Esses dias uma humana me disse que entendia a opressão de gênero sofrida pelas mulheres, que achava errado e tudo mais, mas que ensinaria o filho a ser machão, pegador e cafajeste, porque senão outras mulheres iriam fazer gato e sapato dele. Na hora, fiquei completamente sem resposta. Afinal de contas, eu consigo entender por que um filho é mais importante para a mãe do que a igualdade e a justiça social.
Só que eu não sossego. Posso não ter encontrado uma resposta na hora, mas a sementinha do incômodo ficou germinando em mim. Então ontem participei de uma discussão sobre homens que usam saia. De um lado, gente reclamando que acham isso intolerável, inaceitável, nada a ver com as normas do comportamento social masculino. De outro, humanos e raposa defendendo que roupas não deveriam ser base para discriminação. Em meio a essa discussão, um vivente comentou que não iria lutar por algo que ele não acreditasse. Ora, eu não tenho argumentos contra alguém que defende o direito de não lutar, ainda mais por algo que não acredita ser certo.
Hoje as coisas parecem mais claras: nós vivemos centrados nessa ficção de que temos 'eus' bem definidos e desconectados do mundo. Eu aqui, o resto do mundo fora de mim. No máximo uma interação aqui e outra ali, tipo respiração e calor e coisa e tal. Para o zen budismo, tradição filosófica oriental com a qual tenho flertado muito, nós somos parte integrante do mundo, mas nos apoiamos em algumas capacidades (como a memória) e, com isso, criamos uma ilusão de um 'eu' permanente, constante. Essa é uma constatação de mais de dois milênios que continua atual, sendo responsável por muitos dos nossos conflitos, uma vez que inventamos uma ilusão sobre quem somos (separados do mundo) e precisamos aguentar as consequências dessa separação enganosa. Da mesma forma, imaginamos posições e comportamentos ideais com os quais nos comparamos constantemente, produzindo frutos para a nossa insatisfação e infelicidade.
Os dois casos que citei são bastante diversos, mas nascem do mesmo lugar: da crença num 'eu' que deve se sobressair frente ao mundo, que deve se destacar desse mundo. No caso da mãe, a preocupação com o filho e a expectativa que ele tenha um determinado estilo de vida interfere nas suas ações e escolhas frente a esse sujeito. Ao invés de viver o mundo, ela deseja controlar o mundo, o que é em si um engano. Ela é parte do mundo e certamente tem efeito sobre ele, mas é ingenuidade acreditar que as chances de concretizar seu projeto sejam maiores do que as de se decepcionar com as expectativas criadas. A minha mãe, quando pela primeira vez soube que eu namorava um rapaz, disse-me que aquilo não era o que ela esperava ou havia imaginado para mim, mas que ela desejava minha felicidade acima de qualquer outra expectativa que houvesse criado a meu respeito. Sem dar esse nome para as coisas, minha mãe estava sendo zen. À sua própria maneira, ela entendeu que o mundo segue seu fluxo quer nós aprovemos ou não a maneira como as coisas se dão.
Quando um sujeito diz que não lutará por aquilo que não acredita, o que me incomoda não é ele não lutar, mas sim o que, especificamente, ele não acredita. Entendo que não há muito que eu possa fazer a esse respeito: o poder de mudar opiniões e crenças vem da experiência pessoal e de seus afetos. Ainda assim, eu gostaria que as pessoas pensassem diferente. Isso é uma armadilha: eu estou construindo uma expectativa de como gostaria que o mundo fosse. Pior ainda: é uma armadilha ególatra, pois estou querendo que o mundo seja como 'eu' quero.
Parece-me que, em ambos casos, a única solução (aceitável para mim) é agir como julgo correto. Conversar, debater e, na medida do possível, procurar entender. Eles não são eu. Eu não sou eles. Se nada mais, eles são humanos e eu sou uma raposa. Eu posso esperar que também ajam como julgo correto, mas desesperar-me por isso não acontecer seria ingenuidade.
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quarta-feira, maio 15, 2013
terça-feira, abril 16, 2013
Conhecendo a sogra
Foi no sábado. Conheci ao mesmo tempo sogra e cunhada. Até alguns minutos antes delas chegarem na minha casa (eba, ao menos o território não era o delas!), eu acreditava que haveria outras pessoas ao redor para nos distrair e não obrigar as atenções a ficarem apenas entre nós. Meu namorado, ainda que o protagonista dos afetos das três outras pessoas na sala (quarto-sala, na verdade), não tinha muito o que fazer. Estávamos ali para construir um terreno comum sobre o qual pudéssemos pisar. Ela(s), de um lado, me analisando e decidindo se sou uma pessoa aprovável. Eu, do outro, analisando algumas das influências que tornaram meu digníssimo na pessoa que ele é hoje.
Conhecer a sogra é um momento especial em qualquer relacionamento. Por sogra quero dizer qualquer pessoa responsável pela criação de alguém que a gente gosta. De certa forma, é um momento de ingresso em uma nova família. Ou melhor, um momento de ampliar a família que se está estabelecendo com alguém. O risco de conflito está na percepção de qual relação importa mais: para mim, é a minha com o digníssimo. Para a sogra, provavelmente é a dela com o filho. Grandes conflitos podem surgir dessa diferença de percepção de realidade, especialmente se adicionarmos pitadas de egoísmo ou de ciúmes.
Em resumo, posso dizer que deu tudo certo em nosso encontro. Durou uma hora. Estávamos ambos nervosos e tateando as palavras com absoluto cuidado. Rimos bastante. Rir, aliás, é uma dica preciosa quando o contexto permite. Não estávamos rindo de confortáveis, não, certamente não, mas mesmo nosso riso nervoso indicava que tiramos do caminho possíveis farpas. Éramos duas pessoas com interesses em comum (o bem de uma mesma pessoa) avaliando como poderíamos desempenhar nossos papéis da melhor forma possível.
Por isso digo que aconteceu tudo bem. O maior exemplo disso talvez seja nosso encontro, que começou com um distante e nervoso aperto de mão, mas terminou com um aproximado e nervoso abraço.
Conhecer a sogra é um momento especial em qualquer relacionamento. Por sogra quero dizer qualquer pessoa responsável pela criação de alguém que a gente gosta. De certa forma, é um momento de ingresso em uma nova família. Ou melhor, um momento de ampliar a família que se está estabelecendo com alguém. O risco de conflito está na percepção de qual relação importa mais: para mim, é a minha com o digníssimo. Para a sogra, provavelmente é a dela com o filho. Grandes conflitos podem surgir dessa diferença de percepção de realidade, especialmente se adicionarmos pitadas de egoísmo ou de ciúmes.
Em resumo, posso dizer que deu tudo certo em nosso encontro. Durou uma hora. Estávamos ambos nervosos e tateando as palavras com absoluto cuidado. Rimos bastante. Rir, aliás, é uma dica preciosa quando o contexto permite. Não estávamos rindo de confortáveis, não, certamente não, mas mesmo nosso riso nervoso indicava que tiramos do caminho possíveis farpas. Éramos duas pessoas com interesses em comum (o bem de uma mesma pessoa) avaliando como poderíamos desempenhar nossos papéis da melhor forma possível.
Por isso digo que aconteceu tudo bem. O maior exemplo disso talvez seja nosso encontro, que começou com um distante e nervoso aperto de mão, mas terminou com um aproximado e nervoso abraço.
quinta-feira, abril 11, 2013
Mães que existem por aí
Algumas mães me deixam preocupado. Outras, instigado. Outras ainda, como a minha, feliz. Nos últimos dias, cruzei com dois exemplos no mínimo curiosos.
De um lado, a mãe que acha que não é homofóbica quando defende o direito de ensinar ao filho a não gostar de gays. Ou melhor, que diz que ama, só não ensinaria o filho que se ele quiser amar alguém do mesmo sexo, ele pode. A impressão que fica é que falta dicionário nesse mundo. Não é uma mera questão de desaprovar um comportamento: é questão de ensinar uma pessoa a considerar outras pessoas como inferiores. "Ah, mas vou dizer pra amar". Sim, tu pode amar, pode tolerar, só não pode ser. Se for, faz o quê? Exorciza?
Aí hoje cruzei, também virtualmente, com uma mãe que fotografou o filho segurando uma placa dizendo que o Feliciano não o representa. A criança deve ter uns cinco anos, no máximo. Lindo, bacana, fofo, razoavelmente apelativo (o que não é, em si, ruim). Aí vem um sujeito e comenta que a mãe está impondo um pensamento na cabeça da criança, que ela deveria ser livre pra crescer e decidir por conta. Peraí, pausa geral. O carinha está mesmo dizendo que não é pra ensinar à criança a amar e defender os direitos humanos, se possível os direitos dos outros humanos? Hummm...
Por que fico com a impressão, assim de leve, que esse mesmo sujeito concordaria com a mãe que ensina a amar, mas só a amar, nunca a ser? Naquela linha de amar ao próximo, mas só enquanto ele fica distante.
De um lado, a mãe que acha que não é homofóbica quando defende o direito de ensinar ao filho a não gostar de gays. Ou melhor, que diz que ama, só não ensinaria o filho que se ele quiser amar alguém do mesmo sexo, ele pode. A impressão que fica é que falta dicionário nesse mundo. Não é uma mera questão de desaprovar um comportamento: é questão de ensinar uma pessoa a considerar outras pessoas como inferiores. "Ah, mas vou dizer pra amar". Sim, tu pode amar, pode tolerar, só não pode ser. Se for, faz o quê? Exorciza?
Aí hoje cruzei, também virtualmente, com uma mãe que fotografou o filho segurando uma placa dizendo que o Feliciano não o representa. A criança deve ter uns cinco anos, no máximo. Lindo, bacana, fofo, razoavelmente apelativo (o que não é, em si, ruim). Aí vem um sujeito e comenta que a mãe está impondo um pensamento na cabeça da criança, que ela deveria ser livre pra crescer e decidir por conta. Peraí, pausa geral. O carinha está mesmo dizendo que não é pra ensinar à criança a amar e defender os direitos humanos, se possível os direitos dos outros humanos? Hummm...
Por que fico com a impressão, assim de leve, que esse mesmo sujeito concordaria com a mãe que ensina a amar, mas só a amar, nunca a ser? Naquela linha de amar ao próximo, mas só enquanto ele fica distante.
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segunda-feira, abril 01, 2013
Como sair do armário
De acordo com a Wikipedia, sair do armário significa fazer "o anúncio público da orientação sexual ou identidade de gênero de alguém, ou de si próprio". É sobre isso mesmo que estou escrevendo hoje: sobre essa mania irritante que o mundo tem de querer que anunciemos nossa identidade, como se gostar de homens me tornasse um tipo diferente de pessoa.
Só quando rolou a minha primeira experiência sexual com um cara é que passei a perceber minha vida como algo possível. Até então, eu sabia que não conseguia me relacionar direito com seres humanos da forma heteronormativa (para entender melhor, veja o que escrevi aqui e dê uma olhada na Wikipedia) que todos esperavam. O que eu não entendia é que poderia me relacionar de tantas outras formas! Quando voltei à minha rotina (eu estava na metade da faculdade), passei a me ocupar de duas coisas: (1) viver e experimentar a vida; e (2) conversar com as pessoas.
Depois que entendi que não precisava ser igual a todo mundo, passei a procurar oportunidades de exercer meus desejos. De vivê-los. Aos poucos, foi ficando claro que sair de casa, ir em festas e conhecer pessoas através da internet eram boas maneiras de alcançar esse mundo do qual eu queria participar. Ficar sentado em casa desejando é algo que mais nos machuca do que ajuda.
Eu conversei primeiro com o meu melhor amigo na época. Ele me indicou um outro amigo, que também gosta de moços, e a partir daí eu tive com quem conversar abertamente e trocar ideias e experiências. Saber que não se está sozinho é uma das coisas mais maravilhosas que existem. Até então, eu estava. Como eu não entendia o que estava acontecendo com meus desejos, eu não sabia como procurar ajuda. Para mim não fazia sentido gostar de homens, isso era algo que simplesmente não existia. Através dessas conversas com meus amigos (e fui contando cada vez para mais amigos, de modo a tornar minha realidade mais real), a coisa foi tomando forma.
Depois de alguns meses namorando, chegou o momento de contar para a minha mãe. Algo curioso sobre isso tudo é que eu nunca tive medo das pessoas deixarem de gostar de mim ou me recriminarem. O medo que eu tinha era de saber que um homem gostar de homens era socialmente reprovável. Esse foi, aliás, o medo também expresso pela minha mãe: que eu sofresse na sociedade em que vivemos.
Não é fácil acreditar que não se tem a quem recorrer. Por isso, assumir uma identidade é algo que não deve ser feito se tiver um grande potencial de colocar a vida em risco. Certa vez vi em uma palestra que devemos escolher lutas pequenas suficientes para ganharmos, mas grandes o bastante para terem importância. Esse é um desses casos: se dependemos da nossa família e acreditamos que ela não nos dará suporte, que talvez até mesmo nos tire suporte, então o silêncio pode ser uma escolha política. Temporária, mas útil.
O mais importante, em qualquer caso, é encontrar pessoas nas quais possamos confiar. Grupos de apoio a LGBTs. Comunidades. Professores. Colegas. Amigos. Nem sempre será fácil reconhecer essas pessoas e algumas podemos até nos enganar, mas aos poucos vamos aprendendo a caminhar pela vida e a reforçar nossas posições. A melhor ajuda que podemos encontrar é aquela que não nos deixa sozinhos.
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| "Eu preciso confessar... Gordo, eu sou gay" |
Viver e experimentar a vida
Nem sempre a gente tem ciência do que pode fazer. Muitas vezes, aliás, não saber que algo é possível acaba nos limitando. Nem todos temos coragem de sair e desbravar o mundo sem saber o que nos espera. Eu, por exemplo, sempre fui medrosinho. Até tentava aqui e ali alguma interação afetiva/sexual com outros moços, mas era tão sem jeito (e estava procurando tão no lugar errado) que nunca rolava nada.Depois que entendi que não precisava ser igual a todo mundo, passei a procurar oportunidades de exercer meus desejos. De vivê-los. Aos poucos, foi ficando claro que sair de casa, ir em festas e conhecer pessoas através da internet eram boas maneiras de alcançar esse mundo do qual eu queria participar. Ficar sentado em casa desejando é algo que mais nos machuca do que ajuda.
Conversar com as pessoas
Esse é o ponto que normalmente as pessoas consideram "sair do armário". Cada pessoa tem uma capacidade diferente de lidar com a vida e com as suas pressões. Eu, por exemplo, precisava verbalizar (falar e escrever) para tornar real o fato de gostar de rapazes. Aos poucos isso deixou de ser uma necessidade, mas meus primeiros passos na vida sexual realmente precisavam desse apoio. Se isso acontece, "sair do armário" é um bom caminho.Eu conversei primeiro com o meu melhor amigo na época. Ele me indicou um outro amigo, que também gosta de moços, e a partir daí eu tive com quem conversar abertamente e trocar ideias e experiências. Saber que não se está sozinho é uma das coisas mais maravilhosas que existem. Até então, eu estava. Como eu não entendia o que estava acontecendo com meus desejos, eu não sabia como procurar ajuda. Para mim não fazia sentido gostar de homens, isso era algo que simplesmente não existia. Através dessas conversas com meus amigos (e fui contando cada vez para mais amigos, de modo a tornar minha realidade mais real), a coisa foi tomando forma.
A família
Foi então que comecei a namorar. Até então, nem pensava em contar nada para a família. Simplesmente não parecia algo que eles precisassem saber. Contudo, veio o dia em que eu queria receber meu namorado em casa, queria que ele fizesse parte do meu espaço, mas meu irmão estava lá. Contei pra ele (foi difícil, mas aliviante. Ele não conseguiu lidar muito bem com a ideia inicialmente, então explorou bem o item "conversar com pessoas" e contou para basicamente todos seus [alguns meus] amigos) e consegui o queria: meu namorado e eu passamos a ter um senso de família, já que aos poucos ele e meu irmão começaram a se conhecer.Depois de alguns meses namorando, chegou o momento de contar para a minha mãe. Algo curioso sobre isso tudo é que eu nunca tive medo das pessoas deixarem de gostar de mim ou me recriminarem. O medo que eu tinha era de saber que um homem gostar de homens era socialmente reprovável. Esse foi, aliás, o medo também expresso pela minha mãe: que eu sofresse na sociedade em que vivemos.
E quando não dá?
Nem todo mundo tem a sorte que eu tenho de nascer numa família compreensiva e carinhosa. A gente geralmente sabe se pode confiar/contar ou não. Assumir uma identidade é tomar uma posição política, é dizer "eu falo deste ponto de vista", "eu sou isso". Em muitos contextos, isso pode significar (e muitas vezes significa) dor, arrependimento, expulsão de casa, violência etc.Não é fácil acreditar que não se tem a quem recorrer. Por isso, assumir uma identidade é algo que não deve ser feito se tiver um grande potencial de colocar a vida em risco. Certa vez vi em uma palestra que devemos escolher lutas pequenas suficientes para ganharmos, mas grandes o bastante para terem importância. Esse é um desses casos: se dependemos da nossa família e acreditamos que ela não nos dará suporte, que talvez até mesmo nos tire suporte, então o silêncio pode ser uma escolha política. Temporária, mas útil.
O mais importante, em qualquer caso, é encontrar pessoas nas quais possamos confiar. Grupos de apoio a LGBTs. Comunidades. Professores. Colegas. Amigos. Nem sempre será fácil reconhecer essas pessoas e algumas podemos até nos enganar, mas aos poucos vamos aprendendo a caminhar pela vida e a reforçar nossas posições. A melhor ajuda que podemos encontrar é aquela que não nos deixa sozinhos.
sábado, março 30, 2013
Amor de pai
Ontem escrevi sobre como minha mãe lidou quando descobriu que sofri (bastante) bullying na escola.
Nunca falei de sexo com o meu pai. Desde pequeno, eu era o filho mais próximo da mãe, enquanto meu irmão era o mais próximo do pai. Era meu irmão que saía para acompanhar os jogos de futebol dele. Eu era o filho que pedia papel pra ficar rabiscando e me enfiava num mundinho todo particular (e distante). Apesar de nunca termos falado de sexo, ou talvez por isso, algumas dúvidas surgiram. Eu era o filho que nunca falava de namoradas, que não indicava interesse pelo outro sexo, que estava sempre estudando e estudando. Teria isso diminuído o amor de pai?
Certa vez, na praia, meu irmão estava passando uns dias na casa de nosso pai. Areia, mar, sol, churrasco, essas coisas todas que tornam a experiência da praia algo animado e farofeiro. Em meio a tudo isso, meu irmão tinha que lidar com uma série de perguntas curiosas: "O Tales já namorou?", "Tu já viu o Tales com mulher?". O interesse por trás das questões era simples: será que ele é? (já falei sobre isso, também, aqui). Chegou ao ponto em que meu irmão se irritou, puxou meu pai para caminhar com ele e disse "Tá, chega, cansei, o Tales é gay e tem um namorado". Era verdade, eu estava namorando na época. Depois de tantas perguntas, acho que o silêncio não foi a resposta que meu irmão estava esperando. "E aí, não vai falar nada?", questionou. "Ué, minha irmã era lésbica, o que tu quer que eu diga?".
Desde esse dia, meu pai e eu ainda não falamos sobre nada a respeito de sexo. Se isso diminui o amor que sentimos um pelo outro? Não, com certeza não.
Nunca falei de sexo com o meu pai. Desde pequeno, eu era o filho mais próximo da mãe, enquanto meu irmão era o mais próximo do pai. Era meu irmão que saía para acompanhar os jogos de futebol dele. Eu era o filho que pedia papel pra ficar rabiscando e me enfiava num mundinho todo particular (e distante). Apesar de nunca termos falado de sexo, ou talvez por isso, algumas dúvidas surgiram. Eu era o filho que nunca falava de namoradas, que não indicava interesse pelo outro sexo, que estava sempre estudando e estudando. Teria isso diminuído o amor de pai?
Certa vez, na praia, meu irmão estava passando uns dias na casa de nosso pai. Areia, mar, sol, churrasco, essas coisas todas que tornam a experiência da praia algo animado e farofeiro. Em meio a tudo isso, meu irmão tinha que lidar com uma série de perguntas curiosas: "O Tales já namorou?", "Tu já viu o Tales com mulher?". O interesse por trás das questões era simples: será que ele é? (já falei sobre isso, também, aqui). Chegou ao ponto em que meu irmão se irritou, puxou meu pai para caminhar com ele e disse "Tá, chega, cansei, o Tales é gay e tem um namorado". Era verdade, eu estava namorando na época. Depois de tantas perguntas, acho que o silêncio não foi a resposta que meu irmão estava esperando. "E aí, não vai falar nada?", questionou. "Ué, minha irmã era lésbica, o que tu quer que eu diga?".
Desde esse dia, meu pai e eu ainda não falamos sobre nada a respeito de sexo. Se isso diminui o amor que sentimos um pelo outro? Não, com certeza não.
sexta-feira, março 29, 2013
Amor de mãe
Recebi da minha mãe por e-mail:
Ela se refere à postagem em que conto sobre a época que sofria bullying na escola. Não foi um período fácil para mim e eu não entendia nada daquilo, tampouco sabia que era algo que podia procurar ajuda. Nessas horas, a ignorância não é uma bênção. Não saber não é uma bênção, é uma maldição. Ainda por e-mail, respondi assim:Estava agora há pouco lendo uma das tuas postagens no blog e fiquei como de outras vezes tanto orgulhosa quanto triste e com uma sensação frustante de ter falhado com quem eu mais amo nessa vida. Orgulhosa como fico sempre que leio os teus textos, fato. Triste e/ou frustada por mais uma vez constatar que não estive presente quando mais precisaste de um apoio. Pois nesse caso eu que sempre me achei “sempre tão disponível” para qualquer coisa que pudesse precisar, justamente eu não consegui te passar essa disponibilidade. Então fico pensando, será que passo essa ideia tão forte de que não seria capaz de entender o que fosse que estivesse dentro do teu coração? Se não sabias ao certo, não poderíamos ter chegado a uma conclusão juntos? Serei eu tão, “fora de questão ser cogitada para uma conversa desse porte"? Eu não poderia entender? Com mãe não se fala isso? Então, se fala o quê? Abobrinhas? Quanto mais leio as coisas que escreves, tuas aventuras e desventuras, vejo o quanto estive, estou e por consequência sempre estarei fora da tua vida real. Isso me deixa com uma sensação enorme de vazio, uma tristeza que nem sei explicar. De qualquer forma eu precisava manifestar ao menos meu sentimento. Me sentir essa porta fechada não é agradável.
Mãe, as portas já estiveram fechadas, mas isso foi quando elas estavam trancadas também para mim. Se o texto sobre o qual tu está falando é o que penso, ele retrata um momento em que nem mesmo eu conseguia pensar sobre essas coisas, quanto mais levá-las adiante e tratar delas. Eu não conversava com ninguém sobre nada daquilo. Eu mal pensava naquilo, apenas guardava pra mim mesmo. Desde a nossa conversa em 2006 sobre meu (primeiro) namoro, sinto como se essa barreira tivesse sido levantada. Para mim foi muito complicado, inicialmente, mas nunca por acreditar que tu não pudesse saber, compreender ou participar, mas sim porque eu ainda estava contaminado com todo o medo e o ressentimento que o mundo me ensinou a ter sobre sexualidade. Hoje eu me sinto aberto para conversar contigo sobre o que for, sobre quem for, sobre o que me emociona e o que me distancia. Penso que, nas oportunidades que temos para estar juntos, falamos de coisas que sabemos que são só para os ouvidos um do outro e isso me deixa feliz por saber que tenho uma relação contigo que é a que sempre quis ter com qualquer pessoa que amo: de verdadeira amizade e confiança. Te amo, mãe!Levando minha vida, eu não tinha ideia dessa preocupação no coração da minha mãe, algo que muita gente enfrenta e tanta gente mais nem sabe o que é, pois não tem uma mãe capaz de se doer por não estar ainda mais na vida do filho. Eu tenho e, por mais que fique triste em saber que, de alguma forma, a deixei magoada, fico feliz em saber que ela está ali e que pode me escrever essas palavras, pois sabe que eu a amo e vou não só levá-las em consideração, mas também refletir a respeito e mudar minha vida baseado no que ela sente.
Nossa conversa foi encerrada por uma resposta dela:
O texto que resultou nesse desabafo foi depois de ler, creio o último, mas não foi só por ele, talvez por todos eles, pois me mostram algo que eu deveria ter percebido, quem sabe procurado. Ao mesmo tempo que “Eu” penso que quando a gente tem alguém que confia plenamente, é para essa pessoa que a gente corre e se aninha para se acalmar, se recuperar e se reenergizar para poder enfrentar as dificuldades da vida, também penso agora olhando um pouco para mim, que muitas vezes nossas aflições ficam tão grandes que a gente sequer ousa falar até para nós mesmos, que dirá para outros.
Tenho com minha mãe uma relação que é linda. Eu confio nela e sei que posso ir até ela para falar sobre absolutamente qualquer coisa. Sinto falta da sua presença no meu cotidiano, pois moramos em cidades distantes, mas a certeza desse amor é algo que me facilita viver. Eu sou uma raposa de sorte.
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