quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A sala de aula é um saco

Não me entendam mal, mas eu odeio sala de aula. Talvez seja feio um professor dizer isso, mas a verdade é que o espaço físico no qual acontecem as interações professores-estudantes é ridículo e antiquado. Que tal todos alunos um atrás (e ao lado) do outro, enxergando uma única coisa: o professor?


É muita pretensão! Além disso, a sala de aula é um espaço sem vida, igual para todo mundo. Qual é a sensação que se sente ao entrar em uma dessas? Alívio, felicidade, êxtase? Acho que não. Na realidade, tédio e cansaço imediato parecem respostas mais adequadas.

Estou tentando pensar esse espaço (a sala) e essa vivência (de aula) como um designer ou um publicitário faria. De preferência, como um publicitário designer faria. Não sou nenhum dos dois, eu sei, mas não custa tentar, certo?

Ontem consegui um feito incrível na aula: quase todos os estudantes sentaram-se próximos de mim, ao invés de no fundo da sala, como tipicamente o fazem. Como eram apenas oito em sala, isso foi mais fácil de realizar. A verdade é que salas lotadas são mais complicadas de gerenciar. A proposta que fizemos para aulas de debate não é nova, mas pode fazer uma diferença: sentaremos em círculos. Sexta-feira terei uma noção de como essa abordagem funcionou. Eu, como estudante, nunca gostei de círculos, mas estou curioso para saber se funcionará enquanto professor.

Além disso, preciso refletir sobre por que eu não gostava dos círculos... Talvez eu não quisesse participar. O que me leva à segunda parte dessa reflexão: o que é possível fazer para que a relação com o processo que ocorre na sala de aula se modifique? Quando entramos num espaço prontos para o tédio, aposto que nossas probabilidades de confirmarmos o tédio sejam muito maiores do que as de ficarmos felizes. Predisposição tem um poder incrível sobre nós. Para que uma aula seja bacana, primeiro preciso vencer o tédio pré-instalado, para só então chegar a algum estágio de felicidade. Isso é péssimo!

O que precisa ser feito é modificar a forma como os estudantes percebem a educação. Que expectativas e valores estão sendo colocadas sobre a sala de aula? É aqui, infelizmente, que ainda não tenho respostas, apenas mais perguntas...

terça-feira, fevereiro 26, 2013

É mais cômodo ser quem eu já sou

Esse texto é melhor lido acompanhado da música a seguir.


Alguns acontecimentos separados me levaram à conclusão do título e ao desejo de não me conformar. O primeiro deles foi o exame de nível para o curso de francês no Centro de Línguas da UFG. Fui lá, me inscrevi para o nível dois e passei. Aliás, "passei", já que não fui exatamente bem na prova escrita e se minha avaliadora não fosse extremamente simpática e de bem com a vida, minha prova oral teria sido zerada. Enfim, passei e logo voltarei a estudar o francês.

"Não consigo te imaginar nessa situação", disse uma amiga. Faz sentido, eu quase nunca me permito viver momentos de risco. Se há possibilidade de falhar ou ir mal, eu não faço. De alguma forma, isso se amplia com relação a aprender coisas novas. "Não sou autodidata", eu digo, acho que mais pelo medo de não chegar ao nível de excelência que espero do que pela pressa de aprender rápido ou pelo esforço de me empenhar. Eu só fui fazer a prova de francês porque na minha memória as palavras e frases fluíam mais facilmente do que a realidade demonstrou.

Essa mesma amiga esteve por um tempo ensinando-me a cozinhar. Coisas simples, ação do fogo, água borbulhando, temperos se misturando. Coisas complexas, também. Para mim, o exercício de cozinhar está fundamentalmente conectado ao fazer compras, ter ingredientes e inventar combinações. Gosto de fazer as coisas ao contrário: primeiro compro algo, depois decido o que fazer com o que comprei. Isso dá origem às minhas "semanas da batata" ou ao "mês do pimentão" (ainda bem que existem pimentões de várias cores!). Como desculpa para não cozinhar, xingo a falta de qualidade do mercado mais próximo, acordo tarde demais  para a feira no sábado e reclamo que os mercados decentes ficam longe demais. Tudo bobagens e desculpas tolas, já que a maior parte disso é mais do que trabalhável com um pouco menos de preguiça.

Para completar, namoro a possibilidade de aprender a desenhar há anos. Fiz uma especialização em Expressão Gráfica, oras! Um curso no qual resisti por um semestre inteiro a sequer tentar desenhar, sempre procurando formas de esquivar da prática com o lápis. Terminado o curso, percebo que meu traço evoluiu absurdamente. Isso faz três ou quatro anos e quase nunca pratiquei desde então.

"Não exista. Viva!" - http://www.flickr.com/photos/julyrainbow/7113473857/

Tudo isso me leva a refletir sobre quão mais fácil é existir do que viver, simplesmente estar ali e de vez em quando fazer o que se tem vontade, isso se não for muita canseira. Fico aqui esperando que outras pessoas entrem na minha vida e me coloquem em movimento, que me ensinem, que me proporcionem aprendizagens.  O que eu quero para mim vai ficando em segundo plano. Terceiro. Quarto.

Por mais que me doa reafirmar, ainda estou longe de ser a pessoa que gostaria: alguém que vive. O pior de tudo é saber que essa mudança "tão simples" que almejo para mim não depende de mais ninguém. Eu devo me tornar a pessoa que imagino, viver a vida que desejo e parar de inventar desculpas pelo caminho.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Experiências no Vapt Vupt

Fui ao Vapt Vupt (equivalente goiano do gaúcho Tudo Fácil) renovar minha carteira de motorista. Hoje foi minha quarta visita. Na primeira, descobri quais documentos eu precisava que fossem copiados. Na segunda, fui informado que a data do meu comprovante de endereço estava antiga demais (dica: nunca leve um comprovante de endereço cuja data esteja a mais de 90 dias de hoje). Na terceira, me avisaram que eu precisava dos documentos originais além dos copiados.

Fui ao Vapt Vupt renovar minha carteira de motorista munido de cópias, originais e paciência. Lá chegando, fui atendido por uma moça que estava fazendo o procedimento pela primeira vez. Estranhamente, eu não fiquei amuado pela falta de eficiência no atendimento: ela estava fazendo tudo ao seu alcance para tornar o processo o melhor possível, mas simplesmente não sabia o que fazer. A situação foi resolvida com um pouco mais de demora do que eu gostaria, mas nada crítico. Então eu precisei tirar fotos e fazer um exame médico. A doutora ainda não havia chegado (era algo em torno de 13h40). Não sei qual é o horário de trabalho dela, então fui ser fotografado.

Quando a doutora (ando com preguiça de chamar de doutor quem não tem doutorado) médica chegou, me tratou bem, toda feliz e simpática. Por mais que todo o contexto *Vapt Vupt* tivesse me irritado algumas vezes desde o início do processo de renovação da minha carteira, bom humor e educação me desarmam sempre. Hoje tive os dois de monte.

Moral da história: dentro de dez dias úteis terei minha carteira de motorista renovada e poderei dar continuidade ao meu plano de dominar o mundo tirar carteira A. Ainda é só um plano e cada vez com menos probabilidade de se tornar real, já que tenho medinho de motos. Seria adorável se dirigir uma moto ficasse mais fácil com bom humor e educação... Provavelmente fica, mas duvido que eu encontre isso no trânsito do dia a dia.

domingo, fevereiro 24, 2013

Um leve desânimo

Hoje é domingo e parece que vai chover. Lá fora está frio, aqui dentro está quente. Dias assim são estranhos. Quero sentir o geladinho, mas não quero sair de casa. Acho que colocarei uma cadeira na sacada.

Se ao menos eu tivesse uma cadeira.

sábado, fevereiro 23, 2013

Nudez em público

Hoje vi um vídeo (ou melhor, vi citarem um vídeo, não tive paciência de efetivamente ver o vídeo) sobre um casal transando no mar. Sabe aquela coisa de gravar os outros fazendo sexo, porque fazer sexo é sexy e chama a atenção? Isso me colocou pensando numa questão que sempre volta a aparecer: por que não podemos transar em público?

A coisa vai mais longe e levanta probleminhas anteriores: não podemos andar pelados na rua. Salvo engano, se eu sair caminhando com o pinto balançando a olhos nus, posso ser preso. Por quê? Já antevejo multidões se erguendo e gritando "porque é imoral!", mas essa é uma resposta fraca, pelo menos para quem está buscando motivações racionais (e laicas) para tal proibição.

Le Concert Champêtre – Giorgione

O que há de tão perigoso em um corpo desnudo? É o tesão alheio que preocupa? Viver em sociedade significa abrir mão de uma série de liberdades, compreendo, mas por que a de tirar a roupa onde quiser é uma delas? Essas são questões que eu não sei ainda nem por onde começar a responder. Pensando rápido, posso pensar que é uma estratégia para conter os impulsos sexuais, talvez algo trazido pela moral cristã. Posso também estar sendo preconceituoso, já que sempre acho que toda repreensão moral vem da Bíblia.

Roupas fazem sentido num contexto gelado como a Europa. Nós fomos colonizados por europeus. Seres humanos atribuem valor simbólico às coisas que usam. Provavelmente a economia tem algo a dizer sobre isso, já que roupas mais caras e com tintas menos acessíveis provavelmente se tornaram representativas de maior riqueza e status social. A pergunta é: por que continuamos enxergando as roupas assim?

Ano passado eu já havia começado a pensar sobre isso, como meu post sobre Henry Scott Tuke revela e também meu artigo apresentado em um Congresso no Rio de Janeiro.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Como saber se a aula foi boa?

Essa é uma perguntinha importante que sempre me faço quando saio da sala de aula com aquela sensação de dever cumprido. Penso que existe uma considerável diferença entre a perspectiva do professor e a dos alunos quanto ao que significa uma boa aula.

Talvez um critério bacana seja "o quão afetado eu fui por aquela experiência?". É algo que se descobre em dois momentos: na hora, quando a aula encerra, e também anos depois, quando olhamos para trás e percebemos que formamos experiências/saberes relativos àquela disciplina específica. Esse, aliás, é um exercício que quero fazer: ter em mãos meu histórico escolar da faculdade e procurar lembrar de tudo o que aprendi em cada disciplina, o que ficou de cada uma.

Trago como hipótese que esse exercício revelará uma triste realidade: nem todas as disciplinas serão marcantes para todas as pessoas. Algumas vezes será o caso dos professores não encaixarem com os estudantes. Em outros casos, talvez nós estudantes estivéssemos numa posição diferente naquele período e então algo que hoje nos agradaria, na época não fez sentido.

O que isso significa para alguém como eu, que acredita que o trabalho de professor inclui a tarefa de "mudar vidas"? No mínimo, talvez, que eu deva repensar meus objetivos ou a forma de atingi-los... Ontem estava refletindo justamente sobre isso. Creio que mudar vidas não é nem pode ser o objetivo último do meu trabalho, ele já tem especificações suficientes. A parte do mudar vidas é algo que acontece paralelamente, não pelo trabalho em si, mas pela convivência e pelo afeto.

É aquela velha história: não dá para salvar o mundo. Entretanto, é possível, sim, causar uma mudancinha aqui, outra ali. Eu só preciso parar com a ilusão de que isso atingirá a todas as pessoas e me focar naquelas que se permitem afetar.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Se aluno não quer, professor não salva

Ainda sou um professor novato, mas estou sempre analisando os "tipos de aluno" que pipocam nas aulas. Um deles é o aluno que acha que professor opera milagres. Sabe aquele sujeito de cara amarrada que não está interessado na matéria, reclama quando tem trabalho, resmunga se é chamado e fica o tempo inteiro bocejando? Aquele aluno que, no fim do semestre, culpa o professor porque reprovou, mesmo não tendo feito nenhum trabalho?

Regrinha básica: professor não ensina. Nenhum professor pode magicamente entrar na cabeça dos seus alunos e mudar seus conceitos. O que rola é o professor propor situações de aprendizagem. Só que para isso tem que acontecer uma contrapartida: o estudante precisa ter interesse.Sem interesse, sem aprendizagem. Sem participação, sem aprendizagem.

Aí vem o fulaninho e acha que o trabalho é difícil demais e não faz. Eu, professor, não saio prejudicado com isso por nada no mundo. Um texto a menos para corrigir durante o fim de semana. O fulaninho, por outro lado, perde mais uma oportunidade de receber um retorno relativo ao quê ou como fez seu trabalho.

Para mim, ser professor é apontar caminhos. Só que para chegar até esses caminhos, o estudante precisa dar alguns passos por si só.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Coerência é para os fracos... mesmo?

Um amigo falou, certa vez, que coerência é para os fracos. Um cara realmente autônomo não precisaria ser coerente, pois faria o que bem entendesse. Eu, ingênuo, concordei com ele. Como admirava esse amigo, as palavras dele sempre eram envolvidas com um ar de sabedoria. Levei só uns cinco ou seis anos para repensar essa frase.


Isso vem de uma época em que eu era passivo de tudo na vida. Ouvia e não filtrava, apenas seguia. Admirava. Olhava com olhos bem abertos. Ao primeiro sinal de problema, fugia. Não segurava uma posição própria, não ocupava um lugar que estivesse disposto a defender.

Hoje penso que coerência não é para os fracos por uma razão simples: no dia a dia, somos pais, filhos, irmãos, professores, namorados, amigos, inimigos, ativistas etc. Cada uma dessas posições traz questões, dúvidas e constrangimentos que, muitas vezes, se opõem. Ser coerente em meio a tudo isso significa tentar manter um centro, um eixo para nortear as escolhas e decisões em cada uma das múltiplas identidades que assumimos ao longo de nossas vidas. Ser coerente é fazer sentido dentro daquilo que acreditamos, não do que os outros esperam de nós. E isso não é para os fracos.

As vantagens de ser invisível - ou de ter uma boa amiga




Acabei de assistir As Vantagens de Ser Invisível. Uma das coisas mais preciosas que ele me trouxe: "a gente aceita o amor que acredita que merece". Eu consegui me identificar demais com o guri, demais mesmo.

Aí terminei o filme e me peguei pensando... Como ela consegue? Acho que não teve nada até hoje que ela não tenha acertado comigo, desde a ideia louca de me apresentar o filho da amiga de infância até o simples fato de fazer um curso de especialização e casualmente compartilhar noites felizes comigo.

Sério, muitíssimo obrigado por existir.

domingo, fevereiro 17, 2013

Quando criança, eu queria ser um escritor famoso

Amanhã completa uma semana que eu criei a página do Facebook para a Raposa Antropomórfica. A existência dela é parte das minhas estratégias para alcançar mais leitores. Até o momento, 89 pessoas já curtiram a página e algumas inclusive comentam por lá. Não sei bem dizer o quanto ter uma página no Facebook ampliou ou não o alcance da Raposa. Além dela, comecei a tomar o hábito de comentar alguns blogs que sigo. Em uns, quando acho pertinente, coloco o link da Raposa. Em outros, simplesmente falo o que acho que precisa ser dito no momento e ainda não foi, ou deixo claro ao autor ou à autora de que maneira ler seu texto me afetou. Descobri que ter retorno dos leitores é importante (a Nádia-Letícia falou otimamente disso por aqui).

Estava aqui neste domingo de ventinho gelado pensando em como angariar mais leitores, quando me ocorreu que talvez eu estivesse fazendo isso pelo lado errado. Fui pesquisar na Raposa (minha terapia pública/particular) e descobri que já escrevi pelo menos duas vezes sobre isso, aqui e aqui. Aproveitei e revi algumas escritas antigas. Uau, como é possível que um estilo de escrever mude tanto ao longo dos anos? Terei eu sido vítima do meu próprio investimento no mestrado? Blérg.

Quando criança, eu queria ser um escritor famoso. Sempre teimava com o famoso, era o que eu buscava. Volta e meia eu me esqueço – e, como meus textos me mostram, eu também lembro – que para ser escritor famoso, antes de nada, eu tenho que ser escritor. A Raposa é parte disso, mas não pode ser o foco. Aí fica a pergunta: o que é necessário para isso que eu já percebi há pelo menos cinco anos (é, a Raposa não me deixa mentir) se torne parte do que eu acredito, do que eu sou, do que eu faço?
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