sábado, agosto 31, 2013

Gente preconceituosa que diz que não tem preconceito

Hoje mais uma notícia de gente preconceituosa dizendo que não tem preconceito. É a boa e velha hipocrisia mandando abraços. Talvez o significado de preconceito e/ou de discriminação não estejam claros, então vamos lembrar: sempre que reduzimos uma pessoa, ou seja, uma constelação de pensamentos e comportamentos, a uma característica, isso é preconceito.

"Dirige mal? É mulher.". Preconceito.
"Ladrão é tudo negro". Preconceito.
"Viado é promíscuo". Preconceito.

Existem também versões menos óbvias. "Tinha que ser preto" (não sei onde isso não é óbvio, mas se a pessoa se formando em Publicidade não percebeu, deve ser difícil mesmo... Ops, fui preconceituoso porque reduzi a moça à sua má formação). "Ele é gay, então se veste melhor", "nós mulheres somos mais sentimentais". Ah, o mais recente exemplo do preconceito discreto é "tem cara de empregada doméstica (porque é negra)".

Aí junto com esses absurdos vêm as provas indiscutíveis que não são racistas, sexistas, homofóbicos, transfóbicos etc. São ótimas:
"Eu tenho um amigo _____".
"Eu dancei com um _____ no sábado passado".
"Eu nunca bati em _____" (esse geralmente não vale pra machistas, pq no geral já agrediram alguém).
(preenche o _____ com o que quiser: preto, índio, gay, travesti etc.)

Eu já disse e digo de novo: não tenho nada contra gente preconceituosa. OK, isso é uma mentira, eu tenho sim. Acho gente preconceituosa o fim da picada, mas hei, eu tenho amigos preconceituosos! No fim das contas, o que me importa é a pessoa assumir suas posições. Por favor, não dê discurso de "eu não fiz por mal". Fez sim, foi cretino e pronto. Não é socialmente bonitinho, mas pelo menos é honesto. Pior é preconceituoso E hipócrita.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Os russos me confundem

Então na Rússia é proibida propaganda homossexual para menores de idade. Não, eu não vou passar o texto inteiro reclamando sobre como essa lei é retrógrada e viola os direitos humanos e é mais um exemplo de como a humanidade anda precisando de uns corretivos. Não, também não vou citar a onda de violência contra sujeitos homossexuais que vem aumentando desde que o ódio foi institucionalizado e legalizado. Acho que já somos grandinhos o suficiente para sabermos que censurar o direito do outro de existir não é bom para ninguém, muito menos para as crianças.

A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.


Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.

É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.

Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.

Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).

Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.

quinta-feira, agosto 29, 2013

Tempos difíceis para os sonhadores

No filme O fabuloso destino de Amélie Poulain há um momento em que falam que atualmente são tempos difíceis para os sonhadores.


Ando assim meio pensativo, parte dolorido, parte sonhador.
Por enquanto, aproveito que posso e sonho. Espero, se possível, compartilhar esses pedacinhos de imaginação com outras pessoas. Afetá-las. Não consigo evitar: quero que minha vida seja feita de mudar a dos outros.

quarta-feira, agosto 28, 2013

Discrimina e depois pede proteção divina?

Vem uma pessoa e posta no Face:


Me perdoem se for inclemente, mas não, eu não perdoo. Sério, não dá. A criatura está juntando preconceito atrás de preconceito e acha que ninguém vai criticar? Li que ela tentou se defender e até saiu do Facebook. Gente, vamos crescer? Toda ação vai gerar reações. Isso é tão básico.

Se tem uma coisa que nós estamos aprendendo nessa vida é que pouco a pouco a possibilidade de ter voz não te dá mais o direito de falar merda e ficar impune, ao menos socialmente. Claro, isso não elimina a amnésia do povo (duas semanas e quase ninguém ia lembrar dessa fala infeliz) e nem magicamente faz com que o bando de mal caráter que deve ter curtido e aplaudido essa frase mude a cabeça. Ainda assim, desculpa se tu não consegue aguentar o tranco de ter feito um comentário absolutamente racista e agora ter gente te criticando.

Esse é o problema com nós privilegiados (apesar de raposa e viadinho, sou branco, loiro, classe média etc.): nós não estamos acostumados a sermos questionados sobre nossas posições ou comportamentos. Quer queimar mendigo na rua? Beleza, papai protege. Tem bandinha e quer estuprar? Mídia esconde. Só que se tem uma coisa que a internet ajuda na vida é em ampliar o alcance das vozes por aí. Esses dias alguém falou que a diferença está grande demais para continuar invisível. É isso mesmo, filhote: o mundo pode não mudar com esse tanto de gente xingando no Twitter e no Facebook, mas pelo menos a gente não vai sofrer em silêncio (e isso já muda o mundo).

Nota: digo "a gente" porque mesmo não sendo negro, cubano ou "com cara de empregada doméstica" (nem sei que cara é essa, mas né), eu procuro me enquadrar no mesmo quadradinho que a galera que está vindo de Cuba para cá: eu sou ser humano. De boa? Não sei se posso dizer a mesma coisa de quem pede proteção a Deus para ser preconceituosa.

A performance de Miley Cyrus no VMA

Calhou que eu assisti a performance da Miley Cyrus no VMA 2013 e não entendi. A coisa toda envolveu aparecer de língua de fora, rebolar no pênis de um cara, se masturbar com um dedo gigante etc.


Eu não sei nada sobre Miley Cyrus. Digo isso porque é deste lugar que eu falo: mal sei que ela foi/é Hannah Montana, descobri por acaso lendo sobre o ocorrido. Vou tentar fazer uma análise rápida dessa imagem/cena.

Temos um cara cantando e uma mulher sensualizando. Talvez seja a minha formação machista, mas o cara parece ser o protagonista da cena e ela está ali para o prazer dele. Pensando de outra forma, ela pode estar explorando o próprio prazer e usando dele para saciar ou atiçar suas vontades. Acharia justo, mas não foi isso que eu entendi. Talvez se eu estivesse prestando atenção no que estava sendo cantado ou se eu soubesse quem é Miley Cyrus eu pudesse compreender o subtexto. Tem que haver um subtexto! Do contrário, é só uma mulher de língua de fora rebolando em meio a outros artistas pelo bem do impacto.

Uma coisa eu não posso negar: essa imagem me deixou muito pensativo. Ela me incomoda, me tira do conforto, me coloca numa postura reflexiva. Eu normalmente não sou o tipo de pessoa que precisa entender os porquês, mas aquela foi uma performance que pareceu fora de lugar. Quando algo está fora de lugar, acho que é um convite para pensarmos que lugar é esse. Por que o VMA não parece ser o lugar para esse tipo de performance? É o lugar de quê? De quem? Qual seria o lugar adequado para essa performance?

Não sei, não sei, não sei. Termino este texto claramente tocado pela imagem, que continuará comigo cutucando meus pensamentos. Acho isso muito mais importante do que dar respostas sobre a ação da Miley Cyrus. Pouco me importa se foi certa ou errada, bonita ou feia, pertinente ou não. Importa-me o convite.

segunda-feira, agosto 26, 2013

Oficina de escritores

Comecei a ler Oficina de escritores, de Stephen Koch, e desde a primeira página estou experimentando a estranha vontade de ler devagar para que ele nunca acabe. Um livro, ao contrário de muitas outras coisas na vida, sempre estabelece desde o início da relação quando chegará ao fim. Pode acabar antes, mas nunca depois da última página. Há a releitura, alguém dirá, mas reler é reviver a memória, retornar a um amor que deu certo, mas sei foi.



Ao longo do livro (estou na página 110 de 270), o autor vai não tanto ensinando o que fazer ou como fazer, mas inspirando o que e como construir na arte da ficção. Recentemente abandonei frustrado a construção de um romance que esteve na minha cabeça há anos. Agora sinto-me confiante para dar uma chance maior a essa semente, de modo que ela continue crescendo. Desistir simplesmente porque não alcancei a melhor maneira de expressar minhas ideias na primeira tentativa é infantil, mas uma lição valiosíssima para alguém como eu, todo cheio de medos.

É tão bom ler um livro que foi escrito diretamente para mim. Os conselhos de Koch são para esse meu momento: escritor iniciante. Fere o orgulho admitir que meu texto ainda é muito frágil e que sei quase nada sobre a construção de narrativas. Por outro lado, estou feliz de cruzar com eles agora. Num passado talvez eu não tivesse compreendido suas propostas... provavelmente diria que ele fala besteiras ou obviedades. Não é incrível como as coisas só fazem sentido no momento exato de sentir, nunca antes e certamente não tão exato depois?

sábado, agosto 24, 2013

Raiva acumulada

Por esses dias o ônibus desviou a rota e acabou pulando uma das paradas pelas quais deveria passar. Para minha sorte e calmaria, a mudança de percurso não me afetaria (na verdade, só tornaria a minha viagem mais curta e, portanto, mais rápida). Notei, porém, um rapaz bastante indignado com a situação. Ele bufava e reclamava para si mesmo contra o motorista a cada dois segundos.

Lembro que pensei por um segundinho que sim, ele tinha razão em estar indignado, afinal o motorista não avisara que faria o desvio. Só que ele não parou de bufar a cada dois segundos até descer do ônibus, pelo menos três minutos depois. Na rua, ainda seguiu balançando a cabeça e apertando a mão com força e, presumivelmente, raiva.

Eu tenho muito medo de pessoas que não conseguem liberar as energias negativas que acumulam. Acho que essa incapacidade as torna perigosas, afinal bem sabemos que uma hora a coisa transborda e se a pessoa não tem um bom autocontrole, isso pode significar danos para os outros. Foi o caso de um amigo, que terminou um namoro e o então ex-digníssimo, não conseguindo lidar com a frustração do término, voltou uma semana depois para visitá-lo armado de uma faca.

Claro, nem sempre as pessoas reagem de forma tão extrema, mas basta lembrarmos das ocorrências em que reagimos com excesso frente a problemas minúsculos simplesmente porque estávamos irritados. A irritação nada mais é do que a concentração em nós mesmos de uma frustração ou raiva. Precisamos aprender a deixar esses sentimentos vazarem.

Para mim, o exercício físico tem essa função. Da mesma forma, discuto comigo mesmo e imagino brigas com as pessoas que me irritaram. Dessa forma não preciso realmente brigar com elas, já me acalmei até o momento de efetivamente entrar em contato. Nem sempre funciona, mas de uma coisa eu tenho certeza: quando encontro alguém e estou com um poço acumulado de coisas ruins, sempre me arrependo do que acontece em seguida.

sexta-feira, agosto 23, 2013

Como funciona nosso preconceito

Há alguns meses uma amiga estava me ensinando a desfiar um frango. Ela falou algo sobre deixá-lo mergulhado na água fervendo e depois tirá-lo e desfiá-lo com a ajuda de um garfo. O que ela não esperava era a minha pergunta: eu espero a água secar?

Pausa para explicar o processo todo: a água esquenta com o frango dentro e transfere calor pra ele. Esse calor vai deixando ele mais solto e, é óbvio, quente. Conforme a água vai secando, o frango vai absorvendo mais calor diretamente da panela e logo começa a queimar. Sem água, o frango absorve todo o calor e o resultado é uma panela preta e um frango intragável.

Outra pausa, agora para explicar o que eu estou acostumado a cozinhar. Depois de dourar alguns temperos (cebola, alho etc.) no óleo por uns segundos, coloco uma carne ainda crua no fogo e mexo um pouquinho. Sem demora a carne solta água, eu baixo o fogo e espero até que a água seque para a carne efetivamente pegar gosto e ficar pronta. Depois que a água secou, mexo aqui e ali e ela geralmente está no ponto desejado, macia e saborosa.

De volta ao frango.
O que deveria ter passado pela minha cabeça: que o frango ficaria esturricado sem água. Eu saberia disso se tivesse mentalmente avaliado todo o processo, mas não. Nosso cérebro trabalha com hábitos de pensamento, então uma resposta que se provou funcional no passado será repetida no futuro. Se para fazer carne eu sempre preciso esperar a água secar, eu nem por um segundo pensei que com o frango seria diferente.

Isso, meus leitores, é a base do preconceito. Nós estamos tão acostumados a ver/fazer carne em tudo, que quando a vida nos oferece algo diferente nós aplicamos a mesma ideia (e ela não funciona ou tem resultados desastrosos). Vamos pensar por um segundo que a carne é um relacionamento heterossexual e o frango, homossexual. Acostumados com uma sociedade que só enxerga e pensa a partir de relações entre pessoas de sexo diferente, eu vou lá e ensino o meu filho a deixar a água secar, a ir atrás de mulheres, a agir como machinho (o que não existe, já sabemos) etc., tudo isso sem perceber que, como frango, ele precisa se envolver em outros processos de cozimento que são diferentes entre si. Isso tudo pensando apenas em carne e frango.

E se eu acrescentar peixes, saladas e outras infinitas possibilidades de alimentos? Cada uma delas tem as suas regras e os seus funcionamentos. Tratá-las todas como carne só porque estamos habituados a isso não vai produzir alimentos muito saborosos... tampouco uma vivência muito nutritiva.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Teoria queer (parte 3)

Esta é a terceira e última parte da série sobre a teoria queer. Isso não quer dizer que não escreverei nunca mais sobre ela, apenas que estou concluindo aqui esse projeto de introdução às ideias estranhas que ela propõe.

Deborah Britzman (1995) sugere, para uma pedagogia que se possa dizer queer, o que chama de três técnicas: o estudo dos limites, da ignorância e das práticas de leitura. Para a autora, é muito importante considerar o que temos permissão para pensar e que perguntas não deveríamos fazer dentro da sociedade com a qual negociamos. Desse ponto de vista, é necessário questionar os limites impostos ao saber e duvidar dos conhecimentos já estabelecidos, em particular os que se sustentam em oposições binárias. O que define, e a partir de quais critérios, que tópicos são relevantes de serem pensados em determinados contextos? Pensar os limites significa também levar em consideração de que forma a normalidade é produzida e que efeitos ela tem, principalmente (mas não apenas) nos sujeitos que se situam fora dela. A teoria queer “constitui normalidade como uma ordem conceitual que se recusa a imaginar a própria possibilidade do Outro precisamente porque a produção da alteridade como externa é central para seu próprio autorreconhecimento” (BRITZMAN, 1998, p. 82). Aos nos preocuparmos com os limites, também surge o questionamento sobre quando acreditamos que sabemos o suficiente sobre uma outra pessoa a ponto de nos crermos capazes de falar sobre (por) elas ou de determinar o que devem saber ou não.

A ignorância, num entendimento queer, não se trata do oposto ao conhecimento ou da falta deste. Ela é, na verdade, um efeito do modo como se conhece, uma relação com as informações que opera de tal maneira a colocar o sujeito em posição de não interagir com determinados conhecimentos. Portanto, antes de se perguntar por que um indivíduo não compreende algo que cremos que ele deva aprender, é essencial buscar de que saberes ele dispõe e quais considera pertinentes para a sua vivência.

O modo como o sujeito interage com o mundo, os textos que lê, as imagens de que se apropria: sem a compreensão dessas questões o ensino fica comprometido. É necessário entender qual a posição desse sujeito estudante, de que forma ele entra em contato com um conhecimento diferente daquele que já carrega como parte de si e como se dá a sua relação com o desconhecido. De que maneiras o que ele não conhece reorganiza, desmonta ou bloqueia seus pensamentos? Como se estabelecem conexões com o que ele já conhece, de que forma um texto muda ao ser lido por ele em um momento ou em outro? Qual é o esforço, impacto ou estresse produzido ou exigido para lidar com o que ainda não se sabe, ou para deixar de conhecer algo de uma determinada maneira? Conforme comenta Gablik (1994), existe um forte investimento emocional nas posições já ocupadas pelos sujeitos, uma vez que elas constroem a realidade com a qual eles estão acostumados.

Requisitar que uma pessoa desmonte suas compreensões anteriores, revisite conceitos e reorganize toda sua existência não é um convite simplório. É preciso entender que, como recorda Britzman (1995), não é uma mera questão de recusa ou resistência ao conhecimento, mas o conhecimento que se tem é uma forma de resistência. Também se faz necessário perguntar, como faz Luhmann (1998), de que maneira o leitor se insere no texto, em oposição ao que o autor quis dizer ou como a leitura deveria ser compreendida, e de que modo determinadas identificações se fazem possíveis ou impensáveis.

Além de se perguntar como um professor pode endereçar tópicos sobre (homo)sexualidades em sua atuação, também cabe refletir sobre o porquê. Creio que a minha resposta decorre do que Villela e Ratto (2009) chamam de projeto de existência: acredito que a função do educador não é oferecer conteúdos padronizados, mas sim construir junto com os estudantes condições para vivências significativas e protegidas contra opressões. Isso significa que a sala de aula se transforma em um espaço tático, um local em que o educador pode assumir uma postura combativa frente a verdades estabelecidas e noções carregadas sem questionamento.

Entretanto, mesmo o desejo de mudança abraçado pelos estudantes pode enfrentar adversários inesperados, algumas vezes encrustados nas próprias iniciativas que se tentam libertadoras. Conforme aponta Kevin Kumashiro (2002), o desejo de seus estudantes lutarem contra a opressão se limitava a não perceber de que maneira eles próprios eram privilegiados e, nesse sentido, cúmplices. Percebi essa mesma resistência se configurar quando os alunos em meus cursos questionavam se eles não tinham o direito de se sentirem ultrajados pela presença de um corpo estranho ocupando o mesmo espaço que o seu. O desconforto com o diferente figurou como uma desagradável surpresa entre as percepções que tive ao longo deste estudo. O desejo de ajudar o outro e de tomar ciência de suas aflições enfrenta a barreira do conforto do observador. Parece importante, nesse contexto, que a separação eu-outro permaneça real e visível, de modo a não produzir rupturas na noção de si (próprio) ou no entendimento do anormal.

Lutar contra comportamentos e situações que se mostrem opressivos a sujeitos por conta de características e ações pessoais que não dizem respeito a outros indivíduos é o que tem me motivado a insistir na minha construção como pesquisador e educador. Auxiliado pela cultura visual e pela teoria queer, o ato de percorrer esse caminho não tem sido reto como se poderia esperar, tampouco claro e sem desvios.

quarta-feira, agosto 21, 2013

Macho que é macho não... existe

Perdoem-me os escritores de plantão, mas eu repito a palavra macho exageradamente nesse texto. Eu mesmo estou me sentindo meio mal, porque não escrevo textos de fantasia há tanto tempo...

Eu não acredito em machos e isso não tem nada a ver com a foto abaixo. Ou tem tudo, deixo o leitor decidir. Eu deixei de acreditar neles há muito tempo e esse texto é a minha tentativa de explicar o porquê.


Eu não acompanho futebol, por isso não saberia nunca que o moço de boina é Sheik, um jogador do Corinthians. Sheik é não só um jogador do Corinthians, mas um jogador do Corinthians autodeclaradamente heterossexual. Aí uma noite ele sai com os amigos e dá um selinho num deles e o mundo desaba.

Sabe por que eu acho que machos não existem? Porque ser macho é tão instável e frágil que basta um selinho num outro cara para que a torcida do Flamen, ops, do Corinthians se revolte e resolva roubar a carteirinha de macho do Sheik. Macho que é macho não beija outro macho.

Ser macho é uma condição tão frágil que a galera precisa ficar repetindo e provando o tempo inteiro que é macho. Quem nunca viu na escola, por exemplo, a ofensa mortal a qualquer macho: xingar a mãe, ops, chamar de viadinho? Homem que é homem tem que gostar de mulher e falar de mulher e pegar mulher e fazer o que for com mulher (ou com o viadinho mais próximo, na falta de mulher, o famoso caso dos heteros que comem viados). Detalhe: homem que é homem só tem amigo homem, fica pelado em vestiário cheio de macho e de vez em quando aperta a bunda do outro pra ver se o outro é macho e reclama (oi?).


O que é um macho? Macho, em uma sociedade machista, é o sujeito que se acredita detentor do Poder do Pênis. Com esse superpoder, ele acha que pode maltratar as mulheres, ops, usufruir das outras pessoas (em geral mulheres, macho só usa outro homem se este for viadinho e ainda assim se ninguém ver... aliás, vamos todos ignorar as brincadeiras de medir o maior pinto, ver quem mija mais longe, bater punheta junto e fazer troca-troca). Todo mundo que nasceu com um pênis tem o dever moral de agir como macho, afinal, tem um pênis. É lógico.

Só que não é fácil ser macho. Macho não chora, não pede ajuda, não erra nunca, não fraqueja, não goza rápido demais, tem pau grande, é musculoso, bate em quem duvida, bate em quem tem alguma certeza contrária (o que não é difícil, porque machos geralmente têm poucas certezas – poucas em quantidade, fique claro), bate em que não é macho... Ser macho é tão complicado que há uma polícia especializada em verificar se outros caras são machos, o que nos leva de volta ao Sheik, já que macho não beija outro macho. Logo os dois são viadinhos e estão escondendo o jogo o tempo inteiro.

Agora uma pausa geral. Ser macho é tão difícil que antes de ser qualquer outra coisa, tem que ser macho. Jogador de futebol? Não, tem que ser macho antes, logo tem que ser um jogador de futebol macho.

Agora uma segunda e última pausa geral. Ser macho é tão difícil porque macho não existe. É como a roupa nova do rei, que só os inteligentes podem ver. Aqui, no caso, só os machistas veem quem é macho e quem não é. Para falar a verdade, só machistas se importam com quem é macho ou deixa de ser. As outras pessoas, não afetadas pela responsabilidade do superpoder do pênis (e muitas delas têm pênis!), são livres para serem o que são ou o que quiserem ser. Talvez seja esse o problema dos machos: inveja de quem é livre.
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