Li a notícia "Travesti com barba é escolhido para representar a Áustria em festival" e pensei "nossa, que legal". Nem todo mundo pensou a mesma coisa, parece que teve gente chocada. Um amigo ficou indignado perguntando por que ele (!) não pode querer ser mulher (!!) e ponto (!!!).
Por que a cantora Conchita Wurst virou notícia? Simples: porque nós somos muito pouco criativos e temos a mania de dividir nossos conceitos em dois polos. Usamos um pensamento binário. Nem é tanto culpa nossa, somos ensinados assim desde criancinhas. Ou algo é bom ou é mau, ou é alto ou é baixo, ou é homem ou é mulher, e assim por diante.
O problema disso é que dois não é suficiente. Mesmo biologicamente os critérios que definem o que é homem e o que é mulher são pouco claros, quando analisados detidamente. Se existem inúmeras variações para as possibilidades que a vida humana alcança, por que deveríamos nos contentar com um tipo de pensamento tão excludente? Tudo bem, talvez a maioria da população possa ser encaixada nessas duas caixinhas, "homem" ou "mulher". Mas sério que a gente ainda não superou esse pensamento tosco "ah, é a maioria, então o resto a gente caça e elimina"? Isso é tão Idade Média!
Além de separar o mundo em masculino e feminino, nosso pensamento binário tem outra consequência: ele dita como devemos ser. Se somos homens, seremos fortes, barbudos e pegadores. Se somos mulheres, seremos dóceis, frágeis e receptoras do supremo pênis. Essas características não vêm com a gente junto ao órgão genital, elas são ensinadas e reforçadas pela cultura diariamente. Na escola meninos jogam futebol e meninas caminham ao redor da quadra, por exemplo. Isso para não mencionar como os pais, amigos e conhecidos esperam coisas diferentes de homens e de mulheres. Ser um homem, nesse sistema cultural, significa pisar nos outros. Ser mulher geralmente envolve ser pisada.
Daí aparece alguém que desafia essa matriz de conhecimento binário. Por exemplo, um corpo macho que se mostra feminino, mas mantém a barba. Ou seja, fica, de certa forma, "no meio". As pessoas gritam "decida-se", mas o que há para decidir? Quando foi que, ao nascermos, assinamos um contrato dizendo que só poderíamos ser uma coisa ou outra? Que para ser uma coisa temos que levar junto o pacote inteiro e não apenas aquilo que nos interessa? Se o desejo, como já sabemos, é fluido (não é por nada que por enquanto minha amiga é árvore) e não responde a essas nossas limitações, por que a nossa identidade de gênero deveria?
Quando nós apontamos o dedo para a "travesti de barba", nós não estamos mostrando o quanto ela está certa ou errada, mas sim dizendo ao mundo se nós conseguimos ou não conviver com alguém que pode ser diferente de nós. Daí eu pergunto: que sensibilidade é essa que se fere tão fácilmente ao ver uma mulher ou travesti de barba? O que há de tão importante em manter o mundo rapidamente legível? Por que nós não conseguimos lidar com a diferença e com a miríade de potencialidades do ser humano?
Não tenho respostas para essas perguntas, mas aposto que têm a ver com o nosso egoísmo. Nós queremos navegar em um mundo fácil, um mundo pronto, um mundo que não perturbe a maneira como já percebemos as coisas. É mais fácil termos uma noção única e pronta do que reavaliarmos nossas posições quando encontramos algo "diferente". É certamente mais fácil rejeitarmos aquilo que não entendemos do que termos que assumir o compromisso de abraçar a diferença e cultivar o carinho para com o outro. Receber o outro com um sorriso implica em colocarmos menos o nosso umbigo em evidência, algo que tenho certeza que é muito difícil.
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quinta-feira, outubro 10, 2013
sexta-feira, agosto 30, 2013
Os russos me confundem
Então na Rússia é proibida propaganda homossexual para menores de idade. Não, eu não vou passar o texto inteiro reclamando sobre como essa lei é retrógrada e viola os direitos humanos e é mais um exemplo de como a humanidade anda precisando de uns corretivos. Não, também não vou citar a onda de violência contra sujeitos homossexuais que vem aumentando desde que o ódio foi institucionalizado e legalizado. Acho que já somos grandinhos o suficiente para sabermos que censurar o direito do outro de existir não é bom para ninguém, muito menos para as crianças.
A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.
Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.
É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.
Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.
Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).
Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.
A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.
Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.
É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.
Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.
Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).
Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.
quinta-feira, agosto 22, 2013
Teoria queer (parte 3)
Esta é a terceira e última parte da série sobre a teoria queer. Isso não quer dizer que não escreverei nunca mais sobre ela, apenas que estou concluindo aqui esse projeto de introdução às ideias estranhas que ela propõe.
Deborah Britzman (1995) sugere, para uma pedagogia que se possa dizer queer, o que chama de três técnicas: o estudo dos limites, da ignorância e das práticas de leitura. Para a autora, é muito importante considerar o que temos permissão para pensar e que perguntas não deveríamos fazer dentro da sociedade com a qual negociamos. Desse ponto de vista, é necessário questionar os limites impostos ao saber e duvidar dos conhecimentos já estabelecidos, em particular os que se sustentam em oposições binárias. O que define, e a partir de quais critérios, que tópicos são relevantes de serem pensados em determinados contextos? Pensar os limites significa também levar em consideração de que forma a normalidade é produzida e que efeitos ela tem, principalmente (mas não apenas) nos sujeitos que se situam fora dela. A teoria queer “constitui normalidade como uma ordem conceitual que se recusa a imaginar a própria possibilidade do Outro precisamente porque a produção da alteridade como externa é central para seu próprio autorreconhecimento” (BRITZMAN, 1998, p. 82). Aos nos preocuparmos com os limites, também surge o questionamento sobre quando acreditamos que sabemos o suficiente sobre uma outra pessoa a ponto de nos crermos capazes de falar sobre (por) elas ou de determinar o que devem saber ou não.
A ignorância, num entendimento queer, não se trata do oposto ao conhecimento ou da falta deste. Ela é, na verdade, um efeito do modo como se conhece, uma relação com as informações que opera de tal maneira a colocar o sujeito em posição de não interagir com determinados conhecimentos. Portanto, antes de se perguntar por que um indivíduo não compreende algo que cremos que ele deva aprender, é essencial buscar de que saberes ele dispõe e quais considera pertinentes para a sua vivência.
O modo como o sujeito interage com o mundo, os textos que lê, as imagens de que se apropria: sem a compreensão dessas questões o ensino fica comprometido. É necessário entender qual a posição desse sujeito estudante, de que forma ele entra em contato com um conhecimento diferente daquele que já carrega como parte de si e como se dá a sua relação com o desconhecido. De que maneiras o que ele não conhece reorganiza, desmonta ou bloqueia seus pensamentos? Como se estabelecem conexões com o que ele já conhece, de que forma um texto muda ao ser lido por ele em um momento ou em outro? Qual é o esforço, impacto ou estresse produzido ou exigido para lidar com o que ainda não se sabe, ou para deixar de conhecer algo de uma determinada maneira? Conforme comenta Gablik (1994), existe um forte investimento emocional nas posições já ocupadas pelos sujeitos, uma vez que elas constroem a realidade com a qual eles estão acostumados.
Requisitar que uma pessoa desmonte suas compreensões anteriores, revisite conceitos e reorganize toda sua existência não é um convite simplório. É preciso entender que, como recorda Britzman (1995), não é uma mera questão de recusa ou resistência ao conhecimento, mas o conhecimento que se tem é uma forma de resistência. Também se faz necessário perguntar, como faz Luhmann (1998), de que maneira o leitor se insere no texto, em oposição ao que o autor quis dizer ou como a leitura deveria ser compreendida, e de que modo determinadas identificações se fazem possíveis ou impensáveis.
Além de se perguntar como um professor pode endereçar tópicos sobre (homo)sexualidades em sua atuação, também cabe refletir sobre o porquê. Creio que a minha resposta decorre do que Villela e Ratto (2009) chamam de projeto de existência: acredito que a função do educador não é oferecer conteúdos padronizados, mas sim construir junto com os estudantes condições para vivências significativas e protegidas contra opressões. Isso significa que a sala de aula se transforma em um espaço tático, um local em que o educador pode assumir uma postura combativa frente a verdades estabelecidas e noções carregadas sem questionamento.
Entretanto, mesmo o desejo de mudança abraçado pelos estudantes pode enfrentar adversários inesperados, algumas vezes encrustados nas próprias iniciativas que se tentam libertadoras. Conforme aponta Kevin Kumashiro (2002), o desejo de seus estudantes lutarem contra a opressão se limitava a não perceber de que maneira eles próprios eram privilegiados e, nesse sentido, cúmplices. Percebi essa mesma resistência se configurar quando os alunos em meus cursos questionavam se eles não tinham o direito de se sentirem ultrajados pela presença de um corpo estranho ocupando o mesmo espaço que o seu. O desconforto com o diferente figurou como uma desagradável surpresa entre as percepções que tive ao longo deste estudo. O desejo de ajudar o outro e de tomar ciência de suas aflições enfrenta a barreira do conforto do observador. Parece importante, nesse contexto, que a separação eu-outro permaneça real e visível, de modo a não produzir rupturas na noção de si (próprio) ou no entendimento do anormal.
Lutar contra comportamentos e situações que se mostrem opressivos a sujeitos por conta de características e ações pessoais que não dizem respeito a outros indivíduos é o que tem me motivado a insistir na minha construção como pesquisador e educador. Auxiliado pela cultura visual e pela teoria queer, o ato de percorrer esse caminho não tem sido reto como se poderia esperar, tampouco claro e sem desvios.
Deborah Britzman (1995) sugere, para uma pedagogia que se possa dizer queer, o que chama de três técnicas: o estudo dos limites, da ignorância e das práticas de leitura. Para a autora, é muito importante considerar o que temos permissão para pensar e que perguntas não deveríamos fazer dentro da sociedade com a qual negociamos. Desse ponto de vista, é necessário questionar os limites impostos ao saber e duvidar dos conhecimentos já estabelecidos, em particular os que se sustentam em oposições binárias. O que define, e a partir de quais critérios, que tópicos são relevantes de serem pensados em determinados contextos? Pensar os limites significa também levar em consideração de que forma a normalidade é produzida e que efeitos ela tem, principalmente (mas não apenas) nos sujeitos que se situam fora dela. A teoria queer “constitui normalidade como uma ordem conceitual que se recusa a imaginar a própria possibilidade do Outro precisamente porque a produção da alteridade como externa é central para seu próprio autorreconhecimento” (BRITZMAN, 1998, p. 82). Aos nos preocuparmos com os limites, também surge o questionamento sobre quando acreditamos que sabemos o suficiente sobre uma outra pessoa a ponto de nos crermos capazes de falar sobre (por) elas ou de determinar o que devem saber ou não.
A ignorância, num entendimento queer, não se trata do oposto ao conhecimento ou da falta deste. Ela é, na verdade, um efeito do modo como se conhece, uma relação com as informações que opera de tal maneira a colocar o sujeito em posição de não interagir com determinados conhecimentos. Portanto, antes de se perguntar por que um indivíduo não compreende algo que cremos que ele deva aprender, é essencial buscar de que saberes ele dispõe e quais considera pertinentes para a sua vivência.
O modo como o sujeito interage com o mundo, os textos que lê, as imagens de que se apropria: sem a compreensão dessas questões o ensino fica comprometido. É necessário entender qual a posição desse sujeito estudante, de que forma ele entra em contato com um conhecimento diferente daquele que já carrega como parte de si e como se dá a sua relação com o desconhecido. De que maneiras o que ele não conhece reorganiza, desmonta ou bloqueia seus pensamentos? Como se estabelecem conexões com o que ele já conhece, de que forma um texto muda ao ser lido por ele em um momento ou em outro? Qual é o esforço, impacto ou estresse produzido ou exigido para lidar com o que ainda não se sabe, ou para deixar de conhecer algo de uma determinada maneira? Conforme comenta Gablik (1994), existe um forte investimento emocional nas posições já ocupadas pelos sujeitos, uma vez que elas constroem a realidade com a qual eles estão acostumados.
Requisitar que uma pessoa desmonte suas compreensões anteriores, revisite conceitos e reorganize toda sua existência não é um convite simplório. É preciso entender que, como recorda Britzman (1995), não é uma mera questão de recusa ou resistência ao conhecimento, mas o conhecimento que se tem é uma forma de resistência. Também se faz necessário perguntar, como faz Luhmann (1998), de que maneira o leitor se insere no texto, em oposição ao que o autor quis dizer ou como a leitura deveria ser compreendida, e de que modo determinadas identificações se fazem possíveis ou impensáveis.
Além de se perguntar como um professor pode endereçar tópicos sobre (homo)sexualidades em sua atuação, também cabe refletir sobre o porquê. Creio que a minha resposta decorre do que Villela e Ratto (2009) chamam de projeto de existência: acredito que a função do educador não é oferecer conteúdos padronizados, mas sim construir junto com os estudantes condições para vivências significativas e protegidas contra opressões. Isso significa que a sala de aula se transforma em um espaço tático, um local em que o educador pode assumir uma postura combativa frente a verdades estabelecidas e noções carregadas sem questionamento.
Entretanto, mesmo o desejo de mudança abraçado pelos estudantes pode enfrentar adversários inesperados, algumas vezes encrustados nas próprias iniciativas que se tentam libertadoras. Conforme aponta Kevin Kumashiro (2002), o desejo de seus estudantes lutarem contra a opressão se limitava a não perceber de que maneira eles próprios eram privilegiados e, nesse sentido, cúmplices. Percebi essa mesma resistência se configurar quando os alunos em meus cursos questionavam se eles não tinham o direito de se sentirem ultrajados pela presença de um corpo estranho ocupando o mesmo espaço que o seu. O desconforto com o diferente figurou como uma desagradável surpresa entre as percepções que tive ao longo deste estudo. O desejo de ajudar o outro e de tomar ciência de suas aflições enfrenta a barreira do conforto do observador. Parece importante, nesse contexto, que a separação eu-outro permaneça real e visível, de modo a não produzir rupturas na noção de si (próprio) ou no entendimento do anormal.
Lutar contra comportamentos e situações que se mostrem opressivos a sujeitos por conta de características e ações pessoais que não dizem respeito a outros indivíduos é o que tem me motivado a insistir na minha construção como pesquisador e educador. Auxiliado pela cultura visual e pela teoria queer, o ato de percorrer esse caminho não tem sido reto como se poderia esperar, tampouco claro e sem desvios.
terça-feira, agosto 20, 2013
Teoria queer (parte 2)
Essa é a segunda parte da série de três textos sobre a teoria queer. O primeiro pode ser encontrado aqui e o terceiro será lançado amanhã. Não é minha intenção esgotar (seria pretensioso demais!) a teoria queer, mas sim apresentar alguns pontos introdutórios para quem se interessar.
Um sujeito nasce já inserido numa trama de expectativas e normatizações que estabelecerão um campo de confronto entre ser normal ou desviante em uma infinidade de critérios, e creio que é menos importante saber a origem de seus desejos do que pensar a respeito dos efeitos que eles têm sobre essa trama e, principalmente, dos esforços engendrados para conter esse alegado desvio; não podemos esquecer que a própria existência do desvio permite perceber que os fios dessa trama não só são instáveis, como também são impostos e insuficientes.
Como um professor que trata sobre (homo)sexualidades, tenho enfrentado o desafio constante de projetar propostas de ensino e ambientes de aprendizagem que sejam ao mesmo tempo eficazes no objetivo de compartilhar saberes e amplos o bastante para que não se reduzam a um ponto de vista particular e reducionista. Não posso ignorar, contudo, que essa é uma escolha que já exclui temas e interpretações que poderiam ser abordados em cursos cujos fins fossem outros e que minha afiliação à cultura visual e teoria queer me coloca em uma posição diferente do que a assumida por sujeitos que não compartilham desses embasamentos. É particularmente difícil não considerar outras posturas equivocadas ou incorretas, mas se trata de um desafio que acredito ser fundamental para o tipo de educação que antevejo, ou seja, uma forma de aprendizagem que não se aceite opressiva e que se permita duvidar de si própria ou ouvir a vozes que anunciem posições diferentes.
Uma das abordagens mais comuns que tenho observado no tratamento da homossexualidade em contextos escolares é a tentativa de incluir esses sujeitos e suas práticas no círculo da normalidade. A busca por inclusão reitera uma noção que deve ser analisada mais detidamente: a da aceitação do diferente. Essa postura relaciona-se com a ideia de uma generosidade por parte dos normais, que estão se predispondo a permitir que os anormais tenham espaço legitimado, assim como com a crença de que o grupo excluído necessita de maior autoestima, podendo buscar aumentá-la através de representações positivas de sua existência (BRITZMAN, 1995). Britzman questiona, ainda, a validade de uma política de tolerância, marcada pela apresentação e representação das minorias, que em teoria seria legitimada pela ideia de que as pessoas se identificariam com os modelos propostos. Não somente, essa perspectiva alimenta a noção de que os sujeitos normalizados reconheceriam as diferenças e as aceitariam: “mas como, exatamente, deve acontecer a identificação com um outro se somos requeridos apenas a tolerar e, portanto, confirmar nós mesmos como generosos?” (BRITZMAN, 1995, p. 159). A postura de enxergar o outro como um inferior que precisa de ajuda pode, portanto, encaminhar as tentativas de inclusão para um mero emparelhamento com as representações de heterossexuais.
Se a homossexualidade é compreendida como um desvio em relação à norma da heterossexualidade, então a representação positiva dessa identidade estaria na repressão de características que pudessem se configurar como destoantes da expectativa de um comportamento considerado adequado. Isso inclui relações não monogâmicas, práticas sexuais como submissão e sadomasoquismo, seguindo o axioma da hierarquização discutido por Rubin (1993b) e apresentando um limite bastante claro à noção de tolerância: ela pode existir, contanto que seja apenas até certo ponto. Só ganham acesso à inclusão aqueles que se assemelham com a norma heterossexual monogâmica, o que justifica as lutas que atualmente ocorrem em torno da legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas também explica o silêncio que existe em torno de sujeitos transexuais e a conivência pública com violências físicas e morais contra indivíduos cujas ações dificultam que sejam imediatamente posicionados em algum critério inteligível e comparável à norma. “Seja gay, mas não pareça uma mulherzinha” e “Não tenho problema com homossexuais, contanto que não deem em cima de mim” são declarações que exemplificam essa postura de inclusão limitada.
Ao indicar tais contradições que resultam da ideia de inclusão, não estou posicionando-me contra iniciativas que tenham esse objetivo. Representações positivas de sujeitos marginalizados são bem-vindas, pois os inserem em espaços que usualmente não ocupam ou não são vistos ocupando. Porém, creio com Silva (2000) que “antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida” (p. 100). Entender como são produzidas as diferenças que dão contorno para as identidades e em que medida elas são estabelecidas ou alteradas discursivamente é uma preocupação que deve ser levada em conta. Contudo, não se pode esquecer o papel dos indivíduos que negociam com essas instituições e também com os demais sujeitos articulando suas próprias experiências com os enquadramentos sugeridos, requisitados ou impostos. Essas relações envolvem o modo como se percebem e identificam, mas também como são identificados e o que, no trânsito entre esses muitos entendimentos, resulta na forma de ação.
Na terceira parte desta série tratarei de alguns técnicas sugeridas por Deborah Britzman para uma abordagem queer.
Um sujeito nasce já inserido numa trama de expectativas e normatizações que estabelecerão um campo de confronto entre ser normal ou desviante em uma infinidade de critérios, e creio que é menos importante saber a origem de seus desejos do que pensar a respeito dos efeitos que eles têm sobre essa trama e, principalmente, dos esforços engendrados para conter esse alegado desvio; não podemos esquecer que a própria existência do desvio permite perceber que os fios dessa trama não só são instáveis, como também são impostos e insuficientes.
Como um professor que trata sobre (homo)sexualidades, tenho enfrentado o desafio constante de projetar propostas de ensino e ambientes de aprendizagem que sejam ao mesmo tempo eficazes no objetivo de compartilhar saberes e amplos o bastante para que não se reduzam a um ponto de vista particular e reducionista. Não posso ignorar, contudo, que essa é uma escolha que já exclui temas e interpretações que poderiam ser abordados em cursos cujos fins fossem outros e que minha afiliação à cultura visual e teoria queer me coloca em uma posição diferente do que a assumida por sujeitos que não compartilham desses embasamentos. É particularmente difícil não considerar outras posturas equivocadas ou incorretas, mas se trata de um desafio que acredito ser fundamental para o tipo de educação que antevejo, ou seja, uma forma de aprendizagem que não se aceite opressiva e que se permita duvidar de si própria ou ouvir a vozes que anunciem posições diferentes.
Uma das abordagens mais comuns que tenho observado no tratamento da homossexualidade em contextos escolares é a tentativa de incluir esses sujeitos e suas práticas no círculo da normalidade. A busca por inclusão reitera uma noção que deve ser analisada mais detidamente: a da aceitação do diferente. Essa postura relaciona-se com a ideia de uma generosidade por parte dos normais, que estão se predispondo a permitir que os anormais tenham espaço legitimado, assim como com a crença de que o grupo excluído necessita de maior autoestima, podendo buscar aumentá-la através de representações positivas de sua existência (BRITZMAN, 1995). Britzman questiona, ainda, a validade de uma política de tolerância, marcada pela apresentação e representação das minorias, que em teoria seria legitimada pela ideia de que as pessoas se identificariam com os modelos propostos. Não somente, essa perspectiva alimenta a noção de que os sujeitos normalizados reconheceriam as diferenças e as aceitariam: “mas como, exatamente, deve acontecer a identificação com um outro se somos requeridos apenas a tolerar e, portanto, confirmar nós mesmos como generosos?” (BRITZMAN, 1995, p. 159). A postura de enxergar o outro como um inferior que precisa de ajuda pode, portanto, encaminhar as tentativas de inclusão para um mero emparelhamento com as representações de heterossexuais.
Se a homossexualidade é compreendida como um desvio em relação à norma da heterossexualidade, então a representação positiva dessa identidade estaria na repressão de características que pudessem se configurar como destoantes da expectativa de um comportamento considerado adequado. Isso inclui relações não monogâmicas, práticas sexuais como submissão e sadomasoquismo, seguindo o axioma da hierarquização discutido por Rubin (1993b) e apresentando um limite bastante claro à noção de tolerância: ela pode existir, contanto que seja apenas até certo ponto. Só ganham acesso à inclusão aqueles que se assemelham com a norma heterossexual monogâmica, o que justifica as lutas que atualmente ocorrem em torno da legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas também explica o silêncio que existe em torno de sujeitos transexuais e a conivência pública com violências físicas e morais contra indivíduos cujas ações dificultam que sejam imediatamente posicionados em algum critério inteligível e comparável à norma. “Seja gay, mas não pareça uma mulherzinha” e “Não tenho problema com homossexuais, contanto que não deem em cima de mim” são declarações que exemplificam essa postura de inclusão limitada.
Ao indicar tais contradições que resultam da ideia de inclusão, não estou posicionando-me contra iniciativas que tenham esse objetivo. Representações positivas de sujeitos marginalizados são bem-vindas, pois os inserem em espaços que usualmente não ocupam ou não são vistos ocupando. Porém, creio com Silva (2000) que “antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida” (p. 100). Entender como são produzidas as diferenças que dão contorno para as identidades e em que medida elas são estabelecidas ou alteradas discursivamente é uma preocupação que deve ser levada em conta. Contudo, não se pode esquecer o papel dos indivíduos que negociam com essas instituições e também com os demais sujeitos articulando suas próprias experiências com os enquadramentos sugeridos, requisitados ou impostos. Essas relações envolvem o modo como se percebem e identificam, mas também como são identificados e o que, no trânsito entre esses muitos entendimentos, resulta na forma de ação.
Na terceira parte desta série tratarei de alguns técnicas sugeridas por Deborah Britzman para uma abordagem queer.
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segunda-feira, agosto 19, 2013
Teoria queer (parte 1)
Este texto é a primeira parte de uma série de três postagens dedicadas a pensar o que é a teoria queer e como ela pode se inserir em contextos pedagógicos. Nesta primeira parte, o foco da discussão está em compreender a base da teoria e sua "missão".
O queer que acompanha e nomeia a teoria surge como uma jocosa ironia, na medida em que se apropria de um xingamento para se posicionar criticamente a favor do ofendido. Traduzindo do inglês, queer significa estranho, e por derivação passa a significar bixa, viado, sapata. É aquilo que não se encaixa e causa desgosto, que não pertence. A língua portuguesa não possui uma tradução que concentre adequadamente a carga histórica que o termo queer possui no inglês, onde frequentemente era utilizado para atacar e condenar sujeitos cujas sexualidades não se conformavam às expectativas normativas. Enquanto termos como “bixa” e “transviado” possam soar semelhantes, eles reduzem o xingamento ao masculino, ignorando o feminino e prestigiando binários contra os quais a teoria se opõe. Por conta dessa dificuldade de tradução, seguirei trabalhando com o conceito em inglês, a fim de preservar o seu sentido e, principalmente, o seu potencial de disrupção de sentido.
Tomado como ponto de partida para uma ressignificação, os teóricos assumem-se como estranhos e como corruptores: a teoria queer não tem a intenção de ser mais um campo teórico, mas sim de questionar estabilidades, e por isso mesmo é tão difícil defini-la, uma vez que torná-la completamente inteligível esvaziaria sua força e potencial subversivo. Envolve teorizar o esquisito e, ao mesmo tempo, estranhar a teoria (LUHMANN, 1998). Mais do que se limitar ao estudo de gays e lésbicas, a teoria queer confronta noções de identidades fixas, classificações binárias e suas consequentes exclusões, focando esforços na compreensão dos papéis exercidos socialmente por aqueles sujeitos que ocupam posições ininteligíveis aos olhos das normas.
O queer não apenas é estranho e fora de lugar, ele também é ignorado, esquecido e negado. Os sujeitos que não se identificam com os discursos normativos das sexualidades na sociedade contemporânea ocidental estão relegados a uma existência inferior: são reconhecidos como desviantes, mas seu “desvio” não gera reflexão, é assumido como essencialmente errado ou, quando muito, como uma diferença que devemos aceitar e incluir.
É fácil pensar que queer institui uma categoria de identidade, um tipo de sujeito que não corresponde às normas. Contudo, Morris (1998) nos pergunta e alerta: “Essa categoria simplesmente instala um outro binarismo – queer ou não queer? Nós poderemos em algum momento dissolver o pensamento binário como um todo, e seria essa estratégia do não binarismo sequer útil?” (p. 276). Se pensarmos a definição de queer como simplesmente aquilo que não está normalizado, temos imediatamente uma normalização do que é ser queer. O estranho, subversivo e incompreensível passa a estar domado, controlado e seguro, sendo mais um conhecimento pronto para ser anexado em dicionários e para que pesquisadores possam identificar com certa facilidade: “isso é queer, isso é normal”. Uma vez compreendido e aceito, o poder que se instalaria pela dúvida se perde, dando lugar novamente às certezas.
Não devemos nos esquecer que, como nos alerta Britzman (1995), o queer não está nos atores, mas sim nas ações. Nomear um determinado grupo como queer é posicioná-lo fora da normalidade, mas antes de tudo significa posicioná-lo, estabilizá-lo. Esse é um movimento (e congelamento) ao qual a teoria queer não pode se permitir: o queer está no trânsito, no cruzamento de fronteiras e na indefinição de identidades. Não há como uma determinada identidade ser subversiva permanentemente, em qualquer espaço ou instante. A partir do momento em que for compreendida e nomeada, ela passa a não causar mais o impacto da indefinição.
Citando Berry, a respeito da forma como a “cultura do individualismo” espera que os sujeitos não mudem, Doll (1998) aponta: “Não importa de que forma o sujeito é reto [em inglês a palavra straight significa também heterossexual, e pode ser compreendida também como honesto ou normal], apenas que todas as perversões sejam amaciadas, de forma que a pessoa seja identificada completamente e sem ambiguidade” (p. 289). A teoria queer nos alerta para questionarmos categorias de identidade tais como “homossexual”, “travesti" etc., mas também sugere que levemos em consideração quais são os poderes e raízes históricas por trás da instituição e manutenção da heterossexualidade enquanto norma.
Na segunda parte desta série, discutirei a noção de inclusão da diferença. Na terceira e última, abordarei algumas "técnicas" para um olhar que se proponha queer. Caso alguém deseje as referências, basta pedi-las nos comentários ou por mensagem na Raposa do Face.
O queer que acompanha e nomeia a teoria surge como uma jocosa ironia, na medida em que se apropria de um xingamento para se posicionar criticamente a favor do ofendido. Traduzindo do inglês, queer significa estranho, e por derivação passa a significar bixa, viado, sapata. É aquilo que não se encaixa e causa desgosto, que não pertence. A língua portuguesa não possui uma tradução que concentre adequadamente a carga histórica que o termo queer possui no inglês, onde frequentemente era utilizado para atacar e condenar sujeitos cujas sexualidades não se conformavam às expectativas normativas. Enquanto termos como “bixa” e “transviado” possam soar semelhantes, eles reduzem o xingamento ao masculino, ignorando o feminino e prestigiando binários contra os quais a teoria se opõe. Por conta dessa dificuldade de tradução, seguirei trabalhando com o conceito em inglês, a fim de preservar o seu sentido e, principalmente, o seu potencial de disrupção de sentido.
O queer não apenas é estranho e fora de lugar, ele também é ignorado, esquecido e negado. Os sujeitos que não se identificam com os discursos normativos das sexualidades na sociedade contemporânea ocidental estão relegados a uma existência inferior: são reconhecidos como desviantes, mas seu “desvio” não gera reflexão, é assumido como essencialmente errado ou, quando muito, como uma diferença que devemos aceitar e incluir.
É fácil pensar que queer institui uma categoria de identidade, um tipo de sujeito que não corresponde às normas. Contudo, Morris (1998) nos pergunta e alerta: “Essa categoria simplesmente instala um outro binarismo – queer ou não queer? Nós poderemos em algum momento dissolver o pensamento binário como um todo, e seria essa estratégia do não binarismo sequer útil?” (p. 276). Se pensarmos a definição de queer como simplesmente aquilo que não está normalizado, temos imediatamente uma normalização do que é ser queer. O estranho, subversivo e incompreensível passa a estar domado, controlado e seguro, sendo mais um conhecimento pronto para ser anexado em dicionários e para que pesquisadores possam identificar com certa facilidade: “isso é queer, isso é normal”. Uma vez compreendido e aceito, o poder que se instalaria pela dúvida se perde, dando lugar novamente às certezas.
Não devemos nos esquecer que, como nos alerta Britzman (1995), o queer não está nos atores, mas sim nas ações. Nomear um determinado grupo como queer é posicioná-lo fora da normalidade, mas antes de tudo significa posicioná-lo, estabilizá-lo. Esse é um movimento (e congelamento) ao qual a teoria queer não pode se permitir: o queer está no trânsito, no cruzamento de fronteiras e na indefinição de identidades. Não há como uma determinada identidade ser subversiva permanentemente, em qualquer espaço ou instante. A partir do momento em que for compreendida e nomeada, ela passa a não causar mais o impacto da indefinição.
Citando Berry, a respeito da forma como a “cultura do individualismo” espera que os sujeitos não mudem, Doll (1998) aponta: “Não importa de que forma o sujeito é reto [em inglês a palavra straight significa também heterossexual, e pode ser compreendida também como honesto ou normal], apenas que todas as perversões sejam amaciadas, de forma que a pessoa seja identificada completamente e sem ambiguidade” (p. 289). A teoria queer nos alerta para questionarmos categorias de identidade tais como “homossexual”, “travesti" etc., mas também sugere que levemos em consideração quais são os poderes e raízes históricas por trás da instituição e manutenção da heterossexualidade enquanto norma.
Na segunda parte desta série, discutirei a noção de inclusão da diferença. Na terceira e última, abordarei algumas "técnicas" para um olhar que se proponha queer. Caso alguém deseje as referências, basta pedi-las nos comentários ou por mensagem na Raposa do Face.
quinta-feira, abril 11, 2013
Mães que existem por aí
Algumas mães me deixam preocupado. Outras, instigado. Outras ainda, como a minha, feliz. Nos últimos dias, cruzei com dois exemplos no mínimo curiosos.
De um lado, a mãe que acha que não é homofóbica quando defende o direito de ensinar ao filho a não gostar de gays. Ou melhor, que diz que ama, só não ensinaria o filho que se ele quiser amar alguém do mesmo sexo, ele pode. A impressão que fica é que falta dicionário nesse mundo. Não é uma mera questão de desaprovar um comportamento: é questão de ensinar uma pessoa a considerar outras pessoas como inferiores. "Ah, mas vou dizer pra amar". Sim, tu pode amar, pode tolerar, só não pode ser. Se for, faz o quê? Exorciza?
Aí hoje cruzei, também virtualmente, com uma mãe que fotografou o filho segurando uma placa dizendo que o Feliciano não o representa. A criança deve ter uns cinco anos, no máximo. Lindo, bacana, fofo, razoavelmente apelativo (o que não é, em si, ruim). Aí vem um sujeito e comenta que a mãe está impondo um pensamento na cabeça da criança, que ela deveria ser livre pra crescer e decidir por conta. Peraí, pausa geral. O carinha está mesmo dizendo que não é pra ensinar à criança a amar e defender os direitos humanos, se possível os direitos dos outros humanos? Hummm...
Por que fico com a impressão, assim de leve, que esse mesmo sujeito concordaria com a mãe que ensina a amar, mas só a amar, nunca a ser? Naquela linha de amar ao próximo, mas só enquanto ele fica distante.
De um lado, a mãe que acha que não é homofóbica quando defende o direito de ensinar ao filho a não gostar de gays. Ou melhor, que diz que ama, só não ensinaria o filho que se ele quiser amar alguém do mesmo sexo, ele pode. A impressão que fica é que falta dicionário nesse mundo. Não é uma mera questão de desaprovar um comportamento: é questão de ensinar uma pessoa a considerar outras pessoas como inferiores. "Ah, mas vou dizer pra amar". Sim, tu pode amar, pode tolerar, só não pode ser. Se for, faz o quê? Exorciza?
Aí hoje cruzei, também virtualmente, com uma mãe que fotografou o filho segurando uma placa dizendo que o Feliciano não o representa. A criança deve ter uns cinco anos, no máximo. Lindo, bacana, fofo, razoavelmente apelativo (o que não é, em si, ruim). Aí vem um sujeito e comenta que a mãe está impondo um pensamento na cabeça da criança, que ela deveria ser livre pra crescer e decidir por conta. Peraí, pausa geral. O carinha está mesmo dizendo que não é pra ensinar à criança a amar e defender os direitos humanos, se possível os direitos dos outros humanos? Hummm...
Por que fico com a impressão, assim de leve, que esse mesmo sujeito concordaria com a mãe que ensina a amar, mas só a amar, nunca a ser? Naquela linha de amar ao próximo, mas só enquanto ele fica distante.
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| https://www.facebook.com/photo.php?fbid=444933582254805&set=a.251608918253940.60133.100002145024680&type=1&theater |
quinta-feira, fevereiro 14, 2013
Sobre o ataque homofóbico a um estudante da UFG
Não sei descrever exatamente a sensação que tive quando tomei notícia do ataque homofóbico realizado por estudantes portugueses a um brasileiro na Casa do Estudante da UFG (notícias aqui e aqui).
Vou começar pelo óbvio: violência não pode. Gay? Negro? Transexual? Mulher? Não interessa, violência não é caminho e ponto. Vamos parar com essa onda de "fulano não pode existir porque está errado". Não acho que seja muito relevante que os agressores sejam portugueses. Ou que estivessem bêbados. Eles agrediram covardemente – tem algum jeito de agredir que não o seja? – um cara dentro do banheiro. Em grupo.
Os agressores devem ser punidos. Do contrário, a mensagem que eles enviaram estará sendo defendida e institucionalizada dentro da UFG: "homossexuais não têm direito de existir". Por não considerarem um homossexual como humano, eles simplesmente exerceram sua força física (bruta) e o atacaram. Queriam "limpar" aquele banheiro de uma presença ameaçadora.
Aí eu pergunto: que ameaça é essa que a homossexualidade traz, que precisa fomentar uma reação violenta e explosiva como essa? Qual o poder dessa "subversão"? Do que eles têm medo?
Vou começar pelo óbvio: violência não pode. Gay? Negro? Transexual? Mulher? Não interessa, violência não é caminho e ponto. Vamos parar com essa onda de "fulano não pode existir porque está errado". Não acho que seja muito relevante que os agressores sejam portugueses. Ou que estivessem bêbados. Eles agrediram covardemente – tem algum jeito de agredir que não o seja? – um cara dentro do banheiro. Em grupo.
Os agressores devem ser punidos. Do contrário, a mensagem que eles enviaram estará sendo defendida e institucionalizada dentro da UFG: "homossexuais não têm direito de existir". Por não considerarem um homossexual como humano, eles simplesmente exerceram sua força física (bruta) e o atacaram. Queriam "limpar" aquele banheiro de uma presença ameaçadora.
Aí eu pergunto: que ameaça é essa que a homossexualidade traz, que precisa fomentar uma reação violenta e explosiva como essa? Qual o poder dessa "subversão"? Do que eles têm medo?
terça-feira, fevereiro 12, 2013
Eu não sou gay
Esses dias disse que eu era gay e um amigo já apontou o dedo "arrá, desistiu de te indefinir!". Não. Esses dias também falei, em outro espaço, que era bi. Debatendo com alunas, mencionei a possibilidade de, num contexto específico, haver sido heterossexual. Para todos, encerro com a mesma resposta: sou raposa.
Ser é sempre algo muito complicado. Não é tanto uma questão de não ter coragem de assumir, de não estar confortável com ser A ou B. O problema, aos meus olhos, é ser obrigado a conformar (ou mesmo lidar, já que não preciso levar em conta a opinião alheia na maior parte das questões da minha vida) com uma série de expectativas que já vêm prontas no kit "isso é ser gay", "isso é ser bi". Ontem ouvi alguém falar que ser gay tem algo a ver com ser afeminado (como se "ser feminino" ou "ser masculino" fossem definições muito claras...).
O que eu defendo é a possibilidade de sermos sem caixinhas, sem o imediato entendimento e julgamento daquilo que estamos vivendo. Eu repudio o famoso "nossa, tu é isso, então como tu não gosta de tal coisa"? Gostaria muito de não me importar com o olhar e o dedo alheios, mas isso infelizmente ainda não é uma realidade, tampouco acredito que virá a ser tão cedo para mim ou para o resto do mundo. O jeito, ainda me parece, é educar.
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| "Eu não sou gay, hetero, bi ou lésbica. Eu amo, simplesmente". |
Ser é sempre algo muito complicado. Não é tanto uma questão de não ter coragem de assumir, de não estar confortável com ser A ou B. O problema, aos meus olhos, é ser obrigado a conformar (ou mesmo lidar, já que não preciso levar em conta a opinião alheia na maior parte das questões da minha vida) com uma série de expectativas que já vêm prontas no kit "isso é ser gay", "isso é ser bi". Ontem ouvi alguém falar que ser gay tem algo a ver com ser afeminado (como se "ser feminino" ou "ser masculino" fossem definições muito claras...).
O que eu defendo é a possibilidade de sermos sem caixinhas, sem o imediato entendimento e julgamento daquilo que estamos vivendo. Eu repudio o famoso "nossa, tu é isso, então como tu não gosta de tal coisa"? Gostaria muito de não me importar com o olhar e o dedo alheios, mas isso infelizmente ainda não é uma realidade, tampouco acredito que virá a ser tão cedo para mim ou para o resto do mundo. O jeito, ainda me parece, é educar.
segunda-feira, fevereiro 11, 2013
O olhar heterossexual 2
Depois de ontem, fiquei pensando e lembrando da minha infância. Eu tinha um vizinho que era uns dois ou três anos mais velho que eu, no máximo. Toda vez que eu chegava ou saía de casa, ele gritava com aquela voz rouca: "ô putão", "viado", "bixa". Obviamente, eu odiava ele – o que, pelo jeito, era recíproco. Bastava ele me ver para começar a me xingar. Eu, como de costume, baixava a crista e seguia meu rumo, incomodado, mas não o suficiente para ter alguma reação mais explosiva ou violenta. Aliás, incomodado, mas com bom senso o bastante para preservar meus dentes.
Mais de uma vez eu cheguei à conclusão perfeita sobre como solucionar aquele problema. Bastava me oferecer para chupar o rapaz. Ele ficaria feliz, eu ficaria livre da coisa toda. Ao contrário do que os meus pensamentos da época podem sugerir, eu era uma criaturinha bastante ingênua. E virgem. Continuei sendo, aliás, por mais vários anos. Não que isso tenha alguma importância em si, mas é só para deixar claro que com 10, 12, 14 anos eu já sentia que sexo era algo tinha um baita poder.
Conto essa história porque ela tem uma série de coisas a revelar sobre como eu via o mundo quando criança. Antes de tudo, eu não compreendia que aqueles xingamentos tivessem algo a ver com eu gostar de meninos e não de meninas. Diga-se de passagem, naquela época isso ainda não estava muito claro para mim. OK, eu gostava de meninos, sentia atração e prestava mais atenção em homens do que mulheres nos poucos filmes e quadrinhos pornôs que eu tinha oportunidade de ver. Ainda assim, nada daquilo significava que eu fosse alguma coisa. Certamente não "putão, viado ou bixa".
O meu vizinho não me xingava por algo que eu era. Pelo contrário. Meu vizinho me xingava por algo que eu não era. Eu não agia todo machinho, não jogava futebol como todos da quadra, provavelmente era um guri delicadinho, loirinho e meiguinho. Qual o problema? Ora, todos sabem que os seres humanos que nascem com pênis devem ser grossos, fortes, brigões. Eu não era nada daquilo, portanto era parte do dever sagrado dele, como portador do olhar heterossexual, apontar para mim e garantir que o mundo soubesse disso. Eu era diferente. Eu não era normal.
Dali pra frente eu cresci e cruzei cada vez menos com esse vizinho. Chegou um tempo em que ele parou de me provocar, não sei bem o motivo. Aliás, não sei se alguma vez qualquer coisa que ele tenha feito em relação a mim foi com motivo (não, eu jamaaaais estaria duvidando da capacidade intelectual dele). É só que o poder da heterossexualidade/normalidade é tão comum e invisível que as coisas simplesmente são como são, as pessoas riem de quem passa, apontam o dedo e gritam. Eu, por fugir da norma, precisava imediatamente ser colocado de volta no meu lugar. No meu lugar correto, de machinho. A vida está cheia de exemplos piores de como isso é feito.
Esse texto é uma continuação do post anterior, O olhar heterossexual.
Mais de uma vez eu cheguei à conclusão perfeita sobre como solucionar aquele problema. Bastava me oferecer para chupar o rapaz. Ele ficaria feliz, eu ficaria livre da coisa toda. Ao contrário do que os meus pensamentos da época podem sugerir, eu era uma criaturinha bastante ingênua. E virgem. Continuei sendo, aliás, por mais vários anos. Não que isso tenha alguma importância em si, mas é só para deixar claro que com 10, 12, 14 anos eu já sentia que sexo era algo tinha um baita poder.
Conto essa história porque ela tem uma série de coisas a revelar sobre como eu via o mundo quando criança. Antes de tudo, eu não compreendia que aqueles xingamentos tivessem algo a ver com eu gostar de meninos e não de meninas. Diga-se de passagem, naquela época isso ainda não estava muito claro para mim. OK, eu gostava de meninos, sentia atração e prestava mais atenção em homens do que mulheres nos poucos filmes e quadrinhos pornôs que eu tinha oportunidade de ver. Ainda assim, nada daquilo significava que eu fosse alguma coisa. Certamente não "putão, viado ou bixa".
O meu vizinho não me xingava por algo que eu era. Pelo contrário. Meu vizinho me xingava por algo que eu não era. Eu não agia todo machinho, não jogava futebol como todos da quadra, provavelmente era um guri delicadinho, loirinho e meiguinho. Qual o problema? Ora, todos sabem que os seres humanos que nascem com pênis devem ser grossos, fortes, brigões. Eu não era nada daquilo, portanto era parte do dever sagrado dele, como portador do olhar heterossexual, apontar para mim e garantir que o mundo soubesse disso. Eu era diferente. Eu não era normal.
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| Fonte: http://www.citelighter.com/science/psychology/knowledgecards/homophobia |
Dali pra frente eu cresci e cruzei cada vez menos com esse vizinho. Chegou um tempo em que ele parou de me provocar, não sei bem o motivo. Aliás, não sei se alguma vez qualquer coisa que ele tenha feito em relação a mim foi com motivo (não, eu jamaaaais estaria duvidando da capacidade intelectual dele). É só que o poder da heterossexualidade/normalidade é tão comum e invisível que as coisas simplesmente são como são, as pessoas riem de quem passa, apontam o dedo e gritam. Eu, por fugir da norma, precisava imediatamente ser colocado de volta no meu lugar. No meu lugar correto, de machinho. A vida está cheia de exemplos piores de como isso é feito.
Esse texto é uma continuação do post anterior, O olhar heterossexual.
O olhar heterossexual
Perto da minha casa tem uma feira que acontece todos os domingos. Eu, fã de hábitos rotineiros, janto lá todo santo domingo. De preferência, como tapioca. Duas, uma de calabresa e uma de sabor variável, ora carne seca, ora pizza. Dessa vez, porém, fiz algo diferente: fui de mãos dadas com o meu namorado. Tudo foi mais ou menos semelhante ao que sempre é: fomos bem atendidos, pedimos, sentamos em uma mesa, aguardamos e comemos. Tanto na ida quanto na volta, porém, fomos olhados.
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| Medusa, por Caravaggio. |
Não foi qualquer olhar o que me chamou a atenção. Foi de um grupo de homens que, presumo, são heterossexuais. Também acho que são uns idiotas, mas escrever isso talvez diminua a minha reflexão. O incômodo não surgiu apenas por termos sido olhados, meu namorado e eu, mas pelas risadas e apontadas de cabeça que ocorreram como reação à nossa passagem. Para o trio de caras encorpados, nós éramos motivo de piada.
Qual a graça? Não sei, na verdade. Entendo aqui o riso como um exercício de poder. Ele riram porque podiam rir, da mesma forma que eu e meu namorado olhamos para o chão e apertamos o passo. Se eles decidissem, poderiam facilmente nos esmagar. Não, sério, eram grandes mesmo. De onde vem esse poder? Não é só da força física, mas também do poder cultural investido neles pela normalidade. Eles são normais, são heterossexuais em uma sociedade que reconhece viadinhos como algo à parte.
Quando eles riram, todos que viram isso entenderam do quê estavam rindo. Um casal de rapazes passando de mãos dadas é algo risível. Se eu risse deles, por outro lado, ninguém entenderia. Não é inteligível rir de um grupo de caras heterossexuais/machos comendo seu sanduíche, enquanto é perfeitamente aceitável rir do casalzinho gay que vem passando. Por quê, eu pergunto?
Esse texto possui uma continuação: O olhar heterossexual 2.
Esse texto possui uma continuação: O olhar heterossexual 2.
domingo, fevereiro 10, 2013
Um rumo para a Raposa
Para um blog decente, 153 acessos em um dia não é nada. Aliás, é péssimo. Para mim, que estou acostumado com um acesso diário de 2 a 7 pessoas, foi um tesão. Há cinco dias, alcancei o máximo de acessos em um dia que tive até então, na postagem sobre professor também namorar. Esse número é ínfimo.
Escrevo hoje para dizer algo que talvez não precisasse ser dito. Como parte dos objetivos para 2013, escrever é provavelmente o maior. Quero fazer isso através da Raposa Antropomórfica e, como resultado desejado, quero leitores. Mais leitores. Volta e meia recebo um comentário, o que me deixa absurdamente feliz.
Muita gente (mais do que qualificada pra isso) me disse que, se eu quero alcançar esse objetivo, preciso focar em um novo blog, um que não seja tão carregado e pessoal quanto a Raposa Antropomórfica. Escolher um tema, um objeto, um objetivo. Teimosamente, eu não quero. Eu já enxergo tudo isso aqui na Raposa: não são os assuntos sobre os quais eu falo, mas sim o ponto de vista. Como qualquer pessoa, eu sou tantas coisas ao mesmo tempo, sou gay, professor, loiro, amigo, namorado, aluno, pesquisador, escritor, jornalista, mestre. Aqui e ali, sou também uma raposa. Aliás, acho que mais que tudo, eu sou uma raposa e nada desse resto todo.
Ser é algo que não faz sentido na minha vida. Estudo e sigo a teoria queer da melhor forma que posso. Penso sobre sexualidade e educação, quase sempre juntas. Dou aulas e quero mudar vidas, essa é a parte mais difícil (e arrogante). Como vi um amigo dizer uma vez, quero comer o mundo de colher grande.
Em meio a tudo isso, continuarei escrevendo aqui na Raposa a partir desse ponto do qual eu falo: o de de alguém que acredita que pode ser feliz, que pode e quer ajudar pessoas a olharem melhor para seus próprios cursos de vida. Talvez até como um burguesinho que pode se dedicar a pensar essas coisas. No fim das contas, eu sou uma pessoa de sorte, se não por nada, por poder ser uma raposa.
Escrevo hoje para dizer algo que talvez não precisasse ser dito. Como parte dos objetivos para 2013, escrever é provavelmente o maior. Quero fazer isso através da Raposa Antropomórfica e, como resultado desejado, quero leitores. Mais leitores. Volta e meia recebo um comentário, o que me deixa absurdamente feliz.
Muita gente (mais do que qualificada pra isso) me disse que, se eu quero alcançar esse objetivo, preciso focar em um novo blog, um que não seja tão carregado e pessoal quanto a Raposa Antropomórfica. Escolher um tema, um objeto, um objetivo. Teimosamente, eu não quero. Eu já enxergo tudo isso aqui na Raposa: não são os assuntos sobre os quais eu falo, mas sim o ponto de vista. Como qualquer pessoa, eu sou tantas coisas ao mesmo tempo, sou gay, professor, loiro, amigo, namorado, aluno, pesquisador, escritor, jornalista, mestre. Aqui e ali, sou também uma raposa. Aliás, acho que mais que tudo, eu sou uma raposa e nada desse resto todo.
Ser é algo que não faz sentido na minha vida. Estudo e sigo a teoria queer da melhor forma que posso. Penso sobre sexualidade e educação, quase sempre juntas. Dou aulas e quero mudar vidas, essa é a parte mais difícil (e arrogante). Como vi um amigo dizer uma vez, quero comer o mundo de colher grande.
Em meio a tudo isso, continuarei escrevendo aqui na Raposa a partir desse ponto do qual eu falo: o de de alguém que acredita que pode ser feliz, que pode e quer ajudar pessoas a olharem melhor para seus próprios cursos de vida. Talvez até como um burguesinho que pode se dedicar a pensar essas coisas. No fim das contas, eu sou uma pessoa de sorte, se não por nada, por poder ser uma raposa.
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