Estou ajudando meu namorado a procurar um apartamento próximo ao trabalho dele. Onde ele mora corre o nada lindo risco de ser assassinado cada vez que volta para casa, já que é um bairro perigoso e o horário de serviço não ajuda em nada. Aí encontramos um lindo e a amiga que mudaria com ele desistiu. O colega de trabalho disse que topava e depois desistiu. Agora a família resolveu ir junto na aventura... e talvez o apartamento já esteja sendo alugado por outro sujeito.
Resumo da ópera: procurar apartamento é um inferno.
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segunda-feira, outubro 28, 2013
quarta-feira, outubro 23, 2013
A raposa e a coruja
Uma das razões para 2013 ser um ano no qual tenho sido muito feliz está no relacionamento que tenho com meu namorado, de longe o mais maduro que já vivenciei. Nós compartilhamos nossas ideias e anseios, conversamos sobre tudo e passamos muito tempo juntos, seja dormindo aqui em casa, seja passeando sozinhos ou entre amigos. Se há uma palavra para definir o que vivemos, é amor.
É justamente por termos uma relação construída na base de confiança mútua e desejo pela felicidade do outro que São Paulo é uma armadilha maldosa para nós dois. Ele sabe a importância que esse passo tem para mim e compreende que minha partida implicará em eu alcançar uma felicidade ainda maior do que temos hoje. Sim, eu estou sendo egoísta nisso e é uma droga admitir que meu sonho de futuro não tem espaço para os abraços e beijos que fizeram esse ano tão melhor do que poderia ser. É uma trajetória que preciso trilhar sozinho, do contrário não conseguirei me tornar a pessoa que preciso. Eu realmente acredito nisso. Eu, eu, eu.
A nossa relação vai mudar, não seremos mais um do outro, não dormiremos juntos quase todas as noites (talvez mais nenhuma), não viveremos nossos dias de mãos dadas ou com medo de dar as mãos porque algum louco gritou com a gente. Temos pela frente muitas noites regadas a lágrimas e memórias felizes convertidas em saudade. Saber que o carinho, a confiança e o desejo pela felicidade não mudarão de nada adianta frente à vontade grande de continuar dono, de continuar pertencendo.
Eu sei que é amor porque, apesar de todas os desejos contrários, estou livre para perseguir meus sonhos. Uma união improvável, raposa com coruja, mas prova viva de que é possível dividir tempo e carinho com outro alguém e ser e fazer feliz enquanto juntos. Mais do que isso, na verdade, porque a coruja todos os dias tem me dado sempre mais motivos para sorrir enquanto construímos juntos novas memórias.
É justamente por termos uma relação construída na base de confiança mútua e desejo pela felicidade do outro que São Paulo é uma armadilha maldosa para nós dois. Ele sabe a importância que esse passo tem para mim e compreende que minha partida implicará em eu alcançar uma felicidade ainda maior do que temos hoje. Sim, eu estou sendo egoísta nisso e é uma droga admitir que meu sonho de futuro não tem espaço para os abraços e beijos que fizeram esse ano tão melhor do que poderia ser. É uma trajetória que preciso trilhar sozinho, do contrário não conseguirei me tornar a pessoa que preciso. Eu realmente acredito nisso. Eu, eu, eu.
A nossa relação vai mudar, não seremos mais um do outro, não dormiremos juntos quase todas as noites (talvez mais nenhuma), não viveremos nossos dias de mãos dadas ou com medo de dar as mãos porque algum louco gritou com a gente. Temos pela frente muitas noites regadas a lágrimas e memórias felizes convertidas em saudade. Saber que o carinho, a confiança e o desejo pela felicidade não mudarão de nada adianta frente à vontade grande de continuar dono, de continuar pertencendo.
Eu sei que é amor porque, apesar de todas os desejos contrários, estou livre para perseguir meus sonhos. Uma união improvável, raposa com coruja, mas prova viva de que é possível dividir tempo e carinho com outro alguém e ser e fazer feliz enquanto juntos. Mais do que isso, na verdade, porque a coruja todos os dias tem me dado sempre mais motivos para sorrir enquanto construímos juntos novas memórias.
domingo, outubro 20, 2013
Uma mudança se aproxima
Começou aquela sensação estranha de ansiedade e despedida. Meu tempo em Goiânia está se esgotando. Percebi isso sexta-feira à noite, quando saí com meu namorado e dois bons amigos. Percebi também no dia anterior, quando saí apenas com dois amigos. Ou ainda no dia seguinte, quando encontrei um punhado de gente que admiro e de cujas vidas me orgulho de participar.
Eu tenho uma boa vida aqui em Goiânia. Quando falo em ir embora, não penso nisso com raiva, decepção nem nada de ruim parecido. Quase tudo que vivi ou vivo aqui me enche de sorrisos. Conto nos dedos as experiências ruins, que ao menos servem como coisas a serem evitadas no futuro.
Vindo de Porto Alegre para Goiânia aprendi que as pessoas especiais que fazem parte da minha vida não desaparecerão. Eu tinha medo disso, hoje não tenho mais. A parte superficial dos relacionamentos pode mudar: a frequência das conversas e dos abraços, por exemplo. O que não muda, como meus melhores amigos podem atestar, é o carinho e o cuidado pelas pessoas que amamos. Eu sei que as pessoas maravilhosas que conheci em Goiânia não deixarão de participar dos meus dias, da mesma forma que ainda hoje Porto Alegre vive comigo. Saber disso me deixa mais confortável rumo a essa nova etapa da vida.
O amor que a gente sente não desaparece na distância. Ainda bem.
Eu tenho uma boa vida aqui em Goiânia. Quando falo em ir embora, não penso nisso com raiva, decepção nem nada de ruim parecido. Quase tudo que vivi ou vivo aqui me enche de sorrisos. Conto nos dedos as experiências ruins, que ao menos servem como coisas a serem evitadas no futuro.
Vindo de Porto Alegre para Goiânia aprendi que as pessoas especiais que fazem parte da minha vida não desaparecerão. Eu tinha medo disso, hoje não tenho mais. A parte superficial dos relacionamentos pode mudar: a frequência das conversas e dos abraços, por exemplo. O que não muda, como meus melhores amigos podem atestar, é o carinho e o cuidado pelas pessoas que amamos. Eu sei que as pessoas maravilhosas que conheci em Goiânia não deixarão de participar dos meus dias, da mesma forma que ainda hoje Porto Alegre vive comigo. Saber disso me deixa mais confortável rumo a essa nova etapa da vida.
O amor que a gente sente não desaparece na distância. Ainda bem.
sexta-feira, outubro 04, 2013
Ciúme não é prova de amor
Quero começar deixando claro que não acredito que namorar com alguém signifique ser dono desse alguém. É uma ideia simples, mas acho que muita gente vai discordar. Por esses tempos namorei com um angry bird que achava um ultraje as pessoas me olharem na rua, como se estivessem trespassando alguma área privada. Eu mesmo já me peguei enfurecido de pensar em algum digníssimo conversando com outros sujeitos. Só depois de muitas fúrias aleatórias é que pensei sobre o motivo disso.
Sempre achei que ciúme fosse prova de amor. Afinal de contas, se tu ama alguém, quer que essa pessoa esteja contigo para sempre, não é mesmo? Não, não é. A não ser que eu esteja entendendo errado essa coisa toda do amor, amar não significa querer estar sempre do lado grudado sem deixar respirar. O nome disso é egoísmo, dependência, posse, ou várias outras coisas, mas não amor.
Amar, da forma que entendo, é querer bem, se preocupar, dar carinho, oferecer ombro, sorrir pelas conquistas, torcer pela felicidade. Não é a toa que ter amor próprio significa fazer tudo isso em relação a si mesmo. Amar não é ver a pessoa realizar aquilo que imaginamos para ela. Amar não é algo eterno, pode mudar de uma hora para outra (as pessoas mudam!). Amar não é justificativa para loucuras (o nome disso é loucura, veja só).
Então o que é o tal do ciúme? Ciúme é um exercício do nosso ego, nossa tentativa (frustrada) de controlar o mundo, geralmente a partir de alguém que a gente ama ou acha que ama. Quando a gente diz "ele é meu namorado", o meu ganha mais importância que tudo e pensamos que podemos controlar como a pessoa respira, para onde olha, o que sente e o que faz. Isso é um problema, especialmente porque no geral as pessoas que namoram firmam um acordo baseado em poucas coisas explícitas. Por exemplo, quase todo namoro é monogâmico, ou seja, uma relação que não envolve sexo com outras pessoas. Por outro lado, quase ninguém define comportamentos relacionados a flertes, conversas com exs e saídas com os amigos.
Uma hora ou outra, porém, o mundo imaginário do namoro perfeito que idealizamos bate de frente com a realidade e a pessoa sofre porque a imaginação era melhor do que a verdade. É nessa hora que nasce o ciúme. Em resumo, o ciúme é o nosso mimimi por o mundo (e as outras pessoas) não serem exatamente como nós queríamos. Se for criança, chamamos de mimada. Se for namoro, dizemos que é ciúme.
Quando a gente sente ciúme, o problema não está na outra pessoa, mas sim em nós e em nossas expectativas. É o nosso mundo que está a perigo, a nossa visão da vida que está sendo ameaçada pela força mordaz da verdade. É possível escaparmos do ciúme? Não sei. Podemos nos libertar das nossas expectativas? Por essas e outras acho que nem todo mundo pode namorar e que devemos pensar menos. Só abrindo mão de nós mesmos, me parece, é que somos capazes de verdadeiramente amar...
Sempre achei que ciúme fosse prova de amor. Afinal de contas, se tu ama alguém, quer que essa pessoa esteja contigo para sempre, não é mesmo? Não, não é. A não ser que eu esteja entendendo errado essa coisa toda do amor, amar não significa querer estar sempre do lado grudado sem deixar respirar. O nome disso é egoísmo, dependência, posse, ou várias outras coisas, mas não amor.
Amar, da forma que entendo, é querer bem, se preocupar, dar carinho, oferecer ombro, sorrir pelas conquistas, torcer pela felicidade. Não é a toa que ter amor próprio significa fazer tudo isso em relação a si mesmo. Amar não é ver a pessoa realizar aquilo que imaginamos para ela. Amar não é algo eterno, pode mudar de uma hora para outra (as pessoas mudam!). Amar não é justificativa para loucuras (o nome disso é loucura, veja só).
Então o que é o tal do ciúme? Ciúme é um exercício do nosso ego, nossa tentativa (frustrada) de controlar o mundo, geralmente a partir de alguém que a gente ama ou acha que ama. Quando a gente diz "ele é meu namorado", o meu ganha mais importância que tudo e pensamos que podemos controlar como a pessoa respira, para onde olha, o que sente e o que faz. Isso é um problema, especialmente porque no geral as pessoas que namoram firmam um acordo baseado em poucas coisas explícitas. Por exemplo, quase todo namoro é monogâmico, ou seja, uma relação que não envolve sexo com outras pessoas. Por outro lado, quase ninguém define comportamentos relacionados a flertes, conversas com exs e saídas com os amigos.
Uma hora ou outra, porém, o mundo imaginário do namoro perfeito que idealizamos bate de frente com a realidade e a pessoa sofre porque a imaginação era melhor do que a verdade. É nessa hora que nasce o ciúme. Em resumo, o ciúme é o nosso mimimi por o mundo (e as outras pessoas) não serem exatamente como nós queríamos. Se for criança, chamamos de mimada. Se for namoro, dizemos que é ciúme.
Quando a gente sente ciúme, o problema não está na outra pessoa, mas sim em nós e em nossas expectativas. É o nosso mundo que está a perigo, a nossa visão da vida que está sendo ameaçada pela força mordaz da verdade. É possível escaparmos do ciúme? Não sei. Podemos nos libertar das nossas expectativas? Por essas e outras acho que nem todo mundo pode namorar e que devemos pensar menos. Só abrindo mão de nós mesmos, me parece, é que somos capazes de verdadeiramente amar...
segunda-feira, setembro 16, 2013
A importância do leitor
Meu namorado lê os meus contos na medida em que eles vão ficando prontos. Não mostro nada a meio caminho, só finalizado, e assim vou obtendo um retorno sobre minhas ideias e a maneira como elas estão colocadas na narrativa. Todo mundo deveria ter um leitor que goste de comentar os textos. O olhar dele é o de outra pessoa, ou seja, distante do universo imaginário de onde tiro ideias e explicações para as minhas histórias.
Não, ele não faz análises complexas relativas à estrutura geral da trama ou algo assim. Ele apenas me diz o que gostou, o que não gostou, o que funcionou para ele ou deixou de funcionar. É nesse processo que vou percebendo como ele é afetado pelas minhas letras. Foi como sábado enquanto vi as pessoas lendo meu conto, suas reações me informaram sobre caminhos que valem a pena perseguir com a minha escrita.
Ontem passei o dia frustrado por não conseguir escrever o que eu queria. Acabei voltando a um texto velho que não havia terminado. Ainda não terminei, aliás. Penso que tenho sido muito didático na minha escrita. Será um reflexo de haver feito um mestrado e uma dissertação?
Não, ele não faz análises complexas relativas à estrutura geral da trama ou algo assim. Ele apenas me diz o que gostou, o que não gostou, o que funcionou para ele ou deixou de funcionar. É nesse processo que vou percebendo como ele é afetado pelas minhas letras. Foi como sábado enquanto vi as pessoas lendo meu conto, suas reações me informaram sobre caminhos que valem a pena perseguir com a minha escrita.
Ontem passei o dia frustrado por não conseguir escrever o que eu queria. Acabei voltando a um texto velho que não havia terminado. Ainda não terminei, aliás. Penso que tenho sido muito didático na minha escrita. Será um reflexo de haver feito um mestrado e uma dissertação?
quarta-feira, julho 31, 2013
Depilação íntima: fazer ou não?
Já quase dormindo, uma ligação me arranca o sono: "ele não quer depilar a bunda!". Depois de três meses de namoro, o motivo principal para as discussões de relação do casal são os pelos que meu amigo considera "em excesso", mas que seu digníssimo defende serem seu direito e sua liberdade de ter o corpo que quiser. Para o desespero do meu amigo, eu concordo com o namorado: o corpo é dele, os pelos também. Essa onda de depilação compulsória é coisa da nossa cultura que sacralizou a juventude e tudo o que se assemelha a ela. Fugiu disso, corta, depila, reforma, malha, faz dieta.
O que meu amigo está indignado a respeito é o fato de seu namorado não estar interessado em seguir os padrões de beleza que regem nossa cultura contemporânea, aquelas coisas de corpo sarado lisinho, sabe? Isso pra mim é sempre um desafio: estou voltando à natação amanhã cedo e o fato de eu ter pelos no peito, na barriga e nas costas me intimidam profundamente antes de tirar a roupa numa sala aberta na qual ficarei apenas de sunga. É absurdo especialmente porque eu sei que esses padrões são imposições culturais que em nada deveriam afetar o modo como eu enxergo o mundo. Só que afetam!
Pensando sobre isso, encontrei uma campanha de feministas que deixam os pelos do sovaco crescerem em nome da aceitação de mulheres com uma doença que tem como um dos principais efeitos colaterais o crescimento desproporcional de pelos. A lógica é perfeita: usar os próprios corpos para mostrar ao mundo que os padrões culturais de beleza são arbitrários, ou seja, não nascem de nenhuma lógica universal, são apenas reflexos e reproduções de ideais que vão mudando (a passos lentos) ao longo do tempo.
Por isso defendo o namorado do meu amigo: ele tem o direito de defender a possibilidade de simplesmente viver o seu corpo sem a interferência cruel e não requisitada da cultura que o circunda. O corpo é um espaço político, pois o que vestimos, pintamos ou movemos diz sobre o que acreditamos e defendemos. Ele, aparentemente, defende os pelos como o seu espaço de liberdade contra uma sociedade cruel e normalizadora. Mesmo que, me parece, ele possa perder o namorado no processo...
O que meu amigo está indignado a respeito é o fato de seu namorado não estar interessado em seguir os padrões de beleza que regem nossa cultura contemporânea, aquelas coisas de corpo sarado lisinho, sabe? Isso pra mim é sempre um desafio: estou voltando à natação amanhã cedo e o fato de eu ter pelos no peito, na barriga e nas costas me intimidam profundamente antes de tirar a roupa numa sala aberta na qual ficarei apenas de sunga. É absurdo especialmente porque eu sei que esses padrões são imposições culturais que em nada deveriam afetar o modo como eu enxergo o mundo. Só que afetam!
Pensando sobre isso, encontrei uma campanha de feministas que deixam os pelos do sovaco crescerem em nome da aceitação de mulheres com uma doença que tem como um dos principais efeitos colaterais o crescimento desproporcional de pelos. A lógica é perfeita: usar os próprios corpos para mostrar ao mundo que os padrões culturais de beleza são arbitrários, ou seja, não nascem de nenhuma lógica universal, são apenas reflexos e reproduções de ideais que vão mudando (a passos lentos) ao longo do tempo.
Por isso defendo o namorado do meu amigo: ele tem o direito de defender a possibilidade de simplesmente viver o seu corpo sem a interferência cruel e não requisitada da cultura que o circunda. O corpo é um espaço político, pois o que vestimos, pintamos ou movemos diz sobre o que acreditamos e defendemos. Ele, aparentemente, defende os pelos como o seu espaço de liberdade contra uma sociedade cruel e normalizadora. Mesmo que, me parece, ele possa perder o namorado no processo...
terça-feira, maio 07, 2013
Namorar não é para todo mundo
Tenho um amigo cujo namorado estará viajando na época da Parada Gay de São Paulo. Meu amigo quer ir à Parada, mas o seu namorado não pode nem imaginar isso. Até onde entendo, o meu amigo não está interessado em ir à Parada e pegar geral – ele respeita o contrato de namoro que firmou. Antes de mais nada, vamos definir uma coisa: o contrato de namoro é geralmente aquele em que duas pessoas concordam em se abster de relacionamentos afetivo-sexuais com outros viventes, priorizando, ou melhor, mantendo de forma exclusiva um relacionamento um com o outro. Existem variações, as quais muito me agradam e interessam, mas não são o caso neste momento (tanto por não ser o foco do texto quanto por eu estar, assim como meu amigo, vivendo um contrato de namoro).
Sobre o que eu quero discutir hoje, então? Sobre o fato do namorado do meu amigo sequer sonhar que seu amado deseja ir à Parada (sozinho, já que o digníssimo estará viajando no dia). Vejo pelo menos duas questões fundamentais de serem pensadas: a confiança e abertura para o diálogo.
Se a gente ama e confia, então a pessoa pode estar com o capeta rebolando na cara que vai continuar fiel. Essa é a base da confiança: acreditar que a pessoa vai honrar com aquilo que se comprometeu conosco. "Ai, mas não tenho certeza". Então não confia, volta e lê o parágrafo anterior. Não existe meia confiança. Ou a gente se entrega ou não se entrega. "Ah, eu confio, mas só um pouco". Eu já disse para voltar ao parágrafo anterior?
Tem gente que não consegue confiar. Tem ciúmes demais, insegurança demais, coisa ruim demais. Minha opinião é que essas pessoas não deveriam namorar. Devem se relacionar, sim, mas não namorar. Namoro é pesado, gente, namoro exige compromisso, exige confiança, exige a capacidade de tirar o próprio umbigo da reta e pensar que outra pessoa também pode tomar decisões e que em dado momento essa pessoa decidiu abrir mão da possibilidade de se relacionar com sete bilhões de pessoas para ficar com uma só. Não confia ou não acha que a pessoa é digna de confiança? Procura outra pessoa (ou seja outra pessoa, enfim).
"Eu sei que se disser/fizer isso, ele vai brigar comigo". Então tu tem interesse em falar ou fazer coisas, mas acha que não pode porque a pessoa com a qual tu namora vai brigar contigo? Sério? A autonomia ficou aonde? Tem gente que acha que namoro é subtração, que é aquele pedacinho em comum entre duas pessoas e o resto a gente abandona, esquece ou engole. Não é! Relacionamento é soma, é tu trazer a tua vida e colocar em contato com a vida do outro. "Ah, mas ele não entende tal coisa...". Que interessante, tu resolveu te relacionar com uma pessoa que não te quer por inteiro, que quer só uma parte de ti?
Se há uma parte de ti que está sendo negligenciada ou anulada, sinto muito, mas esse não é um relacionamento positivo, mas sim violento e opressor. Isso vale para a mulher que baixa a cabeça e lava os pratos, para o homem que não vai na Parada Gay e para qualquer pessoa que desiste de um pedaço de si em nome de outra pessoa. Quer insistir e fazer isso mesmo assim? Quer realmente namorar, não consegue nem cogitar outra possibilidade? Namora, mas aceita o preço.
Vale também lembrar, para realmente encerrar, que se não somos honestos com nós mesmos e nossos desejos, anseios etc., não deveríamos nos comprometer à honestidade para com outras pessoas. Namorar não é para tudo mundo.
Sobre o que eu quero discutir hoje, então? Sobre o fato do namorado do meu amigo sequer sonhar que seu amado deseja ir à Parada (sozinho, já que o digníssimo estará viajando no dia). Vejo pelo menos duas questões fundamentais de serem pensadas: a confiança e abertura para o diálogo.
Eu confio, mas não falo tudo...
Tem gente que acha que namorar é virar dono. Já falei antes e repito: ninguém é dono de ninguém. Se a pessoa te namora, ela entrou em acordo contigo por escolha própria (na maior parte dos casos, ao menos) e é isso que determina a parte de confiar na criatura. Se não confia, vai namorar por quê? "Ai, eu amo, mas não confio". Trouxa. Pode amar, mas se não confia, vai namorar pra quê? Namoro é um contrato que exige confiança basicamente porque nós não estamos 100% do tempo com a outra pessoa e nem temos como estar caso queiramos ter uma coisa chamada vida. Ama e não confia? Beleza, dá uns pegas de vez em quando. Desapega.Se a gente ama e confia, então a pessoa pode estar com o capeta rebolando na cara que vai continuar fiel. Essa é a base da confiança: acreditar que a pessoa vai honrar com aquilo que se comprometeu conosco. "Ai, mas não tenho certeza". Então não confia, volta e lê o parágrafo anterior. Não existe meia confiança. Ou a gente se entrega ou não se entrega. "Ah, eu confio, mas só um pouco". Eu já disse para voltar ao parágrafo anterior?
Tem gente que não consegue confiar. Tem ciúmes demais, insegurança demais, coisa ruim demais. Minha opinião é que essas pessoas não deveriam namorar. Devem se relacionar, sim, mas não namorar. Namoro é pesado, gente, namoro exige compromisso, exige confiança, exige a capacidade de tirar o próprio umbigo da reta e pensar que outra pessoa também pode tomar decisões e que em dado momento essa pessoa decidiu abrir mão da possibilidade de se relacionar com sete bilhões de pessoas para ficar com uma só. Não confia ou não acha que a pessoa é digna de confiança? Procura outra pessoa (ou seja outra pessoa, enfim).
"Eu sei que se disser/fizer isso, ele vai brigar comigo". Então tu tem interesse em falar ou fazer coisas, mas acha que não pode porque a pessoa com a qual tu namora vai brigar contigo? Sério? A autonomia ficou aonde? Tem gente que acha que namoro é subtração, que é aquele pedacinho em comum entre duas pessoas e o resto a gente abandona, esquece ou engole. Não é! Relacionamento é soma, é tu trazer a tua vida e colocar em contato com a vida do outro. "Ah, mas ele não entende tal coisa...". Que interessante, tu resolveu te relacionar com uma pessoa que não te quer por inteiro, que quer só uma parte de ti?
Nem toda relação precisa ser namoro
Dica para quem se sente preso: cria coragem e se liberta. Fulano não gosta de uma característica X e tu não está disposto a deixá-la desaparecer? Bem, em algum momento um dos dois terá que ceder. Se tu não acha que teu namorado vai fazer isso e tu não tem a menor vontade de fazê-lo, então por que cargas d'água está namorando essa criatura? "Ai, eu amo, mas ele não me entende...". Eu já falei alguma coisa sobre outros tipos de relacionamento? Namoro não é a única possibilidade da vida! É como se a gente pegasse todas os desejos e os condensasse dentro de uma única forma (bastante restrita) de ser e agir.Se há uma parte de ti que está sendo negligenciada ou anulada, sinto muito, mas esse não é um relacionamento positivo, mas sim violento e opressor. Isso vale para a mulher que baixa a cabeça e lava os pratos, para o homem que não vai na Parada Gay e para qualquer pessoa que desiste de um pedaço de si em nome de outra pessoa. Quer insistir e fazer isso mesmo assim? Quer realmente namorar, não consegue nem cogitar outra possibilidade? Namora, mas aceita o preço.
Um último lembrete
Ah, e por fim não vamos esquecer uma coisinha... tudo o que vai, volta. Se tu tem coisas de si que não fala para o digníssimo porque sabe que ele não vai gostar, coisas que gostaria de fazer, pensar e sentir, parece-me minimamente óbvio que o digníssimo também terá essas reservas em relação a ti. Se um namoro é baseado em confiança, como podemos namorar com alguém que precisa esconder coisas de nós? Ou, invertendo a questão ética, como podemos namorar alguém sabendo que precisamos esconder partes significativas de nós?Vale também lembrar, para realmente encerrar, que se não somos honestos com nós mesmos e nossos desejos, anseios etc., não deveríamos nos comprometer à honestidade para com outras pessoas. Namorar não é para tudo mundo.
sábado, maio 04, 2013
Apaixonar-se não é garantia de felicidade
Tenho um amigo que, em uma noite de outono, conheceu um rapaz numa boate e se apaixonou por ele. Era tudo que ele queria: um cara gentil, amável, bonito e com uma vida profissional promissora. Como o moço morava em outra cidade, combinaram se ver quando conseguiam e a vontade foi crescendo. Para resolver os problemas, meu amigo mudou-se para a cidade do moço que lhe roubara o coração e passou a morar com o dito rapaz.
Parece filme na sessão da tarde: carinha conhece alguém, apaixona-se, sofre, conquista e vive feliz pra sempre. Essa fórmula, repetida à exaustão, pode ter nos levado a acreditar que ela funcionará assim na vida real. Desculpem-me quebrar essa expectativa, mas isso não é verdade. A gente cresce acreditando no amor romântico e em suas promessas reforçadas pelos filmes de amor docinho, mas a realidade tem a mania de nos passar a perna.
Um dia, meu amigo acordou e tinha ao seu lado alguém diferente daquela pessoa pela qual se apaixonara. Na verdade, era a mesma pessoa, mas não era a mesma pessoa. Algo ali havia mudado. Meu amigo foi rápido em detectar o problema: seu namorado não o procurava mais para o sexo, andava cansado, reclamava disso e daquilo etc. O problema obviamente é o tal namorado que mudou, não é mesmo? Não, não é.
A paixão é viciante: quanto mais do que nos enfeitiça nós ganhamos, mais nós queremos. Se não recebemos, corremos atrás. Por outro lado, quanto mais temos, mais precisamos, ao ponto que um dia o efeito perde-se de nós. Um dia acordamos para descobrir que aquela mágica que nos prendia a outra pessoa deixou de estar ali.
A paixão é, como todas as coisas, passageira. O que fica após o seu término é mais ou menos a mesma coisa que havia antes dela surgir, somada e subtraída pelas mudanças vividas no processo. Nenhum relacionamento, seja ele com uma pessoa ou uma ideia, passa por nós sem deixar marcas, sem alterar o nosso caminho mesmo na mais ínfima proporção. Em meio a esse turbilhão confuso que envolve ser alguém e viver, cabe a nós conhecermos quem somos e o que queremos para as nossas vidas.
O budismo apresenta quatro nobre verdades: (1) o sofrimento é parte da vida, da doença e da velhice; (2) a origem do sofrimento é o nosso desejo e anseio pelas coisas; (3) para livrarmos do sofrimento, devemos nos desapegar destes desejos e anseios; (4) o caminho para esse desapego passa por comportamentos 'corretos', ou seja, justos, cheios de compaixão etc. Meu interesse está na segunda e terceira verdades: o nosso apego ao desejo de que as coisas sejam diferentes do que são. No caso do fim da paixão, desejamos que as coisas continuem do jeito que eram antes, que nossos sentimentos voltem a ser o que eram. Com muita frequência, nós culpamos a outra pessoa pelo esvaziamento das nossas sensações.
A paixão – e o fogo – não são garantias de nada. Eles são parte da vida, meramente. O que faremos com eles depende do que queremos fazer com as nossas vidas. Para alguns, a resposta é alimentar o fogo e a paixão com tudo o que estiver ao alcance, inclusive com o próprio corpo e a própria vida. Para outros, um fogo, uma luz e um calor não são suficientes. Para outros ainda, o fogo é algo cujo calor deve-se aproveitar enquanto queima, não mais, não menos.
Para a vida – e para as paixões – não há respostas. Elas dependem de quem nós somos naquele preciso instante em que os eventos da vida acontecem. Só há uma constante para a vida: a mudança é a regra. Se não aceitarmos isso, estaremos condenados a viver de passados e chamas apagadas, o que é garantia de infelicidade.
Parece filme na sessão da tarde: carinha conhece alguém, apaixona-se, sofre, conquista e vive feliz pra sempre. Essa fórmula, repetida à exaustão, pode ter nos levado a acreditar que ela funcionará assim na vida real. Desculpem-me quebrar essa expectativa, mas isso não é verdade. A gente cresce acreditando no amor romântico e em suas promessas reforçadas pelos filmes de amor docinho, mas a realidade tem a mania de nos passar a perna.
Um dia, meu amigo acordou e tinha ao seu lado alguém diferente daquela pessoa pela qual se apaixonara. Na verdade, era a mesma pessoa, mas não era a mesma pessoa. Algo ali havia mudado. Meu amigo foi rápido em detectar o problema: seu namorado não o procurava mais para o sexo, andava cansado, reclamava disso e daquilo etc. O problema obviamente é o tal namorado que mudou, não é mesmo? Não, não é.
O que significa apaixonar-se?
Quando nos apaixonamos por alguém ou alguma coisa, é como se todo o resto perdesse a importância. A mera presença do alvo de nossa paixão já nos completa. Apaixonar-se é encantar-se, é estar sob efeito de um feitiço que nos faz querer estar perto, conviver e compartilhar. Estar apaixonado não é amar, querer bem, ter vontade de cuidar. Estar apaixonado é um sentimento egoísta de querer para si, de ser atraído independentemente do bom senso.A paixão é viciante: quanto mais do que nos enfeitiça nós ganhamos, mais nós queremos. Se não recebemos, corremos atrás. Por outro lado, quanto mais temos, mais precisamos, ao ponto que um dia o efeito perde-se de nós. Um dia acordamos para descobrir que aquela mágica que nos prendia a outra pessoa deixou de estar ali.
O que acontece quando a paixão acaba?
A resposta a essa pergunta depende do que foi construído enquanto ela existia. Isso varia de pessoa para pessoa, relação para relação. Alguns se jogam no encanto e largam suas vidas para se alimentar ao máximo e exclusivamente da paixão. Outros são cautelosos, até mesmo resistentes. Há um jeito certo de lidar com essa magia de apaixonar-se? Não. Algumas vezes descobrimos, depois que o feitiço passou, que realmente gostamos daquela pessoa. Algumas vezes nós a amamos. Outras vezes, porém, descobrimos que sem o efeito mágico aquela pessoa não se encaixa em nossas vidas.A paixão é, como todas as coisas, passageira. O que fica após o seu término é mais ou menos a mesma coisa que havia antes dela surgir, somada e subtraída pelas mudanças vividas no processo. Nenhum relacionamento, seja ele com uma pessoa ou uma ideia, passa por nós sem deixar marcas, sem alterar o nosso caminho mesmo na mais ínfima proporção. Em meio a esse turbilhão confuso que envolve ser alguém e viver, cabe a nós conhecermos quem somos e o que queremos para as nossas vidas.
A felicidade depende do quê, então?
De nós mesmos, única e exclusivamente. Sei que é difícil acreditar, afinal, foi outra pessoa que lançou um feitiço sobre nós! Contudo, a verdade é que nossos amores começam e terminam dentro daquilo que nós somos. O contato com o outro pode aumentar, diminuir ou modificar o que sentimos, mas apenas em função de nossa percepção sobre este contato. O que sentimos e desejamos conversa com o mundo, não depende dele.O budismo apresenta quatro nobre verdades: (1) o sofrimento é parte da vida, da doença e da velhice; (2) a origem do sofrimento é o nosso desejo e anseio pelas coisas; (3) para livrarmos do sofrimento, devemos nos desapegar destes desejos e anseios; (4) o caminho para esse desapego passa por comportamentos 'corretos', ou seja, justos, cheios de compaixão etc. Meu interesse está na segunda e terceira verdades: o nosso apego ao desejo de que as coisas sejam diferentes do que são. No caso do fim da paixão, desejamos que as coisas continuem do jeito que eram antes, que nossos sentimentos voltem a ser o que eram. Com muita frequência, nós culpamos a outra pessoa pelo esvaziamento das nossas sensações.
De quem é a culpa, afinal?
Penso que encontrar culpados não seja a resposta. O que precisamos entender é que apaixonar-se não é garantia de felicidade, mas também não é algo a ser evitado. A paixão é como uma chama atraindo a nossa atenção: sua luz nos mostrará coisas que não veríamos sem ela. Cabe-nos continuar nossas vidas sem nos jogarmos ao fogo, aproveitando a sua luz e o seu calor. Se o fogo se apagar, talvez seja o momento de acender outras chamas ou de procurar outras luzes para nos atrair. Ou, quem sabe ainda, o verdadeiro trabalho envolva não deixar o fogo se extinguir.A paixão – e o fogo – não são garantias de nada. Eles são parte da vida, meramente. O que faremos com eles depende do que queremos fazer com as nossas vidas. Para alguns, a resposta é alimentar o fogo e a paixão com tudo o que estiver ao alcance, inclusive com o próprio corpo e a própria vida. Para outros, um fogo, uma luz e um calor não são suficientes. Para outros ainda, o fogo é algo cujo calor deve-se aproveitar enquanto queima, não mais, não menos.
Para a vida – e para as paixões – não há respostas. Elas dependem de quem nós somos naquele preciso instante em que os eventos da vida acontecem. Só há uma constante para a vida: a mudança é a regra. Se não aceitarmos isso, estaremos condenados a viver de passados e chamas apagadas, o que é garantia de infelicidade.
terça-feira, abril 16, 2013
Conhecendo a sogra
Foi no sábado. Conheci ao mesmo tempo sogra e cunhada. Até alguns minutos antes delas chegarem na minha casa (eba, ao menos o território não era o delas!), eu acreditava que haveria outras pessoas ao redor para nos distrair e não obrigar as atenções a ficarem apenas entre nós. Meu namorado, ainda que o protagonista dos afetos das três outras pessoas na sala (quarto-sala, na verdade), não tinha muito o que fazer. Estávamos ali para construir um terreno comum sobre o qual pudéssemos pisar. Ela(s), de um lado, me analisando e decidindo se sou uma pessoa aprovável. Eu, do outro, analisando algumas das influências que tornaram meu digníssimo na pessoa que ele é hoje.
Conhecer a sogra é um momento especial em qualquer relacionamento. Por sogra quero dizer qualquer pessoa responsável pela criação de alguém que a gente gosta. De certa forma, é um momento de ingresso em uma nova família. Ou melhor, um momento de ampliar a família que se está estabelecendo com alguém. O risco de conflito está na percepção de qual relação importa mais: para mim, é a minha com o digníssimo. Para a sogra, provavelmente é a dela com o filho. Grandes conflitos podem surgir dessa diferença de percepção de realidade, especialmente se adicionarmos pitadas de egoísmo ou de ciúmes.
Em resumo, posso dizer que deu tudo certo em nosso encontro. Durou uma hora. Estávamos ambos nervosos e tateando as palavras com absoluto cuidado. Rimos bastante. Rir, aliás, é uma dica preciosa quando o contexto permite. Não estávamos rindo de confortáveis, não, certamente não, mas mesmo nosso riso nervoso indicava que tiramos do caminho possíveis farpas. Éramos duas pessoas com interesses em comum (o bem de uma mesma pessoa) avaliando como poderíamos desempenhar nossos papéis da melhor forma possível.
Por isso digo que aconteceu tudo bem. O maior exemplo disso talvez seja nosso encontro, que começou com um distante e nervoso aperto de mão, mas terminou com um aproximado e nervoso abraço.
Conhecer a sogra é um momento especial em qualquer relacionamento. Por sogra quero dizer qualquer pessoa responsável pela criação de alguém que a gente gosta. De certa forma, é um momento de ingresso em uma nova família. Ou melhor, um momento de ampliar a família que se está estabelecendo com alguém. O risco de conflito está na percepção de qual relação importa mais: para mim, é a minha com o digníssimo. Para a sogra, provavelmente é a dela com o filho. Grandes conflitos podem surgir dessa diferença de percepção de realidade, especialmente se adicionarmos pitadas de egoísmo ou de ciúmes.
Em resumo, posso dizer que deu tudo certo em nosso encontro. Durou uma hora. Estávamos ambos nervosos e tateando as palavras com absoluto cuidado. Rimos bastante. Rir, aliás, é uma dica preciosa quando o contexto permite. Não estávamos rindo de confortáveis, não, certamente não, mas mesmo nosso riso nervoso indicava que tiramos do caminho possíveis farpas. Éramos duas pessoas com interesses em comum (o bem de uma mesma pessoa) avaliando como poderíamos desempenhar nossos papéis da melhor forma possível.
Por isso digo que aconteceu tudo bem. O maior exemplo disso talvez seja nosso encontro, que começou com um distante e nervoso aperto de mão, mas terminou com um aproximado e nervoso abraço.
sexta-feira, março 08, 2013
Raposa brincando de zumbi
Hoje experimentei a deliciosa sensação de quase desmaiar. Quase, porque não caí. Não caí porque percebi a tempo que estava tudo sumindo da vista e voei para a cama. Motivo: provavelmente fome e falta de energia. Estou com uma virose forte que me deixa febril, pintado e com dor de cabeça. Todo mundo acha que é dengue, mas meu sangue diz que não. Estou também com uma afta gigante na língua e ela me impede de comer. Resultado: estou quase desmaiando por aí. Fiquei pálido e com pressão baixa e tudo mais e voei para a cama a fim de evitar que eu voasse de cabeça na parede.
Assim estou hoje, meio zumbi. Não que eu fosse ser um bom zumbi com essa afta me incomodando. O cara aí é tipo meu namorado, me aguentando. Eu morderia ele, se não tivesse uma afta gigante que, além de comer, também me impede de beijar meu namorado.
Assim estou hoje, meio zumbi. Não que eu fosse ser um bom zumbi com essa afta me incomodando. O cara aí é tipo meu namorado, me aguentando. Eu morderia ele, se não tivesse uma afta gigante que, além de comer, também me impede de beijar meu namorado.
segunda-feira, fevereiro 11, 2013
O olhar heterossexual
Perto da minha casa tem uma feira que acontece todos os domingos. Eu, fã de hábitos rotineiros, janto lá todo santo domingo. De preferência, como tapioca. Duas, uma de calabresa e uma de sabor variável, ora carne seca, ora pizza. Dessa vez, porém, fiz algo diferente: fui de mãos dadas com o meu namorado. Tudo foi mais ou menos semelhante ao que sempre é: fomos bem atendidos, pedimos, sentamos em uma mesa, aguardamos e comemos. Tanto na ida quanto na volta, porém, fomos olhados.
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| Medusa, por Caravaggio. |
Não foi qualquer olhar o que me chamou a atenção. Foi de um grupo de homens que, presumo, são heterossexuais. Também acho que são uns idiotas, mas escrever isso talvez diminua a minha reflexão. O incômodo não surgiu apenas por termos sido olhados, meu namorado e eu, mas pelas risadas e apontadas de cabeça que ocorreram como reação à nossa passagem. Para o trio de caras encorpados, nós éramos motivo de piada.
Qual a graça? Não sei, na verdade. Entendo aqui o riso como um exercício de poder. Ele riram porque podiam rir, da mesma forma que eu e meu namorado olhamos para o chão e apertamos o passo. Se eles decidissem, poderiam facilmente nos esmagar. Não, sério, eram grandes mesmo. De onde vem esse poder? Não é só da força física, mas também do poder cultural investido neles pela normalidade. Eles são normais, são heterossexuais em uma sociedade que reconhece viadinhos como algo à parte.
Quando eles riram, todos que viram isso entenderam do quê estavam rindo. Um casal de rapazes passando de mãos dadas é algo risível. Se eu risse deles, por outro lado, ninguém entenderia. Não é inteligível rir de um grupo de caras heterossexuais/machos comendo seu sanduíche, enquanto é perfeitamente aceitável rir do casalzinho gay que vem passando. Por quê, eu pergunto?
Esse texto possui uma continuação: O olhar heterossexual 2.
Esse texto possui uma continuação: O olhar heterossexual 2.
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