segunda-feira, setembro 30, 2013

O que é ser gay

"Ser gay é uma condição".
"Ser gay é uma opção".
"Ninguém escolheria ser gay, é claro que se nasce assim".
"Ser gay é pecado, mesmo nascendo assim as pessoas deveriam guardar pra si seus desejos".

Ai, tanta coisa misturada. No meio disso tudo quase ninguém para e reflete sobre o que significa ser gay. É dar o cu, é gostar de pênis, é gostar de cus, é o quê? Há quem diga que ser gay tem mais a ver com ser afeminado (ou masculinizada, no caso das mulheres), o que de longe temos exemplos suficientes para saber que não cobre toda a parcela de pessoas que se atraem por pessoas do mesmo gênero. Opa, mas e agora, é coisa de jeito ou de desejo?


Eu tenho dificuldades com quem procura definir o que eu sou a partir daquilo que eu desejo. Isso por uma razão básica: desejo é fluido. Posso acordar amanhã apaixonado por uma mulher, isso muda a minha identidade ou só o nome que dou a ela? Na vida real não muda nada, mas no mundo dos pensamentos explode dezenas de conceitos.

Vamos além.
Homem, mulher, qual é o limite exato onde um começa e outro acaba? Tem a ver com órgãos genitais, comportamentos sociais ou como a pessoa se entende? São apenas dois? O que acontece com quem sente que não pertence nem a um nem a outro gênero, independente do que o seu corpo diz às pessoas? (Ah, esse corpo fofoqueiro!)

Aí eu amo um homem que nunca esteve contente consigo mesmo porque na verdade se entende como uma mulher. Eu sou gay ou hetero? Ela então passa por toda a burocracia dos infernos e consegue uma cirurgia para reconfigurar seu corpo, dá adeus ao pênis e oi à vagina. Eu ainda amo ela, oras, amo uma pessoa e não meramente um corpo. Meu desejo muda nesse processo? Talvez, não sei. Já li casos em que sim, casos em que não. Agora sou gay ou sou hetero, se a mulher que eu amo não é mais um homem? E ela, que era homem gay e agora é mulher hetero? Ou continua gay porque nasceu como homem? Será que já era hetero, já que se entendia como mulher desde pequena?

Se eu tenho pressa, digo que sou gay. Pressa mesmo, falta de vontade de explicar que uma palavrinha não revela quase nada sobre o que eu sinto por outras pessoas.
Quando não estou correndo, explico que sou uma raposa. Minha melhor amiga costumava dizer que para mim era mulher, mas depois pensou melhor e disse que pra mim é árvore. Nunca senti tesão em árvores, mas tenho o dever moral de avisá-la caso algum dia surja algum, para que perto de mim ela possa ser outra coisa. É nossa forma de determinar que nossa amizade não inclui tesão ou sexo.

As coisas são o que são somente enquanto são. Passageiras, temporárias, fluidas, sem obrigação nenhuma de se submeter às nossas classificações. Compreender isso ou ficar sem entender não faz a menor diferença: a vida continuará sendo o que é, complexa e linda. Bem sabiam os budistas: a tentativa de segurar e controlar a realidade só serve para nos fazer sofrer. (Ou para ajuntamentos políticos, mas essa é outra história.)

domingo, setembro 29, 2013

Sobre ter coragem, parte 2

Quando escrevi sobre ter coragem para enfrentar o mundo, esqueci de mencionar uma coisa muito importante. Eu acho sim que muita gente nasce com uma espécie de dom para tomar as rédeas de vida e sair galopando, enquanto outras se encolhem para não serem pisoteadas. Contudo, não somos feitos somente do que vem de fábrica: aprendemos muito pelo caminho.


No começo desse caminho temos pelo menos duas instituições importantíssimas: a família e a escola. Isso para nem entrarmos na discussão sobre igrejas, mídia, vizinhos etc.

Lembro que, quando criança, aprendi muito sobre como eu não deveria ser, as coisas que deveria não fazer. Vou aqui citar o Mario Quintana, li hoje uma entrevista dele que fala por mim:
Como eu era o caçula, todos me observavam, me aconselhavam, me dirigiam. Havia um mundaréu de coisas que não se podia dizer, que não se podia fazer.
Parece que meu irmão foi o teste enquanto a minha vida era pra valer: todos os equívocos e medos surgidos pela existência dele foram repensados e reorganizados para que eu não repetisse qualquer ponta de decepção. Aprendi criança que não poderia falar alto, chamar atenção, fazer traquinagens nem nada. Sempre fui muito consciente dos limites e muito hábil a colocá-los na vida real, deixando apenas à imaginação a louca tarefa de se transgredir.

Já no colégio, provavelmente por esse silêncio que aprendi a cultivar frente a autoridades, fui vítima fácil de bullying. Eu era pequeno, meiguinho e frágil, uma combinação perfeita para aqueles que não tinham tantas reservas em torturar as existências alheias. Se a escola é o espaço de treinamento para a vida em sociedade, estava muito claro desde o início que o meu papel era o de baixar a cabeça e sofrer calado.

Aos poucos, porém, a gente vai aprendendo. É nesse lento aprender que tenho procurado caminhos que sejam meus no processo de ser quem sou. Conforme "me assumo", vou tomando coragem de manter esses espaços e essas experiências. Sou raposa, gay, escritor, amigo, professor, namorado. Hoje só consigo me posicionar em cada um desses nomes porque sei que eles não são o suficiente para me resumir, algo que eu gostaria de ter aprendido ainda criança.

É muito por isso que ensino e escrevo: para que talvez as palavras que sopro cheguem ao ouvido de alguém e façam a diferença que um dia fizeram por mim. "É possível".

sábado, setembro 28, 2013

Sobre ter coragem

Ontem fui jantar com uma amiga que deseja ser ilustradora de livros infantis, mas ela jamais me mostrou um desenho seu. Nós temos isso em comum, de certa forma: por muitos anos guardei apenas para mim meus escritos, com medo de que não fossem bons o bastante para agradarem a opinião alheia.


De onde vem essa coragem de enfrentar o mundo que algumas pessoas parecem manifestar tão naturalmente? Outra amiga é um verdadeiro modelo de pró-atividade, vai e faz o que quer e experimenta o que aparecer enquanto busca seus interesses. Eu tenho inveja dela. Será possível que coragem não seja uma qualidade disponível a todos nós? Ou se todo mundo pode ser corajoso, como se aprende isso? (nunca me ensinaram na escola)

Vejo pessoas tatuadas, por exemplo, e sempre fico refletindo sobre as escolhas que as motivaram a marcar a pele. Eu, todo cheio de dúvidas, não sei se algum dia estarei convicto o suficiente de algo para imprimir em minha pele tantas certezas. Tenho medo de mudar de ideia e ter que conviver com o que fiz, enquanto algumas pessoas estão certas do que querem ou de quem são desde tão cedo, desde tão pequenas. A coragem é uma disposição para agir hoje e no futuro. Hoje porque sem ação a vida não acontece, e no futuro porque tudo gera consequências de algum tipo.

Esse convite à ação eu encontro no zen-budismo, que nos sugere não pensar demais nem passado (afinal, já sei foi) nem no futuro (que vai chegar de qualquer forma), mas se concentrar em viver o presente. Ainda ontem, na janta com minha amiga, talvez tenha surgido uma pista sobre como nós podemos perceber a vida e, assim, ir juntando um pouco de coragem. Quando reclamei que nunca havia recebido um desenho seu, ela me disse "ah, mas eu não sei se tu vai gostar!". Respondi: "eu estou pedindo para ver os teus desenhos, não para gostar deles". Ao que parece, pensamento em excesso é inimigo da coragem de agir.

sexta-feira, setembro 27, 2013

O umbigo do velho

A cena: eu numa mesa comendo meu sanduíche. É noite, está ventando e as mesas são todas ao ar livre (na calçada do meio da rua). Na mesa ao lado um cara velho com jeito de quem vive todas suas tardes e noites no cigarro e na cerveja bafejando aquela fumaça nojenta que o vento fazia questão de soprar em mim. Pensei em mudar de lugar, mas a preguiça foi maior, então beleza, reclamei pra mim mesmo e ficou nisso porque acho desrespeito ir lá desrespeitar ele porque ele me desrespeitou antes. Ou algo assim.

u não tinha percebido, mas na mesa ao lado das nossas duas havia uma moça fungando. Eis que o velho perguntou qualquer coisa e ela respondeu que era sinusite. Tudo bem, morreu aí o assunto, a moça voltou ao seu suco e o cara ao seu cigarro e à sua cerveja. Levantou, falou alto, gritou, sentou de novo, bebeu, gritou mais. Posso estar exagerando por desprezo ao personagem.

Aí ele se volta à moça e pergunta o nome dela. Ela responde. Pergunta o nome do namorado. Ele responde. E larga a pérola: "você é linda de ver". Nesse momento meu mundo parou. Vontade monstra de levantar e perguntar "oi, quem quer saber?". Acho que nunca na minha vida eu havia sentido indignação por presenciar um homem cantar uma mulher na rua. Talvez eu nunca tivesse percebido com tantos detalhes a cena toda. Foi exatamente o que aconteceu: o velho bêbado resolveu colocar o pau na mesa e mostrar como a opinião dele era mais importante do que a zona de conforto dela. Como se a vida dela dependesse de saber que ele, um cara bêbado, havia curtido sua aparência.


Aliás, algo precisa ficar claro: o problema não é o cara fumar, beber ou ser velho, mas sim exercer o seu poder de macho pra manifestar seus interesses e esperar que a mulher, como personagem secundária perto de qualquer homem, escute e ainda fique feliz em ser reconhecida por um sujeito homem. No fim das contas, o elogio não foi dirigido necessariamente à mulher, não foi uma tentativa de, por exemplo, deixá-la mais contente com sua aparência. Foi apenas o velho observando e comentando o mundo a partir do seu umbigo.

quinta-feira, setembro 26, 2013

Duas dicas para escrever bons textos

A arte de escrever bons textos muitas vezes parece um mistério. É estranho: falamos e escrevemos em língua portuguesa desde que somos crianças e mesmo assim enfrentamos uma dificuldade monstruosa para produzir bons escritos. Já que meu sonho é ser um escritor (que escreve bem e portanto é publicado, lido e, de preferência, apreciado), aprender a escrever é essencial. Por isso tenho lido muitos livros sobre a arte da literatura e encontrei duas ótimas dicas no livro Palavra por Palavra, da Anne Lamott.


A primeira delas é escrever aos poucos, bem como o título do livro sugere. Como assim? Frequentemente queremos escrever já com uma ideia imensa de qual será o enredo do romance, suas reviravoltas e também como ele marcará a cultura mundial depois de lançado. Nossa! Tudo bem ter essas ideias já em mente, mas quando sentamos para trabalhar elas se transformam num peso e numa responsabilidade tão enorme que a gente paralisa. Anne dá como exemplo o escalar de uma geleira: para chegar ao topo, não basta querer e compreender o tamanho da montanha, precisamos pensar a cada momento onde vão nossas mãos e pés e como lidaremos com as dores e frios. Se escalarmos pensando só no final da jornada, é grande a chance de nos perdermos frente à imensidão da tarefa.

No original o livro chama-se Bird by Bird, ou pássaro por pássaro. Esse título vem de um outro exemplo que ela dá. Seu irmão tinha 10 anos e deixara para a última hora um trabalho de biologia sobre pássaros. Na noite anterior ao dia da entrega, portanto, estava sentado na mesa da cozinha chorando rodeado de papéis e livros sobre pássaros. Era muita coisa para fazer e ele sabia disso, então quedou-se acabrunhado diante da enormidade da tarefa. O pai dos dois, um escritor, foi ao filho e disse: "calma, filho, escreva sobre um pássaro de cada vez, pássaro por pássaro". A tarefa hercúlea foi quebrada em pedaços menores, pedaços trabalháveis, tornando o todo mais digerível. Quando vamos almoçar, comemos garfada por garfada, certo? Escrever é a mesma coisa. Podemos até tentar engolir tudo ao mesmo tempo, mas as chances de engasgarmos e terminarmos com uma refeição nada agradável são imensas.

Portanto, que tal sentarmos para escrever com projetos menores? Algo como "hoje descreverei o olhar daquela moça" ou "contarei um pouco da história da cidade". Um parágrafo, uma ação, uma descrição por vez. Conseguiu? Pensa em escrever mais uma. Não conseguiu? Tudo bem, vamos continuar nessa parte ou deixá-la reservada para depois.

"Não tenha medo da perfeição, você nunca irá atingi-la".

A segunda dica é: escreva primeiros esboços ruins. Essa é uma ideia valiosa que eu frequentemente ignoro aqui na Raposa, embora siga quando escrevo literatura. O peso da perfeição é grande demais para que sejamos capazes de numa sentada já produzir uma grande obra poética, profunda e original. Temos a impressão de que os grandes mestres da literatura eram capazes de, logo após estalarem os dedos, digitarem furiosamente em suas máquinas de escrever ou rabiscarem feito médicos os papéis já com ideias magníficas e frases prontas para entrar para a história. Não, não e não!

Escrever é um processo árduo: selecionar as palavras que comporão o texto e aquelas que ficarão de fora, tudo isso exige trabalho. O compromisso com uma primeira versão já consistente e perfeitinha só serve para atrapalhar nosso ofício. Escreva livremente, ninguém precisará ler essa primeira versão. Ela será o teu segredinho, a semente plantada na tela ou no computador. Escreva tudo, escreva tanto quanto for necessário para que as ideias fluam. Depois deixe descansar e releia em busca do que, nesse primeiro jorro de palavras, poderá ser utilizado numa segunda versão. Frequentemente será o caso de jogar quase tudo fora e ficar apenas com uma frase, mas talvez seja uma excelente frase. Para chegar até ela, porém, foi necessário escrever um monte de bobagens antes e isso não é ruim. É parte do processo.

O perfeccionismo só serve para nos atrapalhar. A gente perde tanto tempo preocupado em nossas letras saírem perfeitas no papel que acabamos trancando o fluxo criativo, o que a longo prazo mata mais ideias do que se simplesmente derramássemos nossos pensamentos e reflexões em estado bruto. A autora do livro sugere que a primeira escrita é do semeador: as palavras são simplesmente jogadas no papel. A segunda escrita é do mecânico, que vai consertando tudo o que encontra pela frente para que o todo funcione como um conjunto. A terceira é a do dentista, que vai verificar se cada dente está no lugar, se precisa de reparo etc. Cada nova versão tem o seu momento e o seu propósito, tentar fazer tudo junto é um convite à confusão e ao texto ruim.


Compartilho essas duas dicas na esperança de que escritores como eu possam sofrer menos com esse processo maluco e mágico de tornar ideias em textos. Aos poucos e em várias versões a gente chega lá!

quarta-feira, setembro 25, 2013

Minha nova regra com livros

Li na biblioteca a sinopse de um livro que parecia maravilhoso. Talvez ele até seja, de fato. Não sei e não descobrirei tão cedo. Trouxe o danado para casa e li a primeira página. Depois a segunda, a terceira, a trigésima, a centésima e a última. Pronto, perdi a paciência.


Quase todo manual para escritores que eu encontro diz que o começo de uma história deve cativar o leitor. A primeira frase, parágrafo ou página. Nem sempre acontece. Para falar a verdade, não acontece com a maior parte dos textos clássicos que encontro por aí. Talvez isso aconteça porque na época em que viraram clássicos ainda não precisavam competir com tantos clássicos (faz sentido?).

Então, para desespero da Virginia Woolf (como se ela se importasse), criei uma nova regra (sou cheio de regras, já perceberam?) para a leitura de livros: se eu não me encantar com as primeiras palavras... tá bom, com as primeiras frases e parágrafos, se eu não me encantar até a terceira página, não leio. Não leio e ainda reclamo depois, porque não sou obrigado a fingir que gostei ou que li. Se for clássico dos clássicos até tento mais um pouco.

Claro, vale uma ressalva.
Eu não estou dizendo "não leio pra sempre nunca nunca mais me fale desse livro". Estou dizendo meramente que neste momento da vida não lerei o dito cujo. Amanhã, quem sabe, tento de novo. Ano que vem. O tempo muda os livros porque transforma o leitor. Vai que a raposa leitora de amanhã curte mais o que está lendo? Enquanto isso não acontece, porém, a Virginia Woolf permanecerá na estante.

terça-feira, setembro 24, 2013

Como lidar com a insegurança

Tenho lido muitos livros para escritores e os dois mais recentes, Escrevendo com a alma e Becoming a writer, tocam em um ponto essencial: o sentimento de fraude que acompanha a pessoa que trabalha artisticamente com as palavras. A razão é simples: todo mundo usa a linguagem no dia a dia e já muita gente escreveu coisas magníficas. No fim do dia bate aquela insegurança: será que o que eu faço é bom o suficiente para valer a pena?

Tanto Natalie Goldberg quanto Dorothea Brande tratam nossas dúvidas e inseguranças observando que temos uma parcela da nossa mente dedicada a julgar e censurar aquilo que fazemos. Esse pedacinho de nós é responsável por nos frear, por ficar repetindo "não vai dar certo" bem no cantinho do nosso ouvido. Dependendo da nossa disposição, é capaz de acreditarmos nessa vozinha e desistirmos.


A insegurança é um hábito de imaginarmos um mundo ideal e só agirmos quando temos certeza de que os resultados alcançados serão exatamente aqueles esperados. Geramos tanta expectativa que nos paralisamos diante da primeira resistência oferecida pela realidade. Logo estamos pensando: se é tão difícil e não vai dar certo como eu imaginava, pra que tentar? A verdade é que não há uma boa resposta para essa pergunta, especialmente porque é uma péssima pergunta.

As coisas não precisam ser como nós imaginamos, não é assim que a realidade funciona. Elas só precisam ser como são, o resto é com a gente. A reflexão vem do budismo: nós sofremos porque criamos expectativa de que a vida seja diferente do que ela é. Ah, então tenho que aceitar que sou ruim e não escrever mesmo, né? Não. Esse é o segredo para lidarmos com a insegurança: precisamos mudar nosso hábito de criar expectativas. No meu caso, a prática vai melhorar o meu texto e eu continuarei escrevendo porque acredito que essa é uma arte que dá sentido para a minha existência.

Para acreditar nisso, tenho me forçado a duas coisas:
1. Agir. Não adianta nada eu querer o mundo e ficar em casa jogando, na rua bebendo ou no trabalho vendendo meu tempo. A vida só responde a ações, nunca a pensamentos. Minhas desculpas para quem acredita no "Segredo", mas não adianta só mentalizar coisas positivas. Se não agir, puf, não muda nada.
2. Mudar ideias. Toda vez que me pego pensando que meu texto é ruim ou que ninguém vai publicá-lo ou que eu deveria ter um trabalho convencional ou que ninguém lê mais ou qualquer outra coisa cuja função é simplesmente me colocar para baixo, eu paro e penso: de onde vem essa ideia e para o que ela serve? Quase sempre a resposta é: vem da minha insegurança, do meu eu que faz julgamentos e tem medo de errar, e serve apenas para deixá-lo confortável. Eu não quero que meu lado medroso fique confortável! Eu quero que meu lado raposa, esse lado criativo e emocional que todos nós temos, esteja solto e sadio para viver e experimentar o mundo. Quando essas ideias tentam invadir minha cabeça, então, eu olho para o papel colado na parede dizendo "Escreva!" e obedeço, porque sei que pensamentos são mais fracos que ações e que se algo vai me ajudar a alcançar o que desejo para a vida são minhas ações e não os meus pensamentos.

Eu não tenho uma fórmula mágica para acabar com a insegurança. O que tenho é meu próprio caminho na busca por ser menos refém do meu eu medroso e mais aliado do meu eu raposa.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Praticando o desapego

Há uma grande mudança na vida agendada e para chegar a ela preciso de pequenos ensaios. Ontem, com a ajuda do meu namorado, dei um passo: livrei-me de roupas que não usava mais, que não serviam ou que usava muito pouco. Deixei um pacotão de roupas na rua para que alguém levasse, o que de fato aconteceu. O mesmo com alguns tênis antigos (mas não necessariamente velhos no sentido de acabados).

Ainda tenho muita roupa, muito livro, muito badulaque, muito xerox.
Meu critério está sendo simples: manterei comigo poucas coisas, o resto darei, venderei ou colocarei fora. Deixei separados meus livros em xerox para caso algum amigo queira. Tenho bons materiais, farei uma lista de cada título. O mesmo acontecerá com a maior parte dos meus livros. Meus ursos. Mais roupas. Meus móveis, eventualmente (a geladeira, o fogão, a máquina de lavar e o sofá já estão reservados... talvez uma estante também. Ainda tem a cama e outra estante e um armarinho e umas cadeirinhas e um mochinho e uma outra estantezinha e um criado-mudo com espelho e acho que também uma televisão).

Manterei apenas presentes artesanais, seguindo a sugestão de uma boa amiga. O restante deixará de me acompanhar na vida e passará a estar ao lado de outras pessoas.


O que eu quero com isso?
Ser uma nova pessoa. Ou talvez simplesmente ser, sem o peso de tantas coisas a ditarem quem eu sou ou posso ser.

Não está sendo um processo fácil. Quem me conhece sabe que guardo da vida presentes e memórias na forma de objetos.
Contudo, busco navegar pelo mundo de corpo leve e para isso preciso abrir mão de certas posses. Não sei onde estarei nos próximos anos, sei apenas que um destino está já delineado. Quem tiver interesse em saber datas e locais, basta me perguntar.

Enquanto desapego de desejos e objetos, não perco de vista uma coisa: a chance de ser feliz no presente, de aproveitar as pessoas e, principalmente, os amores. Isso é insubstituível.

domingo, setembro 22, 2013

Uma leitura nada zen

Estava eu feliz e contente lendo meu livro sobre escrita a partir de uma perspectiva zen (Escrevendo com a alma) quando me dei conta que faltava ainda metade do livro. Pensei "nossa, tudo isso!". Em seguida ri de mim mesmo, tão interessado no fim da leitura e tão pouco no processo em si. Onde está o meu zen nisso tudo? Ai, ai...

sábado, setembro 21, 2013

Falar de escritores

Ontem eu escrevi no Facebook que não gostava do texto rebuscado da Virgínia Woolf. Estou arrependido até agora dessa afirmação. Imaginei repórteres me entrevistando trinta anos no futuro e retomando essa questão como se fosse uma falha no meu currículo. Acho que realmente é.

Tenho para mim que há um momento para fazermos as coisas. Eu já tentei em duas ocasiões ler alguma coisa da Virginia Woolf e em ambas as vezes fiquei perdido, cansado, distante do texto. Isso pode, sim, ser um problema dela, mas muito provavelmente é uma dificuldade minha. O que levo de mim para a leitura não está sendo suficiente – não, não tem nada a ver com quantidade, deixa eu reformular – ... O que levo de mim para a leitura não está sendo adequado ao que ela escreveu. Meu olhar tem caçado outro tipo de palavras e frases e parágrafos, talvez por isso nossa relação não esteja fluindo. Isso não é um erro de nenhum de nós, é apenas um desalinho que pode, eventualmente, ser consertado.


Comecei Para ler como um escritor, de Francine Prose, mas já me irrita o fato de que nas primeiras 30 páginas ela já questionou leituras feministas. Para ela aparentemente vale mais o texto em si do que as ideias evocadas por ele, o que acho meio contraditório – talvez me falte leitura para pensar o contrário –, uma vez que as ideias saem do texto em si. Incomoda sobremaneira a forma como ela trata a predominância de escritores brancos como um dado artístico e não sociocultural.

Por outro lado, já estou cativado pela Natalie Goldberg no livro Escrevendo com a alma. Não foi novidade: estive antecipando esse prazer desde que soube – pela contracapa – que a autora escrevia a partir de uma abordagem fundamentada no zen-budismo. Não deu outra, já estou fã e nem passei da introdução.
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