Desde o início do mês a média de visitas (de acordo com o Blogger, não mais olho o Google Analytics porque a verdade dói) tem oscilado acima de 100 visitantes por dia. Isso é tão mais interessante e bacana do que os 20-30 usuais. Para o Analytics (é, eu tenho um lado meio masoquista), não houve mudança significativa, embora no dia 2 e ontem tenha havido picos de 77 e 111 visitas, respectivamente. Ainda para o Analytics, minha média diária de visitas (excluindo os picos eventuais) fica na faixa dos 15-25.
Duas possíveis explicações: estou publicando com mais frequência (tentando fazer desse exercício algo diário) e/ou meus textos estão melhores. Por ora apostarei na primeira opção. Ah, outra coisa que tenho feito é replicar minhas postagens da Raposa do Facebook no meu perfil pessoal. Desde sempre ele teve mais interação e alcance do que o meu perfil pessoal.
Se o ritmo continuar assim, acho que voltarei a pensar em investir tempo e cérebro no cultivo de público. Falta ainda eu conseguir engajar meus (ainda pouco) leitores a dialogar comigo através dos comentários, mas tudo bem, um passo de cada vez.
quarta-feira, outubro 09, 2013
terça-feira, outubro 08, 2013
Alguns planos para o futuro
Eu tenho planos para uma grande mudança ano que vem, porém começo a sentir que eles não estão definidos o bastante. Tenho medo de me jogar na aventura e descobrir durante o caminho o que acontecerá. Iniciarei uma lista das coisas que busco para a minha vida.
Em primeiro lugar, quero conviver mais com escritores e artistas. Pessoas que vivem processos criativos artísticos podem compartilhar ideais e também servir de inspiração, seja pela inveja ou pelo companheirismo.
Quero continuar em contato com aprendizagens (livros, cursos) sobre escrever. É algo importante para mim e tenho visto o resultado de me aprimorar. A cada livro que devoro acabo aprendendo mais sobre estilo, técnica e também criatividade. Ler sobre as vivências de escritores também me dá uma certa noção acerca de como vivem pessoas que fazem ou fizeram da vida o que eu quero fazer da minha.
Preciso de pessoas críticas ao meu redor. Não pessoas que vão dizer coisas ruins para derrubar meu ânimo, até porque não me julgo forte o suficiente para resistir a esse tipo de pressão por agora. Quero pessoas que me ajudem a perceber minhas limitações e a lutar com elas, mas que não sejam condescendentes com meus defeitos ou equívocos.
Também necessito de gente que acredite em mim. Isso eu tenho, é verdade, mas não as encontro o suficiente. É algo a ser resolvido, já que uma boa dose de amizade e fé podem alimentar o espírito criativo mais do que imaginamos.
Desejo ser mais autêntico, egoísta, corajoso. Quero não ser tão influenciado pelas necessidades alheias. Eu tenho um propósito o qual não quero me desviar. Isso significará obrigatoriamente deixar algumas pessoas decepcionadas pelo caminho, mas me comprometo a tentar ser cada vez mais sincero, honesto e aberto. As pessoas saberão minhas intenções e seus limites, pois eu também saberei. Essa é a parte difícil.
Quero colocar em prática sistematicamente meu processo de criação. Não será fácil porque para isso precisarei liquidar todas as desculpas que normalmente me dou. Seria produtivo também desligar a internet.
Essas são as primeiras coisas que me vieram à cabeça. Ainda voltarei a essa lista várias vezes antes e depois de efetuar a mudança. Por agora eu só precisava organizar as primeiras reflexões. Obrigado pela atenção, se leu até aqui!
Em primeiro lugar, quero conviver mais com escritores e artistas. Pessoas que vivem processos criativos artísticos podem compartilhar ideais e também servir de inspiração, seja pela inveja ou pelo companheirismo.
Quero continuar em contato com aprendizagens (livros, cursos) sobre escrever. É algo importante para mim e tenho visto o resultado de me aprimorar. A cada livro que devoro acabo aprendendo mais sobre estilo, técnica e também criatividade. Ler sobre as vivências de escritores também me dá uma certa noção acerca de como vivem pessoas que fazem ou fizeram da vida o que eu quero fazer da minha.
Preciso de pessoas críticas ao meu redor. Não pessoas que vão dizer coisas ruins para derrubar meu ânimo, até porque não me julgo forte o suficiente para resistir a esse tipo de pressão por agora. Quero pessoas que me ajudem a perceber minhas limitações e a lutar com elas, mas que não sejam condescendentes com meus defeitos ou equívocos.
Também necessito de gente que acredite em mim. Isso eu tenho, é verdade, mas não as encontro o suficiente. É algo a ser resolvido, já que uma boa dose de amizade e fé podem alimentar o espírito criativo mais do que imaginamos.
Desejo ser mais autêntico, egoísta, corajoso. Quero não ser tão influenciado pelas necessidades alheias. Eu tenho um propósito o qual não quero me desviar. Isso significará obrigatoriamente deixar algumas pessoas decepcionadas pelo caminho, mas me comprometo a tentar ser cada vez mais sincero, honesto e aberto. As pessoas saberão minhas intenções e seus limites, pois eu também saberei. Essa é a parte difícil.
Quero colocar em prática sistematicamente meu processo de criação. Não será fácil porque para isso precisarei liquidar todas as desculpas que normalmente me dou. Seria produtivo também desligar a internet.
Essas são as primeiras coisas que me vieram à cabeça. Ainda voltarei a essa lista várias vezes antes e depois de efetuar a mudança. Por agora eu só precisava organizar as primeiras reflexões. Obrigado pela atenção, se leu até aqui!
segunda-feira, outubro 07, 2013
O amor não serve para nada
Li hoje uma notícia/entrevista sobre um sujeito que só come carne crua há cinco anos. Ele tem uma namorada vegetariana. Um amigo, ao me enviar esse link, comentou como o amor é algo interessante, em muitos casos contraproducente. Afinal, como uma vegetariana namoraria um carnívoro? A minha resposta é simples: ora, o amor não serve para nada.
Calma, eu explico. Acho o amor uma coisa muito fofa e cuticuti, mas tenho a impressão de que a minha abordagem é bem pouco romântica. Amar, pra mim, e já falei isso antes várias vezes (aqui e aqui, por exemplo), é querer e tratar bem, cuidar, dar atenção e carinho, se preocupar. Não tem nada a ver com procurar no resto do mundo alguém que reflita os nossos ideais. Talvez eu até seja um pouco romântico, veja só, porque acho que a gente ama por amar, não para alcançar alguma coisa. No caso da moça vegetariana, qual é o problema, exatamente, em ela namorar um cara que tem a geladeira recheada de carne crua?
Eu não amo todo mundo. Tenho a impressão de que só os sujeitos mais evoluídos espiritualmente conseguem essa proeza que, para ser bem sincero, seria muito útil à nossa existência coletiva. Um mundo em que as pessoas se preocupassem e cuidassem uns dos outros certamente seria um mundo melhor. Ou menos cretino, ao menos. Acho que o título deste texto está errado, afinal. O amor serviria para alguma coisa se fosse universal. Pena que é um enorme se.
Calma, eu explico. Acho o amor uma coisa muito fofa e cuticuti, mas tenho a impressão de que a minha abordagem é bem pouco romântica. Amar, pra mim, e já falei isso antes várias vezes (aqui e aqui, por exemplo), é querer e tratar bem, cuidar, dar atenção e carinho, se preocupar. Não tem nada a ver com procurar no resto do mundo alguém que reflita os nossos ideais. Talvez eu até seja um pouco romântico, veja só, porque acho que a gente ama por amar, não para alcançar alguma coisa. No caso da moça vegetariana, qual é o problema, exatamente, em ela namorar um cara que tem a geladeira recheada de carne crua?
Eu não amo todo mundo. Tenho a impressão de que só os sujeitos mais evoluídos espiritualmente conseguem essa proeza que, para ser bem sincero, seria muito útil à nossa existência coletiva. Um mundo em que as pessoas se preocupassem e cuidassem uns dos outros certamente seria um mundo melhor. Ou menos cretino, ao menos. Acho que o título deste texto está errado, afinal. O amor serviria para alguma coisa se fosse universal. Pena que é um enorme se.
domingo, outubro 06, 2013
O que nos impede de agir?
Uma amiga quer transar com um cara, mas não teve coragem de dizer isso a ele. Ela não quer nada além de uma boa trepada com o sujeito, mas se pegou com medo do que ele poderia pensar dela, já que normalmente mulheres não tomam a iniciativa nem assumem que gostam de sexo. Sabemos que essa ideia de que mulheres não tomam iniciativa ou não gostam de sexo é fajuta. Não há nada dado no "ser mulher" que inclua frigidez ou falta de iniciativa. O que nós temos é uma complexa rede cultural ensinando os meninos a desde pequenos pegarem todas e as meninas a ficarem quietas para serem usadas. Como a gente muda isso? Através da educação, da família, das instituições sociais e... da ação. Absolutamente nada funciona como um exemplo mais poderoso do que a ação.
Minha amiga é feminista e tem interesse em lutar pelos direitos das mulheres e contra as opressões de gênero. Mesmo assim, se sente acanhada para agir em nome daquilo que acredita. Ela não é a única. Goethe já nos alertava:
Refletindo sobre isso, vejo que temos dois impedimentos básicos frente à ação "subversiva". A primeira delas acabei de mencionar, ou seja, a possibilidade de reação alheia. As outras pessoas provavelmente buscarão interferir no jeito que você deseja viver, essa é quase uma certeza da vida. São os guardiões das tradições ou dos próprios privilégios.
A segunda delas é mais complicada: precisamos estar abertos a nossas próprias resistências e limitações. Recusar preconceitos pode implicar deixar de rir em algumas situações que sempre pareceram engraçadas. Lutar contra a tortura de animais pode significar a necessidade de se reeducar e encontrar formas alternativas para se alimentar sem carne. Compreender o próximo pode requisitar que façamos uma releitura de nossas crenças mais profundas.
Em ambos os casos precisamos juntar coragem e, se possível, aliados, para que não precisemos lutar sozinhos. Infelizmente todo convite à mudança é uma luta, primeiro contra nós mesmos, depois contra o restante do mundo, mesmo quando aquilo pelo que lutamos é a paz ou a igualdade. Talvez principalmente nesse caso, aliás.
Minha amiga é feminista e tem interesse em lutar pelos direitos das mulheres e contra as opressões de gênero. Mesmo assim, se sente acanhada para agir em nome daquilo que acredita. Ela não é a única. Goethe já nos alertava:
Pensar é fácil, agir é difícil. E colocar nossos pensamentos em ação é a coisa mais difícil do mundo.Quando fazemos algo que contraria as expectativas ou tradições (o machismo e a heteronormatividade infelizmente funcionam como tradições), podemos esperar algum tipo de reação. Afinal de contas, nós estamos afetando diretamente o modo como outras pessoas enxergam o mundo. Estamos lhes dizendo "não é assim que funciona". Isso dói e a tendência é tentar algo para interromper essa dor. Num mundo ideal, as pessoas assimilariam que seu modo de ver e viver é cruel e machuca outras pessoas e mudariam. Na vida real, as reações costumam ser mais violentas e opressivas.
Refletindo sobre isso, vejo que temos dois impedimentos básicos frente à ação "subversiva". A primeira delas acabei de mencionar, ou seja, a possibilidade de reação alheia. As outras pessoas provavelmente buscarão interferir no jeito que você deseja viver, essa é quase uma certeza da vida. São os guardiões das tradições ou dos próprios privilégios.
A segunda delas é mais complicada: precisamos estar abertos a nossas próprias resistências e limitações. Recusar preconceitos pode implicar deixar de rir em algumas situações que sempre pareceram engraçadas. Lutar contra a tortura de animais pode significar a necessidade de se reeducar e encontrar formas alternativas para se alimentar sem carne. Compreender o próximo pode requisitar que façamos uma releitura de nossas crenças mais profundas.
Em ambos os casos precisamos juntar coragem e, se possível, aliados, para que não precisemos lutar sozinhos. Infelizmente todo convite à mudança é uma luta, primeiro contra nós mesmos, depois contra o restante do mundo, mesmo quando aquilo pelo que lutamos é a paz ou a igualdade. Talvez principalmente nesse caso, aliás.
sábado, outubro 05, 2013
Fazer a coisa certa
Assisti aos primeiros episódios de Breaking Bad, um seriado sobre um professor de química diagnosticado com câncer de pulmão que acaba se tornando um traficante de drogas. Como muita gente estava falando a respeito, resolvi conferir.
O seriado gira em torno dos limites morais que estabelecemos para nosso convívio social e o que nos motiva a ultrapassá-los. De antemão já podemos supor que o professor bonzinho e medroso que se cala frente a tudo passará por alguma transformação. Ele tem um dado conhecimento e é capaz de, com os movimentos adequados, transformá-lo em poder.
Viver em sociedade normalmente implica seguirmos regras e abdicarmos de algumas possibilidades em nome do bem comum. Por exemplo, concordamos em não matar, não roubar, não agredir ou ofender (embora estes últimos sejam mais frequentes e recebam reações mais condescendentes que os dois primeiros). Ainda assim, há pessoas que matam, roubam, agridem e ofendem.
Eu fui criado para ser a pessoa que faz a coisa certa, que cuida dos outros, que defende os direitos e principalmente os deveres de todos. Se todos fôssemos criados como eu, provavelmente o mundo seria um lugar menos perigoso para se habitar. Seria muito menos interessante e diversificado, com certeza. Só que, no fim das contas, não é exatamente isso que a gente está sempre fazendo? Tentando garantir que o nosso entorno seja mais parecido conosco? Atuando em nossas relações com nossos pequenos (e às vezes não tão pequenos) poderes em direção ao que acreditamos que é certo? Eu não vejo diferença, estritamente falando, entre um deputado fanático religioso homofóbico e uma ativista ecológica humanitária que se opõe a todo tipo de violência e exclusão. Ambos estão lutando para fazer a coisa certa.
Se alguma coisa, acho que podemos tirar disso a prova de que não existe essa tal de coisa certa. O que existe é aquilo que acreditamos confrontado pelo que os outros acreditam. Isso é o mundo.
O seriado gira em torno dos limites morais que estabelecemos para nosso convívio social e o que nos motiva a ultrapassá-los. De antemão já podemos supor que o professor bonzinho e medroso que se cala frente a tudo passará por alguma transformação. Ele tem um dado conhecimento e é capaz de, com os movimentos adequados, transformá-lo em poder.
Viver em sociedade normalmente implica seguirmos regras e abdicarmos de algumas possibilidades em nome do bem comum. Por exemplo, concordamos em não matar, não roubar, não agredir ou ofender (embora estes últimos sejam mais frequentes e recebam reações mais condescendentes que os dois primeiros). Ainda assim, há pessoas que matam, roubam, agridem e ofendem.
Eu fui criado para ser a pessoa que faz a coisa certa, que cuida dos outros, que defende os direitos e principalmente os deveres de todos. Se todos fôssemos criados como eu, provavelmente o mundo seria um lugar menos perigoso para se habitar. Seria muito menos interessante e diversificado, com certeza. Só que, no fim das contas, não é exatamente isso que a gente está sempre fazendo? Tentando garantir que o nosso entorno seja mais parecido conosco? Atuando em nossas relações com nossos pequenos (e às vezes não tão pequenos) poderes em direção ao que acreditamos que é certo? Eu não vejo diferença, estritamente falando, entre um deputado fanático religioso homofóbico e uma ativista ecológica humanitária que se opõe a todo tipo de violência e exclusão. Ambos estão lutando para fazer a coisa certa.
Se alguma coisa, acho que podemos tirar disso a prova de que não existe essa tal de coisa certa. O que existe é aquilo que acreditamos confrontado pelo que os outros acreditam. Isso é o mundo.
sexta-feira, outubro 04, 2013
O que as pessoas leem
Quando estava lendo Paulo Coelho, tomei um grande cuidado para não sair à rua com o livro exposto. E se alguém me reconhecesse e observasse o que eu estava lendo? Vai que alguém não me conhecesse e desistisse de me oferecer um milhão de dólares porque pensou mal de mim? Eu já disse, gostei de O Alquimista, mas esse é um segredo só nosso.
Brincadeiras à parte, enquanto voltava da biblioteca com o livro O reino do dragão de ouro, da Isabel Allende, fiquei pensando no que aquilo que nós portamos diz ao mundo sobre nós. Se eu vejo alguém lendo Dan Brown, possivelmente terei uma impressão diferente e menos interessada do que se encontrar uma pessoa devorando um livro do Neil Gaiman. Numa cidade do interior aqui de Goiás vi dois caras discutindo fervorosamente. Olhei para a mesinha e reparei um tomo gigantesco do Lacan. Preciso dizer que os sujeitos ganharam pontos positivos na minha tabelinha do preconceito?
Depois de escrever isso tudo, acho que muita gente usaria aquele discurso "é necessário cuidar das nossas aparências e das mensagens que passamos aos outros". Sim, isso pode ser verdade. Certamente é o que eu digo para os meus alunos na sala de aula, afinal serão profissionais da Comunicação. Daí a eu achar que a opinião alheia deveria ser uma preocupação constante nossa já é outra história.
Para mim interessa principalmente lembrar, da próxima vez que eu ver alguém com um livro, que a pessoa pode ter milhões de motivos para estar com ele. Se ela já está com um livro aberto nas mãos, provavelmente já é um ponto positivo a ser considerado, seja esse livro qual for (há uma exceção que ainda não venci o preconceito, mas é questão de tempo, prometo!). Portanto, fica a dica: julgar uma pessoa pela capa (do livro que ela está lendo) não revela nada sobre a pessoa ou sua história, apenas sobre nossos próprios preconceitos.
Em tempo: escrever sobre isso me lembrou o projeto de um amigo, o Common People Reading (pessoas comuns lendo). Foi de lá que roubei a foto.
Brincadeiras à parte, enquanto voltava da biblioteca com o livro O reino do dragão de ouro, da Isabel Allende, fiquei pensando no que aquilo que nós portamos diz ao mundo sobre nós. Se eu vejo alguém lendo Dan Brown, possivelmente terei uma impressão diferente e menos interessada do que se encontrar uma pessoa devorando um livro do Neil Gaiman. Numa cidade do interior aqui de Goiás vi dois caras discutindo fervorosamente. Olhei para a mesinha e reparei um tomo gigantesco do Lacan. Preciso dizer que os sujeitos ganharam pontos positivos na minha tabelinha do preconceito?
Depois de escrever isso tudo, acho que muita gente usaria aquele discurso "é necessário cuidar das nossas aparências e das mensagens que passamos aos outros". Sim, isso pode ser verdade. Certamente é o que eu digo para os meus alunos na sala de aula, afinal serão profissionais da Comunicação. Daí a eu achar que a opinião alheia deveria ser uma preocupação constante nossa já é outra história.
Para mim interessa principalmente lembrar, da próxima vez que eu ver alguém com um livro, que a pessoa pode ter milhões de motivos para estar com ele. Se ela já está com um livro aberto nas mãos, provavelmente já é um ponto positivo a ser considerado, seja esse livro qual for (há uma exceção que ainda não venci o preconceito, mas é questão de tempo, prometo!). Portanto, fica a dica: julgar uma pessoa pela capa (do livro que ela está lendo) não revela nada sobre a pessoa ou sua história, apenas sobre nossos próprios preconceitos.
Em tempo: escrever sobre isso me lembrou o projeto de um amigo, o Common People Reading (pessoas comuns lendo). Foi de lá que roubei a foto.
Ciúme não é prova de amor
Quero começar deixando claro que não acredito que namorar com alguém signifique ser dono desse alguém. É uma ideia simples, mas acho que muita gente vai discordar. Por esses tempos namorei com um angry bird que achava um ultraje as pessoas me olharem na rua, como se estivessem trespassando alguma área privada. Eu mesmo já me peguei enfurecido de pensar em algum digníssimo conversando com outros sujeitos. Só depois de muitas fúrias aleatórias é que pensei sobre o motivo disso.
Sempre achei que ciúme fosse prova de amor. Afinal de contas, se tu ama alguém, quer que essa pessoa esteja contigo para sempre, não é mesmo? Não, não é. A não ser que eu esteja entendendo errado essa coisa toda do amor, amar não significa querer estar sempre do lado grudado sem deixar respirar. O nome disso é egoísmo, dependência, posse, ou várias outras coisas, mas não amor.
Amar, da forma que entendo, é querer bem, se preocupar, dar carinho, oferecer ombro, sorrir pelas conquistas, torcer pela felicidade. Não é a toa que ter amor próprio significa fazer tudo isso em relação a si mesmo. Amar não é ver a pessoa realizar aquilo que imaginamos para ela. Amar não é algo eterno, pode mudar de uma hora para outra (as pessoas mudam!). Amar não é justificativa para loucuras (o nome disso é loucura, veja só).
Então o que é o tal do ciúme? Ciúme é um exercício do nosso ego, nossa tentativa (frustrada) de controlar o mundo, geralmente a partir de alguém que a gente ama ou acha que ama. Quando a gente diz "ele é meu namorado", o meu ganha mais importância que tudo e pensamos que podemos controlar como a pessoa respira, para onde olha, o que sente e o que faz. Isso é um problema, especialmente porque no geral as pessoas que namoram firmam um acordo baseado em poucas coisas explícitas. Por exemplo, quase todo namoro é monogâmico, ou seja, uma relação que não envolve sexo com outras pessoas. Por outro lado, quase ninguém define comportamentos relacionados a flertes, conversas com exs e saídas com os amigos.
Uma hora ou outra, porém, o mundo imaginário do namoro perfeito que idealizamos bate de frente com a realidade e a pessoa sofre porque a imaginação era melhor do que a verdade. É nessa hora que nasce o ciúme. Em resumo, o ciúme é o nosso mimimi por o mundo (e as outras pessoas) não serem exatamente como nós queríamos. Se for criança, chamamos de mimada. Se for namoro, dizemos que é ciúme.
Quando a gente sente ciúme, o problema não está na outra pessoa, mas sim em nós e em nossas expectativas. É o nosso mundo que está a perigo, a nossa visão da vida que está sendo ameaçada pela força mordaz da verdade. É possível escaparmos do ciúme? Não sei. Podemos nos libertar das nossas expectativas? Por essas e outras acho que nem todo mundo pode namorar e que devemos pensar menos. Só abrindo mão de nós mesmos, me parece, é que somos capazes de verdadeiramente amar...
Sempre achei que ciúme fosse prova de amor. Afinal de contas, se tu ama alguém, quer que essa pessoa esteja contigo para sempre, não é mesmo? Não, não é. A não ser que eu esteja entendendo errado essa coisa toda do amor, amar não significa querer estar sempre do lado grudado sem deixar respirar. O nome disso é egoísmo, dependência, posse, ou várias outras coisas, mas não amor.
Amar, da forma que entendo, é querer bem, se preocupar, dar carinho, oferecer ombro, sorrir pelas conquistas, torcer pela felicidade. Não é a toa que ter amor próprio significa fazer tudo isso em relação a si mesmo. Amar não é ver a pessoa realizar aquilo que imaginamos para ela. Amar não é algo eterno, pode mudar de uma hora para outra (as pessoas mudam!). Amar não é justificativa para loucuras (o nome disso é loucura, veja só).
Então o que é o tal do ciúme? Ciúme é um exercício do nosso ego, nossa tentativa (frustrada) de controlar o mundo, geralmente a partir de alguém que a gente ama ou acha que ama. Quando a gente diz "ele é meu namorado", o meu ganha mais importância que tudo e pensamos que podemos controlar como a pessoa respira, para onde olha, o que sente e o que faz. Isso é um problema, especialmente porque no geral as pessoas que namoram firmam um acordo baseado em poucas coisas explícitas. Por exemplo, quase todo namoro é monogâmico, ou seja, uma relação que não envolve sexo com outras pessoas. Por outro lado, quase ninguém define comportamentos relacionados a flertes, conversas com exs e saídas com os amigos.
Uma hora ou outra, porém, o mundo imaginário do namoro perfeito que idealizamos bate de frente com a realidade e a pessoa sofre porque a imaginação era melhor do que a verdade. É nessa hora que nasce o ciúme. Em resumo, o ciúme é o nosso mimimi por o mundo (e as outras pessoas) não serem exatamente como nós queríamos. Se for criança, chamamos de mimada. Se for namoro, dizemos que é ciúme.
Quando a gente sente ciúme, o problema não está na outra pessoa, mas sim em nós e em nossas expectativas. É o nosso mundo que está a perigo, a nossa visão da vida que está sendo ameaçada pela força mordaz da verdade. É possível escaparmos do ciúme? Não sei. Podemos nos libertar das nossas expectativas? Por essas e outras acho que nem todo mundo pode namorar e que devemos pensar menos. Só abrindo mão de nós mesmos, me parece, é que somos capazes de verdadeiramente amar...
quinta-feira, outubro 03, 2013
Pare de pensar tanto
Em dezembro de 2005 conheci um moço que se interessou por mim. Até então eu era não apenas virgem bobinho, mas também completamente alheio ao mundo e sem esperanças de deixar de ser. Já antecipo que essa não foi uma história feliz por uma série enorme de motivos, mas só um deles me interessa aqui: eu não conseguia parar de pensar sobre como existir perto dele.
Provavelmente todos nós já vivemos algo parecido: chegamos a um lugar ou a uma situação a que não estamos familiarizados ou confortáveis e começamos a analisar todas as variáveis possíveis tentando decidir como agir. Será que vai dar certo? Será que vão gostar? Será que não vou fazer feio?
Eu não estava com medo por não saber o que queria. Pelo contrário, eu sabia exatamente o que buscava. Arrisco dizer que no geral a gente tem uma boa noção do que está procurando. O que me paralisava eram as infinitas possibilidades derivadas de cada momento em que eu estava próximo ao rapaz. O que teria feito a diferença naquele momento? Pensar menos.
Eu estava preocupado com tantas coisas, com fazer direito, com dizer as palavras certas, com manifestar o olhar correto, com passar a mensagem exata, com me movimentar de forma interessante, com não o deixar perceber que eu estava com medo etc. Seria tão difícil ser eu mesmo? Naquele momento eu ainda não havia percebido que se a criatura não se interessasse por mim, elaborar mil planos e analisar zilhões de possibilidades dificilmente mudaria alguma coisa.
Ontem uma amiga pediu para que eu lhe falasse mais sobre o zen. Eu fiquei sem palavras. Pensando de novo, acho que foi a melhor resposta possível, já que o zen está relacionado à experiência direta da vida e não com reflexões e conceituações abstratas. Pensar demais no passado ou no futuro nos rouba o momento presente, impedindo a experiência direta. Quando agimos pensando principalmente nos resultados, é a experiência do momento que está sendo perdida.
Prometi a essa amiga que escreveria um texto sobre zen e passei algumas horas perdido olhando para a tela em branco. Eu estava considerando a melhor forma de escrever, sem perceber que o melhor jeito de colocar as palavras no papel é colocando. O saber não faz sentido sem o agir, algo que por sua vez só faz sentido dizer se eu estiver praticando. A mesma coisa vale para mim, que quero ser escritor. Sempre quis, nunca soube como, até que comecei a ser. A porta estava ali aberta para mim, então finalmente passei por ela. Não sei o que vem agora, não sei como agir, o que escrever, quem vai ler, não sei nada disso. Eu posso ficar pensando a respeito e decidindo tudo de antemão (já antecipo que tem um grande potencial de dar errado, não sou tão inteligente assim), ou posso seguir escrevendo.
Nada disso quer dizer que não devemos refletir sobre nossas vidas. Acho que se for pra resumir, podemos colocar assim: é tranquilo parar de vez em quando para pensar, mas não passar a vida pensando sem sair do lugar. Afinal, a vida é movimento.
Provavelmente todos nós já vivemos algo parecido: chegamos a um lugar ou a uma situação a que não estamos familiarizados ou confortáveis e começamos a analisar todas as variáveis possíveis tentando decidir como agir. Será que vai dar certo? Será que vão gostar? Será que não vou fazer feio?
Eu não estava com medo por não saber o que queria. Pelo contrário, eu sabia exatamente o que buscava. Arrisco dizer que no geral a gente tem uma boa noção do que está procurando. O que me paralisava eram as infinitas possibilidades derivadas de cada momento em que eu estava próximo ao rapaz. O que teria feito a diferença naquele momento? Pensar menos.
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| "Saber e não fazer/agir é ainda não saber" |
Eu estava preocupado com tantas coisas, com fazer direito, com dizer as palavras certas, com manifestar o olhar correto, com passar a mensagem exata, com me movimentar de forma interessante, com não o deixar perceber que eu estava com medo etc. Seria tão difícil ser eu mesmo? Naquele momento eu ainda não havia percebido que se a criatura não se interessasse por mim, elaborar mil planos e analisar zilhões de possibilidades dificilmente mudaria alguma coisa.
Ontem uma amiga pediu para que eu lhe falasse mais sobre o zen. Eu fiquei sem palavras. Pensando de novo, acho que foi a melhor resposta possível, já que o zen está relacionado à experiência direta da vida e não com reflexões e conceituações abstratas. Pensar demais no passado ou no futuro nos rouba o momento presente, impedindo a experiência direta. Quando agimos pensando principalmente nos resultados, é a experiência do momento que está sendo perdida.
Prometi a essa amiga que escreveria um texto sobre zen e passei algumas horas perdido olhando para a tela em branco. Eu estava considerando a melhor forma de escrever, sem perceber que o melhor jeito de colocar as palavras no papel é colocando. O saber não faz sentido sem o agir, algo que por sua vez só faz sentido dizer se eu estiver praticando. A mesma coisa vale para mim, que quero ser escritor. Sempre quis, nunca soube como, até que comecei a ser. A porta estava ali aberta para mim, então finalmente passei por ela. Não sei o que vem agora, não sei como agir, o que escrever, quem vai ler, não sei nada disso. Eu posso ficar pensando a respeito e decidindo tudo de antemão (já antecipo que tem um grande potencial de dar errado, não sou tão inteligente assim), ou posso seguir escrevendo.
Nada disso quer dizer que não devemos refletir sobre nossas vidas. Acho que se for pra resumir, podemos colocar assim: é tranquilo parar de vez em quando para pensar, mas não passar a vida pensando sem sair do lugar. Afinal, a vida é movimento.
quarta-feira, outubro 02, 2013
Pequeno manual de sexo
Meu amigo se define como passivo, mas anda com vontade de ser ativo (pelo menos entre os gays, ativo é aquele que, na relação sexual, penetra, enquanto o passivo é penetrado... uma nomenclatura péssima, mas sobre a qual não vou discutir hoje). Disse a ele que é muito fácil, basta ter um pênis duro e colocá-lo no anus alheio. A lógica é infalível. Ele argumentou que queria que fosse bom, não doesse e proporcionasse prazer. É nesse ponto em que a coisa começa a complicar.
Primeira regrinha para esse texto: sexo não é apenas penetração.
Vivemos num mundo que prioriza o pênis como principal fonte de prazer, o que muitas vezes leva as pessoas a pensarem que lésbicas não têm prazer porque não têm pênis ou que "viraram lésbicas" porque nunca foram bem comidas. Gente, não! O pênis é uma parte do corpo humano como qualquer outra, a principal diferença é que depois de bem chacoalhado ele vomita uma coisinha branca que ajuda a fazer nenéns. O pênis não é o centro do mundo, tampouco a coisa mais gostosa. Tem gente que sente muito mais tesão com um dedo roçando a virilha do que com uma língua super habilidosa na glande.
Se o pênis não é a fonte de todos os prazeres, então a penetração (vaginal ou anal, tanto faz) também não é obrigatoriamente o ponto alto do sexo. Não precisa ser, ao menos. Li esses dias no Cem Homens que deveríamos esquecer a palavra "preliminares". Concordo demais. Falar em algo preliminar nos leva a supor que o momento mais importante da transa será quando o pênis entra em ação. Dentro dessa lógica, beijos, carícias, coçadinhas e roçadas ficam em segundo plano, quando deveriam ganhar muito mais atenção. É como se as pessoas tivessem pressa para gozar logo e terminar a transa (porque a maioria dos homens não consegue gozar duas ou três vezes seguidas sem um intervalo e muitos, para completar, ainda perdem o interesse em outros seres humanos durante esse tempo).
Não estou defendendo a prática sexual sem penetração (o nome disso é gouinage), mas também não haveria problema se estivesse. O que, aliás, nos leva à segunda regrinha de hoje: sexo deve ser feito como der prazer a todos os participantes. Se isso envolve mordidas, tapas, chicotes ou pessoas em roupas de lycra, beleza, contanto que seja consensual. Sexo bom é aquele em que todos os envolvidos terminam contentes, de preferência com algum tipo de prazer despertado. Daí vem aquele chato que acha que entende de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo, Masoquismo) e vai me dizer que tem gente que gosta de apanhar e sofrer e que não há nenhum prazer nisso. Desculpa, meu querido, mas estou compreendendo prazer de uma maneira mais ampla, ou seja, como algo que buscamos ou sentimos que nos faz relaxar e experimentar momentos de alívio e gozo.
Agora já sabemos que sexo não é apenas penetração, logo o pênis não é a parte mais importante da coisa toda, e que no sexo vale tudo que os envolvidos queiram fazer e deem consentimento. Já dá para perceber o tanto que a pressão sobre a pessoa responsável pelo pênis ereto foi diminuída? Toda essa pressão cultural de milênios sobre o pênis é magicamente retirada quando entendemos que o prazer vem do contato e da troca na cama (e no sofá, na mesa da cozinha, nas escadas...). O nosso principal órgão sexual é o cérebro, é a ele que objetivamos dar prazer.
De volta ao meu amigo passivo que quer ser ativo, penso que o conselho continua valendo: pau duro no ânus. É claro que tem muito mais do que isso e eu realmente espero que seja muito além do que somente isso. Se a penetração será uma parte do ato sexual, então o relaxamento é imprescindível. De ambas as partes, não só de quem será penetrado. Tentar comer alguém e ficar o tempo inteiro pensando se vai ser bom, se a pessoa vai gostar, se o pau é grande o suficiente etc. é um convite para brochar. O que, aliás, não deveria ser encarado como um grande problema, afinal de contas o pinto não é o ator principal do sexo (embora o mundo inteiro tente nos convencer disso). Brochou, segue o baile e daqui a pouco está duro de novo.
Além do relaxamento de ambas as partes (aqui estou falando em dois porque até hoje nunca vi alguém capaz de penetrar duas pessoas ao mesmo tempo com o mesmo pênis, mas estou aberto a ser surpreendido), uma boa lubrificada é essencial, óbvio. Saliva ou lubrificantes cumprem o propósito. Há algumas camisinhas que já vêm com uma lubrificação bem boa, mas eu geralmente gosto de complementar. Deslizar ao invés de rasgar nunca é demais (a não ser que a pessoa em questão goste de uma coisa mais bruta, mais seca, mais primeira vez de O Segredo de Brokeback Mountain, que doeu em mim só de olhar).
Depois que entrou, acho que a coisa é mais tranquila. A primeira vontade é de ligar a britadeira e ficar bombando até gozar, mas a gente ri de quem faz isso não porque é bom, mas sim porque cansa e não acrescenta muito. É claro que não pretendo generalizar, tem gente que curte uma coisa mais forte e toda trabalhada no vai e vem louco, mas no geral percebo mais reclamações do que elogios. Eu parto do princípio de que o pênis penetrado é uma massagem interna: como qualquer massagem, tem quem goste mais forte, mas no geral o que conta são os pontos em que estão sendo pressionados e a constância e/ou intensidade do massagear. Essa coisa de enfiar e ficar mexendo compulsivamente costuma ser bom só para quem está penetrando, mas daí é egoísmo, o que nos leva à terceira regrinha de hoje: sexo não é masturbação assistida.
Salvo em casos muito raros, os outros não estão com você somente para dar prazer a você e ponto. Quando pequenos a gente chamava isso de troca-troca por uma razão, afinal de contas. Todos os envolvidos deveriam ter prazer com o sexo. Não é à toa que a maioria das mulheres reclamam dos homens, que foram ensinados desde pequenos a só se preocuparem com o próprio pau e, por isso, deixam as moças lá sem assistência alguma. Com gays acontece algo parecido: o sujeito ativo fica achando que o papel dele é só meter fundo e gozar litros. Não é.
Por fim, chegamos à quarta regrinha do sexo da raposa: brincar é importante. Quem leva o sexo a sério demais com frequência perde a oportunidade de ser criativo e explorar possibilidades. Não há problema em desgostar de coisas que outras pessoas acham comuns ou necessárias. Da mesma forma, não deveria haver problema em experimentarmos uma coisa ou outra aqui e acolá. Meu irmão sempre declarou a plenos pulmões que não deixa rolar o fio terra, pois isso não é coisa de homem. Eu discordo basicamente porque sou homem e o resto vocês deduzem. A questão é que o ânus está cheio de terminações nervosas super excitáveis e associar heterossexualidade com a preservação do cu é uma noção boçal.
Está com outra(s) pessoa(s) brincando de sexo? Excelente, brinque! As nossas vidas sexuais seriam tão melhores se não nos agarrássemos a noções conservadoras sobre o que pode e o que não pode, quem faz o quê e por quanto tempo etc. No meio de tudo isso, acho que vale apenas lembrar o mais importante: seja o que for, deve ser sempre consensual e, de preferência, bom para ambos.
Primeira regrinha para esse texto: sexo não é apenas penetração.
Vivemos num mundo que prioriza o pênis como principal fonte de prazer, o que muitas vezes leva as pessoas a pensarem que lésbicas não têm prazer porque não têm pênis ou que "viraram lésbicas" porque nunca foram bem comidas. Gente, não! O pênis é uma parte do corpo humano como qualquer outra, a principal diferença é que depois de bem chacoalhado ele vomita uma coisinha branca que ajuda a fazer nenéns. O pênis não é o centro do mundo, tampouco a coisa mais gostosa. Tem gente que sente muito mais tesão com um dedo roçando a virilha do que com uma língua super habilidosa na glande.
Se o pênis não é a fonte de todos os prazeres, então a penetração (vaginal ou anal, tanto faz) também não é obrigatoriamente o ponto alto do sexo. Não precisa ser, ao menos. Li esses dias no Cem Homens que deveríamos esquecer a palavra "preliminares". Concordo demais. Falar em algo preliminar nos leva a supor que o momento mais importante da transa será quando o pênis entra em ação. Dentro dessa lógica, beijos, carícias, coçadinhas e roçadas ficam em segundo plano, quando deveriam ganhar muito mais atenção. É como se as pessoas tivessem pressa para gozar logo e terminar a transa (porque a maioria dos homens não consegue gozar duas ou três vezes seguidas sem um intervalo e muitos, para completar, ainda perdem o interesse em outros seres humanos durante esse tempo).
Não estou defendendo a prática sexual sem penetração (o nome disso é gouinage), mas também não haveria problema se estivesse. O que, aliás, nos leva à segunda regrinha de hoje: sexo deve ser feito como der prazer a todos os participantes. Se isso envolve mordidas, tapas, chicotes ou pessoas em roupas de lycra, beleza, contanto que seja consensual. Sexo bom é aquele em que todos os envolvidos terminam contentes, de preferência com algum tipo de prazer despertado. Daí vem aquele chato que acha que entende de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo, Masoquismo) e vai me dizer que tem gente que gosta de apanhar e sofrer e que não há nenhum prazer nisso. Desculpa, meu querido, mas estou compreendendo prazer de uma maneira mais ampla, ou seja, como algo que buscamos ou sentimos que nos faz relaxar e experimentar momentos de alívio e gozo.
Agora já sabemos que sexo não é apenas penetração, logo o pênis não é a parte mais importante da coisa toda, e que no sexo vale tudo que os envolvidos queiram fazer e deem consentimento. Já dá para perceber o tanto que a pressão sobre a pessoa responsável pelo pênis ereto foi diminuída? Toda essa pressão cultural de milênios sobre o pênis é magicamente retirada quando entendemos que o prazer vem do contato e da troca na cama (e no sofá, na mesa da cozinha, nas escadas...). O nosso principal órgão sexual é o cérebro, é a ele que objetivamos dar prazer.
De volta ao meu amigo passivo que quer ser ativo, penso que o conselho continua valendo: pau duro no ânus. É claro que tem muito mais do que isso e eu realmente espero que seja muito além do que somente isso. Se a penetração será uma parte do ato sexual, então o relaxamento é imprescindível. De ambas as partes, não só de quem será penetrado. Tentar comer alguém e ficar o tempo inteiro pensando se vai ser bom, se a pessoa vai gostar, se o pau é grande o suficiente etc. é um convite para brochar. O que, aliás, não deveria ser encarado como um grande problema, afinal de contas o pinto não é o ator principal do sexo (embora o mundo inteiro tente nos convencer disso). Brochou, segue o baile e daqui a pouco está duro de novo.
Além do relaxamento de ambas as partes (aqui estou falando em dois porque até hoje nunca vi alguém capaz de penetrar duas pessoas ao mesmo tempo com o mesmo pênis, mas estou aberto a ser surpreendido), uma boa lubrificada é essencial, óbvio. Saliva ou lubrificantes cumprem o propósito. Há algumas camisinhas que já vêm com uma lubrificação bem boa, mas eu geralmente gosto de complementar. Deslizar ao invés de rasgar nunca é demais (a não ser que a pessoa em questão goste de uma coisa mais bruta, mais seca, mais primeira vez de O Segredo de Brokeback Mountain, que doeu em mim só de olhar).
Depois que entrou, acho que a coisa é mais tranquila. A primeira vontade é de ligar a britadeira e ficar bombando até gozar, mas a gente ri de quem faz isso não porque é bom, mas sim porque cansa e não acrescenta muito. É claro que não pretendo generalizar, tem gente que curte uma coisa mais forte e toda trabalhada no vai e vem louco, mas no geral percebo mais reclamações do que elogios. Eu parto do princípio de que o pênis penetrado é uma massagem interna: como qualquer massagem, tem quem goste mais forte, mas no geral o que conta são os pontos em que estão sendo pressionados e a constância e/ou intensidade do massagear. Essa coisa de enfiar e ficar mexendo compulsivamente costuma ser bom só para quem está penetrando, mas daí é egoísmo, o que nos leva à terceira regrinha de hoje: sexo não é masturbação assistida.
Salvo em casos muito raros, os outros não estão com você somente para dar prazer a você e ponto. Quando pequenos a gente chamava isso de troca-troca por uma razão, afinal de contas. Todos os envolvidos deveriam ter prazer com o sexo. Não é à toa que a maioria das mulheres reclamam dos homens, que foram ensinados desde pequenos a só se preocuparem com o próprio pau e, por isso, deixam as moças lá sem assistência alguma. Com gays acontece algo parecido: o sujeito ativo fica achando que o papel dele é só meter fundo e gozar litros. Não é.
Por fim, chegamos à quarta regrinha do sexo da raposa: brincar é importante. Quem leva o sexo a sério demais com frequência perde a oportunidade de ser criativo e explorar possibilidades. Não há problema em desgostar de coisas que outras pessoas acham comuns ou necessárias. Da mesma forma, não deveria haver problema em experimentarmos uma coisa ou outra aqui e acolá. Meu irmão sempre declarou a plenos pulmões que não deixa rolar o fio terra, pois isso não é coisa de homem. Eu discordo basicamente porque sou homem e o resto vocês deduzem. A questão é que o ânus está cheio de terminações nervosas super excitáveis e associar heterossexualidade com a preservação do cu é uma noção boçal.
Está com outra(s) pessoa(s) brincando de sexo? Excelente, brinque! As nossas vidas sexuais seriam tão melhores se não nos agarrássemos a noções conservadoras sobre o que pode e o que não pode, quem faz o quê e por quanto tempo etc. No meio de tudo isso, acho que vale apenas lembrar o mais importante: seja o que for, deve ser sempre consensual e, de preferência, bom para ambos.
terça-feira, outubro 01, 2013
Minorias preconceituosas
Ser parte de minorias não te impede de ser preconceituoso. Ponto. Exemplo básico que ouvi esses dias: uma moça negra lésbica viu um rapaz hetero branco de cabelos claros sentado na mesma mesa que ela e amigos em comum e disparou "você é tudo que eu desprezo".
Pausa para avaliar o quanto essa pessoa foi cretina. É, idiota mesmo, trouxa, palhaça, inadequada para o convívio com outros seres humanos. De onde veio esse desprezo todo por uma pessoa baseado numa série de informações superficiais? O que há de tão odioso em ter uma cor de pele, um pênis e uma namorada? No mundo dessa gentil moça, muita coisa. Não vou negar nem de longe que zilhões de ofensas e ações cruéis ao longo da história vieram das mãos de sujeitos com essas mesmas características, só que nada disso faz dele perpetuador desses atos.
Trago-a como exemplo para refletirmos brevemente sobre esses paradoxos ambulantes. Homossexuais homofóbicos e mulheres machistas, por exemplo. Volta e meio vejo gays criticando pessoas "afetadas", ou seja, homens afeminados e mulheres masculinas. Sério, gente? Além da obviedade de o comportamento alheio não ter nada a ver com a gente se não estiver prejudicando ninguém, qual é o problema de um homem agir afeminadamente? (seja lá o que for isso, discussão complexa que vamos guardar para outro dia) Tem a ver com pensarmos que mulheres são inferiores aos homens? (olha o machismo aí) E mulheres masculinas, será que não gostamos porque estão ousando ser "mais" do que são? (olha o machismo aí de novo) Temos também as famosas mulheres machistas, doutrinadas por um sistema que se sustenta em pisar nas mulheres e em obrigá-las a servir apenas de alimento para os desejos machos.
Acontece que é difícil escapar desse tipo de pensamento nocivo, por mais que ele seja contra nós mesmos ou contra pessoas que compartilham espaços semelhantes no mundo. Sofrer não é pré-requisito para a solidariedade. Para escapar do círculo vicioso do ódio (contra si mesmo, inclusive) é necessário aquele tipo particular de coragem sobre o qual escrevi recentemente. É coisa que se aprende, que se ensina, que se compartilha.
Odiar é um hábito ruim contra o qual temos que lutar. Se aceitamos alguém odiando perto de nós, estamos permitindo que alguém seja odiado. Ao fazermos isso pactuamos com dois pensamentos: que é certo odiar e que ninguém vai mover um dedo para evitar que outras pessoas sejam odiadas. A vida muda pelo exemplo e a coragem cresce junto. Fecharei esse texto com Gandhi: "Olho por olho torna todo o mundo cego". O ódio direcionado contra o outro nunca é algo positivo. Não quer dizer que o desgosto não possa nos motivar a agir, que a irritação e o desejo por mudanças não possam nos dar forças. Quer dizer apenas que não devemos repetir sobre os outros aquilo que odiamos que façam conosco. Espero que a moça-exemplo lá do começo leia esse texto e reflita.
Pausa para avaliar o quanto essa pessoa foi cretina. É, idiota mesmo, trouxa, palhaça, inadequada para o convívio com outros seres humanos. De onde veio esse desprezo todo por uma pessoa baseado numa série de informações superficiais? O que há de tão odioso em ter uma cor de pele, um pênis e uma namorada? No mundo dessa gentil moça, muita coisa. Não vou negar nem de longe que zilhões de ofensas e ações cruéis ao longo da história vieram das mãos de sujeitos com essas mesmas características, só que nada disso faz dele perpetuador desses atos.
Trago-a como exemplo para refletirmos brevemente sobre esses paradoxos ambulantes. Homossexuais homofóbicos e mulheres machistas, por exemplo. Volta e meio vejo gays criticando pessoas "afetadas", ou seja, homens afeminados e mulheres masculinas. Sério, gente? Além da obviedade de o comportamento alheio não ter nada a ver com a gente se não estiver prejudicando ninguém, qual é o problema de um homem agir afeminadamente? (seja lá o que for isso, discussão complexa que vamos guardar para outro dia) Tem a ver com pensarmos que mulheres são inferiores aos homens? (olha o machismo aí) E mulheres masculinas, será que não gostamos porque estão ousando ser "mais" do que são? (olha o machismo aí de novo) Temos também as famosas mulheres machistas, doutrinadas por um sistema que se sustenta em pisar nas mulheres e em obrigá-las a servir apenas de alimento para os desejos machos.
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| "O ódio é fácil; o amor exige coragem". |
Acontece que é difícil escapar desse tipo de pensamento nocivo, por mais que ele seja contra nós mesmos ou contra pessoas que compartilham espaços semelhantes no mundo. Sofrer não é pré-requisito para a solidariedade. Para escapar do círculo vicioso do ódio (contra si mesmo, inclusive) é necessário aquele tipo particular de coragem sobre o qual escrevi recentemente. É coisa que se aprende, que se ensina, que se compartilha.
Odiar é um hábito ruim contra o qual temos que lutar. Se aceitamos alguém odiando perto de nós, estamos permitindo que alguém seja odiado. Ao fazermos isso pactuamos com dois pensamentos: que é certo odiar e que ninguém vai mover um dedo para evitar que outras pessoas sejam odiadas. A vida muda pelo exemplo e a coragem cresce junto. Fecharei esse texto com Gandhi: "Olho por olho torna todo o mundo cego". O ódio direcionado contra o outro nunca é algo positivo. Não quer dizer que o desgosto não possa nos motivar a agir, que a irritação e o desejo por mudanças não possam nos dar forças. Quer dizer apenas que não devemos repetir sobre os outros aquilo que odiamos que façam conosco. Espero que a moça-exemplo lá do começo leia esse texto e reflita.
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