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segunda-feira, outubro 14, 2013

Diminuindo o apego aos livros

Eu sou viciado em comprar livros. Não em lê-los, mas em comprá-los. Eu já sabia disso, mas confirmei ontem enquanto separava alguns livros para vender. Inicialmente separei 144 livros para serem colocados à venda. Tenho mais dois emprestados com uma amiga e eles também serão vendidos.

Eu achava que era um grande número, até hoje contar os livros com os quais decidi ficar. Foram 77 mais 4 dicionários. Ou seja, eu aceitei me livrar de dois terços dos meus livros e ainda assim sobraram inúmeros. Li agorinha uma citação que diz "a estante de livros de uma pessoa lhe dirá tudo o que precisa saber sobre essa pessoa". Acho verdade. Os livros que estão sobrando na minha estante dizem muito sobre mim.


Eu não preciso de tantos livros. A maioria deles está na minha vida porque um dia eu considerei que seriam lidos ou necessários. Nem todos eu li. A maioria nunca foi necessária. O que eles dizem de mim, além do óbvio vício de comprar livros, é que tenho medo de deixar as coisas partirem. Ser dono de tantos livros me fornece a sensação de que estarei seguro, de que terei ao que recorrer no dia em que precisar não importa para onde eu ir.

Porque não sabia aonde queria ir.
Hoje eu tenho uma ideia mais clara da vida que quero para mim e ela não inclui uma estante cheia de livros. Não porque eu não lerei mais, minhas visitas à biblioteca estadual provam o contrário, mas sim porque eu não acredito em ser dono de nada. Ser dono é uma ilusão, uma tentativa de controle sobre a vida e a vida não gosta de ser controlada.

Minha meta é chegar a 15 livros para carregar comigo. Parece um número razoável, suficiente para uma prateleira, não o bastante para que eu pague excesso de bagagem. Será uma escolha difícil, agora que estou reduzido a 77 livros separados entre eróticos, sobre escrever, sobre zen e sobre shiatsu. Quando eu decidir um critério para essa safra, volto a falar a respeito. Até porque agora preciso viver a experiência de vender 144 livros.

domingo, outubro 13, 2013

Limpar a casa é agir

Hoje eu e o meu namorado limpamos o meu apartamento. Preciso mesmo dizer o quanto estou me sentindo bem por isso? Acho que descobri o motivo pelo qual limpar minha casa faz com que eu fique tão aliviado: é porque estou fazendo algo pela minha vida.


Estou lendo o livro A arte da não conformidade, do Chris Guillebeau. Jogado na cama, fui absorvendo as ideias sobre como devemos agir para alcançar a vida que desejamos. A palavra central? Agir. Não adianta ficar imaginando e repetindo para nós mesmos que queremos algo. Podemos acreditar piamente que realmente estamos dispostos a buscar algo, mas isso é superconfortável enquanto estamos deitados no sofá. A realidade só nos morde quando chega a hora de fazer alguma coisa.

O problema, na maior parte das vezes, é que essa hora nunca chega. Desculpas para não agir existem aos montes. Jogos novos na internet, livros fantásticos para ler, sexo para animar o dia (e a noite e a madrugada...), filmes e seriados para assistir abraçado... Contudo, nosso tempo é limitado, por mais que não tenhamos noção do prazo de validade de cada um. Um dia, infelizmente, só tem vinte e quatro horas. Desperdiçá-las é uma escolha sem volta.

sábado, outubro 12, 2013

A mulher chorosa e o monge zen

Copiei a história do livro Pocket Zen, do Bruno Pacheco. A imagem foi encontrada na internet, já que eu queria um monge e uma velha. Uma pequena variação do copo meio cheio ou meio vazio, mas que vale muito considerarmos em nossas vidas.


Havia em uma aldeia uma velha mulher conhecida por todos como a "mulher chorosa". Esse apelido foi dado, pois todos os dias, com chuva ou com sol, ela estava sempre chorando. A "mulher chorosa" costumava vender bolinhos de arroz na rua. Todos os dias um monge passava por ela a caminho da aldeia onde ia pedir esmolas. Um dia, ele resolveu parar para conversar.
"Todos os dias, faça sol ou faça chuva, vejo a senhora chorando. Por que isso acontece?", perguntou o monge.
Então ela explicou que tinha dois filhos artesãos. Um confeccionava delicadas sandálias e o outro, guarda-chuvas.
"Quando faz sol, me sinto aflita porque ninguém vai comprar os guarda-chuvas de meu filho e sua família pode passar necessidades. E quando chove, penso no meu filho que faz sandálias e tenho pena porque ninguém vai comprá-las. E ele também poderá ter dificuldade para sustentar sua família", explicou a mulher chorosa.
O monge ficou pensando na história da mulher chorosa enquanto comia um bolinho de arroz. E achou graça.
"Mas a senhora deveria ver as coisas de outra forma. Quando o sol brilha, seu filho vai poder vender muitas sandálias, e isso é muito bom. Ele poderá guardar dinheiro para os dias de chuva. E, quando chover, seu filho que faz guarda-chuvas venderá muitos guarda-chuvas, e isso é também muito bom", disse o monge.
A velha olhou para o monge com um sorriso nos lábios. E, desde esse dia, passou sorrindo todos os dias da vida, chovendo ou fazendo sol. Depois de algum tempo, ninguém a chamava mais de "a mulher chorosa".

segunda-feira, outubro 07, 2013

O amor não serve para nada

Li hoje uma notícia/entrevista sobre um sujeito que só come carne crua há cinco anos. Ele tem uma namorada vegetariana. Um amigo, ao me enviar esse link, comentou como o amor é algo interessante, em muitos casos contraproducente. Afinal, como uma vegetariana namoraria um carnívoro? A minha resposta é simples: ora, o amor não serve para nada.


Calma, eu explico. Acho o amor uma coisa muito fofa e cuticuti, mas tenho a impressão de que a minha abordagem é bem pouco romântica. Amar, pra mim, e já falei isso antes várias vezes (aqui e aqui, por exemplo), é querer e tratar bem, cuidar, dar atenção e carinho, se preocupar. Não tem nada a ver com procurar no resto do mundo alguém que reflita os nossos ideais. Talvez eu até seja um pouco romântico, veja só, porque acho que a gente ama por amar, não para alcançar alguma coisa. No caso da moça vegetariana, qual é o problema, exatamente, em ela namorar um cara que tem a geladeira recheada de carne crua?

Eu não amo todo mundo. Tenho a impressão de que só os sujeitos mais evoluídos espiritualmente conseguem essa proeza que, para ser bem sincero, seria muito útil à nossa existência coletiva. Um mundo em que as pessoas se preocupassem e cuidassem uns dos outros certamente seria um mundo melhor. Ou menos cretino, ao menos. Acho que o título deste texto está errado, afinal. O amor serviria para alguma coisa se fosse universal. Pena que é um enorme se.

domingo, outubro 06, 2013

O que nos impede de agir?

Uma amiga quer transar com um cara, mas não teve coragem de dizer isso a ele. Ela não quer nada além de uma boa trepada com o sujeito, mas se pegou com medo do que ele poderia pensar dela, já que normalmente mulheres não tomam a iniciativa nem assumem que gostam de sexo. Sabemos que essa ideia de que mulheres não tomam iniciativa ou não gostam de sexo é fajuta. Não há nada dado no "ser mulher" que inclua frigidez ou falta de iniciativa. O que nós temos é uma complexa rede cultural ensinando os meninos a desde pequenos pegarem todas e as meninas a ficarem quietas para serem usadas. Como a gente muda isso? Através da educação, da família, das instituições sociais e... da ação. Absolutamente nada funciona como um exemplo mais poderoso do que a ação.

Minha amiga é feminista e tem interesse em lutar pelos direitos das mulheres e contra as opressões de gênero. Mesmo assim, se sente acanhada para agir em nome daquilo que acredita. Ela não é a única. Goethe já nos alertava:
Pensar é fácil, agir é difícil. E colocar nossos pensamentos em ação é a coisa mais difícil do mundo.
Quando fazemos algo que contraria as expectativas ou tradições (o machismo e a heteronormatividade infelizmente funcionam como tradições), podemos esperar algum tipo de reação. Afinal de contas, nós estamos afetando diretamente o modo como outras pessoas enxergam o mundo. Estamos lhes dizendo "não é assim que funciona". Isso dói e a tendência é tentar algo para interromper essa dor. Num mundo ideal, as pessoas assimilariam que seu modo de ver e viver é cruel e machuca outras pessoas e mudariam. Na vida real, as reações costumam ser mais violentas e opressivas.


Refletindo sobre isso, vejo que temos dois impedimentos básicos frente à ação "subversiva". A primeira delas acabei de mencionar, ou seja, a possibilidade de reação alheia. As outras pessoas provavelmente buscarão interferir no jeito que você deseja viver, essa é quase uma certeza da vida. São os guardiões das tradições ou dos próprios privilégios.

A segunda delas é mais complicada: precisamos estar abertos a nossas próprias resistências e limitações. Recusar preconceitos pode implicar deixar de rir em algumas situações que sempre pareceram engraçadas. Lutar contra a tortura de animais pode significar a necessidade de se reeducar e encontrar formas alternativas para se alimentar sem carne. Compreender o próximo pode requisitar que façamos uma releitura de nossas crenças mais profundas.

Em ambos os casos precisamos juntar coragem e, se possível, aliados, para que não precisemos lutar sozinhos. Infelizmente todo convite à mudança é uma luta, primeiro contra nós mesmos, depois contra o restante do mundo, mesmo quando aquilo pelo que lutamos é a paz ou a igualdade. Talvez principalmente nesse caso, aliás.

sexta-feira, outubro 04, 2013

Ciúme não é prova de amor

Quero começar deixando claro que não acredito que namorar com alguém signifique ser dono desse alguém. É uma ideia simples, mas acho que muita gente vai discordar. Por esses tempos namorei com um angry bird que achava um ultraje as pessoas me olharem na rua, como se estivessem trespassando alguma área privada. Eu mesmo já me peguei enfurecido de pensar em algum digníssimo conversando com outros sujeitos. Só depois de muitas fúrias aleatórias é que pensei sobre o motivo disso.

Sempre achei que ciúme fosse prova de amor. Afinal de contas, se tu ama alguém, quer que essa pessoa esteja contigo para sempre, não é mesmo? Não, não é. A não ser que eu esteja entendendo errado essa coisa toda do amor, amar não significa querer estar sempre do lado grudado sem deixar respirar. O nome disso é egoísmo, dependência, posse, ou várias outras coisas, mas não amor.

Amar, da forma que entendo, é querer bem, se preocupar, dar carinho, oferecer ombro, sorrir pelas conquistas, torcer pela felicidade. Não é a toa que ter amor próprio significa fazer tudo isso em relação a si mesmo. Amar não é ver a pessoa realizar aquilo que imaginamos para ela. Amar não é algo eterno, pode mudar de uma hora para outra (as pessoas mudam!). Amar não é justificativa para loucuras (o nome disso é loucura, veja só).


Então o que é o tal do ciúme? Ciúme é um exercício do nosso ego, nossa tentativa (frustrada) de controlar o mundo, geralmente a partir de alguém que a gente ama ou acha que ama. Quando a gente diz "ele é meu namorado", o meu ganha mais importância que tudo e pensamos que podemos controlar como a pessoa respira, para onde olha, o que sente e o que faz. Isso é um problema, especialmente porque no geral as pessoas que namoram firmam um acordo baseado em poucas coisas explícitas. Por exemplo, quase todo namoro é monogâmico, ou seja, uma relação que não envolve sexo com outras pessoas. Por outro lado, quase ninguém define comportamentos relacionados a flertes, conversas com exs e saídas com os amigos.

Uma hora ou outra, porém, o mundo imaginário do namoro perfeito que idealizamos bate de frente com a realidade e a pessoa sofre porque a imaginação era melhor do que a verdade. É nessa hora que nasce o ciúme. Em resumo, o ciúme é o nosso mimimi por o mundo (e as outras pessoas) não serem exatamente como nós queríamos. Se for criança, chamamos de mimada. Se for namoro, dizemos que é ciúme.

Quando a gente sente ciúme, o problema não está na outra pessoa, mas sim em nós e em nossas expectativas. É o nosso mundo que está a perigo, a nossa visão da vida que está sendo ameaçada pela força mordaz da verdade. É possível escaparmos do ciúme? Não sei. Podemos nos libertar das nossas expectativas? Por essas e outras acho que nem todo mundo pode namorar e que devemos pensar menos. Só abrindo mão de nós mesmos, me parece, é que somos capazes de verdadeiramente amar...

quinta-feira, outubro 03, 2013

Pare de pensar tanto

Em dezembro de 2005 conheci um moço que se interessou por mim. Até então eu era não apenas virgem bobinho, mas também completamente alheio ao mundo e sem esperanças de deixar de ser. Já antecipo que essa não foi uma história feliz por uma série enorme de motivos, mas só um deles me interessa aqui: eu não conseguia parar de pensar sobre como existir perto dele.

Provavelmente todos nós já vivemos algo parecido: chegamos a um lugar ou a uma situação a que não estamos familiarizados ou confortáveis e começamos a analisar todas as variáveis possíveis tentando decidir como agir. Será que vai dar certo? Será que vão gostar? Será que não vou fazer feio?

Eu não estava com medo por não saber o que queria. Pelo contrário, eu sabia exatamente o que buscava. Arrisco dizer que no geral a gente tem uma boa noção do que está procurando. O que me paralisava eram as infinitas possibilidades derivadas de cada momento em que eu estava próximo ao rapaz. O que teria feito a diferença naquele momento? Pensar menos.

"Saber e não fazer/agir é ainda não saber"

Eu estava preocupado com tantas coisas, com fazer direito, com dizer as palavras certas, com manifestar o olhar correto, com passar a mensagem exata, com me movimentar de forma interessante, com não o deixar perceber que eu estava com medo etc. Seria tão difícil ser eu mesmo? Naquele momento eu ainda não havia percebido que se a criatura não se interessasse por mim, elaborar mil planos e analisar zilhões de possibilidades dificilmente mudaria alguma coisa.

Ontem uma amiga pediu para que eu lhe falasse mais sobre o zen. Eu fiquei sem palavras. Pensando de novo, acho que foi a melhor resposta possível, já que o zen está relacionado à experiência direta da vida e não com reflexões e conceituações abstratas. Pensar demais no passado ou no futuro nos rouba o momento presente, impedindo a experiência direta. Quando agimos pensando principalmente nos resultados, é a experiência do momento que está sendo perdida.

Prometi a essa amiga que escreveria um texto sobre zen e passei algumas horas perdido olhando para a tela em branco. Eu estava considerando a melhor forma de escrever, sem perceber que o melhor jeito de colocar as palavras no papel é colocando. O saber não faz sentido sem o agir, algo que por sua vez só faz sentido dizer se eu estiver praticando. A mesma coisa vale para mim, que quero ser escritor. Sempre quis, nunca soube como, até que comecei a ser. A porta estava ali aberta para mim, então finalmente passei por ela. Não sei o que vem agora, não sei como agir, o que escrever, quem vai ler, não sei nada disso. Eu posso ficar pensando a respeito e decidindo tudo de antemão (já antecipo que tem um grande potencial de dar errado, não sou tão inteligente assim), ou posso seguir escrevendo.

Nada disso quer dizer que não devemos refletir sobre nossas vidas. Acho que se for pra resumir, podemos colocar assim: é tranquilo parar de vez em quando para pensar, mas não passar a vida pensando sem sair do lugar. Afinal, a vida é movimento.

segunda-feira, setembro 30, 2013

O que é ser gay

"Ser gay é uma condição".
"Ser gay é uma opção".
"Ninguém escolheria ser gay, é claro que se nasce assim".
"Ser gay é pecado, mesmo nascendo assim as pessoas deveriam guardar pra si seus desejos".

Ai, tanta coisa misturada. No meio disso tudo quase ninguém para e reflete sobre o que significa ser gay. É dar o cu, é gostar de pênis, é gostar de cus, é o quê? Há quem diga que ser gay tem mais a ver com ser afeminado (ou masculinizada, no caso das mulheres), o que de longe temos exemplos suficientes para saber que não cobre toda a parcela de pessoas que se atraem por pessoas do mesmo gênero. Opa, mas e agora, é coisa de jeito ou de desejo?


Eu tenho dificuldades com quem procura definir o que eu sou a partir daquilo que eu desejo. Isso por uma razão básica: desejo é fluido. Posso acordar amanhã apaixonado por uma mulher, isso muda a minha identidade ou só o nome que dou a ela? Na vida real não muda nada, mas no mundo dos pensamentos explode dezenas de conceitos.

Vamos além.
Homem, mulher, qual é o limite exato onde um começa e outro acaba? Tem a ver com órgãos genitais, comportamentos sociais ou como a pessoa se entende? São apenas dois? O que acontece com quem sente que não pertence nem a um nem a outro gênero, independente do que o seu corpo diz às pessoas? (Ah, esse corpo fofoqueiro!)

Aí eu amo um homem que nunca esteve contente consigo mesmo porque na verdade se entende como uma mulher. Eu sou gay ou hetero? Ela então passa por toda a burocracia dos infernos e consegue uma cirurgia para reconfigurar seu corpo, dá adeus ao pênis e oi à vagina. Eu ainda amo ela, oras, amo uma pessoa e não meramente um corpo. Meu desejo muda nesse processo? Talvez, não sei. Já li casos em que sim, casos em que não. Agora sou gay ou sou hetero, se a mulher que eu amo não é mais um homem? E ela, que era homem gay e agora é mulher hetero? Ou continua gay porque nasceu como homem? Será que já era hetero, já que se entendia como mulher desde pequena?

Se eu tenho pressa, digo que sou gay. Pressa mesmo, falta de vontade de explicar que uma palavrinha não revela quase nada sobre o que eu sinto por outras pessoas.
Quando não estou correndo, explico que sou uma raposa. Minha melhor amiga costumava dizer que para mim era mulher, mas depois pensou melhor e disse que pra mim é árvore. Nunca senti tesão em árvores, mas tenho o dever moral de avisá-la caso algum dia surja algum, para que perto de mim ela possa ser outra coisa. É nossa forma de determinar que nossa amizade não inclui tesão ou sexo.

As coisas são o que são somente enquanto são. Passageiras, temporárias, fluidas, sem obrigação nenhuma de se submeter às nossas classificações. Compreender isso ou ficar sem entender não faz a menor diferença: a vida continuará sendo o que é, complexa e linda. Bem sabiam os budistas: a tentativa de segurar e controlar a realidade só serve para nos fazer sofrer. (Ou para ajuntamentos políticos, mas essa é outra história.)

sábado, setembro 28, 2013

Sobre ter coragem

Ontem fui jantar com uma amiga que deseja ser ilustradora de livros infantis, mas ela jamais me mostrou um desenho seu. Nós temos isso em comum, de certa forma: por muitos anos guardei apenas para mim meus escritos, com medo de que não fossem bons o bastante para agradarem a opinião alheia.


De onde vem essa coragem de enfrentar o mundo que algumas pessoas parecem manifestar tão naturalmente? Outra amiga é um verdadeiro modelo de pró-atividade, vai e faz o que quer e experimenta o que aparecer enquanto busca seus interesses. Eu tenho inveja dela. Será possível que coragem não seja uma qualidade disponível a todos nós? Ou se todo mundo pode ser corajoso, como se aprende isso? (nunca me ensinaram na escola)

Vejo pessoas tatuadas, por exemplo, e sempre fico refletindo sobre as escolhas que as motivaram a marcar a pele. Eu, todo cheio de dúvidas, não sei se algum dia estarei convicto o suficiente de algo para imprimir em minha pele tantas certezas. Tenho medo de mudar de ideia e ter que conviver com o que fiz, enquanto algumas pessoas estão certas do que querem ou de quem são desde tão cedo, desde tão pequenas. A coragem é uma disposição para agir hoje e no futuro. Hoje porque sem ação a vida não acontece, e no futuro porque tudo gera consequências de algum tipo.

Esse convite à ação eu encontro no zen-budismo, que nos sugere não pensar demais nem passado (afinal, já sei foi) nem no futuro (que vai chegar de qualquer forma), mas se concentrar em viver o presente. Ainda ontem, na janta com minha amiga, talvez tenha surgido uma pista sobre como nós podemos perceber a vida e, assim, ir juntando um pouco de coragem. Quando reclamei que nunca havia recebido um desenho seu, ela me disse "ah, mas eu não sei se tu vai gostar!". Respondi: "eu estou pedindo para ver os teus desenhos, não para gostar deles". Ao que parece, pensamento em excesso é inimigo da coragem de agir.

terça-feira, setembro 24, 2013

Como lidar com a insegurança

Tenho lido muitos livros para escritores e os dois mais recentes, Escrevendo com a alma e Becoming a writer, tocam em um ponto essencial: o sentimento de fraude que acompanha a pessoa que trabalha artisticamente com as palavras. A razão é simples: todo mundo usa a linguagem no dia a dia e já muita gente escreveu coisas magníficas. No fim do dia bate aquela insegurança: será que o que eu faço é bom o suficiente para valer a pena?

Tanto Natalie Goldberg quanto Dorothea Brande tratam nossas dúvidas e inseguranças observando que temos uma parcela da nossa mente dedicada a julgar e censurar aquilo que fazemos. Esse pedacinho de nós é responsável por nos frear, por ficar repetindo "não vai dar certo" bem no cantinho do nosso ouvido. Dependendo da nossa disposição, é capaz de acreditarmos nessa vozinha e desistirmos.


A insegurança é um hábito de imaginarmos um mundo ideal e só agirmos quando temos certeza de que os resultados alcançados serão exatamente aqueles esperados. Geramos tanta expectativa que nos paralisamos diante da primeira resistência oferecida pela realidade. Logo estamos pensando: se é tão difícil e não vai dar certo como eu imaginava, pra que tentar? A verdade é que não há uma boa resposta para essa pergunta, especialmente porque é uma péssima pergunta.

As coisas não precisam ser como nós imaginamos, não é assim que a realidade funciona. Elas só precisam ser como são, o resto é com a gente. A reflexão vem do budismo: nós sofremos porque criamos expectativa de que a vida seja diferente do que ela é. Ah, então tenho que aceitar que sou ruim e não escrever mesmo, né? Não. Esse é o segredo para lidarmos com a insegurança: precisamos mudar nosso hábito de criar expectativas. No meu caso, a prática vai melhorar o meu texto e eu continuarei escrevendo porque acredito que essa é uma arte que dá sentido para a minha existência.

Para acreditar nisso, tenho me forçado a duas coisas:
1. Agir. Não adianta nada eu querer o mundo e ficar em casa jogando, na rua bebendo ou no trabalho vendendo meu tempo. A vida só responde a ações, nunca a pensamentos. Minhas desculpas para quem acredita no "Segredo", mas não adianta só mentalizar coisas positivas. Se não agir, puf, não muda nada.
2. Mudar ideias. Toda vez que me pego pensando que meu texto é ruim ou que ninguém vai publicá-lo ou que eu deveria ter um trabalho convencional ou que ninguém lê mais ou qualquer outra coisa cuja função é simplesmente me colocar para baixo, eu paro e penso: de onde vem essa ideia e para o que ela serve? Quase sempre a resposta é: vem da minha insegurança, do meu eu que faz julgamentos e tem medo de errar, e serve apenas para deixá-lo confortável. Eu não quero que meu lado medroso fique confortável! Eu quero que meu lado raposa, esse lado criativo e emocional que todos nós temos, esteja solto e sadio para viver e experimentar o mundo. Quando essas ideias tentam invadir minha cabeça, então, eu olho para o papel colado na parede dizendo "Escreva!" e obedeço, porque sei que pensamentos são mais fracos que ações e que se algo vai me ajudar a alcançar o que desejo para a vida são minhas ações e não os meus pensamentos.

Eu não tenho uma fórmula mágica para acabar com a insegurança. O que tenho é meu próprio caminho na busca por ser menos refém do meu eu medroso e mais aliado do meu eu raposa.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Praticando o desapego

Há uma grande mudança na vida agendada e para chegar a ela preciso de pequenos ensaios. Ontem, com a ajuda do meu namorado, dei um passo: livrei-me de roupas que não usava mais, que não serviam ou que usava muito pouco. Deixei um pacotão de roupas na rua para que alguém levasse, o que de fato aconteceu. O mesmo com alguns tênis antigos (mas não necessariamente velhos no sentido de acabados).

Ainda tenho muita roupa, muito livro, muito badulaque, muito xerox.
Meu critério está sendo simples: manterei comigo poucas coisas, o resto darei, venderei ou colocarei fora. Deixei separados meus livros em xerox para caso algum amigo queira. Tenho bons materiais, farei uma lista de cada título. O mesmo acontecerá com a maior parte dos meus livros. Meus ursos. Mais roupas. Meus móveis, eventualmente (a geladeira, o fogão, a máquina de lavar e o sofá já estão reservados... talvez uma estante também. Ainda tem a cama e outra estante e um armarinho e umas cadeirinhas e um mochinho e uma outra estantezinha e um criado-mudo com espelho e acho que também uma televisão).

Manterei apenas presentes artesanais, seguindo a sugestão de uma boa amiga. O restante deixará de me acompanhar na vida e passará a estar ao lado de outras pessoas.


O que eu quero com isso?
Ser uma nova pessoa. Ou talvez simplesmente ser, sem o peso de tantas coisas a ditarem quem eu sou ou posso ser.

Não está sendo um processo fácil. Quem me conhece sabe que guardo da vida presentes e memórias na forma de objetos.
Contudo, busco navegar pelo mundo de corpo leve e para isso preciso abrir mão de certas posses. Não sei onde estarei nos próximos anos, sei apenas que um destino está já delineado. Quem tiver interesse em saber datas e locais, basta me perguntar.

Enquanto desapego de desejos e objetos, não perco de vista uma coisa: a chance de ser feliz no presente, de aproveitar as pessoas e, principalmente, os amores. Isso é insubstituível.

domingo, setembro 22, 2013

Uma leitura nada zen

Estava eu feliz e contente lendo meu livro sobre escrita a partir de uma perspectiva zen (Escrevendo com a alma) quando me dei conta que faltava ainda metade do livro. Pensei "nossa, tudo isso!". Em seguida ri de mim mesmo, tão interessado no fim da leitura e tão pouco no processo em si. Onde está o meu zen nisso tudo? Ai, ai...

quarta-feira, maio 15, 2013

Tem horas que ser zen é muito difícil

Esses dias uma humana me disse que entendia a opressão de gênero sofrida pelas mulheres, que achava errado e tudo mais, mas que ensinaria o filho a ser machão, pegador e cafajeste, porque senão outras mulheres iriam fazer gato e sapato dele. Na hora, fiquei completamente sem resposta. Afinal de contas, eu consigo entender por que um filho é mais importante para a mãe do que a igualdade e a justiça social.

Só que eu não sossego. Posso não ter encontrado uma resposta na hora, mas a sementinha do incômodo ficou germinando em mim. Então ontem participei de uma discussão sobre homens que usam saia. De um lado, gente reclamando que acham isso intolerável, inaceitável, nada a ver com as normas do comportamento social masculino. De outro, humanos e raposa defendendo que roupas não deveriam ser base para discriminação. Em meio a essa discussão, um vivente comentou que não iria lutar por algo que ele não acreditasse. Ora, eu não tenho argumentos contra alguém que defende o direito de não lutar, ainda mais por algo que não acredita ser certo.

Hoje as coisas parecem mais claras: nós vivemos centrados nessa ficção de que temos 'eus' bem definidos e desconectados do mundo. Eu aqui, o resto do mundo fora de mim. No máximo uma interação aqui e outra ali, tipo respiração e calor e coisa e tal. Para o zen budismo, tradição filosófica oriental com a qual tenho flertado muito, nós somos parte integrante do mundo, mas nos apoiamos em algumas capacidades (como a memória) e, com isso, criamos uma ilusão de um 'eu' permanente, constante. Essa é uma constatação de mais de dois milênios que continua atual, sendo responsável por muitos dos nossos conflitos, uma vez que inventamos uma ilusão sobre quem somos (separados do mundo) e precisamos aguentar as consequências dessa separação enganosa. Da mesma forma, imaginamos posições e comportamentos ideais com os quais nos comparamos constantemente, produzindo frutos para a nossa insatisfação e infelicidade.

Os dois casos que citei são bastante diversos, mas nascem do mesmo lugar: da crença num 'eu' que deve se sobressair frente ao mundo, que deve se destacar desse mundo. No caso da mãe, a preocupação com o filho e a expectativa que ele tenha um determinado estilo de vida interfere nas suas ações e escolhas frente a esse sujeito. Ao invés de viver o mundo, ela deseja controlar o mundo, o que é em si um engano. Ela é parte do mundo e certamente tem efeito sobre ele, mas é ingenuidade acreditar que as chances de concretizar seu projeto sejam maiores do que as de se decepcionar com as expectativas criadas. A minha mãe, quando pela primeira vez soube que eu namorava um rapaz, disse-me que aquilo não era o que ela esperava ou havia imaginado para mim, mas que ela desejava minha felicidade acima de qualquer outra expectativa que houvesse criado a meu respeito. Sem dar esse nome para as coisas, minha mãe estava sendo zen. À sua própria maneira, ela entendeu que o mundo segue seu fluxo quer nós aprovemos ou não a maneira como as coisas se dão.

Quando um sujeito diz que não lutará por aquilo que não acredita, o que me incomoda não é ele não lutar, mas sim o que, especificamente, ele não acredita. Entendo que não há muito que eu possa fazer a esse respeito: o poder de mudar opiniões e crenças vem da experiência pessoal e de seus afetos. Ainda assim, eu gostaria que as pessoas pensassem diferente. Isso é uma armadilha: eu estou construindo uma expectativa de como gostaria que o mundo fosse. Pior ainda: é uma armadilha ególatra, pois estou querendo que o mundo seja como 'eu' quero.

Parece-me que, em ambos casos, a única solução (aceitável para mim) é agir como julgo correto. Conversar, debater e, na medida do possível, procurar entender. Eles não são eu. Eu não sou eles. Se nada mais, eles são humanos e eu sou uma raposa. Eu posso esperar que também ajam como julgo correto, mas desesperar-me por isso não acontecer seria ingenuidade.

domingo, maio 12, 2013

Um guia para o contentamento

Este texto é uma tradução livre do original, que pode ser encontrado aqui: Zen Habits. Recomendo a leitura constante desse blog maravilhoso.

Muitas pessoas buscam maneiras de encontrar felicidade, mas descobri que contentamento é mais importante que felicidade. Por que contentamento e não felicidade? Algumas razões importantes:

1. Felicidade pode aumentar e diminuir a cada dia (ou momento), mas o contentamento é algo mais estável.
2. Nossa tendência é tentar aumentar a felicidade adicionando coisas (comida, excitação, um banho quente, tempo com um ente querido), mas contentamento é uma habilidade que te permite subtrair coisas e continuar contente.
3. Contentamento pode ser um bom lugar a partir do qual operar mudanças (mudanças e contentamento parecem paradoxais, mas continue lendo).

O que é contentamento? Para mim, diz respeito a estar feliz com quem você é. O que eu não fui por muitos anos e penso que a maioria das pessoas não são.

Na minha vida, aprendi a melhorar na habilidade do contentamento (não estou perfeito, mas já aprendi um pouco). Eu estou feliz com a minha vida. Eu estou feliz com onde estou profissionalmente e não procuro aumentar meu número de leitores, de acessos na página ou de renda. Estou feliz onde quer que esteja. Enquanto muitos podem dizer "claro, você pode dizer isso agora que alcançou um certo nível de sucesso", eu discordo. Muitas pessoas que alcançam sucesso não estão contentes e são sempre movidas a desejarem mais, ficando infelizes consigo mesmas. Muitas pessoas que são pobres e não têm uma "carreira de sucesso" também encontraram contentamento. Aliás, acho que haver encontrado contentamento me direcionou para qualquer sucesso que encontrei – ajudou-me a sair das dívidas, ajudou-me a mudar meus hábitos, tornou-me um marido melhor, pai, amigo, colaborador e até mesmo escritor.

O pior de tudo com essa atitude de "você pode estar contente porque você é bem-sucedido" é que essas pessoas estão deixando para depois o caminho do contentamento... quando é algo que pode ser feito agora mesmo. Não depois, quando você alcançar certos objetivos ou um certo nível de sucesso financeiro. Agora. Vamos olhar para o caminho do contentamento, como é um bom lugar para mudanças de hábitos e começar a percorrê-lo!

O caminho do contentamento

Nós começamos a vida acreditando que somos o máximo. Nós dançamos em público com cinco anos de idade e não nos preocupamos com o que os outros pensam de nós. Quando nos tornamos adultos, isso foi tirado de nós por colegas, pela família, pela mídia e por situações embaraçosas. Como adultos, nós temos dúvidas acerca de nós mesmos. Nós nos julgamos em excesso. Nós somos críticos acerca de nossos corpos, de nós enquanto pessoas, de nossa falta de disciplina, de nossas falhas. Nós não gostamos de quem nós somos.

Como resultado, nós tentamos melhorar esse eu cheio de falhas. Ou nós duvidamos da nossa habilidade de melhorar e somos infelizes. Ou sabotamos nossas tentativas de mudanças, pois não acreditamos realmente que possamos alcançá-la. Esse auto-desgosto resulta em relacionamentos piores, uma carreira estagnada, infelicidade com a vida, reclamações acerca de tudo e, muito frequentemente, hábitos não saudáveis como comer junk food, beber demais, não fazer exercícios, comprar em excesso e ser viciado em jogos ou na internet.

Então, qual é o caminho para estar contente consigo e com a sua vida? O primeiro problema é que você não acredita em si mesmo. Essa é uma área importante para se trabalhar. A sua relação consigo mesmo é como a sua relação com qualquer outra pessoa. Se você tem um amigo que constantemente está quebrando a sua palavra, não aparecendo quando diz que vai aparecer, eventualmente você vai parar de confiar nesse amigo. Acontece assim com você também. É difícil ser alguém em quem não se confia e é difícil de gostar de você se não se pode confiar em si próprio.

Então trabalhe essa confiança em você mesmo (alguns passos práticos para isso estão abaixo). Aumente-a lentamente e eventualmente você confiará em si mesmo para ser ótimo.

O segundo problema é que você se julga mal. Você se compara com uma imagem ideal em todas as áreas. Você quer um lindo corpo de modelo. Você quer alcançar certos objetivos, pessoal e profissionalmente. Você quer viajar pelo mundo e aprender músicas e aprender a tocar um instrumento musical e ser um cozinheiro ótimo e ainda ter uma vida social maravilhosa e encontrar um marido ou uma esposa perfeitos e ter filhos e conquistar coisas maravilhosas e ser a pessoa mais saudável do planeta. Claro, esses são ideais completamente realistas, não?

Quando nós temos esses ideais, nós nos comparamos com eles e sempre nos sentimos mal.

O caminho para o contentamento, então, é parar de se comparar com esses ideais. Pare de se julgar. Livre-se desses ideais. Gradualmente aprenda a confiar em você mesmo.

Mudando hábitos e contentamento

Antes de falarmos sobre os passos práticos, vamos falar sobre contentamento e mudança. Muitas pessoas pensam que se você está contente, simplesmente ficará deitado na praia fazendo absolutamente nada. Por que fazer algo se você está contente com o modo como as coisas estão?

Na verdade, o contentamento é um lugar melhor do que a infelicidade para começar a realizar mudanças acerca de quem nós somos. A maioria de nós é movido pela necessidade ou desejo de melhorar quem somos, de consertar certas coisas que não gostamos sobre nós. Enquanto isso certamente pode ser um lugar para direcionar mudanças, não é um bom lugar para começar com esse tipo de mudanças.

Se você sente que há algo errado com você e que precisa ser melhorado, você será impulsionado a melhorar, mas você pode ou não alcançar sucesso. Digamos que você falhe na sua mudança de hábito. Então você começa a se sentir pior e entra numa espiral em que a cada vez que tenta melhorar, você falha, se sente pior sobre si mesmo e continua descendo. Você começa a sabotar as suas próprias mudanças, pois você não acredita de verdade que pode fazê-las. Baseado em evidências anteriores, você não confia que é capaz de fazer isso, o que só o faz se sentir pior.

Isso se você falhar. Digamos que você obtenha sucesso e realmente se dê bem. Então você teve sucesso – quem sabe você perdeu peso e não se sente mais tão mal acerca de seu corpo. O que acontece é que se você começa nesse posicionamento de consertar a si mesmo, você continua procurando pelo que está errado com você, o que mais você precisa melhorar. Então talvez você sinta agora que não tem músculos o suficiente, ou suas entradas no cabelo não são bonitas, ou se não é a respeito de seu corpo, você encontrará outra coisa.

Esse é um ciclo que nunca acaba durante toda a sua vida. Você nunca alcança. Se você começa num posicionamento de melhorar a si mesmo e se sentindo preso, mesmo que você constantemente tenha sucesso e melhore, você sempre estará procurando a felicidade em fontes externas. Você não encontra a felicidade em si mesmo, então procura-a em outros lugares.

Se você estiver procurando a felicidade fora de si, é mais fácil encontrá-la na comida, nas compras, nas festas e no excesso de trabalho do que tentar ser feliz.

Se, ao contrário, você consegue encontrar contentamento dentro de si e não em fontes externas de felicidade, então você terá uma fonte confiável de felicidade. Penso que é um lugar muito melhor para estar do que confiar e necessitar de fontes externas de felicidade.

Muitas pessoas imaginam: "se você encontra contentamento, você não ficará simplesmente jogado na praia, não melhorando o mundo, não fazendo nada?". Eu penso que essa é uma incompreensão do que contentamento é.

Você pode estar contente em simplesmente ficar dormindo o dia todo, mas também pode encontrar contentamento em ajudar os outros. Você pode estar contente e cheio de compaixão pelos outros e querer ajudá-los. Você pode ser feliz com quem você é e ao mesmo tempo ajudar as pessoas e diminuir seu sofrimento. Dessa forma, você pode oferecer a si mesmo para o mundo e fazer grandes obras para o mundo, mas não necessariamente precisa disso para ser feliz.

Mesmo que por alguma razão seu trabalho seja tirado de você, você ainda terá o contentamento interior.

Passos práticos para o contentamento

A questão é como chegar lá. Como deixar de estar infeliz consigo mesmo e tornar-se contente. O caminho envolve aprender algumas habilidades cruciais:

1. Construa sua autoconfiança. O único modo de consertar a sua falta de autoconfiança é através de pequenos passos. Se seu amigo com o qual você não pode contar deseja reconstruir sua confiança nele, o modo certo de fazê-lo não é dizendo "agora confie-me com a sua vida". Ao invés disso, é melhor começar essa reconstrução com pequenos passos. Faça pequenas coisas e perceba a confiança crescendo. Com o tempo, você estará aberto a confiar mais e mais.

No geral l que faço para construir confiança é começar com pequenas coisas que eu tenho certeza que posso fazer. Beber um copo de água por dia é um exemplo fácil. Se eu quero beber mais água, então eu organizo uma série de lembretes para beber um copo d'água quando quiser acordar. Se você conseguir manter isso por uma ou duas semanas, isso ajuda a confiar em si mesmo. Muitas pessoas tentam mudar coisas difíceis, falham e então a autoconfiança se perde. Comece com coisas pequenas.

2. Perceba os seus ideais. Outro problema em encontrar contentamento é que nós estamos constantemente nos sentindo mal acerca de nós mesmos porque a realidade não condiz com os ideais que mantemos. Esse ideal pode vir da mídia, de revistas ou de estrelas de cinema. Ou simplesmente de uma ideia de o quão perfeitos nós deveríamos ser a respeito de nossa produtividade ou aparência.

A verdade é que a realidade sobre nós mesmos não é ruim, é apenas ruim em relação com o ideal que você tem sobre si mesmo. Quando nos livramos desse ideal, somos deixados com a realidade, que então pode ser julgada como perfeitamente ótima. Na realidade, você é um ser humano único que é belo à sua própria maneira. Então pergunte-se se está se sentindo mal por quem você é ou por como você fez algo. Se sim, é por causa dos ideais. Reconhecê-los envolve percebê-los. Perceba os seus ideais.

3. Abandone seus ideais. Assim que você perceber seus ideias, você precisa parar de se comparar com eles. Livre-se deles. A única forma de abandonar um ideal é percebendo a dor que ele causa a você mesmo e então se livrando dele. Observe a dor. Tenha compaixão de si mesmo e pare de se machucar por meio desse processo de se comparar com ideais.

sábado, maio 04, 2013

Apaixonar-se não é garantia de felicidade

Tenho um amigo que, em uma noite de outono, conheceu um rapaz numa boate e se apaixonou por ele. Era tudo que ele queria: um cara gentil, amável, bonito e com uma vida profissional promissora. Como o moço morava em outra cidade, combinaram se ver quando conseguiam e a vontade foi crescendo. Para resolver os problemas, meu amigo mudou-se para a cidade do moço que lhe roubara o coração e passou a morar com o dito rapaz.

Parece filme na sessão da tarde: carinha conhece alguém, apaixona-se, sofre, conquista e vive feliz pra sempre. Essa fórmula, repetida à exaustão, pode ter nos levado a acreditar que ela funcionará assim na vida real. Desculpem-me quebrar essa expectativa, mas isso não é verdade. A gente cresce acreditando no amor romântico e em suas promessas reforçadas pelos filmes de amor docinho, mas a realidade tem a mania de nos passar a perna.

Um dia, meu amigo acordou e tinha ao seu lado alguém diferente daquela pessoa pela qual se apaixonara. Na verdade, era a mesma pessoa, mas não era a mesma pessoa. Algo ali havia mudado. Meu amigo foi rápido em detectar o problema: seu namorado não o procurava mais para o sexo, andava cansado, reclamava disso e daquilo etc. O problema obviamente é o tal namorado que mudou, não é mesmo? Não, não é.

Paixão animais

O que significa apaixonar-se?

Quando nos apaixonamos por alguém ou alguma coisa, é como se todo o resto perdesse a importância. A mera presença do alvo de nossa paixão já nos completa. Apaixonar-se é encantar-se, é estar sob efeito de um feitiço que nos faz querer estar perto, conviver e compartilhar. Estar apaixonado não é amar, querer bem, ter vontade de cuidar. Estar apaixonado é um sentimento egoísta de querer para si, de ser atraído independentemente do bom senso.

A paixão é viciante: quanto mais do que nos enfeitiça nós ganhamos, mais nós queremos. Se não recebemos, corremos atrás. Por outro lado, quanto mais temos, mais precisamos, ao ponto que um dia o efeito perde-se de nós. Um dia acordamos para descobrir que aquela mágica que nos prendia a outra pessoa deixou de estar ali.

O que acontece quando a paixão acaba?

A resposta a essa pergunta depende do que foi construído enquanto ela existia. Isso varia de pessoa para pessoa, relação para relação. Alguns se jogam no encanto e largam suas vidas para se alimentar ao máximo e exclusivamente da paixão. Outros são cautelosos, até mesmo resistentes. Há um jeito certo de lidar com essa magia de apaixonar-se? Não. Algumas vezes descobrimos, depois que o feitiço passou, que realmente gostamos daquela pessoa. Algumas vezes nós a amamos. Outras vezes, porém, descobrimos que sem o efeito mágico aquela pessoa não se encaixa em nossas vidas.

A paixão é, como todas as coisas, passageira. O que fica após o seu término é mais ou menos a mesma coisa que havia antes dela surgir, somada e subtraída pelas mudanças vividas no processo. Nenhum relacionamento, seja ele com uma pessoa ou uma ideia, passa por nós sem deixar marcas, sem alterar o nosso caminho mesmo na mais ínfima proporção. Em meio a esse turbilhão confuso que envolve ser alguém e viver, cabe a nós conhecermos quem somos e o que queremos para as nossas vidas.

A felicidade depende do quê, então?

De nós mesmos, única e exclusivamente. Sei que é difícil acreditar, afinal, foi outra pessoa que lançou um feitiço sobre nós! Contudo, a verdade é que nossos amores começam e terminam dentro daquilo que nós somos. O contato com o outro pode aumentar, diminuir ou modificar o que sentimos, mas apenas em função de nossa percepção sobre este contato. O que sentimos e desejamos conversa com o mundo, não depende dele.

O budismo apresenta quatro nobre verdades: (1) o sofrimento é parte da vida, da doença e da velhice; (2) a origem do sofrimento é o nosso desejo e anseio pelas coisas; (3) para livrarmos do sofrimento, devemos nos desapegar destes desejos e anseios; (4) o caminho para esse desapego passa por comportamentos 'corretos', ou seja, justos, cheios de compaixão etc. Meu interesse está na segunda e terceira verdades: o nosso apego ao desejo de que as coisas sejam diferentes do que são. No caso do fim da paixão, desejamos que as coisas continuem do jeito que eram antes, que nossos sentimentos voltem a ser o que eram. Com muita frequência, nós culpamos a outra pessoa pelo esvaziamento das nossas sensações.

De quem é a culpa, afinal? 

Penso que encontrar culpados não seja a resposta. O que precisamos entender é que apaixonar-se não é garantia de felicidade, mas também não é algo a ser evitado. A paixão é como uma chama atraindo a nossa atenção: sua luz nos mostrará coisas que não veríamos sem ela. Cabe-nos continuar nossas vidas sem nos jogarmos ao fogo, aproveitando a sua luz e o seu calor. Se o fogo se apagar, talvez seja o momento de acender outras chamas ou de procurar outras luzes para nos atrair. Ou, quem sabe ainda, o verdadeiro trabalho envolva não deixar o fogo se extinguir.

A paixão – e o fogo – não são garantias de nada. Eles são parte da vida, meramente. O que faremos com eles depende do que queremos fazer com as nossas vidas. Para alguns, a resposta é alimentar o fogo e a paixão com tudo o que estiver ao alcance, inclusive com o próprio corpo e a própria vida. Para outros, um fogo, uma luz e um calor não são suficientes. Para outros ainda, o fogo é algo cujo calor deve-se aproveitar enquanto queima, não mais, não menos.

Para a vida – e para as paixões – não há respostas. Elas dependem de quem nós somos naquele preciso instante em que os eventos da vida acontecem. Só há uma constante para a vida: a mudança é a regra. Se não aceitarmos isso, estaremos condenados a viver de passados e chamas apagadas, o que é garantia de infelicidade.

quinta-feira, maio 02, 2013

Buscas opostas

Eu ando aprendendo e me envolvendo com a filosofia do zen budismo.
Eu ando aprendendo e me envolvendo com os processos de coaching.

Alerta, sirenes, barulho! Alguém levanta a mão e avisa: "raposa, são caminhos diferentes!". Sim, caminhos diferentes, mas para chegar ao mesmo lugar. De um lado, temos a busca por aproveitar a vida pelo que ela é, extrair completude e contentamento daquilo que temos. De outro, temos uma busca baseada em metas e técnicas de conquista. O resultado é o mesmo para ambas: melhorar a vida. É possível trabalhar com esses lados opostos e ainda assim apreender algum sentido disso tudo?

"Vá e pegue aquilo que te serve" até agora foi o melhor conselho que recebi a esse respeito. É engraçado isso: quando meu barquinho encontra seu rumo, algo novo e cheio de ondas aparece. Tem sabor de estar vivo, um sabor misterioso, mas sempre preferível à falta de paladar.
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