terça-feira, junho 25, 2013
Aquela xícara de chá
Enquanto eu escrevo furiosamente – mas sem fúria nenhuma, apenas furor –, tu me observa ora de canto de olho, ora do canto da sala. Tu me sabe, entende que esses momentos não são de ninguém, não são de nós e certamente não são de mim mesmo. São do texto, das letras, da imaginação poética. Envolvido e encantado, demoro a perceber que tu já não está mais ali no canto a me esperar. Eu entendo, o amor às letras é tão antigo, tão de infância que não há como lutar contra ele, que está lá desde que me reconheci pela primeira vez. Algumas vezes adormecido, mas jamais esquecido. Como confrontar algo que é tão antigo quanto a minha identidade? Tu não é o primeiro a desistir, a ceder frente à impossibilidade de superar esse amor antigo. Daí que me assusto quando te noto ao meu lado. Não tinha fugido? Não, tinha ido fazer o que faz de melhor: com uma xícara de chá quentinho nas mãos, estava ali a cuidar de mim. Pelo jeito tu sabe bem escolher as tuas lutas e eu, os meus amores.
quinta-feira, junho 13, 2013
Sou um escritor
(postei originalmente no Facebook da Raposa)
A Raposa chega no seu restaurante favorito para almoçar. Come sozinha e depois vai pagar. No caixa, a dona do Acanto Restaurante pergunta sobre minha (aparente) solidão e respondo que almoço sozinho porque tenho mais "tempo livre" que meus amigos e amores. Ela me questiona sobre o que faço, isso claro, se eu lhe permito a curiosidade.
Não só "permito" como respondo: sou professor e escritor. Escritor de quê?, ela pergunta. Contos, eu respondo. Ao término da conversa, atrapalhada por outros clientes querendo pagar a conta, prometo levar um livro meu para que ela conheça.
Primeiro pensamento depois disso, caminhando para casa: puxa, eu deveria ter dito que sou iniciante e só tenho um livro.
Segundo pensamento: que nada, o fato de só ter um livro com texto meu publicado não faz de mim iniciante, faz de mim iniciado.
Terceiro pensamento: tão lindo eu me apresentar como escritor e não como qualquer outra coisa (estudante, revisor, diagramador, jornalista e tantas outras coisas que já fui).
Quarto e último pensamento: eu sou escritor sim e agradeço àEditora Escândalo por haver me lembrado disso com o livro Loveless.
Não só "permito" como respondo: sou professor e escritor. Escritor de quê?, ela pergunta. Contos, eu respondo. Ao término da conversa, atrapalhada por outros clientes querendo pagar a conta, prometo levar um livro meu para que ela conheça.
Primeiro pensamento depois disso, caminhando para casa: puxa, eu deveria ter dito que sou iniciante e só tenho um livro.
Segundo pensamento: que nada, o fato de só ter um livro com texto meu publicado não faz de mim iniciante, faz de mim iniciado.
Terceiro pensamento: tão lindo eu me apresentar como escritor e não como qualquer outra coisa (estudante, revisor, diagramador, jornalista e tantas outras coisas que já fui).
Quarto e último pensamento: eu sou escritor sim e agradeço àEditora Escândalo por haver me lembrado disso com o livro Loveless.
quarta-feira, junho 12, 2013
Aquele velho medo
Ontem desenterrei um medo antigo que achava que já havia matado. Mentira, sempre soube que ele só estava trancafiado em algum porão da minha mente. Ontem ele se viu livre das minhas amarras – tão frágeis! – e ainda zombou de mim.
Aconteceu durante um evento do programa de pós-graduação em Arte e Cultura Visual. Eu havia submetido um trabalho para apresentação e, selecionado, deveria apresentá-lo ontem. Perfeito, eu já tinha a apresentação ajeitada desde minha última participação em evento acadêmico, ano passado (em minha defesa, o público era completamente diferente, então ninguém foi obrigado a me assistir falando as mesmas coisas duas vezes). Até aí tudo bem, separei minhas coisas, levei o arquivo da minha apresentação na pendrive e no e-mail, cheguei lá e sem dificuldades instalei o arquivo para quando chegasse a minha vez. Quatro pessoas apresentariam na minha frente.
Antes da primeira apresentação começar, a sala foi enchendo. Fiquei maravilhado com a qualidade do público, mestres e doutores e pós-doutores, todos do mais alto gabarito. Um deles, em particular, acordou dentro de mim esse monstrinho feito de medo e inconsistência de raciocínio. Fim das três apresentações, discussões, intervalo. Todo mundo saiu da sala. Dentro de meia hora seria a minha vez. Quando voltamos da interrupção menos da metade das pessoas retornou. Aqui uma crítica, embora eu enxergue o sentido: os três primeiros apresentantes eram professores gabaritados de altas instituições, enquanto os três restantes eram um mestrando e dois recém-mestres. Tudo bem, tudo bem, ainda não temos esse prestígio todo.
Durante metade da apresentação, tudo bem. Sala com algumas pessoas, mas ninguém para me deixar particularmente nervoso. Até que ele voltou, trazendo consigo não apenas a presença, mas também os medos e assuntos não resolvidos. Por horas durante o intervalo de quinze minutos imaginei conversas e respostas e perguntas e até mesmo tiradas altamente intelectuais que pudessem acontecer entre nós, mas o que transcorreu entre nós foi o silêncio. Levantei, apresentei o meu trabalho, e não sei se por cortesia ou desinteresse, meu monstrinho partiu logo após a minha fala.
Anos atrás, quando eu praticava aikido, uma arte marcial que prima pela harmonia e pela defesa, não pelo ataque, conheci um praticante faixa preta que era extremamente agressivo, ao menos para os meus padrões de raposa delicada. Eu não gostava dele, mas ao mesmo tempo nutria certa admiração. Eu tinha medo dele, na verdade. Encontrá-lo no tatame e treinar com ele eram suplícios para mim e, abruptamente, se tornaram motivos para desistir da arte marcial que eu já treinava havia três anos. Pensar nele por muito tempo significou despertar raivas e frustrações. Raiva de alguém que é completamente diferente do que eu gostaria que fosse, frustração por ter sido desafiado além dos meus limites e obrigado a enxergar esses contornos mais do que bem definidos. Hoje tenho certeza que o que me ofendeu e fez fugir não foi a agressão – controlada –, mas a percepção do meu próprio limite.
Tudo isso voltou ontem ao cruzar com alguém que teve o mesmo efeito de admiração e medo. Por bastante tempo troquei a admiração por raiva como justificativa ideológica para tocar a vida sem me aperceber dos limites que foram expostos feito ferida aberta. Tudo isso passava pela minha cabeça ontem depois das apresentações, depois dos encontros forçados, porém não dialogados. Não havia muito o que dizer além de oi e tudo bem, nem para mim nem para ele. Ou eles, pois se deixarmos esses medos e desconfortos se multiplicam fácil.
A vida, porém, essa velha ousada, não ia me deixar em paz. Cruzamo-nos no banheiro, só eu e ele, na porta, de modo que precisamos parar frente um ao outro. Foi o suficiente para uma pergunta e para a minha tão alardeada inteligência fugir correndo para algum lugar inalcançável. Respondi qualquer besteira que minutos depois não fazia sentido nem mesmo para mim. Fui embora com o peso de um encontro marcado pela minha inabilidade de resolver meus próprios medos.
Se aprendi alguma coisa ontem, foi que enterrar medos não os resolve. Eles continuam lá esperando uma fresta pela qual possam passar. E passam, ah como passam.
Aconteceu durante um evento do programa de pós-graduação em Arte e Cultura Visual. Eu havia submetido um trabalho para apresentação e, selecionado, deveria apresentá-lo ontem. Perfeito, eu já tinha a apresentação ajeitada desde minha última participação em evento acadêmico, ano passado (em minha defesa, o público era completamente diferente, então ninguém foi obrigado a me assistir falando as mesmas coisas duas vezes). Até aí tudo bem, separei minhas coisas, levei o arquivo da minha apresentação na pendrive e no e-mail, cheguei lá e sem dificuldades instalei o arquivo para quando chegasse a minha vez. Quatro pessoas apresentariam na minha frente.
Antes da primeira apresentação começar, a sala foi enchendo. Fiquei maravilhado com a qualidade do público, mestres e doutores e pós-doutores, todos do mais alto gabarito. Um deles, em particular, acordou dentro de mim esse monstrinho feito de medo e inconsistência de raciocínio. Fim das três apresentações, discussões, intervalo. Todo mundo saiu da sala. Dentro de meia hora seria a minha vez. Quando voltamos da interrupção menos da metade das pessoas retornou. Aqui uma crítica, embora eu enxergue o sentido: os três primeiros apresentantes eram professores gabaritados de altas instituições, enquanto os três restantes eram um mestrando e dois recém-mestres. Tudo bem, tudo bem, ainda não temos esse prestígio todo.
Durante metade da apresentação, tudo bem. Sala com algumas pessoas, mas ninguém para me deixar particularmente nervoso. Até que ele voltou, trazendo consigo não apenas a presença, mas também os medos e assuntos não resolvidos. Por horas durante o intervalo de quinze minutos imaginei conversas e respostas e perguntas e até mesmo tiradas altamente intelectuais que pudessem acontecer entre nós, mas o que transcorreu entre nós foi o silêncio. Levantei, apresentei o meu trabalho, e não sei se por cortesia ou desinteresse, meu monstrinho partiu logo após a minha fala.
Anos atrás, quando eu praticava aikido, uma arte marcial que prima pela harmonia e pela defesa, não pelo ataque, conheci um praticante faixa preta que era extremamente agressivo, ao menos para os meus padrões de raposa delicada. Eu não gostava dele, mas ao mesmo tempo nutria certa admiração. Eu tinha medo dele, na verdade. Encontrá-lo no tatame e treinar com ele eram suplícios para mim e, abruptamente, se tornaram motivos para desistir da arte marcial que eu já treinava havia três anos. Pensar nele por muito tempo significou despertar raivas e frustrações. Raiva de alguém que é completamente diferente do que eu gostaria que fosse, frustração por ter sido desafiado além dos meus limites e obrigado a enxergar esses contornos mais do que bem definidos. Hoje tenho certeza que o que me ofendeu e fez fugir não foi a agressão – controlada –, mas a percepção do meu próprio limite.
Tudo isso voltou ontem ao cruzar com alguém que teve o mesmo efeito de admiração e medo. Por bastante tempo troquei a admiração por raiva como justificativa ideológica para tocar a vida sem me aperceber dos limites que foram expostos feito ferida aberta. Tudo isso passava pela minha cabeça ontem depois das apresentações, depois dos encontros forçados, porém não dialogados. Não havia muito o que dizer além de oi e tudo bem, nem para mim nem para ele. Ou eles, pois se deixarmos esses medos e desconfortos se multiplicam fácil.
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| Você não pode se livrar de seus medos, mas pode aprender a viver com eles. - Mais chá? |
A vida, porém, essa velha ousada, não ia me deixar em paz. Cruzamo-nos no banheiro, só eu e ele, na porta, de modo que precisamos parar frente um ao outro. Foi o suficiente para uma pergunta e para a minha tão alardeada inteligência fugir correndo para algum lugar inalcançável. Respondi qualquer besteira que minutos depois não fazia sentido nem mesmo para mim. Fui embora com o peso de um encontro marcado pela minha inabilidade de resolver meus próprios medos.
Se aprendi alguma coisa ontem, foi que enterrar medos não os resolve. Eles continuam lá esperando uma fresta pela qual possam passar. E passam, ah como passam.
segunda-feira, junho 10, 2013
A busca por um apartamento
Decidi comprar um apartamento aqui em Goiânia. Já gastei dinheiro demais com aluguel e penso que essa compra pode redirecionar meu dinheiro para algo que, a longo prazo, seja totalmente meu, enquanto o aluguel vai lenta e permanentemente escorrendo a minha conta bancária. Hoje passei o dia caminhando no sol em busca de valores e possibilidades. O resultado foi, na maior parte das vezes, desanimador, mas há um fiapo de esperança, contanto que eu abrace a possibilidade de mudar completamente de vida.
Eu sabia que seria assim. Toda grande mudança vem com esse chacoalhar de experiências. Talvez nada significativo mude, ao fim desse processo todo, talvez eu tenha a possibilidade de encontrar uma vida completamente diferente. Não sei. Ainda é algo a se deixar o tempo resolver.
Eu sabia que seria assim. Toda grande mudança vem com esse chacoalhar de experiências. Talvez nada significativo mude, ao fim desse processo todo, talvez eu tenha a possibilidade de encontrar uma vida completamente diferente. Não sei. Ainda é algo a se deixar o tempo resolver.
sábado, junho 08, 2013
Pequeno projeto: abraçar quem a gente gosta
Em uma noite em que tudo estava mal e a ponto de explodir, ele entrou em casa apressado. Assalto, dia longo de trabalho, ônibus lotado – queria esquecer isso tudo. Olhou para um lado, olhou para outro, mas em canto algum encontrou o que precisava. Jogou-se no sofá para se relacionar com o desespero e a solidão, fragilizado pelo silêncio, mas então um pequeno som levantou-se em esperança: as chaves na porta. Quando ela se abriu, ergueu-se e sem limpar as lágrimas jogou-se aos braços da pessoa amada. Assalto, dia longo, ônibus lotado – tudo isso sumiu num instante que, enquanto durou o abraço, durou para sempre.
quarta-feira, junho 05, 2013
Pequeno projeto: cozinhar algo novo que fique gostoso
Conforme comecei a aprender a cozinhar, fui descobrindo que não estava apenas fazendo comida. O que eu fazia toda vez que acendia o fogo e borbulhava ingredientes não era cozinhar alimentos nem organizar refeições. Era feitiçaria, artesania, criação poética. Cada novo prato ou combinação abria um leque de possibilidades de atuação sobre a vida. Cozinhar é exatamente isso: atuar sobre a vida, sobre aquilo que nos mantém vivos.
Sempre admirei, quando criança, a maneira inventiva com que meu padrasto cozinhava. Percebia nele um grandioso prazer em transformar ingredientes soltos em prazer estésico, em sabor. Na época, para minha atual tristeza e, suponho, decepção passada dele, eu não me interessava em conhecer esses ofícios secretos que envolvem transformar o cru no cozido, no frito e no assado. Eu achava, e muitas vezes ainda me pego achando, que não precisava exercer nenhum poder sobre o mundo e que isso seria liberdade de verdade, viver sem me comprometer, sem colocar as mãos na massa (que metáfora apropriada!). Tolinho, eu.
Cozinhar algo novo que fique gostoso é parte do meu pequeno projeto para dias felizes porque é daquelas coisas que não envolvem apenas resolver problemas cotidianos: envolve encantar os paladares alheios, reunir pessoas queridas e dar sustento aos corpos. Envolve também ter algum controle ou influência sobre o que acontece na vida, ao invés de apenas deixar-se levar pelos rios do tempo.
Como todo conhecimento, o saber cozinhar também amplia a forma como vemos o mundo. Hoje percebo sabores que antes passavam em branco. Isso sem contar as amizades que se aprofundaram ao redor de mesas ou de fogões e os carinhos que se demonstram no cuidado quentinho de um prato gostoso. Cozinhar é algo sério e, principalmente, feliz. Cada minuto passado na frente do fogão me remete a todos os sabores que vivi, temperados com amores e cuidados de quem dedicou seu tempo a me permitir o paladar. Cozinhar não é perda de tempo: é investimento.
Sempre admirei, quando criança, a maneira inventiva com que meu padrasto cozinhava. Percebia nele um grandioso prazer em transformar ingredientes soltos em prazer estésico, em sabor. Na época, para minha atual tristeza e, suponho, decepção passada dele, eu não me interessava em conhecer esses ofícios secretos que envolvem transformar o cru no cozido, no frito e no assado. Eu achava, e muitas vezes ainda me pego achando, que não precisava exercer nenhum poder sobre o mundo e que isso seria liberdade de verdade, viver sem me comprometer, sem colocar as mãos na massa (que metáfora apropriada!). Tolinho, eu.
Cozinhar algo novo que fique gostoso é parte do meu pequeno projeto para dias felizes porque é daquelas coisas que não envolvem apenas resolver problemas cotidianos: envolve encantar os paladares alheios, reunir pessoas queridas e dar sustento aos corpos. Envolve também ter algum controle ou influência sobre o que acontece na vida, ao invés de apenas deixar-se levar pelos rios do tempo.
Como todo conhecimento, o saber cozinhar também amplia a forma como vemos o mundo. Hoje percebo sabores que antes passavam em branco. Isso sem contar as amizades que se aprofundaram ao redor de mesas ou de fogões e os carinhos que se demonstram no cuidado quentinho de um prato gostoso. Cozinhar é algo sério e, principalmente, feliz. Cada minuto passado na frente do fogão me remete a todos os sabores que vivi, temperados com amores e cuidados de quem dedicou seu tempo a me permitir o paladar. Cozinhar não é perda de tempo: é investimento.
terça-feira, junho 04, 2013
Desculpas a um amigo
Nesse fim de semana de felicidades e sorrisos aprendi uma coisa importante sobre amizades: nem sempre liberdade para ser amigo significa que não machucaremos a quem gostamos. Aprendi isso com uma aula prática no percurso de um elevador.
Para começar, me defendo com a crença que amizades não devem ter limites, devemos poder dizer tudo para aquelas que compartilham laços de carinho e confiança conosco. Realmente acredito nisso, pois sem essa abertura, nós estaremos sendo parceiros, companheiros, colegas... mas não necessariamente amigos. Tenho ainda essa visão ingênua, porém esperançosa, da amizade como algo que transcende as relações humanos típicas, essas cheias de fingimentos e segundas intenções.
Mas, contudo, porém, entretanto... ter liberdade para falar qualquer coisa não significa que podemos falar qualquer coisa a qualquer hora. Algumas vezes me falta tato para perceber quando seria melhor ficar quieto, quando seria melhor deixar que uma ferida se feche um pouco, se cure um pouquinho, antes de colocar o dedo nela mais uma vez. Cada um tem o seu tempo e, principalmente, a sua vida para lidar. Eu ser amigo não me dá o direito mágico de entrar na vida alheia e bagunçar as temporalidades de cada um. O que eu ser amigo deveria me dar é o poder de escutar, de abraçar para curar e, num momento mais calmo ou menos dolorido, dizer e conversar.
Um bom amigo, algo que em vários momentos não fui (no fim de semana ou na vida), provavelmente escutaria mais do que diria. Um bom amigo não é aquele que toma as decisões por nós e nos diz (manda aos gritos!) o que fazer, mas sim aquele que nos dá a mão para ajudar a retomar um bom caminho ou para comemorar uma escolha feliz. Ter o poder de ser absolutamente sincero e transparente não quer dizer que isso seja a mesma coisa que ter que fazer isso sempre.
Algumas vezes, o silêncio é tudo que uma amizade precisa para cultivar reflexões, carinhos e, principalmente, presenças. Peço desculpas ao amigo que, ao invés de ouvir, fiz calar.
Para começar, me defendo com a crença que amizades não devem ter limites, devemos poder dizer tudo para aquelas que compartilham laços de carinho e confiança conosco. Realmente acredito nisso, pois sem essa abertura, nós estaremos sendo parceiros, companheiros, colegas... mas não necessariamente amigos. Tenho ainda essa visão ingênua, porém esperançosa, da amizade como algo que transcende as relações humanos típicas, essas cheias de fingimentos e segundas intenções.
Mas, contudo, porém, entretanto... ter liberdade para falar qualquer coisa não significa que podemos falar qualquer coisa a qualquer hora. Algumas vezes me falta tato para perceber quando seria melhor ficar quieto, quando seria melhor deixar que uma ferida se feche um pouco, se cure um pouquinho, antes de colocar o dedo nela mais uma vez. Cada um tem o seu tempo e, principalmente, a sua vida para lidar. Eu ser amigo não me dá o direito mágico de entrar na vida alheia e bagunçar as temporalidades de cada um. O que eu ser amigo deveria me dar é o poder de escutar, de abraçar para curar e, num momento mais calmo ou menos dolorido, dizer e conversar.
Um bom amigo, algo que em vários momentos não fui (no fim de semana ou na vida), provavelmente escutaria mais do que diria. Um bom amigo não é aquele que toma as decisões por nós e nos diz (manda aos gritos!) o que fazer, mas sim aquele que nos dá a mão para ajudar a retomar um bom caminho ou para comemorar uma escolha feliz. Ter o poder de ser absolutamente sincero e transparente não quer dizer que isso seja a mesma coisa que ter que fazer isso sempre.
Algumas vezes, o silêncio é tudo que uma amizade precisa para cultivar reflexões, carinhos e, principalmente, presenças. Peço desculpas ao amigo que, ao invés de ouvir, fiz calar.
segunda-feira, junho 03, 2013
É preciso ser prático para voar
Eu não sou uma raposa prática. Penso e escrevo sobre tudo que cruza meu caminho, mas na hora de agir a coisa fica meio travada. Não que eu não faça as coisas, volta e meia vou lá e faço mesmo. Na maior parte das vezes por impulso. Foi assim com o lançamento do livro que hospeda meu primeiro conto. Ia, não ia, ia, não ia, aí minha mãe falou que eu gostaria de estar lá, concordei e comprei as passagens.
Passagem barata comprada, um mês depois vou ao aeroporto com o digníssimo. Também comprei a dele, umas duas semanas depois da minha, para o mesmo dia e mais ou menos o mesmo horário. O mesmo voo não foi possível. Tudo bem, fazer o quê? Estamos no guichê para fazermos o check in e descubro que vamos para aeroportos diferentes. Ele Congonhas e eu Garulhos. Detalhe: eu já havia organizado com meus amigos de me encontrarem em Congonhas. Horário certo, lugar errado.
Diga-se de passagem, essa não foi minha única confusão prática envolvendo companhias aéreas. Final de dezembro do ano passado tive a linda surpresa de descobrir a função do check in quando perdi um voo por não realizar o danado. Logo, ele serve para confirmar que você estará no voo e, caso não seja feito, significa que a sua vaga será ocupada por outra pessoa. Isso acontece trinta minutos antes do voo partir, o momento exato em que cheguei porque esqueci que precisava ligar para a companhia de táxi com antecedência. Que culpa eu tenho se os táxis não são instantâneos?
Foi como quando eu viajei para os Estados Unidos. Para variar, estava atrasado. Véspera de natal, nenhuma companhia de táxi respondia às minhas ligações. Saí com um malão enorme na rua procurando por um táxi livre e desimpedido, mas pelo jeito todos taxistas têm famílias com as quais passam o dia 24 de dezembro. Fui salvo pela sorte (de encontrar um colega), já que o juízo (de me organizar e antecipar) faltou. Pelo que a vida tem mostrado, espero continuar com um estoque de sorte no bolso por bastante tempo, porque o juízo está demorando pra aparecer...
Passagem barata comprada, um mês depois vou ao aeroporto com o digníssimo. Também comprei a dele, umas duas semanas depois da minha, para o mesmo dia e mais ou menos o mesmo horário. O mesmo voo não foi possível. Tudo bem, fazer o quê? Estamos no guichê para fazermos o check in e descubro que vamos para aeroportos diferentes. Ele Congonhas e eu Garulhos. Detalhe: eu já havia organizado com meus amigos de me encontrarem em Congonhas. Horário certo, lugar errado.
Diga-se de passagem, essa não foi minha única confusão prática envolvendo companhias aéreas. Final de dezembro do ano passado tive a linda surpresa de descobrir a função do check in quando perdi um voo por não realizar o danado. Logo, ele serve para confirmar que você estará no voo e, caso não seja feito, significa que a sua vaga será ocupada por outra pessoa. Isso acontece trinta minutos antes do voo partir, o momento exato em que cheguei porque esqueci que precisava ligar para a companhia de táxi com antecedência. Que culpa eu tenho se os táxis não são instantâneos?
Foi como quando eu viajei para os Estados Unidos. Para variar, estava atrasado. Véspera de natal, nenhuma companhia de táxi respondia às minhas ligações. Saí com um malão enorme na rua procurando por um táxi livre e desimpedido, mas pelo jeito todos taxistas têm famílias com as quais passam o dia 24 de dezembro. Fui salvo pela sorte (de encontrar um colega), já que o juízo (de me organizar e antecipar) faltou. Pelo que a vida tem mostrado, espero continuar com um estoque de sorte no bolso por bastante tempo, porque o juízo está demorando pra aparecer...
sexta-feira, maio 31, 2013
Compartilhe seus desafios
Nos últimos textos estivemos pensando sobre questões importantes para alcançarmos aquilo que queremos: como mudar nossos hábitos e como definir nossas prioridades.
Existe um provérbio (li que era africano) que diz o seguinte:
Ufa!
Como lidar com esse tanto de coisas sozinhos? Espere, por que sozinhos? Sei que vemos todos os dias pequenos sucessos individuais, sei que eles parecem glamorosos e fantásticos, mas pergunto: o que queremos para as nossas vidas é apenas para as nossas vidas, ou também para as de outras pessoas? Por que não dividir nossos sonhos e desafios com outras pessoas? Aos poucos, fazer com que nossos sonhos também sejam sonhos de outras pessoas, que nossos desafios contribuam para o crescimento alheio?
Há pelo menos três maneiras através das quais outras pessoas podem ser úteis em nossas vidas.
Amigos para pedir ajuda. Nós não podemos saber tudo, mas podemos conhecer pessoas que sabem aquelas coisas que não somos capazes de fazer, ou que são muito melhores que nós. Por que não dividir e compartilhar parcerias? Pedir ajuda pode ser trocar favores, pode ser pegar aulas, pode ser qualquer coisa que inclua o conhecimento de outra(s) pessoa(s) influenciando nosso caminho. Fazer tudo sozinho pode talvez até ter um sabor de conquista maior no fim do caminho, mas é bem mais chato e, óbvio, solitário.
Amigos para nos cobrar. Sabemos os sabores das distrações e os perigos de nos perdermos de nossos objetivos. Muitas vezes um mero bilhetinho na parede pode não ser o suficiente para nos manter no caminho. É nessa hora que entram amigos, psicólogos, chefes, coaches e o que mais estiver à disposição para nos auxiliar. Conte às pessoas o que você está fazendo: a pressão social de corresponder aos anseios dos outros provavelmente será de grande ajuda nas suas tarefas. Ninguém gosta de decepcionar os outros (se você gosta, provavelmente é algo que devemos conversar a respeito...).
Amigos para celebrar. Essa é uma parte que a gente de vez em quando esquece, ou deixa para comemorar apenas no final. Não! Divida suas alegrias de cada passo concluído com as pessoas próximas e queridas. Isso dá valor e faz valer cada vez mais passo após passo. A celebração fecha um ciclo e nos dá energia para seguirmos conquistando novos sucessos e, por tabela, novas celebrações. Com o tempo, nos acostumamos a aceitar a felicidade das pequenas conquistas, ao invés de desejá-la como um grande prêmio no final de um longo caminho.
Existe um provérbio (li que era africano) que diz o seguinte:
Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se você quer ir longe, vá acompanhado.Nós vivemos em uma sociedade ocidental capitalista malvada que insiste que necessitamos correr contra o relógio para fazer absolutamente tudo e alcançar um sucesso incontrolável por meio do dinheiro. O perigo dessa cantiga é que ela funciona para algumas pessoas, o que prende milhares (milhões!) de outras no sonho de ficar rico e gastar toneladas de dinheiros aleatoriamente para luxos vãos. No meio de tudo isso, somos bombardeados por infinitos estímulos e convites que tendem mais a nos desviar das coisas que queremos (acrescentando vários outros desejos) do que a nos levar para frente.
Como lidar com esse tanto de coisas sozinhos? Espere, por que sozinhos? Sei que vemos todos os dias pequenos sucessos individuais, sei que eles parecem glamorosos e fantásticos, mas pergunto: o que queremos para as nossas vidas é apenas para as nossas vidas, ou também para as de outras pessoas? Por que não dividir nossos sonhos e desafios com outras pessoas? Aos poucos, fazer com que nossos sonhos também sejam sonhos de outras pessoas, que nossos desafios contribuam para o crescimento alheio?
Há pelo menos três maneiras através das quais outras pessoas podem ser úteis em nossas vidas.
Amigos para pedir ajuda. Nós não podemos saber tudo, mas podemos conhecer pessoas que sabem aquelas coisas que não somos capazes de fazer, ou que são muito melhores que nós. Por que não dividir e compartilhar parcerias? Pedir ajuda pode ser trocar favores, pode ser pegar aulas, pode ser qualquer coisa que inclua o conhecimento de outra(s) pessoa(s) influenciando nosso caminho. Fazer tudo sozinho pode talvez até ter um sabor de conquista maior no fim do caminho, mas é bem mais chato e, óbvio, solitário.
Amigos para nos cobrar. Sabemos os sabores das distrações e os perigos de nos perdermos de nossos objetivos. Muitas vezes um mero bilhetinho na parede pode não ser o suficiente para nos manter no caminho. É nessa hora que entram amigos, psicólogos, chefes, coaches e o que mais estiver à disposição para nos auxiliar. Conte às pessoas o que você está fazendo: a pressão social de corresponder aos anseios dos outros provavelmente será de grande ajuda nas suas tarefas. Ninguém gosta de decepcionar os outros (se você gosta, provavelmente é algo que devemos conversar a respeito...).
Amigos para celebrar. Essa é uma parte que a gente de vez em quando esquece, ou deixa para comemorar apenas no final. Não! Divida suas alegrias de cada passo concluído com as pessoas próximas e queridas. Isso dá valor e faz valer cada vez mais passo após passo. A celebração fecha um ciclo e nos dá energia para seguirmos conquistando novos sucessos e, por tabela, novas celebrações. Com o tempo, nos acostumamos a aceitar a felicidade das pequenas conquistas, ao invés de desejá-la como um grande prêmio no final de um longo caminho.
quinta-feira, maio 30, 2013
Defina o que é prioridade na sua vida
Uma leitora me perguntou "o que a gente faz quando precisa fazer um milhão de coisas, mas não tem tempo para nada?". Acho essa pergunta muito pertinente, especialmente depois de haver escrito sobre nossos hábitos e a possibilidade de mudá-los. A minha resposta a ela é a seguinte: precisamos priorizar o que é importante para a nossa vida, já que não podemos fazer tudo ao mesmo tempo. O problema é que todo mundo sabe disso, mas dificilmente conseguimos colocar em prática. Por quê?
Talvez com um pouco de exagero, essas são algumas das exigências que pautam a nossa vida cotidiana. É muita coisa para pouco tempo: de tudo isso, a única coisa que não muda jamais é o fato de termos as mesmas 24 horas para resolver o que quisermos. Não basta simplesmente resistirmos a tudo isso, não é tão fácil. Precisamos resistir também ao fato de que as outras pessoas estão todas fazendo coisas mais legais que nós. Estamos trabalhando? Puxa, a vizinha acabou de voltar da França. Estamos comendo miojo? Nossa, que legal, ontem aquele amigo cozinhou um salmão com bobó de camarão. Estamos andando de ônibus? É, pena que o carinha que passou por nós agora está num carrão (nota: este escritor desconhece o que seria um carro lindo e possante, então ficamos com "carrão" mesmo).
São duas as coisas que mais nos atrapalham na gerência do nosso tempo, então: o excesso de possibilidades e a inveja do que os outros estão fazendo. Ambas as coisas nascem de um pensamento que parece dirigir todas as nossas atitudes atualmente: a vida é curta, então aproveite-a ao máximo. O que ninguém para e nos diz é o que significa aproveitar a vida. (tampouco eu o direi agora, já que não é o objetivo desse texto, mas fica a promessa de uma escrita futura, embora a imagem já sugira o que direi)
Atividades importantes. Aqui entram aquelas que nós queremos fazer, que são importantes e dão sentido para a maneira como pensamos a nós mesmos. Vou me usar como exemplo: escrever, para mim, é uma atividade importante, é aquilo que eu gostaria de passar a maior parte do meu tempo fazendo. Curiosamente, eu não uso o meu tempo dessa forma e suspeito que muitos de nós (inclusive a leitora que iniciou esse texto) também não. Por que fazemos isso? As duas próximas categorias podem nos dar uma pista.
Atividades urgentes. De repente, lembramos daquele trabalho que precisamos entregar (ou corrigir) para amanhã. Ou para hoje de noite. Ou para daqui uma hora. Alarmes, alarmes, vamos correr para conseguir fazer isso a tempo. Todo o resto saia do caminho! É aí que mora o perigo, nessa realocação de prioridades entre o que consideramos importante e o que se torna urgente de ser realizado. Se, assim como eu, vocês se encontram com mais frequência batendo de frente com compromissos inadiáveis que tomam todo o seu tempo, é sinal de que as atividades importantes estão sendo negligenciadas e que o terceiro tipo de atividade está consumindo o tempo disponível.
Atividades circunstanciais. Opa, um programa legal na televisão. Ou um joguinho novo na internet. Ou aquelas três horas que passamos navegando no Facebook. Esses são exemplos de atividades circunstanciais, ou seja, aquelas que aparecem e devoram o nosso tempo, mas não são nem importantes (no sentido de que acrescentam algo aos nossos objetivos ou interesses para a vida) nem urgentes (não precisamos fazê-los nesse exato momento). Esse tipo de atividade costuma ser bastante prazerosa, o que nos faz não perceber (ou perceber e não resistir a) o fato de que o tempo está passando. Meu vício são jogos na internet. Começo com um, pensando "ah, eu trabalhei tanto, mereço um descanso antes de dormir". Faz sentido, não é? Devemos nos divertir, não é? É, o problema é que uma partida de 10 minutos se transforma em "só falta o último chefe, manhê" e ficamos horas fazendo algo que originalmente queríamos que ocupasse apenas uns minutinhos. Outro vício são seriados: assisto um capítulo, fico interessado no próximo e em seguida já estou assistindo uma temporada inteira madrugada adentro.
1. Trapaceando pelo que é importante. Meu objetivo de vida é escrever (e ser famoso e legal e lido e conversar sobre meus textos com todo mundo etc., mas para isso tudo preciso antes escrever). Eu gasto muito tempo no computador, que é ao mesmo tempo ferramenta de trabalho/escrita e de distração (jogos e seriados). Minha trapaça é muito simples: escrevi um bilhete colado na parede (post-its são maravilhosos para isso) dizendo para eu escrever. O modo de funcionamento é simples: volta e meia estou fazendo algo que não deveria, olho pra frente e lembro de cobrar a mim mesmo que poderia estar escrevendo. Então abro um editor de texto e escrevo.
2. Trapaceando para eliminar as urgências. Esse é um dos mais difíceis: para que as urgências desapareçam, nós podemos agendar momentos de trabalho espaçados, de modo que possamos ir realizando nossas atividades aos poucos. Tem um texto para ler para semana que vem? Coloque-o no seu tempo de "atividades que um dia serão urgentes". Uma ou duas horas por dia são suficientes para colocar tudo que terá um prazo, ou mais se for a sua atividade principal de trabalho (como freelancer, por exemplo). Para fazer isso, leia o texto anterior e crie o hábito. De início, talvez seja estressante eliminar as próximas urgências, mas aos poucos elas vão se tornando mais escassas e mais fáceis de lidar, pois teremos tempo disponível.
3. Trapaceando contra o que é circunstancial. Enquanto não aprendemos as técnicas de autocontrole, precisamos impor esse controle. Contra seriados, por exemplo, eu só baixo um número de capítulos suficiente para não me enlouquecer. Vou baixando a cada dois episódios, mais ou menos, de modo que posso assistir mais de um, mas não perco a vida assistindo a uma temporada inteira de uma vez só. Quando termino de assistir, espero alguns dias até fazer o download dos próximos capítulos. A ansiedade e o prazer na atividade circunstancial sobem e, não somente, diluo a quantidade de tempo dedicada a essa atividade. O mesmo pode ser feito com outros vícios: jogos online? Facebook? E-mails pipocando? Necessidade absurda de acompanhar o Twitter? Desligue a internet.
Aliás, eu poderia escrever um texto gigantesco sobre os benefícios de desligar a internet ou de só ligá-la durante uma tempo limitado por dia. Isso, claro, depende do que é prioridade na sua vida.
Tudo ao mesmo tempo agora
Aprenda idiomas. Faça faculdade. Se possível, faça duas. Faça aquele curso. Veja os novos filmes em cartaz. Leia os clássicos. Esteja presente na vida dos seus amigos. Vá às reuniões de família. Seja voluntário. Ganhe dinheiro. Ganhe mais dinheiro. Ganhe mais dinheiro para comprar casa e carro. Faça exercícios. Viaje, conheça o mundo. Conheça a si mesmo. Compre o que está na moda. Vá ao teatro e aos festivais, seja culto. Namore. Tudo isso pra quando? Pra ontem.Talvez com um pouco de exagero, essas são algumas das exigências que pautam a nossa vida cotidiana. É muita coisa para pouco tempo: de tudo isso, a única coisa que não muda jamais é o fato de termos as mesmas 24 horas para resolver o que quisermos. Não basta simplesmente resistirmos a tudo isso, não é tão fácil. Precisamos resistir também ao fato de que as outras pessoas estão todas fazendo coisas mais legais que nós. Estamos trabalhando? Puxa, a vizinha acabou de voltar da França. Estamos comendo miojo? Nossa, que legal, ontem aquele amigo cozinhou um salmão com bobó de camarão. Estamos andando de ônibus? É, pena que o carinha que passou por nós agora está num carrão (nota: este escritor desconhece o que seria um carro lindo e possante, então ficamos com "carrão" mesmo).
São duas as coisas que mais nos atrapalham na gerência do nosso tempo, então: o excesso de possibilidades e a inveja do que os outros estão fazendo. Ambas as coisas nascem de um pensamento que parece dirigir todas as nossas atitudes atualmente: a vida é curta, então aproveite-a ao máximo. O que ninguém para e nos diz é o que significa aproveitar a vida. (tampouco eu o direi agora, já que não é o objetivo desse texto, mas fica a promessa de uma escrita futura, embora a imagem já sugira o que direi)
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| "Arranje tempo para aproveitar as coisas simples da vida" |
Como definir nossas prioridades?
Não existe regra para decidirmos o que é importante em nossa vida. Dependendo do que cada um de nós acredita ou está vivendo no momento, as prioridades podem variar. Contudo, podemos seguir um pequeno modelo para organizar a maneira como pensamos o nosso tempo e as nossas atividades. A disposição de realizar aquilo que queremos ao invés do que acabamos nos enrolando não tem a ver com essa organização, mas sim a criação de um hábito de agir. Vamos portanto dividir as tarefas que ocupam nosso tempo em três categorias:Atividades importantes. Aqui entram aquelas que nós queremos fazer, que são importantes e dão sentido para a maneira como pensamos a nós mesmos. Vou me usar como exemplo: escrever, para mim, é uma atividade importante, é aquilo que eu gostaria de passar a maior parte do meu tempo fazendo. Curiosamente, eu não uso o meu tempo dessa forma e suspeito que muitos de nós (inclusive a leitora que iniciou esse texto) também não. Por que fazemos isso? As duas próximas categorias podem nos dar uma pista.
Atividades urgentes. De repente, lembramos daquele trabalho que precisamos entregar (ou corrigir) para amanhã. Ou para hoje de noite. Ou para daqui uma hora. Alarmes, alarmes, vamos correr para conseguir fazer isso a tempo. Todo o resto saia do caminho! É aí que mora o perigo, nessa realocação de prioridades entre o que consideramos importante e o que se torna urgente de ser realizado. Se, assim como eu, vocês se encontram com mais frequência batendo de frente com compromissos inadiáveis que tomam todo o seu tempo, é sinal de que as atividades importantes estão sendo negligenciadas e que o terceiro tipo de atividade está consumindo o tempo disponível.
Atividades circunstanciais. Opa, um programa legal na televisão. Ou um joguinho novo na internet. Ou aquelas três horas que passamos navegando no Facebook. Esses são exemplos de atividades circunstanciais, ou seja, aquelas que aparecem e devoram o nosso tempo, mas não são nem importantes (no sentido de que acrescentam algo aos nossos objetivos ou interesses para a vida) nem urgentes (não precisamos fazê-los nesse exato momento). Esse tipo de atividade costuma ser bastante prazerosa, o que nos faz não perceber (ou perceber e não resistir a) o fato de que o tempo está passando. Meu vício são jogos na internet. Começo com um, pensando "ah, eu trabalhei tanto, mereço um descanso antes de dormir". Faz sentido, não é? Devemos nos divertir, não é? É, o problema é que uma partida de 10 minutos se transforma em "só falta o último chefe, manhê" e ficamos horas fazendo algo que originalmente queríamos que ocupasse apenas uns minutinhos. Outro vício são seriados: assisto um capítulo, fico interessado no próximo e em seguida já estou assistindo uma temporada inteira madrugada adentro.
Trapaceando a nosso favor
Em um mundo ideal, devemos ter mais tempo para as atividades importantes, nos organizar para evitar as urgentes tanto quanto possível e reservar um espaço realmente circunstancial para as atividades circunstanciais. Só que não é simples, nós estamos acostumados, ou melhor, estamos habituados a trapacear contra nós mesmos. Porém, é aí mesmo que está a solução para nossos problemas enquanto não desenvolvemos uma consciência superior de como levar a vida: podemos trapacear também a nosso favor. Finalizarei esse texto com três trapaças rápidas que faço comigo mesmo, uma para cada tipo de atividade.1. Trapaceando pelo que é importante. Meu objetivo de vida é escrever (e ser famoso e legal e lido e conversar sobre meus textos com todo mundo etc., mas para isso tudo preciso antes escrever). Eu gasto muito tempo no computador, que é ao mesmo tempo ferramenta de trabalho/escrita e de distração (jogos e seriados). Minha trapaça é muito simples: escrevi um bilhete colado na parede (post-its são maravilhosos para isso) dizendo para eu escrever. O modo de funcionamento é simples: volta e meia estou fazendo algo que não deveria, olho pra frente e lembro de cobrar a mim mesmo que poderia estar escrevendo. Então abro um editor de texto e escrevo.
2. Trapaceando para eliminar as urgências. Esse é um dos mais difíceis: para que as urgências desapareçam, nós podemos agendar momentos de trabalho espaçados, de modo que possamos ir realizando nossas atividades aos poucos. Tem um texto para ler para semana que vem? Coloque-o no seu tempo de "atividades que um dia serão urgentes". Uma ou duas horas por dia são suficientes para colocar tudo que terá um prazo, ou mais se for a sua atividade principal de trabalho (como freelancer, por exemplo). Para fazer isso, leia o texto anterior e crie o hábito. De início, talvez seja estressante eliminar as próximas urgências, mas aos poucos elas vão se tornando mais escassas e mais fáceis de lidar, pois teremos tempo disponível.
3. Trapaceando contra o que é circunstancial. Enquanto não aprendemos as técnicas de autocontrole, precisamos impor esse controle. Contra seriados, por exemplo, eu só baixo um número de capítulos suficiente para não me enlouquecer. Vou baixando a cada dois episódios, mais ou menos, de modo que posso assistir mais de um, mas não perco a vida assistindo a uma temporada inteira de uma vez só. Quando termino de assistir, espero alguns dias até fazer o download dos próximos capítulos. A ansiedade e o prazer na atividade circunstancial sobem e, não somente, diluo a quantidade de tempo dedicada a essa atividade. O mesmo pode ser feito com outros vícios: jogos online? Facebook? E-mails pipocando? Necessidade absurda de acompanhar o Twitter? Desligue a internet.
Aliás, eu poderia escrever um texto gigantesco sobre os benefícios de desligar a internet ou de só ligá-la durante uma tempo limitado por dia. Isso, claro, depende do que é prioridade na sua vida.
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