sábado, janeiro 14, 2012

Águas paradas


Existe um lago na OSU chamado Mirror lake, e com o frio ele começou a congelar. Eu, que nunca tinha visto um lago congelado, saí cutucando o gelo. Uma menina passante ficou espantada ao descobrir que eu nunca havia visto nada semelhante, perguntou de onde eu era e disse para que eu esperasse mais um pouco, pois então seria possível patinar no gelo.

Aos poucos, vou me acostumando com o que ainda não sei e aprendendo a fazer parte de uma cultura. Já não preciso de mapa para o ônibus acadêmico - mas não circulo muito na cidade -, e até consigo entender como funcionam os caixas de autoatendimento em supermercados. Quase como quem não quer nada, vou aprendendo. A diferença é que eu quero quase tudo.

Dinossauro


Essa foi ainda em Chicago, ainda no Field Museum. Após insistência, aceitei posar pra foto. Não tenho nada moralmente contra pessoas que tiram foto de si mesmas nos lugares famosos e colocam no Facebook, mas particularmente não é o que mais me atrai. Ando reservado imageticamente nesses últimos tempos. Será o frio?

Uma raposa em Chicago


No Field Museum, linda e empalhada, a raposinha vermelha ficava pedindo uma foto. Ei-la!

It gets better, parte 2

Esta postagem é uma continuação do que eu comecei outro dia. Basicamente, a forma como nos comportamos socialmente é uma declaração política. Pode ser silenciosa, na medida em que você está colaborando, compartilhando ou corroborando algo que já exista, já seja a norma, já seja normal. Ninguém precisa falar nada para declarar que é heterossexual, branco, classe média, tem uma esposa, dois filhos e um cachorro. Ao não dizer essas coisas, você está remarcando seu território. Ele já é seu, mesmo, tanto seu que nem precisa ser defendido.

Um homem afetado também está fazendo um ato político. Ele está errado. Não pelo jeito que ele é ou age, mas pelo contexto no qual está inserido. Na sociedade em que fomos criados, homens são poderosos, fortes, mal cheirosos e donos das mulheres. Coçam o saco em público e fazem isso porque podem, porque querem e porque é assim que sempre fizeram.

Quando meus colegas me respeitam por ser queer e ainda assim um cara de caráter, tem algo muito perverso em andamento, mas também algo positivo. Isso só é digno de nota porque eles não esperavam que um sujeito transviado pudesse ser competente ou estar numa posição de poder. É positivo por eles estarem vivenciando um exemplo de algo que não é comum para eles e que, tomara, faça alguma diferença. Não que eu ache que vá fazer. Esse é o problema do estereótipo: quando conhecemos alguém que escapa dele, esse sujeito se torna um indivíduo, mas o estereótipo permanece intacto para todos os outros que não conquistaram o mesmo privilégio. Basicamente, eu fui um viadinho que ganhou o direito de ser chamado pelo nome. Contudo, o ser viadinho não deixou de ser importante. Aí entra a questão de quem pode falar, quem tem o alegado direito de nomear. Eu só ganhei direito de voz - se é que ganhei - depois que o apesar de ser queer foi deslocado do primeiro plano.

Essa é a grande questão por trás desses projetos do It gets better. Algo acontece conforme a gente vai se afastando da escola: aos poucos, começamos a aprender que identidades são fluidas e que orientação sexual é apenas um pedacinho do que a gente faz. Embora sexo seja uma grande coisa na escola, o que faz sentido pela falta de experiência e excitação hormonal envolvida, aos poucos outras preocupações e ansiedades vão ganhando importância. As pessoas se tornam mais do que quantas tu pegou ontem?, ainda bem! Isso é particularmente positivo quando a tua resposta é sempre zero, já que tu estava muito mais interessado em outros corpos do que os que tu poderia falar pros amiguinhos. Ou, em casos como o meu, quando a pessoa era basicamente assexual.


sexta-feira, janeiro 13, 2012

Sobre o que eu pesquiso?

Essa é uma questão que surge com frequência no meio acadêmico. Tão logo alguém descobre que sou um mestrando, zap, querem saber o que eu estudo. Acho que faz todo sentido, já que estou me dedicando a um tema já tem quase dois anos. Estou interessado em investigar discursos sobre homossexualidade na educação (de artes visuais) (a distância), buscando entender quais as implicações (para os estudantes-prováveis-futuros-professores) em se relacionar com essa temátaica.

Como? Bem, em janeiro e fevereiro do ano passado ministrei cursos de extensão sobre sexualidade e educação. Essa experiência foi extremamente significativa para mim, não só como a primeira prática docente, mas também como o momento em que realmente pude perceber as distinções existentes entre tratar sobre sexualidade apenas teoricamente e estar inserido no mundo. Cada estudante trazia um exemplo, uma situação, um conflito já vivido e para os quais eu não tinha respostas. Acho válido deixar claro que a falta de resposta não adveio necessariamente de incompetência ou falta de experiência: eram situações únicas a serem pensadas e tratadas especificamente.

Minha escolha metodológica foi a de não oferecer nenhum tipo de resposta ou indicação do que fazer. Ao invés disso, procurei sistematicamente questionar e alfinetar os participantes do curso, de modo a explorar o que cada um entende por sexualidade e como constroi os seus entendimentos. Já de antemão, algumas percepções: um mês a distância é um tempo muito curto para tratar de um tema que é tão ignorado na formação escolar e universitária. Como esperar que esses sujeitos possam tratar de algo que têm medo, vergonha ou que pensam ser imoral?

Discursos sobre homossexualidade na educação, esse é o meu interesse atual. Conforme me aproximo do fim da dissertação e da experiência do mestrado, outros projetos e desejos começam a pedir licença para participar da minha vida. Eu sei que ainda não terminei essa etapa, mas o gostinho da conclusão de mais uma etapa vem se oferecer aos poucos...

O diabinho do capitalismo

Conforme comentei em uma postagem anterior, estou vivendo nos Estados Unidos. Para chegar aqui, precisei comprovar à secretaria de imigração (e à universidade) que eu teria condições financeiras de me sustentar durante esse período. Basicamente, um sujeito para estar aqui precisa provar que terá em torno de mil dólares por mês. Vale contabilizar o que ainda não se tem, mas que se pode indicar que terá, como salários vindouros. Então eu entrei em um regime de contenção de gastos e comecei a trabalhar um bocado mais do que de costume, para juntar o tal do dinheiro. Deu certo. Nesse processo, fui acompanhando mês a mês os números da minha conta bancária subirem e os custos do meu cartão de crédito diminuírem. Conforme eu terminava de pagar meu novo netbook ou meu telefone, o peso foi aliviando. Aí eu chego nos Estados Unidos e descubro que um Kindle custa $ 99 e que um iPhone custa $ 199 (mais o plano obrigatório de dois anos que os safados impõem aqui). E logo me descubro querendo essas coisas!


Eu já gastei alguns dólares em livros. OK, livros, cultura etc. Não é bem por aí, se eu não mudar algo drasticamente na maneira como levo minha vida, esses livros servirão apenas para impacto visual na minha estante. Por mais que eu goste de ouvir "nossa, como tu é culto, olha a quantidade de livros" quando alguém chega na minha casa, não paga o preço e certamente não vale as horas que eu vendi do meu tempo para efetivamente obter esses danadinhos - mesmo que a preços módicos.

Essa é a grande questão, aqui. É tudo tão mais barato do que estou acostumado, portanto é fácil pensar "ei, mas quando eu vou encontrar esses preços de novo?". Aí cogito novo computador, novo celular, um tablet, um e-reader (pois vem com a tecnologia do e-ink, que aliás é realmente muito legal) etc. E o dinheiro para pagar tudo isso, onde está? E o meu uso para essas coisas, que será só de manter caixinha na gaveta?

Logo que cheguei aqui, comprei uma câmera fotográfica. Coisa simples, point and shoot, uma Canon modesta e sem maiores pretensões. Ela já resolve minha vontade de registrar momentos visuais. Detalhe: meu celular também faz isso e com alguma competência. Quem está sempre comigo, o celular ou a câmera? Ela está lá enfiada no meu escritório, e hoje, quando quis fazer uma postagem sobre Chicago, descobri que precisarei esperar a fim de que minhas próprias imagens acompanhem o texto.

Existe tanta coisa que eu posso obter de graça numa biblioteca, na internet, na casa dos meus amigos. Ainda assim, eu quero ter isso tudo. E não, não estou dizendo que vou parar de comprar coisas... Apenas é uma questão de pensar antes, ver se vale a pena, ver se eu vou de fato usar. Já decidi: não comprarei um e-reader enquanto não estiver de volta ao meu ritmo antigo de leitura. Tenho vários livros em casa para ler, por que arranjar um dispositivo que me permitirá ler muitos mais? Para acumular? Vou aproveitar esse meu (breve) momento de lucidez e dizer "não, obrigado".

It gets better

É daquelas coisas que eu não paro muito para pensar. Sou assim, feliz e saltitante. Viadinho, bixinha, cara alegre, essa mistura de movimentos (que tentam ser) graciosos e afetação (algumas vezes até histriônica). Ia dizer que nunca me foi um problema, o que obviamente é uma mentira, por causa do tal do bullying na escola, que acontecia bem antes de eu ser, ou agir, tudo isso.


Não é sobre a escola e suas pressões que eu desejo comentar agora. Foi um período difícil, todo mundo sabe, mas eu sobrevivi e atualmente consigo lidar muito bem com isso. Certo, eu ainda atravesso a rua se algum ex-colega estiver vindo na minha direção, mas se não houver escapatória, eu até que dou conta de ser um sujeito social e superar minhas fobias. É até engraçado como eu mudei, de lá para cá, mas esse não é o foco deste texto.

Estive conversando com um ex-colega de trabalho e ele se pôs a comentar o quanto meus colegas me respeitavam no serviço. Eu sempre acho esse tipo de comentário suspeito, nunca aprendi a confiar em elogios. Acho que é parte daquele estigma que a gente carrega de termos que carregar humildade para todos os cantos, e portanto elogios são desafios a essa missão. A verdade é que eu sou um ótimo trabalhador e costumo ter sucesso tanto em fazer o que sou contratado quanto para me relacionar com as pessoas. Aí meu ex-colega comenta que apesar do meu jeito queer, todos me respeitavam. Que eles, apesar de serem machistas inveterados, me admiravam como uma pessoa de personalidade.

Não acho improvável que minha qualidade fosse aprovada e respeitada, tampouco que isso fosse apesar de como eu ajo ou deixo de agir. Não poucas vezes eu fui o sujeito a rir dos outros e, ao mesmo tempo, respeitar determinadas características. Fico pensando, apenas, se o eu do ensino médio teria sido capaz de lidar com essas risadas tão bem quanto eu consigo. Ainda não aprendi a lidar com desrespeito, isso é fato, mas pelo menos eu já não tenho mais dúvidas de quem eu sou (estou), tampouco do que eu posso fazer. Por mais que eu desaprove a ideia geral por trás da campanha, sou obrigado a dizer que it gets better.

O poder das imagens


Estou aqui pensando sobre meu projeto de doutorado. Ele está mais ou menos redondinho, agora que consegui finalmente tirar da cabeça a necessidade de ser coerente entre todos os passos que eu der na minha carreira profissional-estudantil. Não que eu tenha como reverter a promiscuidade intelectual que já me marca: jornalismo, design gráfico, cultura visual, revisão de língua portuguesa... Penso atualmente em me bandear para os lados da antropologia cultural, especialmente se meus futuros estudos mostrarem que essa área pode abraçar minhas atuais preocupações. Isso levanta duas questões:

1) Encontrarei um programa de pós-graduação que me/se permita transitar por entre áreas e estilos? Estou ciente de que quanto mais afastado das artes, mais difícil de encontrar essas liberdades, porém não sei se suportaria quatro anos preso a um tradicionalismo que já não faz sentido com o que acredito e defendo. Contudo, não me vejo mais escrevendo "objetivamente" na terceira pessoa do plural, tampouco desvendando verdades. Além disso, tenho um problema prático: com formação em áreas diferentes, a possibilidade de fazer concursos e me tornar um professor de universidade federal diminuem consideravelmente.

2) Poderei discutir o que me interessa, sendo que isso envolve sujeitos jovens e seus corpos? Precisei pensar bastante antes de postar essa imagem aqui na Raposa Antropomórfica, pois não sei se ela já não pode ser considerada pornográfica e, portanto, significar a perda do meu endereço virtual. Ainda não vou explicitar meu projeto, pois apesar dele estar razoavelmente bem delineado, desejo estudar mais a respeito, para que minhas decisões estejam bem informadas.

O que colocar no currículo

Estou assistindo a uma aula que chama Postioning Passion, cujo foco é bem específico: como se posicionar profissionalmente na área que diz respeito à sua paixão. Sendo uma aula para o campo das artes, hoje discutimos sobre auxílios financeiros e, também, sobre currículos. A grande questão motivando a aula toda foi: com que informações preencher o danado?

Eu não sou nenhum especialista, mas já tive a oportunidade de fazer alguns currículos por aí. Como acadêmico, eu tenho a vantagem do Lattes, que padroniza essas informações e evita que cada pesquisador tenha uma forma absolutamente distinta de se apresentar. E quem não é acadêmico, como faz? Bem, creio que existem algumas dicas que devem funcionar para qualquer caso. A primeira e mais evidente é: pesquise antes para onde seu currículo será enviado. Isso é realmente o básico para qualquer coisa que formos fazer, pois se tivermos informações de antemão, construiremos algo mais específico. Aquela coisa básica, se tu tem experiência na área da empresa que está recebendo teu currículo, não precisa nem pensar duas vezes antes de mencionar e dar destaque para essa informação.

Ah, posso mencionar também que eu danço Hip Hop? Essa informação pode ser útil em alguns contextos, mas geralmente os currículos representam a forma como o sujeito está se apresentando. Infelizmente, essa apresentação costuma ser breve e rasteira. Em poucas palavras, eu, empregador, preciso saber que a pessoa representada por esse pedaço de papel é competente para exercer as funções pelas quais eu pagarei. Então talvez não seja tão importante saber o que a pessoa sabe fazer com seu corpo, quando a vaga em questão é de telemarketing.

Porém, não sejamos deterministas! Meu primeiro trabalho foi em uma editora, e como não tinha experiência nenhuma, coloquei que estava fazendo faculdade (jornalismo), que sabia operar alguns programas de computador (inclusive o requisito para a vaga de editoração) e quais idiomas dominava ou estava estudando. Meu futuro chefe me elogiou consideravelmente pelo interesse em línguas, o que pode ter sido determinante para que ele advogasse em meu favor frente à diretoria. Aí fica a questão: quem lerá o nosso currículo será (quase) sempre uma incógnita. É uma aposta baseada no que pensamos que o leitor achará positivo. Algumas vezes a gente acerta!

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Eu sou um turista

Há três semanas, eu moro nos Estados Unidos. Sou um acadêmico convidado pela Ohio State University para pesquisar aqui e estabelecer relações internacionais. Sou, também, um alien para a instituição, ou ao menos foi assim que eles me classificaram oficialmente. Não que eles precisassem de qualquer coisa para fazer com que eu me sentisse ainda menos pertencendo a esse espaço. Sou um turista cujo domínio da linguagem não é suficiente para que eu seja percebido como igual. Se no Brasil essa mesma característica usualmente eleva os visitantes, salvo se forem do mesmo continente, aqui ela nos deprecia. Eu, brasileiro, preciso que falem comigo devagar, que dediquem a se fazer entender e, principalmente, a decifrarem o que eu estou falando. Necessito que tenham paciência em me ouvir de novo e de novo.

Ainda assim, eu sou um acadêmico convidado, o que me coloca numa posição de destaque e de exigência. Eu sou especial, na medida em que posso assistir a aulas e discutir com professores, mas não especial o bastante para realmente influenciar nesses acontecimentos ou ser ouvido. Não estou aqui por alguma qualidade inerente ao meu trabalho, mas sim para cumprir protocolos acadêmicos entre instituições e personalidades que estão acima de mim. Obviamente, isso não significa que não posso colher frutos dessa vivência.

Isso tudo está confuso, eu sei. Como alguém que não pertence a esse cenário, posso perceber de modos diferentes do que o faria se estivesse conformado e inserido. Essa é uma vantagem do meu ponto de vista teórico. Ainda assim, é incrivelmente frustrante ser reconhecido por uma das características que sempre considerei das menos importantes: minha nacionalidade.

Fica a questão: o que posso fazer para que esse deixe de ser um marcador a me acompanhar? Ou: o que posso fazer para que esse marcador se torne um ponto positivo, ao invés do que ele atualmente é?
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