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segunda-feira, novembro 04, 2013

Medinho

Eu estou com medo do futuro. Ontem rabisquei pela segunda vez o provável primeiro primeiro texto do meu novo blog, mas é inevitável a pergunta: eu preciso de um novo blog? Eu conseguirei manter um novo blog? Alguém está interessado em ler algo do que eu escrevo? Essas ansiedades me perseguem desde criança. Estou acostumado a me perder nos silêncios mais do que em me atirar à vida, por isso meu plano de arriscar pôr a cara no mundo me assusta tanto assim.

Por outro lado, vou confirmando que meus amigos me apoiam. Não sei o que realmente pensam daquilo que escrevo – é tão importante assim? –, mas sei que estão dispostos a aguentar minhas lamúrias e cutucar meus sonhos para que cresçam mais fortes. Isso já me deixa bastante animado, um pouco mais disposto a enfrentar o mundo.

domingo, outubro 20, 2013

Uma mudança se aproxima

Começou aquela sensação estranha de ansiedade e despedida. Meu tempo em Goiânia está se esgotando. Percebi isso sexta-feira à noite, quando saí com meu namorado e dois bons amigos. Percebi também no dia anterior, quando saí apenas com dois amigos. Ou ainda no dia seguinte, quando encontrei um punhado de gente que admiro e de cujas vidas me orgulho de participar.


Eu tenho uma boa vida aqui em Goiânia. Quando falo em ir embora, não penso nisso com raiva, decepção nem nada de ruim parecido. Quase tudo que vivi ou vivo aqui me enche de sorrisos. Conto nos dedos as experiências ruins, que ao menos servem como coisas a serem evitadas no futuro.

Vindo de Porto Alegre para Goiânia aprendi que as pessoas especiais que fazem parte da minha vida não desaparecerão. Eu tinha medo disso, hoje não tenho mais. A parte superficial dos relacionamentos pode mudar: a frequência das conversas e dos abraços, por exemplo. O que não muda, como meus melhores amigos podem atestar, é o carinho e o cuidado pelas pessoas que amamos. Eu sei que as pessoas maravilhosas que conheci em Goiânia não deixarão de participar dos meus dias, da mesma forma que ainda hoje Porto Alegre vive comigo. Saber disso me deixa mais confortável rumo a essa nova etapa da vida.

O amor que a gente sente não desaparece na distância. Ainda bem.

quinta-feira, agosto 08, 2013

Das coisas que eu quero

Mandei hoje para uma amiga essa mensagem em resposta a uma em que ela perguntava qual é o meu sonho de vida, o que eu quero para o meu futuro, o que eu amo fazer. Nossos e-mails frequentemente são sessões de terapia.

Duas coisas são as que mais me enchem de prazer, a ordem de qual vem primeira se alterna com o tempo: escrever e conversar sobre a vida (com ou das pessoas com as quais converso). Eu sou apaixonado por histórias, narrativas e o modo como elas são criadas, desenvolvidas e percebidas. Sempre que eu penso "o que eu gostaria de estar fazendo", a resposta passa por "escrever", mas eu fico com um baita medo de ser uma fraude, de não ser alguém que consegue escrever direito, sabe? É a mesma coisa que eu sinto na sala de aula: um profundo medo de que um dia alguém chegará até em mim e descobrirá que na verdade eu não sei nada daquilo, que eu estou lá apenas por um golpe de sorte do destino.

Eu não faço questão de mais dinheiro. Ele só me é necessário para manter a vida acontecendo (comida, moradia, deslocamento, essas coisas básicas) e eventualmente sustentar alguns luxos, como viagens e uma ou outra coisa mais cara (como uma noite de sushis, por exemplo). O que eu ganho mensalmente hoje é o suficiente para atender a todas essas necessidades atuais, mas conforme eu for ficando mais velho talvez surjam outras ainda imprevistas. Nada que escape profundamente do orçamento, creio.

Eu adoro dar aula por basicamente um motivo: isso me coloca em contato com pessoas que estão interessadas em, de alguma forma, se desenvolver, crescer, conversar, aprender. São coisas que muitas vezes eu acredito que consigo ajudar. Eu adoro ter retorno sobre os meus textos também pela mesma razão: mais de uma vez alguém já veio me dizer que minhas palavras no blog produziram reflexões fortes, que mexeram fundo em algo que a pessoa estava pensando para si.

Isso é muito certo pra mim: eu quero escrever cada vez mais.
O meu medo maior é que o mundo acadêmico roube isso de mim caso eu invista no doutorado.

segunda-feira, julho 08, 2013

Bons amigos te pegam pelas palavras

Amiga boa é aquela que não só pesca o que a gente diz, mas pesca e joga de volta quando dois minutos depois a gente está falando algo completamente diferente.

Estava eu discursando sobre meu projeto de publicar um livro até o fim do ano e parar de procrastinar quando comecei lindamente a dizer que 'ah, esse ano, daqui dois anos, quinze anos... nem me importo'. Escrevendo assim parece estúpido e bobo e infantil e completamente fora de senso. Tudo bem, é isso mesmo, mas acho que isso acontece com todo mundo. A gente esquece dos nossos próprios objetivos porque eles estão dentro de nós e quando falamos deles parece que os atualizamos a todo minuto. Eu nem lembrava que dois minutos antes havia declarado que queria publicar ainda este ano e já estava dizendo que o tempo não importa. É claro que o tempo importa, eu que tentei me enganar e estava conseguindo. Minha amiga, me olhando de fora, percebeu o movimento em falso e o destacou. Através das palavras dela, eu me vi fora de mim.

Farei uma lista de objetivos.
Sem ela, creio que continuarei me perdendo entre propostas de apartamentos, carros à venda, possibilidades inventivas de viagens de volta ao mundo e centenas de reais em livros todo mês (tá, não é todo mês, mas eu preciso acreditar que é muito pior do que é para que eu possa controlar o impulso de simplesmente ir lá e gastar, mesmo que com coisas que me dão algum prazer).

sábado, julho 06, 2013

Meu primeiro filhote

No fim de maio foi lançado o primeiro livro no qual tenho uma participação como autor. O Loveless traz, entre outras várias histórias, o conto O bufo, sobre um jovem e seus enfrentamentos quando precisa decidir se irá rever seus ex-colegas de colégio responsáveis por anos de tortura e bullying. Essa é uma história que traz muito de mim e que nasce de algumas experiências pelas quais passei. Contudo, ela não é exatamente meu primeiro filhote. Bem, é e não é.


Antes de escrever O bufo e tê-lo aceito para publicação no Loveless eu já escrevia há algum tempo. Lembro de uma festa de natal em que meu pai propagandeava a quem quisesse ouvir que seu filho havia escrito um livro. Eu estava no segundo ano do Ensino Médio e, de fato, havia escrito uma história. Uma professora leu A teoria dos anjos (professora essa que é mãe de um moço que veio a se tornar um dos meus grandes amigos atualmente) e disse que eu tinha um 'estilo machadiano'.

Levei o material a uma editora todo ávido por minha história ganhar páginas, mas era uma daquelas editoras que cobram para fazer qualquer material que lhes seja entregue, então não serviu exatamente para que eu tivesse uma noção da qualidade das minhas letras. Relendo 'meu primeiro livro' percebo que é um texto ingênuo, mas era uma semente que hoje já é um arbusto, quase uma árvore.

Agora outros filhotes começam a aparecer. Depois do Bufo, dentro de um ou dois meses terei O terceiro passo também publicado (mais notícias sobre isso quando eu tiver datas em mãos). Há um outro conto esperando ser apreciado e, se for aprovado, também ganhará forma e cor (chama O ponto do amor). Concluindo esse processo, terminei ontem de escrever a Terapia alternativa. Nesse fim de semana pretendo começar mais um conto, cujo nome provisório é A marcha da vadia, minha primeira história cuja protagonista é mulher.

Por que estou contando tudo isso? Simples: porque mais do que nunca acredito no potencial do meu sonho – ser um escritor (famoso) – se realizar. A minha parte do negócio eu comecei a fazer, estou escrevendo e buscando publicar. A outra parte é com vocês, meus queridos amigos de raposa.

sábado, junho 08, 2013

Pequeno projeto: abraçar quem a gente gosta

Em uma noite em que tudo estava mal e a ponto de explodir, ele entrou em casa apressado. Assalto, dia longo de trabalho, ônibus lotado – queria esquecer isso tudo. Olhou para um lado, olhou para outro, mas em canto algum encontrou o que precisava. Jogou-se no sofá para se relacionar com o desespero e a solidão, fragilizado pelo silêncio, mas então um pequeno som levantou-se em esperança: as chaves na porta. Quando ela se abriu, ergueu-se e sem limpar as lágrimas jogou-se aos braços da pessoa amada. Assalto, dia longo, ônibus lotado – tudo isso sumiu num instante que, enquanto durou o abraço, durou para sempre.


quarta-feira, junho 05, 2013

Pequeno projeto: cozinhar algo novo que fique gostoso

Conforme comecei a aprender a cozinhar, fui descobrindo que não estava apenas fazendo comida. O que eu fazia toda vez que acendia o fogo e borbulhava ingredientes não era cozinhar alimentos nem organizar refeições. Era feitiçaria, artesania, criação poética. Cada novo prato ou combinação abria um leque de possibilidades de atuação sobre a vida. Cozinhar é exatamente isso: atuar sobre a vida, sobre aquilo que nos mantém vivos.

Sempre admirei, quando criança, a maneira inventiva com que meu padrasto cozinhava. Percebia nele um grandioso prazer em transformar ingredientes soltos em prazer estésico, em sabor. Na época, para minha atual tristeza e, suponho, decepção passada dele, eu não me interessava em conhecer esses ofícios secretos que envolvem transformar o cru no cozido, no frito e no assado. Eu achava, e muitas vezes ainda me pego achando, que não precisava exercer nenhum poder sobre o mundo e que isso seria liberdade de verdade, viver sem me comprometer, sem colocar as mãos na massa (que metáfora apropriada!). Tolinho, eu.


Cozinhar algo novo que fique gostoso é parte do meu pequeno projeto para dias felizes porque é daquelas coisas que não envolvem apenas resolver problemas cotidianos: envolve encantar os paladares alheios, reunir pessoas queridas e dar sustento aos corpos. Envolve também ter algum controle ou influência sobre o que acontece na vida, ao invés de apenas deixar-se levar pelos rios do tempo.

Como todo conhecimento, o saber cozinhar também amplia a forma como vemos o mundo. Hoje percebo sabores que antes passavam em branco. Isso sem contar as amizades que se aprofundaram ao redor de mesas ou de fogões e os carinhos que se demonstram no cuidado quentinho de um prato gostoso. Cozinhar é algo sério e, principalmente, feliz. Cada minuto passado na frente do fogão me remete a todos os sabores que vivi, temperados com amores e cuidados de quem dedicou seu tempo a me permitir o paladar. Cozinhar não é perda de tempo: é investimento.

terça-feira, junho 04, 2013

Desculpas a um amigo

Nesse fim de semana de felicidades e sorrisos aprendi uma coisa importante sobre amizades: nem sempre liberdade para ser amigo significa que não machucaremos a quem gostamos. Aprendi isso com uma aula prática no percurso de um elevador.

Para começar, me defendo com a crença que amizades não devem ter limites, devemos poder dizer tudo para aquelas que compartilham laços de carinho e confiança conosco. Realmente acredito nisso, pois sem essa abertura, nós estaremos sendo parceiros, companheiros, colegas... mas não necessariamente amigos. Tenho ainda essa visão ingênua, porém esperançosa, da amizade como algo que transcende as relações humanos típicas, essas cheias de fingimentos e segundas intenções.

Mas, contudo, porém, entretanto... ter liberdade para falar qualquer coisa não significa que podemos falar qualquer coisa a qualquer hora. Algumas vezes me falta tato para perceber quando seria melhor ficar quieto, quando seria melhor deixar que uma ferida se feche um pouco, se cure um pouquinho, antes de colocar o dedo nela mais uma vez. Cada um tem o seu tempo e, principalmente, a sua vida para lidar. Eu ser amigo não me dá o direito mágico de entrar na vida alheia e bagunçar as temporalidades de cada um. O que eu ser amigo deveria me dar é o poder de escutar, de abraçar para curar e, num momento mais calmo ou menos dolorido, dizer e conversar.

Um bom amigo, algo que em vários momentos não fui (no fim de semana ou na vida), provavelmente escutaria mais do que diria. Um bom amigo não é aquele que toma as decisões por nós e nos diz (manda aos gritos!) o que fazer, mas sim aquele que nos dá a mão para ajudar a retomar um bom caminho ou para comemorar uma escolha feliz. Ter o poder de ser absolutamente sincero e transparente não quer dizer que isso seja a mesma coisa que ter que fazer isso sempre.

Algumas vezes, o silêncio é tudo que uma amizade precisa para cultivar reflexões, carinhos e, principalmente, presenças. Peço desculpas ao amigo que, ao invés de ouvir, fiz calar.

sexta-feira, maio 31, 2013

Compartilhe seus desafios

Nos últimos textos estivemos pensando sobre questões importantes para alcançarmos aquilo que queremos: como mudar nossos hábitos e como definir nossas prioridades.

Existe um provérbio (li que era africano) que diz o seguinte:
Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se você quer ir longe, vá acompanhado.
Nós vivemos em uma sociedade ocidental capitalista malvada que insiste que necessitamos correr contra o relógio para fazer absolutamente tudo e alcançar um sucesso incontrolável por meio do dinheiro. O perigo dessa cantiga é que ela funciona para algumas pessoas, o que prende milhares (milhões!) de outras no sonho de ficar rico e gastar toneladas de dinheiros aleatoriamente para luxos vãos. No meio de tudo isso, somos bombardeados por infinitos estímulos e convites que tendem mais a nos desviar das coisas que queremos (acrescentando vários outros desejos) do que a nos levar para frente.


Ufa!
Como lidar com esse tanto de coisas sozinhos? Espere, por que sozinhos? Sei que vemos todos os dias pequenos sucessos individuais, sei que eles parecem glamorosos e fantásticos, mas pergunto: o que queremos para as nossas vidas é apenas para as nossas vidas, ou também para as de outras pessoas? Por que não dividir nossos sonhos e desafios com outras pessoas? Aos poucos, fazer com que nossos sonhos também sejam sonhos de outras pessoas, que nossos desafios contribuam para o crescimento alheio?

Há pelo menos três maneiras através das quais outras pessoas podem ser úteis em nossas vidas.

Amigos para pedir ajuda. Nós não podemos saber tudo, mas podemos conhecer pessoas que sabem aquelas coisas que não somos capazes de fazer, ou que são muito melhores que nós. Por que não dividir e compartilhar parcerias? Pedir ajuda pode ser trocar favores, pode ser pegar aulas, pode ser qualquer coisa que inclua o conhecimento de outra(s) pessoa(s) influenciando nosso caminho. Fazer tudo sozinho pode talvez até ter um sabor de conquista maior no fim do caminho, mas é bem mais chato e, óbvio, solitário.

Amigos para nos cobrar. Sabemos os sabores das distrações e os perigos de nos perdermos de nossos objetivos. Muitas vezes um mero bilhetinho na parede pode não ser o suficiente para nos manter no caminho. É nessa hora que entram amigos, psicólogos, chefes, coaches e o que mais estiver à disposição para nos auxiliar. Conte às pessoas o que você está fazendo: a pressão social de corresponder aos anseios dos outros provavelmente será de grande ajuda nas suas tarefas. Ninguém gosta de decepcionar os outros (se você gosta, provavelmente é algo que devemos conversar a respeito...).

Amigos para celebrar. Essa é uma parte que a gente de vez em quando esquece, ou deixa para comemorar apenas no final. Não! Divida suas alegrias de cada passo concluído com as pessoas próximas e queridas. Isso dá valor e faz valer cada vez mais passo após passo. A celebração fecha um ciclo e nos dá energia para seguirmos conquistando novos sucessos e, por tabela, novas celebrações. Com o tempo, nos acostumamos a aceitar a felicidade das pequenas conquistas, ao invés de desejá-la como um grande prêmio no final de um longo caminho.

terça-feira, maio 07, 2013

Namorar não é para todo mundo

Tenho um amigo cujo namorado estará viajando na época da Parada Gay de São Paulo. Meu amigo quer ir à Parada, mas o seu namorado não pode nem imaginar isso. Até onde entendo, o meu amigo não está interessado em ir à Parada e pegar geral – ele respeita o contrato de namoro que firmou. Antes de mais nada, vamos definir uma coisa: o contrato de namoro é geralmente aquele em que duas pessoas concordam em se abster de relacionamentos afetivo-sexuais com outros viventes, priorizando, ou melhor, mantendo de forma exclusiva um relacionamento um com o outro. Existem variações, as quais muito me agradam e interessam, mas não são o caso neste momento (tanto por não ser o foco do texto quanto por eu estar, assim como meu amigo, vivendo um contrato de namoro).


Sobre o que eu quero discutir hoje, então? Sobre o fato do namorado do meu amigo sequer sonhar que seu amado deseja ir à Parada (sozinho, já que o digníssimo estará viajando no dia). Vejo pelo menos duas questões fundamentais de serem pensadas: a confiança e abertura para o diálogo.

Eu confio, mas não falo tudo...

Tem gente que acha que namorar é virar dono. Já falei antes e repito: ninguém é dono de ninguém. Se a pessoa te namora, ela entrou em acordo contigo por escolha própria (na maior parte dos casos, ao menos) e é isso que determina a parte de confiar na criatura. Se não confia, vai namorar por quê? "Ai, eu amo, mas não confio". Trouxa. Pode amar, mas se não confia, vai namorar pra quê? Namoro é um contrato que exige confiança basicamente porque nós não estamos 100% do tempo com a outra pessoa e nem temos como estar caso queiramos ter uma coisa chamada vida. Ama e não confia? Beleza, dá uns pegas de vez em quando. Desapega.

Se a gente ama e confia, então a pessoa pode estar com o capeta rebolando na cara que vai continuar fiel. Essa é a base da confiança: acreditar que a pessoa vai honrar com aquilo que se comprometeu conosco. "Ai, mas não tenho certeza". Então não confia, volta e lê o parágrafo anterior. Não existe meia confiança. Ou a gente se entrega ou não se entrega. "Ah, eu confio, mas só um pouco". Eu já disse para voltar ao parágrafo anterior?

Tem gente que não consegue confiar. Tem ciúmes demais, insegurança demais, coisa ruim demais. Minha opinião é que essas pessoas não deveriam namorar. Devem se relacionar, sim, mas não namorar. Namoro é pesado, gente, namoro exige compromisso, exige confiança, exige a capacidade de tirar o próprio umbigo da reta e pensar que outra pessoa também pode tomar decisões e que em dado momento essa pessoa decidiu abrir mão da possibilidade de se relacionar com sete bilhões de pessoas para ficar com uma só. Não confia ou não acha que a pessoa é digna de confiança? Procura outra pessoa (ou seja outra pessoa, enfim).

"Eu sei que se disser/fizer isso, ele vai brigar comigo". Então tu tem interesse em falar ou fazer coisas, mas acha que não pode porque a pessoa com a qual tu namora vai brigar contigo? Sério? A autonomia ficou aonde? Tem gente que acha que namoro é subtração, que é aquele pedacinho em comum entre duas pessoas e o resto a gente abandona, esquece ou engole. Não é! Relacionamento é soma, é tu trazer a tua vida e colocar em contato com a vida do outro. "Ah, mas ele não entende tal coisa...". Que interessante, tu resolveu te relacionar com uma pessoa que não te quer por inteiro, que quer só uma parte de ti?

Nem toda relação precisa ser namoro

Dica para quem se sente preso: cria coragem e se liberta. Fulano não gosta de uma característica X e tu não está disposto a deixá-la desaparecer? Bem, em algum momento um dos dois terá que ceder. Se tu não acha que teu namorado vai fazer isso e tu não tem a menor vontade de fazê-lo, então por que cargas d'água está namorando essa criatura? "Ai, eu amo, mas ele não me entende...". Eu já falei alguma coisa sobre outros tipos de relacionamento? Namoro não é a única possibilidade da vida! É como se a gente pegasse todas os desejos e os condensasse dentro de uma única forma (bastante restrita) de ser e agir.

Se há uma parte de ti que está sendo negligenciada ou anulada, sinto muito, mas esse não é um relacionamento positivo, mas sim violento e opressor. Isso vale para a mulher que baixa a cabeça e lava os pratos, para o homem que não vai na Parada Gay e para qualquer pessoa que desiste de um pedaço de si em nome de outra pessoa. Quer insistir e fazer isso mesmo assim? Quer realmente namorar, não consegue nem cogitar outra possibilidade? Namora, mas aceita o preço.

Um último lembrete

Ah, e por fim não vamos esquecer uma coisinha... tudo o que vai, volta. Se tu tem coisas de si que não fala para o digníssimo porque sabe que ele não vai gostar, coisas que gostaria de fazer, pensar e sentir, parece-me minimamente óbvio que o digníssimo também terá essas reservas em relação a ti. Se um namoro é baseado em confiança, como podemos namorar com alguém que precisa esconder coisas de nós? Ou, invertendo a questão ética, como podemos namorar alguém sabendo que precisamos esconder partes significativas de nós?

Vale também lembrar, para realmente encerrar, que se não somos honestos com nós mesmos e nossos desejos, anseios etc., não deveríamos nos comprometer à honestidade para com outras pessoas. Namorar não é para tudo mundo.

sábado, maio 04, 2013

Apaixonar-se não é garantia de felicidade

Tenho um amigo que, em uma noite de outono, conheceu um rapaz numa boate e se apaixonou por ele. Era tudo que ele queria: um cara gentil, amável, bonito e com uma vida profissional promissora. Como o moço morava em outra cidade, combinaram se ver quando conseguiam e a vontade foi crescendo. Para resolver os problemas, meu amigo mudou-se para a cidade do moço que lhe roubara o coração e passou a morar com o dito rapaz.

Parece filme na sessão da tarde: carinha conhece alguém, apaixona-se, sofre, conquista e vive feliz pra sempre. Essa fórmula, repetida à exaustão, pode ter nos levado a acreditar que ela funcionará assim na vida real. Desculpem-me quebrar essa expectativa, mas isso não é verdade. A gente cresce acreditando no amor romântico e em suas promessas reforçadas pelos filmes de amor docinho, mas a realidade tem a mania de nos passar a perna.

Um dia, meu amigo acordou e tinha ao seu lado alguém diferente daquela pessoa pela qual se apaixonara. Na verdade, era a mesma pessoa, mas não era a mesma pessoa. Algo ali havia mudado. Meu amigo foi rápido em detectar o problema: seu namorado não o procurava mais para o sexo, andava cansado, reclamava disso e daquilo etc. O problema obviamente é o tal namorado que mudou, não é mesmo? Não, não é.

Paixão animais

O que significa apaixonar-se?

Quando nos apaixonamos por alguém ou alguma coisa, é como se todo o resto perdesse a importância. A mera presença do alvo de nossa paixão já nos completa. Apaixonar-se é encantar-se, é estar sob efeito de um feitiço que nos faz querer estar perto, conviver e compartilhar. Estar apaixonado não é amar, querer bem, ter vontade de cuidar. Estar apaixonado é um sentimento egoísta de querer para si, de ser atraído independentemente do bom senso.

A paixão é viciante: quanto mais do que nos enfeitiça nós ganhamos, mais nós queremos. Se não recebemos, corremos atrás. Por outro lado, quanto mais temos, mais precisamos, ao ponto que um dia o efeito perde-se de nós. Um dia acordamos para descobrir que aquela mágica que nos prendia a outra pessoa deixou de estar ali.

O que acontece quando a paixão acaba?

A resposta a essa pergunta depende do que foi construído enquanto ela existia. Isso varia de pessoa para pessoa, relação para relação. Alguns se jogam no encanto e largam suas vidas para se alimentar ao máximo e exclusivamente da paixão. Outros são cautelosos, até mesmo resistentes. Há um jeito certo de lidar com essa magia de apaixonar-se? Não. Algumas vezes descobrimos, depois que o feitiço passou, que realmente gostamos daquela pessoa. Algumas vezes nós a amamos. Outras vezes, porém, descobrimos que sem o efeito mágico aquela pessoa não se encaixa em nossas vidas.

A paixão é, como todas as coisas, passageira. O que fica após o seu término é mais ou menos a mesma coisa que havia antes dela surgir, somada e subtraída pelas mudanças vividas no processo. Nenhum relacionamento, seja ele com uma pessoa ou uma ideia, passa por nós sem deixar marcas, sem alterar o nosso caminho mesmo na mais ínfima proporção. Em meio a esse turbilhão confuso que envolve ser alguém e viver, cabe a nós conhecermos quem somos e o que queremos para as nossas vidas.

A felicidade depende do quê, então?

De nós mesmos, única e exclusivamente. Sei que é difícil acreditar, afinal, foi outra pessoa que lançou um feitiço sobre nós! Contudo, a verdade é que nossos amores começam e terminam dentro daquilo que nós somos. O contato com o outro pode aumentar, diminuir ou modificar o que sentimos, mas apenas em função de nossa percepção sobre este contato. O que sentimos e desejamos conversa com o mundo, não depende dele.

O budismo apresenta quatro nobre verdades: (1) o sofrimento é parte da vida, da doença e da velhice; (2) a origem do sofrimento é o nosso desejo e anseio pelas coisas; (3) para livrarmos do sofrimento, devemos nos desapegar destes desejos e anseios; (4) o caminho para esse desapego passa por comportamentos 'corretos', ou seja, justos, cheios de compaixão etc. Meu interesse está na segunda e terceira verdades: o nosso apego ao desejo de que as coisas sejam diferentes do que são. No caso do fim da paixão, desejamos que as coisas continuem do jeito que eram antes, que nossos sentimentos voltem a ser o que eram. Com muita frequência, nós culpamos a outra pessoa pelo esvaziamento das nossas sensações.

De quem é a culpa, afinal? 

Penso que encontrar culpados não seja a resposta. O que precisamos entender é que apaixonar-se não é garantia de felicidade, mas também não é algo a ser evitado. A paixão é como uma chama atraindo a nossa atenção: sua luz nos mostrará coisas que não veríamos sem ela. Cabe-nos continuar nossas vidas sem nos jogarmos ao fogo, aproveitando a sua luz e o seu calor. Se o fogo se apagar, talvez seja o momento de acender outras chamas ou de procurar outras luzes para nos atrair. Ou, quem sabe ainda, o verdadeiro trabalho envolva não deixar o fogo se extinguir.

A paixão – e o fogo – não são garantias de nada. Eles são parte da vida, meramente. O que faremos com eles depende do que queremos fazer com as nossas vidas. Para alguns, a resposta é alimentar o fogo e a paixão com tudo o que estiver ao alcance, inclusive com o próprio corpo e a própria vida. Para outros, um fogo, uma luz e um calor não são suficientes. Para outros ainda, o fogo é algo cujo calor deve-se aproveitar enquanto queima, não mais, não menos.

Para a vida – e para as paixões – não há respostas. Elas dependem de quem nós somos naquele preciso instante em que os eventos da vida acontecem. Só há uma constante para a vida: a mudança é a regra. Se não aceitarmos isso, estaremos condenados a viver de passados e chamas apagadas, o que é garantia de infelicidade.

segunda-feira, abril 01, 2013

Como sair do armário

De acordo com a Wikipedia, sair do armário significa fazer "o anúncio público da orientação sexual ou identidade de gênero de alguém, ou de si próprio". É sobre isso mesmo que estou escrevendo hoje: sobre essa mania irritante que o mundo tem de querer que anunciemos nossa identidade, como se gostar de homens me tornasse um tipo diferente de pessoa.

gays saem do armário
"Eu preciso confessar... Gordo, eu sou gay"
Só quando rolou a minha primeira experiência sexual com um cara é que passei a perceber minha vida como algo possível. Até então, eu sabia que não conseguia me relacionar direito com seres humanos da forma heteronormativa (para entender melhor, veja o que escrevi aqui e dê uma olhada na Wikipedia) que todos esperavam. O que eu não entendia é que poderia me relacionar de tantas outras formas! Quando voltei à minha rotina (eu estava na metade da faculdade), passei a me ocupar de duas coisas: (1) viver e experimentar a vida; e (2) conversar com as pessoas.

Viver e experimentar a vida

Nem sempre a gente tem ciência do que pode fazer. Muitas vezes, aliás, não saber que algo é possível acaba nos limitando. Nem todos temos coragem de sair e desbravar o mundo sem saber o que nos espera. Eu, por exemplo, sempre fui medrosinho. Até tentava aqui e ali alguma interação afetiva/sexual com outros moços, mas era tão sem jeito (e estava procurando tão no lugar errado) que nunca rolava nada.

Depois que entendi que não precisava ser igual a todo mundo, passei a procurar oportunidades de exercer meus desejos. De vivê-los. Aos poucos, foi ficando claro que sair de casa, ir em festas e conhecer pessoas através da internet eram boas maneiras de alcançar esse mundo do qual eu queria participar. Ficar sentado em casa desejando é algo que mais nos machuca do que ajuda.

Conversar com as pessoas

Esse é o ponto que normalmente as pessoas consideram "sair do armário". Cada pessoa tem uma capacidade diferente de lidar com a vida e com as suas pressões. Eu, por exemplo, precisava verbalizar (falar e escrever) para tornar real o fato de gostar de rapazes. Aos poucos isso deixou de ser uma necessidade, mas meus primeiros passos na vida sexual realmente precisavam desse apoio. Se isso acontece, "sair do armário" é um bom caminho.

Eu conversei primeiro com o meu melhor amigo na época. Ele me indicou um outro amigo, que também gosta de moços, e a partir daí eu tive com quem conversar abertamente e trocar ideias e experiências. Saber que não se está sozinho é uma das coisas mais maravilhosas que existem. Até então, eu estava. Como eu não entendia o que estava acontecendo com meus desejos, eu não sabia como procurar ajuda. Para mim não fazia sentido gostar de homens, isso era algo que simplesmente não existia. Através dessas conversas com meus amigos (e fui contando cada vez para mais amigos, de modo a tornar minha realidade mais real), a coisa foi tomando forma.

A família

Foi então que comecei a namorar. Até então, nem pensava em contar nada para a família. Simplesmente não parecia algo que eles precisassem saber. Contudo, veio o dia em que eu queria receber meu namorado em casa, queria que ele fizesse parte do meu espaço, mas meu irmão estava lá. Contei pra ele (foi difícil, mas aliviante. Ele não conseguiu lidar muito bem com a ideia inicialmente, então explorou bem o item "conversar com pessoas" e contou para basicamente todos seus [alguns meus] amigos) e consegui o queria: meu namorado e eu passamos a ter um senso de família, já que aos poucos ele e meu irmão começaram a se conhecer.

Depois de alguns meses namorando, chegou o momento de contar para a minha mãe. Algo curioso sobre isso tudo é que eu nunca tive medo das pessoas deixarem de gostar de mim ou me recriminarem. O medo que eu tinha era de saber que um homem gostar de homens era socialmente reprovável. Esse foi, aliás, o medo também expresso pela minha mãe: que eu sofresse na sociedade em que vivemos.

E quando não dá?

Nem todo mundo tem a sorte que eu tenho de nascer numa família compreensiva e carinhosa. A gente geralmente sabe se pode confiar/contar ou não. Assumir uma identidade é tomar uma posição política, é dizer "eu falo deste ponto de vista", "eu sou isso". Em muitos contextos, isso pode significar (e muitas vezes significa) dor, arrependimento, expulsão de casa, violência etc.


Não é fácil acreditar que não se tem a quem recorrer. Por isso, assumir uma identidade é algo que não deve ser feito se tiver um grande potencial de colocar a vida em risco. Certa vez vi em uma palestra que devemos escolher lutas pequenas suficientes para ganharmos, mas grandes o bastante para terem importância. Esse é um desses casos: se dependemos da nossa família e acreditamos que ela não nos dará suporte, que talvez até mesmo nos tire suporte, então o silêncio pode ser uma escolha política. Temporária, mas útil.

O mais importante, em qualquer caso, é encontrar pessoas nas quais possamos confiar. Grupos de apoio a LGBTs. Comunidades. Professores. Colegas. Amigos. Nem sempre será fácil reconhecer essas pessoas e algumas podemos até nos enganar, mas aos poucos vamos aprendendo a caminhar pela vida e a reforçar nossas posições. A melhor ajuda que podemos encontrar é aquela que não nos deixa sozinhos.

sábado, março 30, 2013

Amor de pai

Ontem escrevi sobre como minha mãe lidou quando descobriu que sofri (bastante) bullying na escola.

Nunca falei de sexo com o meu pai. Desde pequeno, eu era o filho mais próximo da mãe, enquanto meu irmão era o mais próximo do pai. Era meu irmão que saía para acompanhar os jogos de futebol dele. Eu era o filho que pedia papel pra ficar rabiscando e me enfiava num mundinho todo particular (e distante). Apesar de nunca termos falado de sexo, ou talvez por isso, algumas dúvidas surgiram. Eu era o filho que nunca falava de namoradas, que não indicava interesse pelo outro sexo, que estava sempre estudando e estudando. Teria isso diminuído o amor de pai?

raposas fofas

Certa vez, na praia, meu irmão estava passando uns dias na casa de nosso pai. Areia, mar, sol, churrasco, essas coisas todas que tornam a experiência da praia algo animado e farofeiro. Em meio a tudo isso, meu irmão tinha que lidar com uma série de perguntas curiosas: "O Tales já namorou?", "Tu já viu o Tales com mulher?". O interesse por trás das questões era simples: será que ele é? (já falei sobre isso, também, aqui). Chegou ao ponto em que meu irmão se irritou, puxou meu pai para caminhar com ele e disse "Tá, chega, cansei, o Tales é gay e tem um namorado". Era verdade, eu estava namorando na época. Depois de tantas perguntas, acho que o silêncio não foi a resposta que meu irmão estava esperando. "E aí, não vai falar nada?", questionou. "Ué, minha irmã era lésbica, o que tu quer que eu diga?".

Desde esse dia, meu pai e eu ainda não falamos sobre nada a respeito de sexo. Se isso diminui o amor que sentimos um pelo outro? Não, com certeza não.

sexta-feira, março 29, 2013

Amor de mãe

raposas amando

Recebi da minha mãe por e-mail:
Estava agora há pouco lendo uma das tuas postagens no blog e fiquei como de outras vezes tanto orgulhosa quanto triste e com uma sensação frustante de ter falhado com quem eu mais amo nessa vida. Orgulhosa como fico sempre que leio os teus textos, fato. Triste e/ou  frustada por mais uma vez constatar que não estive presente quando mais precisaste de um apoio. Pois nesse caso eu que sempre me achei “sempre tão disponível” para qualquer coisa que pudesse precisar, justamente eu não consegui te passar essa disponibilidade. Então fico pensando, será que passo essa ideia tão forte de que não seria capaz de entender o que fosse que estivesse dentro do teu coração? Se não sabias ao certo, não poderíamos ter chegado a uma conclusão juntos? Serei eu tão, “fora de questão ser cogitada para uma conversa desse porte"? Eu não poderia entender? Com mãe não se fala isso? Então, se fala o quê? Abobrinhas? Quanto mais leio as coisas que escreves, tuas aventuras e desventuras, vejo o quanto estive, estou e por consequência sempre estarei fora da tua vida real. Isso me deixa com uma sensação enorme de vazio, uma tristeza que nem sei explicar. De qualquer forma eu precisava manifestar ao menos meu sentimento. Me sentir essa porta fechada não é agradável.
Ela se refere à postagem em que conto sobre a época que sofria bullying na escola. Não foi um período fácil para mim e eu não entendia nada daquilo, tampouco sabia que era algo que podia procurar ajuda. Nessas horas, a ignorância não é uma bênção. Não saber não é uma bênção, é uma maldição. Ainda por e-mail, respondi assim:
Mãe, as portas já estiveram fechadas, mas isso foi quando elas estavam trancadas também para mim. Se o texto sobre o qual tu está falando é o que penso, ele retrata um momento em que nem mesmo eu conseguia pensar sobre essas coisas, quanto mais levá-las adiante e tratar delas. Eu não conversava com ninguém sobre nada daquilo. Eu mal pensava naquilo, apenas guardava pra mim mesmo. Desde a nossa conversa em 2006 sobre meu (primeiro) namoro, sinto como se essa barreira tivesse sido levantada. Para mim foi muito complicado, inicialmente, mas nunca por acreditar que tu não pudesse saber, compreender ou participar, mas sim porque eu ainda estava contaminado com todo o medo e o ressentimento que o mundo me ensinou a ter sobre sexualidade. Hoje eu me sinto aberto para conversar contigo sobre o que for, sobre quem for, sobre o que me emociona e o que me distancia. Penso que, nas oportunidades que temos para estar juntos, falamos de coisas que sabemos que são só para os ouvidos um do outro e isso me deixa feliz por saber que tenho uma relação contigo que é a que sempre quis ter com qualquer pessoa que amo: de verdadeira amizade e confiança. Te amo, mãe!
Levando minha vida, eu não tinha ideia dessa preocupação no coração da minha mãe, algo que muita gente enfrenta e tanta gente mais nem sabe o que é, pois não tem uma mãe capaz de se doer por não estar ainda mais na vida do filho. Eu tenho e, por mais que fique triste em saber que, de alguma forma, a deixei magoada, fico feliz em saber que ela está ali e que pode me escrever essas palavras, pois sabe que eu a amo e vou não só levá-las em consideração, mas também refletir a respeito e mudar minha vida baseado no que ela sente.

Nossa conversa foi encerrada por uma resposta dela:
O texto que resultou nesse desabafo foi depois de ler, creio o último, mas não foi só por ele, talvez por todos eles, pois me mostram algo que eu deveria ter percebido, quem sabe procurado. Ao mesmo tempo que “Eu” penso que quando a gente tem alguém que confia plenamente, é para essa pessoa que a gente corre e se aninha para se acalmar, se recuperar e se reenergizar para poder enfrentar as dificuldades da vida, também penso agora olhando um pouco para mim, que muitas vezes nossas aflições ficam tão grandes que a gente sequer ousa falar até para nós mesmos, que dirá para outros.
amor de raposas

Tenho com minha mãe uma relação que é linda. Eu confio nela e sei que posso ir até ela para falar sobre absolutamente qualquer coisa. Sinto falta da sua presença no meu cotidiano, pois moramos em cidades distantes, mas a certeza desse amor é algo que me facilita viver. Eu sou uma raposa de sorte.

quinta-feira, março 07, 2013

Eu não estou sozinho

O médico disse que não era dengue. Levou um litro de soro fisiológico, 50ml de dipirona e três horas de espera no hospital para finalmente me dizer isso e concluir que eu tenho, então, uma virose. Virose, como bem sabemos, é o genérico de "não entendi o que aconteceu contigo". Acabei não indo hoje à faculdade, já que precisava recuperar os neurônios e descansar um pouco.

Achei superfofo perceber, no meio disso, que existem pessoas dispostas a sair de seus caminhos para me dar uma mão. Aquela coisa bonita mesmo de parar, perguntar se estou bem, cuidar de mim, simplesmente por querer bem. Não foi nada inesperado, estou acostumado a saber que tenho bons amigos. Ainda assim, fiquei feliz com as inúmeras demonstrações de afeto.

Em meio a tudo isso, um namorado que me põe deitado na cama e sai pra lavar a louça – que ele nem sujou –, depois de mais de hora parado no hospital esperando o resultado do meu exame. Isso para nem mencionar as reclamações de minuto a minuto sobre o quanto dói ter uma afta na língua. Se já tivessem um novo papa, juro que pedia a canonização do guri!

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Como saber se a aula foi boa?

Essa é uma perguntinha importante que sempre me faço quando saio da sala de aula com aquela sensação de dever cumprido. Penso que existe uma considerável diferença entre a perspectiva do professor e a dos alunos quanto ao que significa uma boa aula.

Talvez um critério bacana seja "o quão afetado eu fui por aquela experiência?". É algo que se descobre em dois momentos: na hora, quando a aula encerra, e também anos depois, quando olhamos para trás e percebemos que formamos experiências/saberes relativos àquela disciplina específica. Esse, aliás, é um exercício que quero fazer: ter em mãos meu histórico escolar da faculdade e procurar lembrar de tudo o que aprendi em cada disciplina, o que ficou de cada uma.

Trago como hipótese que esse exercício revelará uma triste realidade: nem todas as disciplinas serão marcantes para todas as pessoas. Algumas vezes será o caso dos professores não encaixarem com os estudantes. Em outros casos, talvez nós estudantes estivéssemos numa posição diferente naquele período e então algo que hoje nos agradaria, na época não fez sentido.

O que isso significa para alguém como eu, que acredita que o trabalho de professor inclui a tarefa de "mudar vidas"? No mínimo, talvez, que eu deva repensar meus objetivos ou a forma de atingi-los... Ontem estava refletindo justamente sobre isso. Creio que mudar vidas não é nem pode ser o objetivo último do meu trabalho, ele já tem especificações suficientes. A parte do mudar vidas é algo que acontece paralelamente, não pelo trabalho em si, mas pela convivência e pelo afeto.

É aquela velha história: não dá para salvar o mundo. Entretanto, é possível, sim, causar uma mudancinha aqui, outra ali. Eu só preciso parar com a ilusão de que isso atingirá a todas as pessoas e me focar naquelas que se permitem afetar.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Coerência é para os fracos... mesmo?

Um amigo falou, certa vez, que coerência é para os fracos. Um cara realmente autônomo não precisaria ser coerente, pois faria o que bem entendesse. Eu, ingênuo, concordei com ele. Como admirava esse amigo, as palavras dele sempre eram envolvidas com um ar de sabedoria. Levei só uns cinco ou seis anos para repensar essa frase.


Isso vem de uma época em que eu era passivo de tudo na vida. Ouvia e não filtrava, apenas seguia. Admirava. Olhava com olhos bem abertos. Ao primeiro sinal de problema, fugia. Não segurava uma posição própria, não ocupava um lugar que estivesse disposto a defender.

Hoje penso que coerência não é para os fracos por uma razão simples: no dia a dia, somos pais, filhos, irmãos, professores, namorados, amigos, inimigos, ativistas etc. Cada uma dessas posições traz questões, dúvidas e constrangimentos que, muitas vezes, se opõem. Ser coerente em meio a tudo isso significa tentar manter um centro, um eixo para nortear as escolhas e decisões em cada uma das múltiplas identidades que assumimos ao longo de nossas vidas. Ser coerente é fazer sentido dentro daquilo que acreditamos, não do que os outros esperam de nós. E isso não é para os fracos.

As vantagens de ser invisível - ou de ter uma boa amiga




Acabei de assistir As Vantagens de Ser Invisível. Uma das coisas mais preciosas que ele me trouxe: "a gente aceita o amor que acredita que merece". Eu consegui me identificar demais com o guri, demais mesmo.

Aí terminei o filme e me peguei pensando... Como ela consegue? Acho que não teve nada até hoje que ela não tenha acertado comigo, desde a ideia louca de me apresentar o filho da amiga de infância até o simples fato de fazer um curso de especialização e casualmente compartilhar noites felizes comigo.

Sério, muitíssimo obrigado por existir.

sábado, fevereiro 09, 2013

O que eu queria ter aprendido na escola

Antes de entrar na faculdade e "virar adulto" (seja lá o que isso significa), eu passei onze anos na escola. Hoje as criaturas ficam doze. Treze, se contar pré-escola. Fiquei esse tempo inteiro estudando uma série de coisas, algumas das quais eu lembro, outras que eu sei, mas estão esquecidas, e mais algumas que eu provavelmente não conseguiria desencavar da memória nem que minha vida dependesse disso. Daí esses dias me peguei pensando que a escola não nos ensina a viver...

As regras pra brincar de sociedade são emuladas na escola, é verdade (uns são fortes e te batem, outros não são tanto e apanham ou convencem outros fortes a lhes protegerem e assim por diante). Ainda assim, Química, Física, Biologia, Matemática com equações de segundo grau, nada disso nos informa como sobreviver no mundinho que, me parece, é bem mais complexo do que é pintado no colégio. Por causa disso tudo, comecei a pensar nas coisas que eu gostaria de ter aprendido na escola e cheguei a algumas conclusões.

Direito
Só eu acho um absurdo que a gente não saiba nem o básico sobre os nossos direitos e deveres enquanto cidadãos? Que a gente precise de advogados para entender as coisas? Se a legislação é um negócio que regula a nossa existência basicamente o tempo todo, por que diabos a gente não aprende isso na escola bem detalhadinho? Código de defesa do consumidor, leis sobre a educação, a constituição, os termos básicos do Direito e seus significados...

Economia
Cartão de crédito tem juros. Bancos lucram com o dinheiro que eles guardam. Juros compostos (ah, aqui a Matemática seria bem útil). Financiamentos, investimentos, taxas, impostos. Imposto de renda! Empreendedorismo! Nós somos largados no mundo sem nenhuma noção de como o dinheiro funciona (e pode crescer ou diminuir num piscar de olhos), exceto aquela dada pela família.

Alfabetização midiática
Cinema, publicidade, literatura, museus, teatros, jornalismo... Tudo isso tem regras, ou teve um dia. Essas regras e linguagens nos ajudam a compreender e a analisar o papel de cada coisa em nossas vidas. Se eu sei como a publicidade funciona, talvez eu pare para pensar mais antes de agir, antes de comprar, antes de me explodir em dívidas.

Causas sociais (ou ética, ou alguma palavra pomposa tipo "Humanidade")
A gente vive num mundo coletivo. Compartilhado. A diferença e a diversidade são as bases dessa existência plural na qual estamos inseridos. Não custa nada ensinar a entender isso, a decifrar os comportamentos e os pensamentos que nos levam a preconceitos e a visões de mundo limitadas e cruéis.

Afetividade e sexualidade
Relacionamentos, amizades, desejos, pau duro, boceta molhada, camisinha, orgasmo, toque, estesia... São tantas as coisas que poderiam servir para melhorar a vida sexual e afetiva dos sujeitos.

Tudo isso, evidentemente, deveria ser pensado em conjunto, não apenas de forma isolada. Não consigo mais imaginar um currículo que faça sentido sendo trabalhado em caixinhas separadas e sem contato. Se tudo que a gente vive vem junto e ao mesmo tempo, por que não conseguimos pensar num modelo de educação que também seja assim?

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Objetivos são importantes

Por que você faz o que faz? Entre as coisas que eu faço está ser professor, e escolhi isso para mudar vidas. É, simples assim, mas também complexo que dói. Hoje de manhã, lendo o Cem Homens, fui lembrado do quanto é importante pensar sobre o que sentimos e vivemos. Reavaliar nossos objetivos, os caminhos que temos tomado para chegar até eles.

Até a formatura do mestrado, eu sempre tive objetivos mais ou menos claros. Em alguns momentos, turbulência. Depois da graduação? Desespero. Aos poucos tudo se ajeitava de novo e eu retomava o rumo. Depois do mestrado, porém, desisti dos meus planos acadêmicos imediatos e me lancei à aventura de dar aulas. O objetivo? Já disse, mudar vidas. Tá, mas mudar vidas... como? E ainda mais importante: a minha vida não precisa mais mudar?

Minha vida está ótima do jeito que está. Entretanto, eu sei que posso mais e quero mais. Hoje assisti à fala de um professor que tem uma longa carreira de vida profissional na área da comunicação. Eu fiquei inspirado. É isso que quero pra mim: eu quero inspirar. E eu quero fazer isso através das palavras: lecionando e, principalmente, escrevendo.

Objetivo para 2013: escrever mais, ler mais, afetar e ser afetado mais.
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