mãe que ensina a amar, mas só a amar, nunca a ser? Naquela linha de amar ao próximo, mas só enquanto ele fica distante.

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sábado, março 30, 2013

Amor de pai

Ontem escrevi sobre como minha mãe lidou quando descobriu que sofri (bastante) bullying na escola.

Nunca falei de sexo com o meu pai. Desde pequeno, eu era o filho mais próximo da mãe, enquanto meu irmão era o mais próximo do pai. Era meu irmão que saía para acompanhar os jogos de futebol dele. Eu era o filho que pedia papel pra ficar rabiscando e me enfiava num mundinho todo particular (e distante). Apesar de nunca termos falado de sexo, ou talvez por isso, algumas dúvidas surgiram. Eu era o filho que nunca falava de namoradas, que não indicava interesse pelo outro sexo, que estava sempre estudando e estudando. Teria isso diminuído o amor de pai?

raposas fofas

Certa vez, na praia, meu irmão estava passando uns dias na casa de nosso pai. Areia, mar, sol, churrasco, essas coisas todas que tornam a experiência da praia algo animado e farofeiro. Em meio a tudo isso, meu irmão tinha que lidar com uma série de perguntas curiosas: "O Tales já namorou?", "Tu já viu o Tales com mulher?". O interesse por trás das questões era simples: será que ele é? (já falei sobre isso, também, aqui). Chegou ao ponto em que meu irmão se irritou, puxou meu pai para caminhar com ele e disse "Tá, chega, cansei, o Tales é gay e tem um namorado". Era verdade, eu estava namorando na época. Depois de tantas perguntas, acho que o silêncio não foi a resposta que meu irmão estava esperando. "E aí, não vai falar nada?", questionou. "Ué, minha irmã era lésbica, o que tu quer que eu diga?".

Desde esse dia, meu pai e eu ainda não falamos sobre nada a respeito de sexo. Se isso diminui o amor que sentimos um pelo outro? Não, com certeza não.

sexta-feira, março 29, 2013

Amor de mãe

raposas amando

Recebi da minha mãe por e-mail:
Estava agora há pouco lendo uma das tuas postagens no blog e fiquei como de outras vezes tanto orgulhosa quanto triste e com uma sensação frustante de ter falhado com quem eu mais amo nessa vida. Orgulhosa como fico sempre que leio os teus textos, fato. Triste e/ou  frustada por mais uma vez constatar que não estive presente quando mais precisaste de um apoio. Pois nesse caso eu que sempre me achei “sempre tão disponível” para qualquer coisa que pudesse precisar, justamente eu não consegui te passar essa disponibilidade. Então fico pensando, será que passo essa ideia tão forte de que não seria capaz de entender o que fosse que estivesse dentro do teu coração? Se não sabias ao certo, não poderíamos ter chegado a uma conclusão juntos? Serei eu tão, “fora de questão ser cogitada para uma conversa desse porte"? Eu não poderia entender? Com mãe não se fala isso? Então, se fala o quê? Abobrinhas? Quanto mais leio as coisas que escreves, tuas aventuras e desventuras, vejo o quanto estive, estou e por consequência sempre estarei fora da tua vida real. Isso me deixa com uma sensação enorme de vazio, uma tristeza que nem sei explicar. De qualquer forma eu precisava manifestar ao menos meu sentimento. Me sentir essa porta fechada não é agradável.
Ela se refere à postagem em que conto sobre a época que sofria bullying na escola. Não foi um período fácil para mim e eu não entendia nada daquilo, tampouco sabia que era algo que podia procurar ajuda. Nessas horas, a ignorância não é uma bênção. Não saber não é uma bênção, é uma maldição. Ainda por e-mail, respondi assim:
Mãe, as portas já estiveram fechadas, mas isso foi quando elas estavam trancadas também para mim. Se o texto sobre o qual tu está falando é o que penso, ele retrata um momento em que nem mesmo eu conseguia pensar sobre essas coisas, quanto mais levá-las adiante e tratar delas. Eu não conversava com ninguém sobre nada daquilo. Eu mal pensava naquilo, apenas guardava pra mim mesmo. Desde a nossa conversa em 2006 sobre meu (primeiro) namoro, sinto como se essa barreira tivesse sido levantada. Para mim foi muito complicado, inicialmente, mas nunca por acreditar que tu não pudesse saber, compreender ou participar, mas sim porque eu ainda estava contaminado com todo o medo e o ressentimento que o mundo me ensinou a ter sobre sexualidade. Hoje eu me sinto aberto para conversar contigo sobre o que for, sobre quem for, sobre o que me emociona e o que me distancia. Penso que, nas oportunidades que temos para estar juntos, falamos de coisas que sabemos que são só para os ouvidos um do outro e isso me deixa feliz por saber que tenho uma relação contigo que é a que sempre quis ter com qualquer pessoa que amo: de verdadeira amizade e confiança. Te amo, mãe!
Levando minha vida, eu não tinha ideia dessa preocupação no coração da minha mãe, algo que muita gente enfrenta e tanta gente mais nem sabe o que é, pois não tem uma mãe capaz de se doer por não estar ainda mais na vida do filho. Eu tenho e, por mais que fique triste em saber que, de alguma forma, a deixei magoada, fico feliz em saber que ela está ali e que pode me escrever essas palavras, pois sabe que eu a amo e vou não só levá-las em consideração, mas também refletir a respeito e mudar minha vida baseado no que ela sente.

Nossa conversa foi encerrada por uma resposta dela:
O texto que resultou nesse desabafo foi depois de ler, creio o último, mas não foi só por ele, talvez por todos eles, pois me mostram algo que eu deveria ter percebido, quem sabe procurado. Ao mesmo tempo que “Eu” penso que quando a gente tem alguém que confia plenamente, é para essa pessoa que a gente corre e se aninha para se acalmar, se recuperar e se reenergizar para poder enfrentar as dificuldades da vida, também penso agora olhando um pouco para mim, que muitas vezes nossas aflições ficam tão grandes que a gente sequer ousa falar até para nós mesmos, que dirá para outros.
amor de raposas

Tenho com minha mãe uma relação que é linda. Eu confio nela e sei que posso ir até ela para falar sobre absolutamente qualquer coisa. Sinto falta da sua presença no meu cotidiano, pois moramos em cidades distantes, mas a certeza desse amor é algo que me facilita viver. Eu sou uma raposa de sorte.
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