Assisti aos primeiros episódios de Breaking Bad, um seriado sobre um professor de química diagnosticado com câncer de pulmão que acaba se tornando um traficante de drogas. Como muita gente estava falando a respeito, resolvi conferir.
O seriado gira em torno dos limites morais que estabelecemos para nosso convívio social e o que nos motiva a ultrapassá-los. De antemão já podemos supor que o professor bonzinho e medroso que se cala frente a tudo passará por alguma transformação. Ele tem um dado conhecimento e é capaz de, com os movimentos adequados, transformá-lo em poder.
Viver em sociedade normalmente implica seguirmos regras e abdicarmos de algumas possibilidades em nome do bem comum. Por exemplo, concordamos em não matar, não roubar, não agredir ou ofender (embora estes últimos sejam mais frequentes e recebam reações mais condescendentes que os dois primeiros). Ainda assim, há pessoas que matam, roubam, agridem e ofendem.
Eu fui criado para ser a pessoa que faz a coisa certa, que cuida dos outros, que defende os direitos e principalmente os deveres de todos. Se todos fôssemos criados como eu, provavelmente o mundo seria um lugar menos perigoso para se habitar. Seria muito menos interessante e diversificado, com certeza. Só que, no fim das contas, não é exatamente isso que a gente está sempre fazendo? Tentando garantir que o nosso entorno seja mais parecido conosco? Atuando em nossas relações com nossos pequenos (e às vezes não tão pequenos) poderes em direção ao que acreditamos que é certo? Eu não vejo diferença, estritamente falando, entre um deputado fanático religioso homofóbico e uma ativista ecológica humanitária que se opõe a todo tipo de violência e exclusão. Ambos estão lutando para fazer a coisa certa.
Se alguma coisa, acho que podemos tirar disso a prova de que não existe essa tal de coisa certa. O que existe é aquilo que acreditamos confrontado pelo que os outros acreditam. Isso é o mundo.
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sábado, outubro 05, 2013
terça-feira, março 26, 2013
Vamos conhecer algo diferente hoje?
Hoje decidi fazer um texto diferente. Estou empenhado em escrever diariamente, mas nem sempre o tempo facilita essa organização, portanto não cheguei à frente do computador com um tema em mente. A solução? Conversar com uma imagem. O método foi simples: joguei a palavra "imagem" no Google Imagens e selecionei a primeira que me chamou a atenção. Sim, há um certo componente de privilégio para as primeiras imagens, como sempre – vocês sabiam que a maioria das pessoas não procura além das primeiras ou segundas páginas de resultados em suas pesquisas, limitando consideravelmente as respostas que encontramos para nossas perguntas? –, mas hoje esse texto não vai se debruçar muito sobre privilégios e abusos.
Um tucano. Pesquisando no dicionário, descobri que há um grupo de índios que atende por essa denominação. Pesquisando no Youtube, descobri que tucanos não só são bichos muito esquisitos, mas também são fofos demais. Quase troco meu desejo de ter um cachorrinho (não, o de ter uma raposa continua firme e forte) pelo de ter um tucano. Será que eu posso ter um tucano?
Fiquei aqui quase dois minutos com cara de abobado. Conclusão: alguns dias a gente não está para escrever, apenas para ver e viver.
Um tucano. Pesquisando no dicionário, descobri que há um grupo de índios que atende por essa denominação. Pesquisando no Youtube, descobri que tucanos não só são bichos muito esquisitos, mas também são fofos demais. Quase troco meu desejo de ter um cachorrinho (não, o de ter uma raposa continua firme e forte) pelo de ter um tucano. Será que eu posso ter um tucano?
Fiquei aqui quase dois minutos com cara de abobado. Conclusão: alguns dias a gente não está para escrever, apenas para ver e viver.
terça-feira, fevereiro 26, 2013
É mais cômodo ser quem eu já sou
Esse texto é melhor lido acompanhado da música a seguir.
Alguns acontecimentos separados me levaram à conclusão do título e ao desejo de não me conformar. O primeiro deles foi o exame de nível para o curso de francês no Centro de Línguas da UFG. Fui lá, me inscrevi para o nível dois e passei. Aliás, "passei", já que não fui exatamente bem na prova escrita e se minha avaliadora não fosse extremamente simpática e de bem com a vida, minha prova oral teria sido zerada. Enfim, passei e logo voltarei a estudar o francês.
"Não consigo te imaginar nessa situação", disse uma amiga. Faz sentido, eu quase nunca me permito viver momentos de risco. Se há possibilidade de falhar ou ir mal, eu não faço. De alguma forma, isso se amplia com relação a aprender coisas novas. "Não sou autodidata", eu digo, acho que mais pelo medo de não chegar ao nível de excelência que espero do que pela pressa de aprender rápido ou pelo esforço de me empenhar. Eu só fui fazer a prova de francês porque na minha memória as palavras e frases fluíam mais facilmente do que a realidade demonstrou.
Essa mesma amiga esteve por um tempo ensinando-me a cozinhar. Coisas simples, ação do fogo, água borbulhando, temperos se misturando. Coisas complexas, também. Para mim, o exercício de cozinhar está fundamentalmente conectado ao fazer compras, ter ingredientes e inventar combinações. Gosto de fazer as coisas ao contrário: primeiro compro algo, depois decido o que fazer com o que comprei. Isso dá origem às minhas "semanas da batata" ou ao "mês do pimentão" (ainda bem que existem pimentões de várias cores!). Como desculpa para não cozinhar, xingo a falta de qualidade do mercado mais próximo, acordo tarde demais para a feira no sábado e reclamo que os mercados decentes ficam longe demais. Tudo bobagens e desculpas tolas, já que a maior parte disso é mais do que trabalhável com um pouco menos de preguiça.
Para completar, namoro a possibilidade de aprender a desenhar há anos. Fiz uma especialização em Expressão Gráfica, oras! Um curso no qual resisti por um semestre inteiro a sequer tentar desenhar, sempre procurando formas de esquivar da prática com o lápis. Terminado o curso, percebo que meu traço evoluiu absurdamente. Isso faz três ou quatro anos e quase nunca pratiquei desde então.
Tudo isso me leva a refletir sobre quão mais fácil é existir do que viver, simplesmente estar ali e de vez em quando fazer o que se tem vontade, isso se não for muita canseira. Fico aqui esperando que outras pessoas entrem na minha vida e me coloquem em movimento, que me ensinem, que me proporcionem aprendizagens. O que eu quero para mim vai ficando em segundo plano. Terceiro. Quarto.
Por mais que me doa reafirmar, ainda estou longe de ser a pessoa que gostaria: alguém que vive. O pior de tudo é saber que essa mudança "tão simples" que almejo para mim não depende de mais ninguém. Eu devo me tornar a pessoa que imagino, viver a vida que desejo e parar de inventar desculpas pelo caminho.
Alguns acontecimentos separados me levaram à conclusão do título e ao desejo de não me conformar. O primeiro deles foi o exame de nível para o curso de francês no Centro de Línguas da UFG. Fui lá, me inscrevi para o nível dois e passei. Aliás, "passei", já que não fui exatamente bem na prova escrita e se minha avaliadora não fosse extremamente simpática e de bem com a vida, minha prova oral teria sido zerada. Enfim, passei e logo voltarei a estudar o francês.
"Não consigo te imaginar nessa situação", disse uma amiga. Faz sentido, eu quase nunca me permito viver momentos de risco. Se há possibilidade de falhar ou ir mal, eu não faço. De alguma forma, isso se amplia com relação a aprender coisas novas. "Não sou autodidata", eu digo, acho que mais pelo medo de não chegar ao nível de excelência que espero do que pela pressa de aprender rápido ou pelo esforço de me empenhar. Eu só fui fazer a prova de francês porque na minha memória as palavras e frases fluíam mais facilmente do que a realidade demonstrou.
Essa mesma amiga esteve por um tempo ensinando-me a cozinhar. Coisas simples, ação do fogo, água borbulhando, temperos se misturando. Coisas complexas, também. Para mim, o exercício de cozinhar está fundamentalmente conectado ao fazer compras, ter ingredientes e inventar combinações. Gosto de fazer as coisas ao contrário: primeiro compro algo, depois decido o que fazer com o que comprei. Isso dá origem às minhas "semanas da batata" ou ao "mês do pimentão" (ainda bem que existem pimentões de várias cores!). Como desculpa para não cozinhar, xingo a falta de qualidade do mercado mais próximo, acordo tarde demais para a feira no sábado e reclamo que os mercados decentes ficam longe demais. Tudo bobagens e desculpas tolas, já que a maior parte disso é mais do que trabalhável com um pouco menos de preguiça.
Para completar, namoro a possibilidade de aprender a desenhar há anos. Fiz uma especialização em Expressão Gráfica, oras! Um curso no qual resisti por um semestre inteiro a sequer tentar desenhar, sempre procurando formas de esquivar da prática com o lápis. Terminado o curso, percebo que meu traço evoluiu absurdamente. Isso faz três ou quatro anos e quase nunca pratiquei desde então.
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| "Não exista. Viva!" - http://www.flickr.com/photos/julyrainbow/7113473857/ |
Tudo isso me leva a refletir sobre quão mais fácil é existir do que viver, simplesmente estar ali e de vez em quando fazer o que se tem vontade, isso se não for muita canseira. Fico aqui esperando que outras pessoas entrem na minha vida e me coloquem em movimento, que me ensinem, que me proporcionem aprendizagens. O que eu quero para mim vai ficando em segundo plano. Terceiro. Quarto.
Por mais que me doa reafirmar, ainda estou longe de ser a pessoa que gostaria: alguém que vive. O pior de tudo é saber que essa mudança "tão simples" que almejo para mim não depende de mais ninguém. Eu devo me tornar a pessoa que imagino, viver a vida que desejo e parar de inventar desculpas pelo caminho.
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
A primeira camisinha
Dizem que o primeiro sutiã a gente nunca esquece. Eu não sei, ainda não vesti o meu primeiro, mas tenho certeza que, na sociedade em que a gente vive, vesti-lo provavelmente seria uma situação marcante e inesquecível.
Enquanto eu lia o livro Cem homens em um ano, da Nádia Lapa (sobre o qual escreverei em algum momento futuro, espero que até o fim de semana), um dos relatos que ela faz me chamou a atenção justamente por tratar de um fulano que parava na farmácia para comprar camisinhas e, cheio de pudores, sempre comprava também sabonete líquido como "desculpa" para ter ido à farmácia. Como se transar fosse algo que precisasse de permissão ou, pior, de ser desculpado pela sociedade.
Eu escrevi essa semana sobre o fato de que professores também têm vida sexual. Fiz isso não para dizer "vejam, eu transo" ou "notem, mesmo sendo um professor homem, eu posso namorar outro cara". É muito mais do que isso. Eu escrevi para mostrar, para tornar visível algo que a gente normalmente esquece. Ontem meu coordenador me chamou de vulgar, em tom de brincadeira, por falar abertamente de sexo, pau, bunda e boceta na sala de aula. Mesmo brincando, porém, ser vulgar por falar de sexo demonstra o quanto nós precisamos deixar de nos esconder e de fingir que não transamos ou que não queremos transar.
Essa minha postura é muito diferente da que eu tinha há alguns anos. Lembro-me perfeitamente não do primeiro sutiã, mas da primeira camisinha que comprei. Eu teria um encontro naquela noite (com aquele que viria a ser o meu primeiro namorado, mas não sabíamos disso ainda) e entrei na farmácia meio confiante, meio amedrontado. Fui lá, todo pimpão, crente de que minha noite terminaria em sexo (não terminou). Olhei as embalagens de camisinha, tentando entender as diferenças de cores e nomes e marcas, até que senti o olhar de uma atendente e ouvi as piores palavras que poderiam aparecer naquele momento: "posso ajudar?". Resultado? Peguei o primeiro pacote que estava ao alcance das mãos (daquelas com bolinhas pra estimular o parceiro, sabe?), agradeci e fui imediatamente ao caixa. Não comprei nenhum sabonete liquido (ainda não sabia desses truques!), mas se tivesse algo à venda que reduzisse vermelhidão de vergonha, eu teria levado na hora.
Enquanto eu lia o livro Cem homens em um ano, da Nádia Lapa (sobre o qual escreverei em algum momento futuro, espero que até o fim de semana), um dos relatos que ela faz me chamou a atenção justamente por tratar de um fulano que parava na farmácia para comprar camisinhas e, cheio de pudores, sempre comprava também sabonete líquido como "desculpa" para ter ido à farmácia. Como se transar fosse algo que precisasse de permissão ou, pior, de ser desculpado pela sociedade.
Eu escrevi essa semana sobre o fato de que professores também têm vida sexual. Fiz isso não para dizer "vejam, eu transo" ou "notem, mesmo sendo um professor homem, eu posso namorar outro cara". É muito mais do que isso. Eu escrevi para mostrar, para tornar visível algo que a gente normalmente esquece. Ontem meu coordenador me chamou de vulgar, em tom de brincadeira, por falar abertamente de sexo, pau, bunda e boceta na sala de aula. Mesmo brincando, porém, ser vulgar por falar de sexo demonstra o quanto nós precisamos deixar de nos esconder e de fingir que não transamos ou que não queremos transar.
Essa minha postura é muito diferente da que eu tinha há alguns anos. Lembro-me perfeitamente não do primeiro sutiã, mas da primeira camisinha que comprei. Eu teria um encontro naquela noite (com aquele que viria a ser o meu primeiro namorado, mas não sabíamos disso ainda) e entrei na farmácia meio confiante, meio amedrontado. Fui lá, todo pimpão, crente de que minha noite terminaria em sexo (não terminou). Olhei as embalagens de camisinha, tentando entender as diferenças de cores e nomes e marcas, até que senti o olhar de uma atendente e ouvi as piores palavras que poderiam aparecer naquele momento: "posso ajudar?". Resultado? Peguei o primeiro pacote que estava ao alcance das mãos (daquelas com bolinhas pra estimular o parceiro, sabe?), agradeci e fui imediatamente ao caixa. Não comprei nenhum sabonete liquido (ainda não sabia desses truques!), mas se tivesse algo à venda que reduzisse vermelhidão de vergonha, eu teria levado na hora.
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