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quinta-feira, agosto 22, 2013

Teoria queer (parte 3)

Esta é a terceira e última parte da série sobre a teoria queer. Isso não quer dizer que não escreverei nunca mais sobre ela, apenas que estou concluindo aqui esse projeto de introdução às ideias estranhas que ela propõe.

Deborah Britzman (1995) sugere, para uma pedagogia que se possa dizer queer, o que chama de três técnicas: o estudo dos limites, da ignorância e das práticas de leitura. Para a autora, é muito importante considerar o que temos permissão para pensar e que perguntas não deveríamos fazer dentro da sociedade com a qual negociamos. Desse ponto de vista, é necessário questionar os limites impostos ao saber e duvidar dos conhecimentos já estabelecidos, em particular os que se sustentam em oposições binárias. O que define, e a partir de quais critérios, que tópicos são relevantes de serem pensados em determinados contextos? Pensar os limites significa também levar em consideração de que forma a normalidade é produzida e que efeitos ela tem, principalmente (mas não apenas) nos sujeitos que se situam fora dela. A teoria queer “constitui normalidade como uma ordem conceitual que se recusa a imaginar a própria possibilidade do Outro precisamente porque a produção da alteridade como externa é central para seu próprio autorreconhecimento” (BRITZMAN, 1998, p. 82). Aos nos preocuparmos com os limites, também surge o questionamento sobre quando acreditamos que sabemos o suficiente sobre uma outra pessoa a ponto de nos crermos capazes de falar sobre (por) elas ou de determinar o que devem saber ou não.

A ignorância, num entendimento queer, não se trata do oposto ao conhecimento ou da falta deste. Ela é, na verdade, um efeito do modo como se conhece, uma relação com as informações que opera de tal maneira a colocar o sujeito em posição de não interagir com determinados conhecimentos. Portanto, antes de se perguntar por que um indivíduo não compreende algo que cremos que ele deva aprender, é essencial buscar de que saberes ele dispõe e quais considera pertinentes para a sua vivência.

O modo como o sujeito interage com o mundo, os textos que lê, as imagens de que se apropria: sem a compreensão dessas questões o ensino fica comprometido. É necessário entender qual a posição desse sujeito estudante, de que forma ele entra em contato com um conhecimento diferente daquele que já carrega como parte de si e como se dá a sua relação com o desconhecido. De que maneiras o que ele não conhece reorganiza, desmonta ou bloqueia seus pensamentos? Como se estabelecem conexões com o que ele já conhece, de que forma um texto muda ao ser lido por ele em um momento ou em outro? Qual é o esforço, impacto ou estresse produzido ou exigido para lidar com o que ainda não se sabe, ou para deixar de conhecer algo de uma determinada maneira? Conforme comenta Gablik (1994), existe um forte investimento emocional nas posições já ocupadas pelos sujeitos, uma vez que elas constroem a realidade com a qual eles estão acostumados.

Requisitar que uma pessoa desmonte suas compreensões anteriores, revisite conceitos e reorganize toda sua existência não é um convite simplório. É preciso entender que, como recorda Britzman (1995), não é uma mera questão de recusa ou resistência ao conhecimento, mas o conhecimento que se tem é uma forma de resistência. Também se faz necessário perguntar, como faz Luhmann (1998), de que maneira o leitor se insere no texto, em oposição ao que o autor quis dizer ou como a leitura deveria ser compreendida, e de que modo determinadas identificações se fazem possíveis ou impensáveis.

Além de se perguntar como um professor pode endereçar tópicos sobre (homo)sexualidades em sua atuação, também cabe refletir sobre o porquê. Creio que a minha resposta decorre do que Villela e Ratto (2009) chamam de projeto de existência: acredito que a função do educador não é oferecer conteúdos padronizados, mas sim construir junto com os estudantes condições para vivências significativas e protegidas contra opressões. Isso significa que a sala de aula se transforma em um espaço tático, um local em que o educador pode assumir uma postura combativa frente a verdades estabelecidas e noções carregadas sem questionamento.

Entretanto, mesmo o desejo de mudança abraçado pelos estudantes pode enfrentar adversários inesperados, algumas vezes encrustados nas próprias iniciativas que se tentam libertadoras. Conforme aponta Kevin Kumashiro (2002), o desejo de seus estudantes lutarem contra a opressão se limitava a não perceber de que maneira eles próprios eram privilegiados e, nesse sentido, cúmplices. Percebi essa mesma resistência se configurar quando os alunos em meus cursos questionavam se eles não tinham o direito de se sentirem ultrajados pela presença de um corpo estranho ocupando o mesmo espaço que o seu. O desconforto com o diferente figurou como uma desagradável surpresa entre as percepções que tive ao longo deste estudo. O desejo de ajudar o outro e de tomar ciência de suas aflições enfrenta a barreira do conforto do observador. Parece importante, nesse contexto, que a separação eu-outro permaneça real e visível, de modo a não produzir rupturas na noção de si (próprio) ou no entendimento do anormal.

Lutar contra comportamentos e situações que se mostrem opressivos a sujeitos por conta de características e ações pessoais que não dizem respeito a outros indivíduos é o que tem me motivado a insistir na minha construção como pesquisador e educador. Auxiliado pela cultura visual e pela teoria queer, o ato de percorrer esse caminho não tem sido reto como se poderia esperar, tampouco claro e sem desvios.

terça-feira, agosto 20, 2013

Teoria queer (parte 2)

Essa é a segunda parte da série de três textos sobre a teoria queer. O primeiro pode ser encontrado aqui e o terceiro será lançado amanhã. Não é minha intenção esgotar (seria pretensioso demais!) a teoria queer, mas sim apresentar alguns pontos introdutórios para quem se interessar.

Um sujeito nasce já inserido numa trama de expectativas e normatizações que estabelecerão um campo de confronto entre ser normal ou desviante em uma infinidade de critérios, e creio que é menos importante saber a origem de seus desejos do que pensar a respeito dos efeitos que eles têm sobre essa trama e, principalmente, dos esforços engendrados para conter esse alegado desvio; não podemos esquecer que a própria existência do desvio permite perceber que os fios dessa trama não só são instáveis, como também são impostos e insuficientes.

Como um professor que trata sobre (homo)sexualidades, tenho enfrentado o desafio constante de projetar propostas de ensino e ambientes de aprendizagem que sejam ao mesmo tempo eficazes no objetivo de compartilhar saberes e amplos o bastante para que não se reduzam a um ponto de vista particular e reducionista. Não posso ignorar, contudo, que essa é uma escolha que já exclui temas e interpretações que poderiam ser abordados em cursos cujos fins fossem outros e que minha afiliação à cultura visual e teoria queer me coloca em uma posição diferente do que a assumida por sujeitos que não compartilham desses embasamentos. É particularmente difícil não considerar outras posturas equivocadas ou incorretas, mas se trata de um desafio que acredito ser fundamental para o tipo de educação que antevejo, ou seja, uma forma de aprendizagem que não se aceite opressiva e que se permita duvidar de si própria ou ouvir a vozes que anunciem posições diferentes.

Uma das abordagens mais comuns que tenho observado no tratamento da homossexualidade em contextos escolares é a tentativa de incluir esses sujeitos e suas práticas no círculo da normalidade. A busca por inclusão reitera uma noção que deve ser analisada mais detidamente: a da aceitação do diferente. Essa postura relaciona-se com a ideia de uma generosidade por parte dos normais, que estão se predispondo a permitir que os anormais tenham espaço legitimado, assim como com a crença de que o grupo excluído necessita de maior autoestima, podendo buscar aumentá-la através de representações positivas de sua existência (BRITZMAN, 1995). Britzman questiona, ainda, a validade de uma política de tolerância, marcada pela apresentação e representação das minorias, que em teoria seria legitimada pela ideia de que as pessoas se identificariam com os modelos propostos. Não somente, essa perspectiva alimenta a noção de que os sujeitos normalizados reconheceriam as diferenças e as aceitariam: “mas como, exatamente, deve acontecer a identificação com um outro se somos requeridos apenas a tolerar e, portanto, confirmar nós mesmos como generosos?” (BRITZMAN, 1995, p. 159). A postura de enxergar o outro como um inferior que precisa de ajuda pode, portanto, encaminhar as tentativas de inclusão para um mero emparelhamento com as representações de heterossexuais.


Se a homossexualidade é compreendida como um desvio em relação à norma da heterossexualidade, então a representação positiva dessa identidade estaria na repressão de características que pudessem se configurar como destoantes da expectativa de um comportamento considerado adequado. Isso inclui relações não monogâmicas, práticas sexuais como submissão e sadomasoquismo, seguindo o axioma da hierarquização discutido por Rubin (1993b) e apresentando um limite bastante claro à noção de tolerância: ela pode existir, contanto que seja apenas até certo ponto. Só ganham acesso à inclusão aqueles que se assemelham com a norma heterossexual monogâmica, o que justifica as lutas que atualmente ocorrem em torno da legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas também explica o silêncio que existe em torno de sujeitos transexuais e a conivência pública com violências físicas e morais contra indivíduos cujas ações dificultam que sejam imediatamente posicionados em algum critério inteligível e comparável à norma. “Seja gay, mas não pareça uma mulherzinha” e “Não tenho problema com homossexuais, contanto que não deem em cima de mim” são declarações que exemplificam essa postura de inclusão limitada.

Ao indicar tais contradições que resultam da ideia de inclusão, não estou posicionando-me contra iniciativas que tenham esse objetivo. Representações positivas de sujeitos marginalizados são bem-vindas, pois os inserem em espaços que usualmente não ocupam ou não são vistos ocupando. Porém, creio com Silva (2000) que “antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida” (p. 100). Entender como são produzidas as diferenças que dão contorno para as identidades e em que medida elas são estabelecidas ou alteradas discursivamente é uma preocupação que deve ser levada em conta. Contudo, não se pode esquecer o papel dos indivíduos que negociam com essas instituições e também com os demais sujeitos articulando suas próprias experiências com os enquadramentos sugeridos, requisitados ou impostos. Essas relações envolvem o modo como se percebem e identificam, mas também como são identificados e o que, no trânsito entre esses muitos entendimentos, resulta na forma de ação.

Na terceira parte desta série tratarei de alguns técnicas sugeridas por Deborah Britzman para uma abordagem queer.

sexta-feira, maio 17, 2013

Você sabe o que significa ser normal?

"Você não está sendo oprimido quando outro grupo conquista os direitos que você sempre teve". Essa é uma das frases que circulam na internet na tentativa de conscientizar as pessoas que absurdos como preconceito contra heterossexuais e marchas do orgulho branco são somente isso: absurdos. Afinal, como sabemos, o padrão da normalidade é criado em nossa sociedade por uma série de características arbitrárias: a cor da sua pele, a sua anatomia sexual, quanto dinheiro há em sua conta bancária, o tipo de relacionamentos estáveis mantidos, a sua crença monogâmica em alguma divindade, o seu acesso cultural a uma forma específica de arte e entretenimento etc.

curva normal
Encontrei aqui: http://www.anormais.com.br/

Estatisticamente, agrupamentos de pessoas têm a tendência de parecer como essa curva aí. A linha do meio é o ponto médio, com maior quantidade de pessoas. São as características medianas, típicas, mais prováveis de serem encontradas entre qualquer sujeito que puxemos do grande grupo. Quanto mais para esquerda no gráfico, menos temos daquela característica. Quanto mais para direita, mais temos. Para fins de ilustração, vamos pensar no quociente de inteligência: a grande maioria está ao redor do meio, que concentra 68,2% da população. É muita gente.

A área em azul escuro está a menos de um desvio padrão (σ) da média. Em uma distribuição normal, isto representa cerca de 68% do conjunto, enquanto dois desvios padrões desde a média (azul médio e escuro) representam cerca de 95%, e três desvios padrões (azul claro, médio e escuro) cobrem cerca de 99.7%. Este fato é conhecido como regra 68-95-99.7, ou a regra empírica, ou a regra dos 3-sigmas. (copiado diretamente da Wikipedia)

Em termos práticos, ser normal significa se encaixar nessa faixa azul mais escura. Quanto mais distantes dessa medida média, menos gente tendemos a encontrar, tanto para menos (esquerda) quanto para mais (direita).

Então é bom ser normal, certo?

Depende. Na verdade, não é nem bom nem ruim. É normal. Só isso. Contudo, acontece em nossa sociedade ocidental um tipo de pensamento binário que funciona assim: a gente é ou uma coisa, ou outra. É homem ou é mulher. É alto ou baixo. É rico ou pobre. É feliz ou triste. É hetero ou homossexual. É ativo ou passivo. É magro ou gordo. A essa altura, creio que já está bastante evidente essa polaridade, mas não podemos esquecer de mais uma: bom ou ruim. Todos os primeiros elementos destes binários são considerados positivos, enquanto seus opostos são considerados negativos. Por essa lógica, ser homem é melhor, em nossa sociedade, do que ser mulher. Todos nós sabemos o quanto isso é um absurdo, não? Bem, deveríamos saber.

Então, ainda que ser normal não seja em si nem bom nem ruim, nós o colocamos no binário normal x anormal. Obviamente, o 'anormal' está pareado com 'ruim', portanto fazemos cara feia e desgostamos.

E se o normal fosse ser o que é?

Nas aulas que leciono, meus alunos são proibidos de usarem as palavras 'normal' e 'normalidade', uma vez que entendemos que qualquer normalidade decorre de um ponto de vista específico (que por tabela está ignorando as experiências e vivências de todo um grupo de pessoas que não está enquadrado no 'normal'). Junto com isso, busco aprofundar com eles o entendimento de que os conceitos não são meramente opostos, eles são complementares, dependentes de uma posição determinada para serem compreendidos. Uma perspectiva.

Desafiar o paradigma binário da normalidade não é fácil. Na verdade, é até pouco inteligente, de um ponto de vista egoísta, caso nós desfrutemos dos privilégios de sermos normais. Como uma raposa que vez ou outra experimenta ser humano, porém, faço um convite: que tal tentarmos ser menos normais e mais humanos?

segunda-feira, maio 06, 2013

Precisamos ter certeza de quem somos

Caro leitor, o título deste texto é uma mentira, mas também não é. Como ser é algo muito complicado, ter certeza é ainda mais difícil. Há quem possa entender que estou defendendo que tenhamos uma identidade fixa, sólida, bastante clara. Não é por aí.


Quem somos: em busca de uma identidade

O significado de identidade não é algo fácil de se definir. Na verdade, é até perigoso. A gente costuma definir identidade como a repetição ou permanência de algo que nos permite reconhecer esse algo. Digamos, eu bebo demais, eu sou um alcoólatra. Eu nasci no Brasil, sou brasileiro. Fiz um curso de jornalismo ao longo de quatro anos e seis meses, sou um jornalista. Escrevo textos, sou escritor. Tenho pênis, sou homem. Transo com homens, sou gay.

Com exagerada frequência, porém, nós atalhamos a compreensão das coisas através desses nomes ou conceitos. Eles resumem características nossas e nós acreditamos que podemos pensar as outras coisas da mesma forma. Assim, criamos um modelo padrão do que deve ser um homem (ou escritor, jornalista etc) e isso acaba nos cegando para percebermos variações possíveis. Ao mesmo tempo, quando aplicamos essas etiquetas de identidade ("sou jornalista", "sou escritor"...) a nós mesmos (ou aos outros), estabelecemos exigências de comportamento em torno destas etiquetas. Criamos expectativas.

Como somos: escapando das identidades

A noção de identidade não explica a maneira como nós somos e agimos. Na verdade, toda explicação acerca da realidade estará sempre um passo afastada da realidade e, portanto, jamais será capaz de explicá-la. Será, no máximo, um recorte de um determinado espaço e momento desta realidade. Quando eu digo que sou gay, isso automaticamente gera uma impressão de que essa etiqueta me define como sujeito através de toda minha vida: nasci ou me tornei gay, ajo de tal e tal jeito porque penso como um gay e assim por diante. A realidade não funciona dessa forma.

A realidade funciona como funciona, simples assim. Ela é. Ela está. Quando tentamos explicar, não podemos esquecer que aquilo que explicamos é somente isso, somente uma explicação, não um acesso direto à realidade. Se eu como uma maçã deliciosa e depois conto a alguém sobre o delicioso sabor da maçã que comi, esse outro alguém jamais saberá o que eu experimentei: ele não tem as minhas papilas gustativas, ele não estava no lugar em que eu estava quando mordi a maçã, ele não tem as minhas lembranças de maçãs anteriores etc. Tudo o que essa pessoa tem é o meu relato, palavras que ele pode associar com as próprias lembranças do que são maçãs. Ele pode até mesmo não gostar de maçãs. A minha experiência é inacessível para outras pessoas.
- Sempre me perguntei por que você decidiu ser um cachorro.
- Fui enganado pela descrição do emprego.

Então somos um apanhado de incertezas?

Bem, eu não seria tão dramático, mas essa é a verdade. Nós somos o que somos quando somos e ponto final. Através da linguagem construímos uma noção de continuidade para quem nós somos e isso é muito útil, do contrário estaríamos perdidos. Embora extremamente eficiente para muitas coisas, ela é bastante falha em reproduzir, explicar e, principalmente, condensar a realidade.

Justamente para não ficarmos perdidos é que precisamos ter certezas. Certezas de quem somos, do que queremos, do que fazemos. O risco não é acreditar em algo piamente, mas sim em acreditar nesse algo para sempre. Parece-me que um bom jeito de viver nossas vidas é ter algumas certezas e uma pilha de dúvidas. À medida em que nossas dúvidas vão se desfazendo (tornando-se respostas ou novas dúvidas), nós podemos trocar as nossas certezas por outras.

Para concluir, um exemplo: neste momento eu tenho certeza que desejo escrever e publicar. É a partir dessa noção que estou gerenciando a minha vida. Se eu tentasse abraçar tudo de importante na vida ao mesmo tempo, ficaria imensamente perdido, afogado entre sensações e demandas de lados diferentes. Família, amigos, outros amigos, ainda outros amigos, cursos, trabalhos, tudo parece importante, tudo requer a minha atenção o tempo inteiro. Eu sou apenas uma raposa, não consigo lidar com tudo junto ao mesmo tempo. É preciso definir prioridades, estabelecer quais desejos vêm primeiro, quem eu sou neste momento para enfrentar tais e tais questões. Amanhã eu posso ser outro, posso querer algo diferente, posso até mesmo desfazer aquilo que fiz anteriormente. Ser não significa ser para sempre.

segunda-feira, abril 01, 2013

Como sair do armário

De acordo com a Wikipedia, sair do armário significa fazer "o anúncio público da orientação sexual ou identidade de gênero de alguém, ou de si próprio". É sobre isso mesmo que estou escrevendo hoje: sobre essa mania irritante que o mundo tem de querer que anunciemos nossa identidade, como se gostar de homens me tornasse um tipo diferente de pessoa.

gays saem do armário
"Eu preciso confessar... Gordo, eu sou gay"
Só quando rolou a minha primeira experiência sexual com um cara é que passei a perceber minha vida como algo possível. Até então, eu sabia que não conseguia me relacionar direito com seres humanos da forma heteronormativa (para entender melhor, veja o que escrevi aqui e dê uma olhada na Wikipedia) que todos esperavam. O que eu não entendia é que poderia me relacionar de tantas outras formas! Quando voltei à minha rotina (eu estava na metade da faculdade), passei a me ocupar de duas coisas: (1) viver e experimentar a vida; e (2) conversar com as pessoas.

Viver e experimentar a vida

Nem sempre a gente tem ciência do que pode fazer. Muitas vezes, aliás, não saber que algo é possível acaba nos limitando. Nem todos temos coragem de sair e desbravar o mundo sem saber o que nos espera. Eu, por exemplo, sempre fui medrosinho. Até tentava aqui e ali alguma interação afetiva/sexual com outros moços, mas era tão sem jeito (e estava procurando tão no lugar errado) que nunca rolava nada.

Depois que entendi que não precisava ser igual a todo mundo, passei a procurar oportunidades de exercer meus desejos. De vivê-los. Aos poucos, foi ficando claro que sair de casa, ir em festas e conhecer pessoas através da internet eram boas maneiras de alcançar esse mundo do qual eu queria participar. Ficar sentado em casa desejando é algo que mais nos machuca do que ajuda.

Conversar com as pessoas

Esse é o ponto que normalmente as pessoas consideram "sair do armário". Cada pessoa tem uma capacidade diferente de lidar com a vida e com as suas pressões. Eu, por exemplo, precisava verbalizar (falar e escrever) para tornar real o fato de gostar de rapazes. Aos poucos isso deixou de ser uma necessidade, mas meus primeiros passos na vida sexual realmente precisavam desse apoio. Se isso acontece, "sair do armário" é um bom caminho.

Eu conversei primeiro com o meu melhor amigo na época. Ele me indicou um outro amigo, que também gosta de moços, e a partir daí eu tive com quem conversar abertamente e trocar ideias e experiências. Saber que não se está sozinho é uma das coisas mais maravilhosas que existem. Até então, eu estava. Como eu não entendia o que estava acontecendo com meus desejos, eu não sabia como procurar ajuda. Para mim não fazia sentido gostar de homens, isso era algo que simplesmente não existia. Através dessas conversas com meus amigos (e fui contando cada vez para mais amigos, de modo a tornar minha realidade mais real), a coisa foi tomando forma.

A família

Foi então que comecei a namorar. Até então, nem pensava em contar nada para a família. Simplesmente não parecia algo que eles precisassem saber. Contudo, veio o dia em que eu queria receber meu namorado em casa, queria que ele fizesse parte do meu espaço, mas meu irmão estava lá. Contei pra ele (foi difícil, mas aliviante. Ele não conseguiu lidar muito bem com a ideia inicialmente, então explorou bem o item "conversar com pessoas" e contou para basicamente todos seus [alguns meus] amigos) e consegui o queria: meu namorado e eu passamos a ter um senso de família, já que aos poucos ele e meu irmão começaram a se conhecer.

Depois de alguns meses namorando, chegou o momento de contar para a minha mãe. Algo curioso sobre isso tudo é que eu nunca tive medo das pessoas deixarem de gostar de mim ou me recriminarem. O medo que eu tinha era de saber que um homem gostar de homens era socialmente reprovável. Esse foi, aliás, o medo também expresso pela minha mãe: que eu sofresse na sociedade em que vivemos.

E quando não dá?

Nem todo mundo tem a sorte que eu tenho de nascer numa família compreensiva e carinhosa. A gente geralmente sabe se pode confiar/contar ou não. Assumir uma identidade é tomar uma posição política, é dizer "eu falo deste ponto de vista", "eu sou isso". Em muitos contextos, isso pode significar (e muitas vezes significa) dor, arrependimento, expulsão de casa, violência etc.


Não é fácil acreditar que não se tem a quem recorrer. Por isso, assumir uma identidade é algo que não deve ser feito se tiver um grande potencial de colocar a vida em risco. Certa vez vi em uma palestra que devemos escolher lutas pequenas suficientes para ganharmos, mas grandes o bastante para terem importância. Esse é um desses casos: se dependemos da nossa família e acreditamos que ela não nos dará suporte, que talvez até mesmo nos tire suporte, então o silêncio pode ser uma escolha política. Temporária, mas útil.

O mais importante, em qualquer caso, é encontrar pessoas nas quais possamos confiar. Grupos de apoio a LGBTs. Comunidades. Professores. Colegas. Amigos. Nem sempre será fácil reconhecer essas pessoas e algumas podemos até nos enganar, mas aos poucos vamos aprendendo a caminhar pela vida e a reforçar nossas posições. A melhor ajuda que podemos encontrar é aquela que não nos deixa sozinhos.

sexta-feira, março 15, 2013

Como agem os alunos

Esta semana foi esquisita porque passei todo doente e, de quebra, voltei a ser aluno. Estou participando de um curso de francês com dois encontros semanais. Eu realmente quero aprender francês e tenho dificuldade com a disciplina necessária para ser autodidata, portanto fazer um curso é o que considero a melhor opção.

Ao final do encontro desta quarta-feira, uma colega comentou qualquer coisa como "nossa, teremos poucos feriados nas segundas e quartas, que saco!". Aí surgiu aquela dúvida de sempre: por que alguém está pagando por um curso que gostaria que não acontecesse? Mais feriados equivalem a menos francês.


Essa é a mesma coisa que eu não entendo sobre meus estudantes. Na maior parte do tempo, eles se comportam como se não quisessem estar na sala de aula, como se eles estivessem me prestando um favor em me ouvir e seguir as orientações. Consigo entender esse comportamento até o fim do Ensino Médio porque até lá os estudantes são obrigados a serem estudantes. Faculdade, porém, não. Curso de idiomas? Não. É tudo uma questão de como vamos ocupar o nosso tempo e quais são as nossas prioridades.

Sei bem que ter dezoito anos e saber o que são prioridades – ou melhor, saber administrar as prioridades e deixar de lado algumas coisas bem legais por alguns momentos que nem sempre são tão legais – é complicado. Assim como sei que esse é o tipo de coisa que a gente só percebe numa tarde chuvosa de domingo olhando para a rua e pensando em como as coisas poderiam ter sido melhor aproveitadas.

Talvez aí esteja uma explicação (parcial) sobre por que algumas pessoas alcançam mais coisas que outras.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

É mais cômodo ser quem eu já sou

Esse texto é melhor lido acompanhado da música a seguir.


Alguns acontecimentos separados me levaram à conclusão do título e ao desejo de não me conformar. O primeiro deles foi o exame de nível para o curso de francês no Centro de Línguas da UFG. Fui lá, me inscrevi para o nível dois e passei. Aliás, "passei", já que não fui exatamente bem na prova escrita e se minha avaliadora não fosse extremamente simpática e de bem com a vida, minha prova oral teria sido zerada. Enfim, passei e logo voltarei a estudar o francês.

"Não consigo te imaginar nessa situação", disse uma amiga. Faz sentido, eu quase nunca me permito viver momentos de risco. Se há possibilidade de falhar ou ir mal, eu não faço. De alguma forma, isso se amplia com relação a aprender coisas novas. "Não sou autodidata", eu digo, acho que mais pelo medo de não chegar ao nível de excelência que espero do que pela pressa de aprender rápido ou pelo esforço de me empenhar. Eu só fui fazer a prova de francês porque na minha memória as palavras e frases fluíam mais facilmente do que a realidade demonstrou.

Essa mesma amiga esteve por um tempo ensinando-me a cozinhar. Coisas simples, ação do fogo, água borbulhando, temperos se misturando. Coisas complexas, também. Para mim, o exercício de cozinhar está fundamentalmente conectado ao fazer compras, ter ingredientes e inventar combinações. Gosto de fazer as coisas ao contrário: primeiro compro algo, depois decido o que fazer com o que comprei. Isso dá origem às minhas "semanas da batata" ou ao "mês do pimentão" (ainda bem que existem pimentões de várias cores!). Como desculpa para não cozinhar, xingo a falta de qualidade do mercado mais próximo, acordo tarde demais  para a feira no sábado e reclamo que os mercados decentes ficam longe demais. Tudo bobagens e desculpas tolas, já que a maior parte disso é mais do que trabalhável com um pouco menos de preguiça.

Para completar, namoro a possibilidade de aprender a desenhar há anos. Fiz uma especialização em Expressão Gráfica, oras! Um curso no qual resisti por um semestre inteiro a sequer tentar desenhar, sempre procurando formas de esquivar da prática com o lápis. Terminado o curso, percebo que meu traço evoluiu absurdamente. Isso faz três ou quatro anos e quase nunca pratiquei desde então.

"Não exista. Viva!" - http://www.flickr.com/photos/julyrainbow/7113473857/

Tudo isso me leva a refletir sobre quão mais fácil é existir do que viver, simplesmente estar ali e de vez em quando fazer o que se tem vontade, isso se não for muita canseira. Fico aqui esperando que outras pessoas entrem na minha vida e me coloquem em movimento, que me ensinem, que me proporcionem aprendizagens.  O que eu quero para mim vai ficando em segundo plano. Terceiro. Quarto.

Por mais que me doa reafirmar, ainda estou longe de ser a pessoa que gostaria: alguém que vive. O pior de tudo é saber que essa mudança "tão simples" que almejo para mim não depende de mais ninguém. Eu devo me tornar a pessoa que imagino, viver a vida que desejo e parar de inventar desculpas pelo caminho.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Eu não sou gay

Esses dias disse que eu era gay e um amigo já apontou o dedo "arrá, desistiu de te indefinir!". Não. Esses dias também falei, em outro espaço, que era bi. Debatendo com alunas, mencionei a possibilidade de, num contexto específico, haver sido heterossexual. Para todos, encerro com a mesma resposta: sou raposa.

"Eu não sou gay, hetero, bi ou lésbica. Eu amo, simplesmente".

Ser é sempre algo muito complicado. Não é tanto uma questão de não ter coragem de assumir, de não estar confortável com ser A ou B. O problema, aos meus olhos, é ser obrigado a conformar (ou mesmo lidar, já que não preciso levar em conta a opinião alheia na maior parte das questões da minha vida) com uma série de expectativas que já vêm prontas no kit "isso é ser gay", "isso é ser bi". Ontem ouvi alguém falar que ser gay tem algo a ver com ser afeminado (como se "ser feminino" ou "ser masculino" fossem definições muito claras...).

O que eu defendo é a possibilidade de sermos sem caixinhas, sem o imediato entendimento e julgamento daquilo que estamos vivendo. Eu repudio o famoso "nossa, tu é isso, então como tu não gosta de tal coisa"? Gostaria muito de não me importar com o olhar e o dedo alheios, mas isso infelizmente ainda não é uma realidade, tampouco acredito que virá a ser tão cedo para mim ou para o resto do mundo. O jeito, ainda me parece, é educar.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O olhar heterossexual 2

Depois de ontem, fiquei pensando e lembrando da minha infância. Eu tinha um vizinho que era uns dois ou três anos mais velho que eu, no máximo. Toda vez que eu chegava ou saía de casa, ele gritava com aquela voz rouca: "ô putão", "viado", "bixa". Obviamente, eu odiava ele – o que, pelo jeito, era recíproco. Bastava ele me ver para começar a me xingar. Eu, como de costume, baixava a crista e seguia meu rumo, incomodado, mas não o suficiente para ter alguma reação mais explosiva ou violenta. Aliás, incomodado, mas com bom senso o bastante para preservar meus dentes.

Mais de uma vez eu cheguei à conclusão perfeita sobre como solucionar aquele problema. Bastava me oferecer para chupar o rapaz. Ele ficaria feliz, eu ficaria livre da coisa toda. Ao contrário do que os meus pensamentos da época podem sugerir, eu era uma criaturinha bastante ingênua. E virgem. Continuei sendo, aliás, por mais vários anos. Não que isso tenha alguma importância em si, mas é só para deixar claro que com 10, 12, 14 anos eu já sentia que sexo era algo tinha um baita poder.

Conto essa história porque ela tem uma série de coisas a revelar sobre como eu via o mundo quando criança. Antes de tudo, eu não compreendia que aqueles xingamentos tivessem algo a ver com eu gostar de meninos e não de meninas. Diga-se de passagem, naquela época isso ainda não estava muito claro para mim. OK, eu gostava de meninos, sentia atração e prestava mais atenção em homens do que mulheres nos poucos filmes e quadrinhos pornôs que eu tinha oportunidade de ver. Ainda assim, nada daquilo significava que eu fosse alguma coisa. Certamente não "putão, viado ou bixa".

O meu vizinho não me xingava por algo que eu era. Pelo contrário. Meu vizinho me xingava por algo que eu não era. Eu não agia todo machinho, não jogava futebol como todos da quadra, provavelmente era um guri delicadinho, loirinho e meiguinho. Qual o problema? Ora, todos sabem que os seres humanos que nascem com pênis devem ser grossos, fortes, brigões. Eu não era nada daquilo, portanto era parte do dever sagrado dele, como portador do olhar heterossexual, apontar para mim e garantir que o mundo soubesse disso. Eu era diferente. Eu não era normal.

Fonte: http://www.citelighter.com/science/psychology/knowledgecards/homophobia

Dali pra frente eu cresci e cruzei cada vez menos com esse vizinho. Chegou um tempo em que ele parou de me provocar, não sei bem o motivo. Aliás, não sei se alguma vez qualquer coisa que ele tenha feito em relação a mim foi com motivo (não, eu jamaaaais estaria duvidando da capacidade intelectual dele). É só que o poder da heterossexualidade/normalidade é tão comum e invisível que as coisas simplesmente são como são, as pessoas riem de quem passa, apontam o dedo e gritam. Eu, por fugir da norma, precisava imediatamente ser colocado de volta no meu lugar. No meu lugar correto, de machinho. A vida está cheia de exemplos piores de como isso é feito.


Esse texto é uma continuação do post anterior, O olhar heterossexual.

O olhar heterossexual

Perto da minha casa tem uma feira que acontece todos os domingos. Eu, fã de hábitos rotineiros, janto lá todo santo domingo. De preferência, como tapioca. Duas, uma de calabresa e uma de sabor variável, ora carne seca, ora pizza. Dessa vez, porém, fiz algo diferente: fui de mãos dadas com o meu namorado. Tudo foi mais ou menos semelhante ao que sempre é: fomos bem atendidos, pedimos, sentamos em uma mesa, aguardamos e comemos. Tanto na ida quanto na volta, porém, fomos olhados.

Medusa, por Caravaggio.

Não foi qualquer olhar o que me chamou a atenção. Foi de um grupo de homens que, presumo, são heterossexuais. Também acho que são uns idiotas, mas escrever isso talvez diminua a minha reflexão. O incômodo não surgiu apenas por termos sido olhados, meu namorado e eu, mas pelas risadas e apontadas de cabeça que ocorreram como reação à nossa passagem. Para o trio de caras encorpados, nós éramos motivo de piada.

Qual a graça? Não sei, na verdade. Entendo aqui o riso como um exercício de poder. Ele riram porque podiam rir, da mesma forma que eu e meu namorado olhamos para o chão e apertamos o passo. Se eles decidissem, poderiam facilmente nos esmagar. Não, sério, eram grandes mesmo. De onde vem esse poder? Não é só da força física, mas também do poder cultural investido neles pela normalidade. Eles são normais, são heterossexuais em uma sociedade que reconhece viadinhos como algo à parte.

Quando eles riram, todos que viram isso entenderam do quê estavam rindo. Um casal de rapazes passando de mãos dadas é algo risível. Se eu risse deles, por outro lado, ninguém entenderia. Não é inteligível rir de um grupo de caras heterossexuais/machos comendo seu sanduíche, enquanto é perfeitamente aceitável rir do casalzinho gay que vem passando. Por quê, eu pergunto?


Esse texto possui uma continuação: O olhar heterossexual 2.

domingo, fevereiro 10, 2013

Um rumo para a Raposa

Para um blog decente, 153 acessos em um dia não é nada. Aliás, é péssimo. Para mim, que estou acostumado com um acesso diário de 2 a 7 pessoas, foi um tesão. Há cinco dias, alcancei o máximo de acessos em um dia que tive até então, na postagem sobre professor também namorar. Esse número é ínfimo.

Escrevo hoje para dizer algo que talvez não precisasse ser dito. Como parte dos objetivos para 2013, escrever é provavelmente o maior. Quero fazer isso através da Raposa Antropomórfica e, como resultado desejado, quero leitores. Mais leitores. Volta e meia recebo um comentário, o que me deixa absurdamente feliz.

Muita gente (mais do que qualificada pra isso) me disse que, se eu quero alcançar esse objetivo, preciso focar em um novo blog, um que não seja tão carregado e pessoal quanto a Raposa Antropomórfica. Escolher um tema, um objeto, um objetivo. Teimosamente, eu não quero. Eu já enxergo tudo isso aqui na Raposa: não são os assuntos sobre os quais eu falo, mas sim o ponto de vista. Como qualquer pessoa, eu sou tantas coisas ao mesmo tempo, sou gay, professor, loiro, amigo, namorado, aluno, pesquisador, escritor, jornalista, mestre. Aqui e ali, sou também uma raposa. Aliás, acho que mais que tudo, eu sou uma raposa e nada desse resto todo.

Ser é algo que não faz sentido na minha vida. Estudo e sigo a teoria queer da melhor forma que posso. Penso sobre sexualidade e educação, quase sempre juntas. Dou aulas e quero mudar vidas, essa é a parte mais difícil (e arrogante). Como vi um amigo dizer uma vez, quero comer o mundo de colher grande.



Em meio a tudo isso, continuarei escrevendo aqui na Raposa a partir desse ponto do qual eu falo: o de de alguém que acredita que pode ser feliz, que pode e quer ajudar pessoas a olharem melhor para seus próprios cursos de vida. Talvez até como um burguesinho que pode se dedicar a pensar essas coisas. No fim das contas, eu sou uma pessoa de sorte, se não por nada, por poder ser uma raposa.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Aluno é tudo igual?

Dizem que aluno é tudo igual. E professor, quando volta a ser aluno, age do jeitinho que detesta. É, aquela coisa de não se manifestar muito, de sentar no fundo e de fazer cara de sono. Ou de ficar no celular o tempo inteiro e nem olhar pra frente. Eu sei porque fiz tudo isso semana passada.

Daí estava eu chateado, ontem, com duas turmas na faculdade. Uma, a minha, porque de 20-30 alunos, só seis compareceram. Sete, mas uma ficou do lado de fora durante o tempo inteiro. Na outra turma, dos 10-15 que a compõem, só dois (e depois cinco) estavam na sala. Certo, eu sei que "é assim", pois é semana antes do carnaval, então ninguém vem, todo mundo está viajando etc. Tá, mas peraí... É assim? Como eu tento ensinar aos meus alunos de Metodologia Científica: não basta pensar "é isso", temos que refletir sobre "por que é isso". A gente acostuma a abraçar algumas ideias e a não questioná-las, a simplesmente seguir o fluxo. O grande problema disso, bem sabemos, é que nada muda.

Então me pego pensando: estou louco para fazer um teste de nivelamento para estudar Francês. Estou realmente empolgado, quero ir lá e ouvir de novo aquelas palavras em língua enrolada e sofrer para enrolar a língua junto. Qual a diferença? Acho que é o tesão. Eu realmente quero estudar, acho que um novo idioma será algo de valor na minha vida. (Mesmo assim, não sei se não serei um típico aluno quando as aulas começarem. Os próximos meses dirão.)

Pensando sobre meus tempos de estudante, especialmente os de graduação, lembro que muitas vezes eu não dava a mínima para o que era ensinado, mesmo em disciplinas que hoje se revelaram muito importantes (e faz o quê, quatro anos que eu saí da faculdade?). Isso me preocupa. Será que há algo que eu, professor, possa fazer para estimular o tesão nos alunos? Ou será que tudo que eu posso fazer é, semana após semana, me esforçar para de vez em quando ver um brilho de olho aqui, outro acolá, sem nunca realmente estabelecer uma troca no nível de excitação que eu imagino ser o mais produtivo?

Não sei. Eu quero engajar, não entreter. Como lidar?

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Professor também namora

Quando numa autoestrada, se um veado enxerga uma luz forte vindo na sua direção, o que ele faz? Ele paralisa. Foi o que aconteceu comigo no sábado: fiquei completamente sem saber o que fazer quando duas partes até então completamente separadas da minha vida se misturaram.


Eu sou professor universitário em um curso de Publicidade e Propaganda. Por alguma obra (feliz) do acaso, eu tenho um namorado.Tipicamente, essas são duas parcelas da minha identidade mantidas em separado. Então alguém sabe me explicar por que eu fiquei feito um veado (sem piadinhas, OK?) na autoestrada quando estava com meu namorado e encontrei duas alunas num shopping?

Eu sei exatamente o que aconteceu, mas não gosto de admitir.
De algum lugar do meu passado, as instruções "professor não tem vida sexual" e "professor bom é professor hétero" vieram com força naquele momento. Que fique claro: eu defenderei até o fim dos tempos o direito de qualquer um ter a vida afetiva que lhe convier e estou muito longe de achar que professor é aquele sujeito que não tem vida própria. Acho que educação se faz entre pessoas e pessoas têm vida, pessoas fazem sexo, pessoas se sujam, pessoas se apaixonam.

Ainda assim, todo dia na escola eu ouvia alguém me xingar por eu não ser machinho.
Ainda assim, nenhum dia na escola ou na faculdade eu soube dos meus professores mais do que "eu sou casada".

Por mais que eu odeie isso, preciso diariamente lutar contra todos os preconceitos e estereótipos que me foram ensinados por anos e anos. Um deles, que me afeta profundamente, é que professor homem não transa com homens, professor não vai à boate, professor se dá ao respeito. Esse texto é um lembrete para mim mesmo: Tales, para de te agarrar ao que o resto do mundo tentou te ensinar até hoje e te volta para o que tu quer que o mundo aprenda.
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