Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta normalidade. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta normalidade. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

sexta-feira, maio 17, 2013

Você sabe o que significa ser normal?

"Você não está sendo oprimido quando outro grupo conquista os direitos que você sempre teve". Essa é uma das frases que circulam na internet na tentativa de conscientizar as pessoas que absurdos como preconceito contra heterossexuais e marchas do orgulho branco são somente isso: absurdos. Afinal, como sabemos, o padrão da normalidade é criado em nossa sociedade por uma série de características arbitrárias: a cor da sua pele, a sua anatomia sexual, quanto dinheiro há em sua conta bancária, o tipo de relacionamentos estáveis mantidos, a sua crença monogâmica em alguma divindade, o seu acesso cultural a uma forma específica de arte e entretenimento etc.

curva normal
Encontrei aqui: http://www.anormais.com.br/

Estatisticamente, agrupamentos de pessoas têm a tendência de parecer como essa curva aí. A linha do meio é o ponto médio, com maior quantidade de pessoas. São as características medianas, típicas, mais prováveis de serem encontradas entre qualquer sujeito que puxemos do grande grupo. Quanto mais para esquerda no gráfico, menos temos daquela característica. Quanto mais para direita, mais temos. Para fins de ilustração, vamos pensar no quociente de inteligência: a grande maioria está ao redor do meio, que concentra 68,2% da população. É muita gente.

A área em azul escuro está a menos de um desvio padrão (σ) da média. Em uma distribuição normal, isto representa cerca de 68% do conjunto, enquanto dois desvios padrões desde a média (azul médio e escuro) representam cerca de 95%, e três desvios padrões (azul claro, médio e escuro) cobrem cerca de 99.7%. Este fato é conhecido como regra 68-95-99.7, ou a regra empírica, ou a regra dos 3-sigmas. (copiado diretamente da Wikipedia)

Em termos práticos, ser normal significa se encaixar nessa faixa azul mais escura. Quanto mais distantes dessa medida média, menos gente tendemos a encontrar, tanto para menos (esquerda) quanto para mais (direita).

Então é bom ser normal, certo?

Depende. Na verdade, não é nem bom nem ruim. É normal. Só isso. Contudo, acontece em nossa sociedade ocidental um tipo de pensamento binário que funciona assim: a gente é ou uma coisa, ou outra. É homem ou é mulher. É alto ou baixo. É rico ou pobre. É feliz ou triste. É hetero ou homossexual. É ativo ou passivo. É magro ou gordo. A essa altura, creio que já está bastante evidente essa polaridade, mas não podemos esquecer de mais uma: bom ou ruim. Todos os primeiros elementos destes binários são considerados positivos, enquanto seus opostos são considerados negativos. Por essa lógica, ser homem é melhor, em nossa sociedade, do que ser mulher. Todos nós sabemos o quanto isso é um absurdo, não? Bem, deveríamos saber.

Então, ainda que ser normal não seja em si nem bom nem ruim, nós o colocamos no binário normal x anormal. Obviamente, o 'anormal' está pareado com 'ruim', portanto fazemos cara feia e desgostamos.

E se o normal fosse ser o que é?

Nas aulas que leciono, meus alunos são proibidos de usarem as palavras 'normal' e 'normalidade', uma vez que entendemos que qualquer normalidade decorre de um ponto de vista específico (que por tabela está ignorando as experiências e vivências de todo um grupo de pessoas que não está enquadrado no 'normal'). Junto com isso, busco aprofundar com eles o entendimento de que os conceitos não são meramente opostos, eles são complementares, dependentes de uma posição determinada para serem compreendidos. Uma perspectiva.

Desafiar o paradigma binário da normalidade não é fácil. Na verdade, é até pouco inteligente, de um ponto de vista egoísta, caso nós desfrutemos dos privilégios de sermos normais. Como uma raposa que vez ou outra experimenta ser humano, porém, faço um convite: que tal tentarmos ser menos normais e mais humanos?

domingo, junho 03, 2012

Como ensinar sobre sexualidades?

Essa é uma pergunta que tem me marcado e perseguido. O que é importante que as pessoas saibam sobre sexualidade? Como compartilhar esses conhecimentos? De que maneira confrontar as ignorâncias que permeiam o tema?

Desde o ano passado, já ofereci quatro cursos de extensão online sobre sexualidades na educação e ainda não resolvi esta questão. Não acho que haja uma resposta única ou permanente, não seria tão fácil. Minhas primeiras tentativas foram marcadas pela crença em um lugar comum entre eu e os estudantes: a busca pela justiça social, pela construção e proteção de ambientes seguros para livre expressão e experiência de comportamentos e desejos afetivos e sexuais. Alguns exemplos nestes cursos, porém, me serviram para perceber que os interesses nem sempre são os mesmos. Em diversas ocasiões, o interesse dos professores é o de manter a posição privilegiada que a sua alegada normalidade lhes confere. O benefício da dita normalidade é um que é difícil de explicar e fazer ver, pois ele não acrescenta nada, apenas não subtrai. Enquanto o anormal não pode coisas, o sujeito considerado normal simplesmente pode desde sempre, é um direito humano, de nascença.

Tirinha do artista Laerte
Daí vem a história do banheiro e de quem pode ou não usá-lo sem ser questionado. Esse é o problema dos privilégios invisíveis: o homem entra no banheiro masculino porque ele nasceu com pênis e nunca se diferenciou significativamente ou publicamente daquilo que é considerado normal. Uma mulher nascida presa num corpo masculino e que, por isso, traveste-se, ela não, ela precisa dar explicações sobre as razões pelas quais o seu corpo está frequentando um espaço errado. Como aprendi em um dos cursos que ministrei, ela precisa dar explicações não pelo desconforto que ela sente, mas pelo desgosto e descompasso que os normais sentem.

Aí eu penso que o grande segredo de um curso sobre sexualidade seria atacar a ideia de normalidade. Faz sentido, especialmente se considerarmos discursos religiosos que, por exemplo, defendem alguns como mais sagrados que outros e, muitas vezes, justificam discursos de ódio contra sujeitos que não pertençam a esses povos considerados puros e santos. Ainda puxando a experiência dos cursos em que ensinei, uma aluna questionou a discussão sobre homossexualidade trazendo o trecho da bíblia cristã (Levíticus, acho que 22:18) que menciona que um homem que deitar com outro homem será uma abominação. Alguns parágrafos para frente, o mesmo livro que prega a harmonia e a paz manda matar esses homens. O argumento contra essa questão é relativamente mais fácil que o dos gêneros: se tantos outros trechos do Levíticus foram revogados, ignorados e repensados, como o de apedrejar as crianças que não obedecem, o de não tocar em mulheres durante a menstruação ou o de não misturar tecidos diferentes numa mesma roupa, então por que deveríamos nos prender a atacar homossexuais? Até onde eu entendo, isso tem nome. Aliás, tem vários. A gente pode chamar de ignorância, ou de cretinice, ou de leitura seletiva. A gente escolhe o que serve melhor aos nossos propósitos e finge que o resto não é importante. O que me deixa triste, nisso, é que as pessoas escolham se agarrar àquilo que prega que outros sujeitos devem ser considerados menos importantes, menos humanos.

Achei essa imagem no: http://polemicas.info/homossexualidade/  
O problema da ignorância é que ela não é uma simples falta de conhecimento, mas sim um resultado da maneira como a gente conhece as coisas. Então não adianta eu tentar mostrar que existem outras formas de viver os afetos e prazeres, que gêneros são mais do que dois ou que corpos não são tão limitados como somos ensinados na escola. Aquilo que sabemos está intimamente ligados com aquilo que acreditamos, e nossas crenças são alvo de um imenso investimento emocional. O que sabemos organiza o modo como lidamos com o mundo, como o percebemos, como decidimos o nosso papel nele e, também, o dos outros.

O ensinar sobre sexualidade nunca vem em um contexto vazio de significados anteriores. Desde crianças nós somos enchidos de posições normalizantes, somos levados a acreditar que existem apenas algumas poucas maneiras corretas de existir. Cada vez mais eu sinto que o que eu quero ensinar são informações, mas o que precisaria ser mudado são valores.

quinta-feira, agosto 22, 2013

Teoria queer (parte 3)

Esta é a terceira e última parte da série sobre a teoria queer. Isso não quer dizer que não escreverei nunca mais sobre ela, apenas que estou concluindo aqui esse projeto de introdução às ideias estranhas que ela propõe.

Deborah Britzman (1995) sugere, para uma pedagogia que se possa dizer queer, o que chama de três técnicas: o estudo dos limites, da ignorância e das práticas de leitura. Para a autora, é muito importante considerar o que temos permissão para pensar e que perguntas não deveríamos fazer dentro da sociedade com a qual negociamos. Desse ponto de vista, é necessário questionar os limites impostos ao saber e duvidar dos conhecimentos já estabelecidos, em particular os que se sustentam em oposições binárias. O que define, e a partir de quais critérios, que tópicos são relevantes de serem pensados em determinados contextos? Pensar os limites significa também levar em consideração de que forma a normalidade é produzida e que efeitos ela tem, principalmente (mas não apenas) nos sujeitos que se situam fora dela. A teoria queer “constitui normalidade como uma ordem conceitual que se recusa a imaginar a própria possibilidade do Outro precisamente porque a produção da alteridade como externa é central para seu próprio autorreconhecimento” (BRITZMAN, 1998, p. 82). Aos nos preocuparmos com os limites, também surge o questionamento sobre quando acreditamos que sabemos o suficiente sobre uma outra pessoa a ponto de nos crermos capazes de falar sobre (por) elas ou de determinar o que devem saber ou não.

A ignorância, num entendimento queer, não se trata do oposto ao conhecimento ou da falta deste. Ela é, na verdade, um efeito do modo como se conhece, uma relação com as informações que opera de tal maneira a colocar o sujeito em posição de não interagir com determinados conhecimentos. Portanto, antes de se perguntar por que um indivíduo não compreende algo que cremos que ele deva aprender, é essencial buscar de que saberes ele dispõe e quais considera pertinentes para a sua vivência.

O modo como o sujeito interage com o mundo, os textos que lê, as imagens de que se apropria: sem a compreensão dessas questões o ensino fica comprometido. É necessário entender qual a posição desse sujeito estudante, de que forma ele entra em contato com um conhecimento diferente daquele que já carrega como parte de si e como se dá a sua relação com o desconhecido. De que maneiras o que ele não conhece reorganiza, desmonta ou bloqueia seus pensamentos? Como se estabelecem conexões com o que ele já conhece, de que forma um texto muda ao ser lido por ele em um momento ou em outro? Qual é o esforço, impacto ou estresse produzido ou exigido para lidar com o que ainda não se sabe, ou para deixar de conhecer algo de uma determinada maneira? Conforme comenta Gablik (1994), existe um forte investimento emocional nas posições já ocupadas pelos sujeitos, uma vez que elas constroem a realidade com a qual eles estão acostumados.

Requisitar que uma pessoa desmonte suas compreensões anteriores, revisite conceitos e reorganize toda sua existência não é um convite simplório. É preciso entender que, como recorda Britzman (1995), não é uma mera questão de recusa ou resistência ao conhecimento, mas o conhecimento que se tem é uma forma de resistência. Também se faz necessário perguntar, como faz Luhmann (1998), de que maneira o leitor se insere no texto, em oposição ao que o autor quis dizer ou como a leitura deveria ser compreendida, e de que modo determinadas identificações se fazem possíveis ou impensáveis.

Além de se perguntar como um professor pode endereçar tópicos sobre (homo)sexualidades em sua atuação, também cabe refletir sobre o porquê. Creio que a minha resposta decorre do que Villela e Ratto (2009) chamam de projeto de existência: acredito que a função do educador não é oferecer conteúdos padronizados, mas sim construir junto com os estudantes condições para vivências significativas e protegidas contra opressões. Isso significa que a sala de aula se transforma em um espaço tático, um local em que o educador pode assumir uma postura combativa frente a verdades estabelecidas e noções carregadas sem questionamento.

Entretanto, mesmo o desejo de mudança abraçado pelos estudantes pode enfrentar adversários inesperados, algumas vezes encrustados nas próprias iniciativas que se tentam libertadoras. Conforme aponta Kevin Kumashiro (2002), o desejo de seus estudantes lutarem contra a opressão se limitava a não perceber de que maneira eles próprios eram privilegiados e, nesse sentido, cúmplices. Percebi essa mesma resistência se configurar quando os alunos em meus cursos questionavam se eles não tinham o direito de se sentirem ultrajados pela presença de um corpo estranho ocupando o mesmo espaço que o seu. O desconforto com o diferente figurou como uma desagradável surpresa entre as percepções que tive ao longo deste estudo. O desejo de ajudar o outro e de tomar ciência de suas aflições enfrenta a barreira do conforto do observador. Parece importante, nesse contexto, que a separação eu-outro permaneça real e visível, de modo a não produzir rupturas na noção de si (próprio) ou no entendimento do anormal.

Lutar contra comportamentos e situações que se mostrem opressivos a sujeitos por conta de características e ações pessoais que não dizem respeito a outros indivíduos é o que tem me motivado a insistir na minha construção como pesquisador e educador. Auxiliado pela cultura visual e pela teoria queer, o ato de percorrer esse caminho não tem sido reto como se poderia esperar, tampouco claro e sem desvios.

segunda-feira, agosto 19, 2013

Teoria queer (parte 1)

Este texto é a primeira parte de uma série de três postagens dedicadas a pensar o que é a teoria queer e como ela pode se inserir em contextos pedagógicos. Nesta primeira parte, o foco da discussão está em compreender a base da teoria e sua "missão".

O queer que acompanha e nomeia a teoria surge como uma jocosa ironia, na medida em que se apropria de um xingamento para se posicionar criticamente a favor do ofendido. Traduzindo do inglês, queer significa estranho, e por derivação passa a significar bixa, viado, sapata. É aquilo que não se encaixa e causa desgosto, que não pertence. A língua portuguesa não possui uma tradução que concentre adequadamente a carga histórica que o termo queer possui no inglês, onde frequentemente era utilizado para atacar e condenar sujeitos cujas sexualidades não se conformavam às expectativas normativas. Enquanto termos como “bixa” e “transviado” possam soar semelhantes, eles reduzem o xingamento ao masculino, ignorando o feminino e prestigiando binários contra os quais a teoria se opõe. Por conta dessa dificuldade de tradução, seguirei trabalhando com o conceito em inglês, a fim de preservar o seu sentido e, principalmente, o seu potencial de disrupção de sentido.


Tomado como ponto de partida para uma ressignificação, os teóricos assumem-se como estranhos e como corruptores: a teoria queer não tem a intenção de ser mais um campo teórico, mas sim de questionar estabilidades, e por isso mesmo é tão difícil defini-la, uma vez que torná-la completamente inteligível esvaziaria sua força e potencial subversivo. Envolve teorizar o esquisito e, ao mesmo tempo, estranhar a teoria (LUHMANN, 1998). Mais do que se limitar ao estudo de gays e lésbicas, a teoria queer confronta noções de identidades fixas, classificações binárias e suas consequentes exclusões, focando esforços na compreensão dos papéis exercidos socialmente por aqueles sujeitos que ocupam posições ininteligíveis aos olhos das normas.

O queer não apenas é estranho e fora de lugar, ele também é ignorado, esquecido e negado. Os sujeitos que não se identificam com os discursos normativos das sexualidades na sociedade contemporânea ocidental estão relegados a uma existência inferior: são reconhecidos como desviantes, mas seu “desvio” não gera reflexão, é assumido como essencialmente errado ou, quando muito, como uma diferença que devemos aceitar e incluir.

É fácil pensar que queer institui uma categoria de identidade, um tipo de sujeito que não corresponde às normas. Contudo, Morris (1998) nos pergunta e alerta: “Essa categoria simplesmente instala um outro binarismo – queer ou não queer? Nós poderemos em algum momento dissolver o pensamento binário como um todo, e seria essa estratégia do não binarismo sequer útil?” (p. 276). Se pensarmos a definição de queer como simplesmente aquilo que não está normalizado, temos imediatamente uma normalização do que é ser queer. O estranho, subversivo e incompreensível passa a estar domado, controlado e seguro, sendo mais um conhecimento pronto para ser anexado em dicionários e para que pesquisadores possam identificar com certa facilidade: “isso é queer, isso é normal”. Uma vez compreendido e aceito, o poder que se instalaria pela dúvida se perde, dando lugar novamente às certezas.

Não devemos nos esquecer que, como nos alerta Britzman (1995), o queer não está nos atores, mas sim nas ações. Nomear um determinado grupo como queer é posicioná-lo fora da normalidade, mas antes de tudo significa posicioná-lo, estabilizá-lo. Esse é um movimento (e congelamento) ao qual a teoria queer não pode se permitir: o queer está no trânsito, no cruzamento de fronteiras e na indefinição de identidades. Não há como uma determinada identidade ser subversiva permanentemente, em qualquer espaço ou instante. A partir do momento em que for compreendida e nomeada, ela passa a não causar mais o impacto da indefinição.

Citando Berry, a respeito da forma como a “cultura do individualismo” espera que os sujeitos não mudem, Doll (1998) aponta: “Não importa de que forma o sujeito é reto [em inglês a palavra straight significa também heterossexual, e pode ser compreendida também como honesto ou normal], apenas que todas as perversões sejam amaciadas, de forma que a pessoa seja identificada completamente e sem ambiguidade” (p. 289). A teoria queer nos alerta para questionarmos categorias de identidade tais como “homossexual”, “travesti" etc., mas também sugere que levemos em consideração quais são os poderes e raízes históricas por trás da instituição e manutenção da heterossexualidade enquanto norma.

Na segunda parte desta série, discutirei a noção de inclusão da diferença. Na terceira e última, abordarei algumas "técnicas" para um olhar que se proponha queer. Caso alguém deseje as referências, basta pedi-las nos comentários ou por mensagem na Raposa do Face.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O olhar heterossexual 2

Depois de ontem, fiquei pensando e lembrando da minha infância. Eu tinha um vizinho que era uns dois ou três anos mais velho que eu, no máximo. Toda vez que eu chegava ou saía de casa, ele gritava com aquela voz rouca: "ô putão", "viado", "bixa". Obviamente, eu odiava ele – o que, pelo jeito, era recíproco. Bastava ele me ver para começar a me xingar. Eu, como de costume, baixava a crista e seguia meu rumo, incomodado, mas não o suficiente para ter alguma reação mais explosiva ou violenta. Aliás, incomodado, mas com bom senso o bastante para preservar meus dentes.

Mais de uma vez eu cheguei à conclusão perfeita sobre como solucionar aquele problema. Bastava me oferecer para chupar o rapaz. Ele ficaria feliz, eu ficaria livre da coisa toda. Ao contrário do que os meus pensamentos da época podem sugerir, eu era uma criaturinha bastante ingênua. E virgem. Continuei sendo, aliás, por mais vários anos. Não que isso tenha alguma importância em si, mas é só para deixar claro que com 10, 12, 14 anos eu já sentia que sexo era algo tinha um baita poder.

Conto essa história porque ela tem uma série de coisas a revelar sobre como eu via o mundo quando criança. Antes de tudo, eu não compreendia que aqueles xingamentos tivessem algo a ver com eu gostar de meninos e não de meninas. Diga-se de passagem, naquela época isso ainda não estava muito claro para mim. OK, eu gostava de meninos, sentia atração e prestava mais atenção em homens do que mulheres nos poucos filmes e quadrinhos pornôs que eu tinha oportunidade de ver. Ainda assim, nada daquilo significava que eu fosse alguma coisa. Certamente não "putão, viado ou bixa".

O meu vizinho não me xingava por algo que eu era. Pelo contrário. Meu vizinho me xingava por algo que eu não era. Eu não agia todo machinho, não jogava futebol como todos da quadra, provavelmente era um guri delicadinho, loirinho e meiguinho. Qual o problema? Ora, todos sabem que os seres humanos que nascem com pênis devem ser grossos, fortes, brigões. Eu não era nada daquilo, portanto era parte do dever sagrado dele, como portador do olhar heterossexual, apontar para mim e garantir que o mundo soubesse disso. Eu era diferente. Eu não era normal.

Fonte: http://www.citelighter.com/science/psychology/knowledgecards/homophobia

Dali pra frente eu cresci e cruzei cada vez menos com esse vizinho. Chegou um tempo em que ele parou de me provocar, não sei bem o motivo. Aliás, não sei se alguma vez qualquer coisa que ele tenha feito em relação a mim foi com motivo (não, eu jamaaaais estaria duvidando da capacidade intelectual dele). É só que o poder da heterossexualidade/normalidade é tão comum e invisível que as coisas simplesmente são como são, as pessoas riem de quem passa, apontam o dedo e gritam. Eu, por fugir da norma, precisava imediatamente ser colocado de volta no meu lugar. No meu lugar correto, de machinho. A vida está cheia de exemplos piores de como isso é feito.


Esse texto é uma continuação do post anterior, O olhar heterossexual.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Os russos me confundem

Então na Rússia é proibida propaganda homossexual para menores de idade. Não, eu não vou passar o texto inteiro reclamando sobre como essa lei é retrógrada e viola os direitos humanos e é mais um exemplo de como a humanidade anda precisando de uns corretivos. Não, também não vou citar a onda de violência contra sujeitos homossexuais que vem aumentando desde que o ódio foi institucionalizado e legalizado. Acho que já somos grandinhos o suficiente para sabermos que censurar o direito do outro de existir não é bom para ninguém, muito menos para as crianças.

A Dona Ironia, porém, não perde uma oportunidade. Vi ontem um texto (desculpem, está em inglês) sobre os cartazes da corrida espacial russa (soviética, na verdade) entre 1958 e 1963 e um deles me chamou muitíssimo a atenção.


Não sei o que está escrito, mas eu enxergo um casal gay bem feliz aí. Talvez eles estejam contentes porque poderão sair de um país atrasado e morar nas estrelas. Acho particularmente adequado que a Via Láctea seja um espaço destinado aos homossexuais. Não é o arco-íris a nossa bandeira? Então tornemos a Via Láctea o Via Nesquick ou algo assim, toda cheia de sabores. OK, OK, estou me perdendo aqui.

É perfeitamente possível argumentar que é um pai e filho, claro. Não vou nem comentar sobre pais que se relacionam sexualmente com filhos. Ou sobre jovens que pegam caras mais velhos, ou caras mais velhos que pegam jovens. Ou de qualquer outra variação que os "normais" heterossexuais fazem exatamente igual, mas a gente finge que não.

Será que essa imagem seria aceita hoje em dia na Rússia?
O que exatamente é considerado "propaganda homossexual"? Se eu entregar um panfleto dizendo "oi, eu gosto de transar com homens" isso é propaganda homossexual? Porque assim, eu entendo propaganda como relacionada a convencimento e persuasão. Quando digo que eu gosto de algo, não estou tentando te convencer a gostar também, então não entendo como propaganda. Seria diferente, acho, se eu dissesse "experimente sexo gay, é ótimo", mas quem defende que isso é ruim para crianças provavelmente defenderia também que "experimente sexo, é ótimo" seria uma propaganda negativa. Eu particularmente discordo, acho que o esquema não é tapar os olhos dos infantes e evitar que as criaturinha saibam que sexo existe, mas sim manter um diálogo aberto e repleto de informação.

Ah, então alguém vai dizer que quando uma criança vê alguém fazer algo, vai querer experimentar, imitar, fazer também. Acho que o argumento não está de todo errado. Não vou nem (mais) entrar no mérito de homossexualidade ser ou não uma coisa ruim (até porque não é). O ponto aqui é outro: eles querem proteger as pessoas (especificamente as crianças) evitando que elas entrem em contato com a existência de determinados tipos de pessoas. Seria como proibir que crianças sejam ensinadas a respeito de assassinos e ladrões, por exemplo, para protegê-los de se tornarem ladrões e assassinos ou de serem roubadas e assassinadas. Sabe o que isso produz? Gente sem informação. Sabe o que acontece com gente sem informação? Se acha estranha, fora de lugar, sofre com isso e eventualmente desiste da vida porque ela não faz sentido para um alguém que não encontra pares. Sabe o que acontece com pessoas ao redor dessas pessoas "fora de lugar"? Elas atacam, fazem bullying, criticam, machucam. Afinal, estão protegendo a normalidade (já escrevi um pouco sobre isso).

Fecho esse texto com alguns lembretes:
- Não, não são todos os russos que são maus. O problema está no poder alcançado por grupos que não têm os direitos humanos na sua agenda.
- Não, a Rússia não é o único lugar ruim para homossexuais. Há inúmeros outros países em que amar alguém do mesmo sexo (ou mesmo parecer que ama) pode te condenar à morte.
- Desculpem-me por não incluir outras vivências que também são afetadas por preconceitos de todas as formas e cores. Racismos, sexismos, transfobias... Todos são problemas gravíssimos contra os quais, acredito, devemos lutar. Posso não saber qual é a melhor forma de fazer isso, mas tenho para mim a certeza de que estou fazendo a minha parte.

terça-feira, agosto 20, 2013

Teoria queer (parte 2)

Essa é a segunda parte da série de três textos sobre a teoria queer. O primeiro pode ser encontrado aqui e o terceiro será lançado amanhã. Não é minha intenção esgotar (seria pretensioso demais!) a teoria queer, mas sim apresentar alguns pontos introdutórios para quem se interessar.

Um sujeito nasce já inserido numa trama de expectativas e normatizações que estabelecerão um campo de confronto entre ser normal ou desviante em uma infinidade de critérios, e creio que é menos importante saber a origem de seus desejos do que pensar a respeito dos efeitos que eles têm sobre essa trama e, principalmente, dos esforços engendrados para conter esse alegado desvio; não podemos esquecer que a própria existência do desvio permite perceber que os fios dessa trama não só são instáveis, como também são impostos e insuficientes.

Como um professor que trata sobre (homo)sexualidades, tenho enfrentado o desafio constante de projetar propostas de ensino e ambientes de aprendizagem que sejam ao mesmo tempo eficazes no objetivo de compartilhar saberes e amplos o bastante para que não se reduzam a um ponto de vista particular e reducionista. Não posso ignorar, contudo, que essa é uma escolha que já exclui temas e interpretações que poderiam ser abordados em cursos cujos fins fossem outros e que minha afiliação à cultura visual e teoria queer me coloca em uma posição diferente do que a assumida por sujeitos que não compartilham desses embasamentos. É particularmente difícil não considerar outras posturas equivocadas ou incorretas, mas se trata de um desafio que acredito ser fundamental para o tipo de educação que antevejo, ou seja, uma forma de aprendizagem que não se aceite opressiva e que se permita duvidar de si própria ou ouvir a vozes que anunciem posições diferentes.

Uma das abordagens mais comuns que tenho observado no tratamento da homossexualidade em contextos escolares é a tentativa de incluir esses sujeitos e suas práticas no círculo da normalidade. A busca por inclusão reitera uma noção que deve ser analisada mais detidamente: a da aceitação do diferente. Essa postura relaciona-se com a ideia de uma generosidade por parte dos normais, que estão se predispondo a permitir que os anormais tenham espaço legitimado, assim como com a crença de que o grupo excluído necessita de maior autoestima, podendo buscar aumentá-la através de representações positivas de sua existência (BRITZMAN, 1995). Britzman questiona, ainda, a validade de uma política de tolerância, marcada pela apresentação e representação das minorias, que em teoria seria legitimada pela ideia de que as pessoas se identificariam com os modelos propostos. Não somente, essa perspectiva alimenta a noção de que os sujeitos normalizados reconheceriam as diferenças e as aceitariam: “mas como, exatamente, deve acontecer a identificação com um outro se somos requeridos apenas a tolerar e, portanto, confirmar nós mesmos como generosos?” (BRITZMAN, 1995, p. 159). A postura de enxergar o outro como um inferior que precisa de ajuda pode, portanto, encaminhar as tentativas de inclusão para um mero emparelhamento com as representações de heterossexuais.


Se a homossexualidade é compreendida como um desvio em relação à norma da heterossexualidade, então a representação positiva dessa identidade estaria na repressão de características que pudessem se configurar como destoantes da expectativa de um comportamento considerado adequado. Isso inclui relações não monogâmicas, práticas sexuais como submissão e sadomasoquismo, seguindo o axioma da hierarquização discutido por Rubin (1993b) e apresentando um limite bastante claro à noção de tolerância: ela pode existir, contanto que seja apenas até certo ponto. Só ganham acesso à inclusão aqueles que se assemelham com a norma heterossexual monogâmica, o que justifica as lutas que atualmente ocorrem em torno da legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas também explica o silêncio que existe em torno de sujeitos transexuais e a conivência pública com violências físicas e morais contra indivíduos cujas ações dificultam que sejam imediatamente posicionados em algum critério inteligível e comparável à norma. “Seja gay, mas não pareça uma mulherzinha” e “Não tenho problema com homossexuais, contanto que não deem em cima de mim” são declarações que exemplificam essa postura de inclusão limitada.

Ao indicar tais contradições que resultam da ideia de inclusão, não estou posicionando-me contra iniciativas que tenham esse objetivo. Representações positivas de sujeitos marginalizados são bem-vindas, pois os inserem em espaços que usualmente não ocupam ou não são vistos ocupando. Porém, creio com Silva (2000) que “antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida” (p. 100). Entender como são produzidas as diferenças que dão contorno para as identidades e em que medida elas são estabelecidas ou alteradas discursivamente é uma preocupação que deve ser levada em conta. Contudo, não se pode esquecer o papel dos indivíduos que negociam com essas instituições e também com os demais sujeitos articulando suas próprias experiências com os enquadramentos sugeridos, requisitados ou impostos. Essas relações envolvem o modo como se percebem e identificam, mas também como são identificados e o que, no trânsito entre esses muitos entendimentos, resulta na forma de ação.

Na terceira parte desta série tratarei de alguns técnicas sugeridas por Deborah Britzman para uma abordagem queer.

terça-feira, agosto 13, 2013

O que nós escritores temos a ver com os cinquenta tons de cinza

Como eu não li os livros, peço que alguém me corrija se eu estiver errado. Na história a protagonista conhece e se apaixona por um cara e passa a atender aos seus desejos e a se submeter às suas vontades, muitas vezes ignorando ou negando os próprios desejos e vontades em nome desse 'amor'. Vejo aí dois problemas: isso é machismo e isso não é o que eu entendo por amor. O gatilho para esse post foi uma notícia (aqui) e alguns comentários em um grupo do Facebook.


Isso é machismo

Formas de arte são apenas histórias e entretenimento. Certo? Errado. A arte, como qualquer forma de discurso humano, carrega ideias que dão sustentação ao que acontece. Nós entendemos algo como coerente quando essas ideias estão afins com algo que nós acreditamos ou que reconhecemos que os outros acreditam. Pergunta teste número 1: esse livro pareceria coerente se fosse a história de um homem rico e bem sucedido que se submete a uma mulher e passa a abrir mão de sua própria vida em nome dela? Suponho que não (e tampouco ele carregaria uma mensagem melhor).

Certo, e qual é o discurso dominante neste livro? O do machismo, ou seja, da supremacia do homem sobre a mulher. De acordo com os discursos machistas, a mulher é um objeto para o homem. O problema é que nem todo machismo é óbvio e ululante. Vamos a exemplos mais cotidianos? Hoje vi uma foto no Facebook de mulheres tirando selfies, aquelas fotos de nós mesmos no espelho, e embaixo uma outra imagem mostrando um bando de louça suja. A narrativa é bem óbvia: "fica aí se mostrando e se fotografando ao invés de cumprir seus deveres". Novidade: lugar de mulher não é na cozinha, é onde quiser. Pergunta teste número 2: que tal a gente substituir as mulheres se fotografando por nerds jogadores de videogame ou por frequentadores de academia? É, não seria a mesma coisa. Por quê? Porque nossa sociedade sugere que é da mulher o dever de limpar a casa enquanto o macho providencia o sustento e, claro, manda em tudo.

Quando um livro é publicado e alcança o sucesso que Cinquenta tons de cinza alcançou, é importante refletirmos sobre o papel social que ele tem. Milhares de pessoas estão assimilando sua narrativa sem sequer considerar que ela pode ser espelho de um comportamento cruel. Esse comportamento, repetido na mídia à exaustão, assume o caráter de normalidade e passa a servir de exemplo sobre como as coisas são. Ou seja, não é a leitura do livro que vai te transformar em um machista. É o machismo já entranhado nas veias do leitor que vai encontrar conforto e se tornar ainda mais difícil de sair.

Isso não é amor

Eu certamente não sou especialista em amor, mas o entendo como um sentimento que busca o bem do próximo. O bem do próximo, para mim, envolve não negar a subjetividade da pessoa e não criar uma grade em volta dela. Amor não é controle, não é exercício de poder sobre outra pessoa. Amar é cultivar, é gostar, é dar atenção e carinho, é proporcionar felicidade. Já escrevi algumas várias vezes sobre amor (aqui) e por isso vou manter o tópico curto.

O resumo é: fazer com que uma pessoa abra mão da própria vida em nome de outra pessoa não é amor, é egoísmo.

O que nós escritores temos a ver com isso?

Certo, o mundo no qual vivemos está estragado e cheio de exemplos ruins. Danou, então, né? Quase. Nós escritores e artistas temos na mão um poder muito interessante, o de convidar pessoas às nossas narrativas e com elas oferecer outros mundos possíveis. Não estou dizendo que devemos escrever só histórias boazinhas de pessoas que encontram o 'amor verdadeiro' sem desafios nem preconceitos ou machismos. Salvo ficções científicas dedicadas à utopia, nossas histórias se passam em mundos maculados por esses problemas.

Aí que está a questão: nós não devemos reproduzir esses problemas inconscientemente. Nosso trabalho é importante demais para que não estejamos conscientes do que fazemos e de quais discursos estamos reproduzindo. Como escrevi esses dias na Raposa do Face, peço apenas coerência: quer ser machista, sexista, homofóbico, racista, transfóbico etc? Beleza, mas assume. Isso se chama honestidade intelectual, algo que só é possível quando a gente sabe o que está fazendo.

Tu sabe o que está fazendo quando escreve?
Sabe quais discursos está reproduzindo através das tuas letras?

Se não, convém estudar mais.

sábado, novembro 05, 2011

Etnocentrismo

Tenho discutido muito – num sentido mais cordial e menos agressivo – com uma amiga sobre questões financeiras que condicionam nossas vidas. Basicamente, ela decidiu trabalhar exaustivamente ao largo de aproximadamente cinco anos para, depois desse período, ter condições econômicas de viver apenas dos frutos de investimentos iniciados nesse período. Embora frequentemente eu questione o preço desse projeto, ou seja, investir pelo menos cinco anos em trabalho excessivo e distanciamento de distrações, o que quero discutir aqui é outra questão que vem lado a lado.

Ela defende o direito de aproveitar a própria vida e gastar seu dinheiro como bem entende, já que lutou por ele e superou uma série de dificuldades sociais para chegar onde se encontra agora. Esse pensamento é absolutamente justo, dentro de uma ótica capitalista. Tu trabalha, tu gasta. Easy. Ontem, enquanto conversávamos, apareceu um outro ponto: as pessoas deveriam abrir suas empresas, ao invés de ficar na "comodidade" de serem empregadas.

Nesse ponto, entra o tal do etnocentrismo, que é basicamente a ideia de que o nosso grupo social, seja ele qual for, é o que correto, é o parâmetro, é o que sabe a coisa da maneira certa, é o que deveria estar no poder. Ao pensar que todo mundo deveria seguir o caminho da iniciativa privada, minha amiga esqueceu que talvez haja pessoas que não consigam fazer isso. Os motivos podem variar infinitamente entre condições econômicas, intelectuais, físicas ou sociais. Se cada ser humano é diferente, um universo a parte, esperar de todos a mesma coisa é, no mínimo, limitante. Seria o mesmo que eu desejasse que todos os seres humanos fizessem doutorado: nem todo mundo consegue ou gosta do tipo de pensamento analítico-filosófico-artístico que se estabelece dentro da Torre de Marfim. Da mesma maneira, eu não tenho, tampouco desejo, a compleição física de um lutador ou pedreiro. Imagino que um mundo de acadêmicos sem pedreiros seria um desastre.

Ah, parece importante notar: eu não estou menosprezando pedreiros ao colocá-los em comparação com acadêmicos, o que poderia parecer pelo fato de eu ser um acadêmico e não um pedreiro. O que, aliás, serve de perfeito exemplo do que estou tentando dizer: uma postura etnocêntrica poderia reconhecer/construir essa diferença e até confirmá-la, aceitá-la, felicitá-la. O que eu defendo é um olhar para o outro (e não sobre o outro), com o outro, ou seja, o reconhecimento de características e elementos que constituem uma alteridade, no lugar de um esforço para alcançar uma dita normalidade, especialmente quando o normal somos nós. É muito fácil esperar que as outras pessoas tenham as nossas qualidades. O que é difícil é reconhecer que elas não precisam tê-las e, muitas vezes, seus contextos serão tão distantes dos nossos que talvez nós sequer fôssemos capazes de reconhecê-las.

Para finalizar, eu e minha amiga concordamos que abraçar a diferença não é algo difícil, mas é uma postura ética válida. É a postura que eu escolhi para mim, mesmo que isso signifique me prestar a ouvir aquilo com o que e aqueles com os quais eu discordo. Há limitações nesse projeto, obviamente. Fronteiras pessoais, de respeito ao outro e contenção de desejos que poderiam ser realizados (já que tenho poder para fazer muito mais do que faço, inclusive sobre outros), e também morais, envolvendo temas como crimes.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O olhar heterossexual

Perto da minha casa tem uma feira que acontece todos os domingos. Eu, fã de hábitos rotineiros, janto lá todo santo domingo. De preferência, como tapioca. Duas, uma de calabresa e uma de sabor variável, ora carne seca, ora pizza. Dessa vez, porém, fiz algo diferente: fui de mãos dadas com o meu namorado. Tudo foi mais ou menos semelhante ao que sempre é: fomos bem atendidos, pedimos, sentamos em uma mesa, aguardamos e comemos. Tanto na ida quanto na volta, porém, fomos olhados.

Medusa, por Caravaggio.

Não foi qualquer olhar o que me chamou a atenção. Foi de um grupo de homens que, presumo, são heterossexuais. Também acho que são uns idiotas, mas escrever isso talvez diminua a minha reflexão. O incômodo não surgiu apenas por termos sido olhados, meu namorado e eu, mas pelas risadas e apontadas de cabeça que ocorreram como reação à nossa passagem. Para o trio de caras encorpados, nós éramos motivo de piada.

Qual a graça? Não sei, na verdade. Entendo aqui o riso como um exercício de poder. Ele riram porque podiam rir, da mesma forma que eu e meu namorado olhamos para o chão e apertamos o passo. Se eles decidissem, poderiam facilmente nos esmagar. Não, sério, eram grandes mesmo. De onde vem esse poder? Não é só da força física, mas também do poder cultural investido neles pela normalidade. Eles são normais, são heterossexuais em uma sociedade que reconhece viadinhos como algo à parte.

Quando eles riram, todos que viram isso entenderam do quê estavam rindo. Um casal de rapazes passando de mãos dadas é algo risível. Se eu risse deles, por outro lado, ninguém entenderia. Não é inteligível rir de um grupo de caras heterossexuais/machos comendo seu sanduíche, enquanto é perfeitamente aceitável rir do casalzinho gay que vem passando. Por quê, eu pergunto?


Esse texto possui uma continuação: O olhar heterossexual 2.

segunda-feira, março 01, 2010

Goiânia

estou feliz aqui
tenho quilos de coisas para contar, trocentas novidades acontecendo, coisas ainda de Porto Alegre que deveriam ter sido compartilhadas, mas por enquanto a vida não se deixa reduzir a uma normalidade... melhor assim, talvez eu me acostume a um ritmo non-stop e assim consiga ser feliz o tempo inteiro, ao invés de apenas em momentos pontuais


\o/
sou um mestrando

domingo, abril 01, 2012

Democracia, o interesse da maioria

Eu recebo por e-mail atualizações do Google sobre algumas palavras-chave que entram em seus sistemas todas as semanas. Uma delas é sexualidade, o que me levou a uma notícia sobre um novo curso de extensão patrocinado pelo Ministério da Educação. Como eu mesmo ministro cursos de extensão sobre o tema, sempre leio a respeito de outras iniciativas para comparar ideias, métodos e possibilidades de aplicação. Ainda quero acreditar que a educação é um caminho de mudanças possíveis. Até que li os comentários. Vou escolher um ou outro e comentar algumas coisas por aqui, como um exercício de reflexão...
Não tem nada melhor pra fazer com o dinheiro público? Que tal mais estrutura nas escolas públicas? Ou que tal intruir os 'homos' a não provocarem a sociedade com atitudes desrespeitosas, além de não se comportarem como hetrofóbicos?
Tenho que concordar que, em uma sociedade ideal, as pessoas não precisariam de cursos de formação voltados ao respeito às diferenças. Nesta mesma sociedade, porém, jovens não cometeriam suicídio por terem suas compreensões de vida proibidas ou provocadas e condenadas como imorais e errôneas. Ainda nesse nosso mundo utópico, as escolas seriam espaços de reflexão e aprendizagem, ao invés de campos de transformação de crianças em adultos enlatados.

Além disso, o que, exatamente, significa "não provocar a sociedade"? Essa frase dá a entender que existe uma única sociedade, ou um tipo de conceito em particular que é o correto, talvez alguma virtude universal ou um modelo de civilização que responda às necessidades humanas mais elevadas. Bem, na última vez que fui procurar, de fato existia, mas quem corresponde a ela não somos nós, provincianos brasileiros, mas sim os brancos europeus de classe média heterossexuais monogâmicos cristãos. Desde que voltei dos Estados Unidos, passei a encarar minha própria arrogância com alguma desconfiança. Não, eu não acho eles melhores do que nós, tampouco me acho melhor do que algum outro país. A questão aqui é que no geral o Brasil não existe para os estadunidenses, e quando existe a noção é floresta e índio. Não preciso nem citar outros países que nós consideramos inferiores, né?
Só pra ilustrar, no domingo à noite pelas 20h vi duas meninas se agarrando e se beijando, sentadas EM FRENTE à uma igreja. Não sou religioso, mas pra quem é, isso só pode ser uma atitude provocativa. Isso não é respeito, o que eles tanto querem. Se quiserem ser respeitados, respeitem primeiro.
Aí um beijo vira desrespeito. "Isso não é respeito, o que eles tanto querem". Eles. Nós. Acho que já escrevi anteriormente sobre isso. Rá, escrevi mesmo: aqui sobre pensamento crítico e aqui sobre ignorância. Resumindo, quando separamos nós e eles, o nós vira o modelo de correção e o eles se torna o exemplo daquilo que está errado. Só para manter o exemplo anterior, há uns 500 anos atrás, nós éramos os eles da Europa. Para quem ainda não entendeu o recado, ainda somos.

E o tal do respeito, como fica? O que é respeitar uma igreja? Se fosse um casal heterossexual (sim, eu sei, é uma pergunta batida, mas ela precisa ser feita), seria um desrespeito ou uma demonstração de afeto e carinho frente à instituição da monogamia e do amor? Na relação entre público e privado, o que entendemos como normal é que tem direito de estar em público. Homem e mulher, dois filhos, um cachorro. O casal de lésbicas com uma gata em casa não pode. Aliás, pode, desde que "fiquem na delas" e respeitem quem não quer olhar.
Agora é moda ser colorido...por isso os ânimos exaltados de alguns quando falam qualquer coisa contra o movimento do arco-íris. É bom lembrar que é ano de eleição, e os coloridos tb votam...além de proporcionar uma excelente propaganda para políticos inescrupulosos e hipócritas demagogos.
Um dos discursos percebidos na minha dissertação de mestrado diz respeito ao paradoxo visibilidade x tabu que a sexualidade enfrenta. Atualmente, as informações circulam com facilidade e as pessoas conseguem se conectar em lugares e tempos distantes de maneiras que não poderiam há vinte anos atrás. A tecnologia nos permite localizar e alcançar sujeitos com os quais compartilhamos características de uma forma que nos seria muito mais difícil em outras épocas. Essa crescente visibilidade (que também não é recente, mas vem sempre com um gostinho de "ah, isso é novo") assusta e dá a entender que agora virou moda "ser colorido".
Antes de tudo, sou contra qualquer discriminação e a favor da diversidade, desde que seja construtiva. Mas a discussão nos comentários é injusta. Homossexuais não sofrem mais do que pobres, negros, índios e pessoas com necessidades especias. E mais, eles tem opções...os outros não. O que parece que existe atualmente é uma tendência de querer impor seu modo de vida sem se importar com o restante da população. Acho isso errado. 
Existe um tipo de discriminação que é tiro e queda: a invisível. A gente acredita tão firmemente que não tem preconceitos que, veja só, chegamos até a acreditar. Se não estivermos abertos a rever nossas próprias posições, a probabilidade é de estarmos ignorando e excluindo uma quantidade incrível de vivências e experiências que sequer consideramos. E, como acontece com tudo o que a gente não sabe, a gente não sente que não sabe, ou que sabe de outra forma.

"Homossexuais não sofrem mais do que pobres, negros, índios e pessoas com necessidades especiais". Essa é um pouco delicada de responder. Acho que um bom ponto para começar é: esses grupos são homogêneos? Dá pra dizer que todo pobre tem as mesmas experiências? Todo negro? Todo viado? Todo deficiente? Ou será que esse é um erro lógico?

"E mais, eles têm opções... os outros não". Não sei de que opções estamos falando. Quando um bando de machista me cerca e me espanca com uma lâmpada, ou interfere no meu relacionamento, ou me cerca e bate de novo, que opções eu tenho? Quando eu não posso falar sobre meu fim de semana com meu namorado na escola em que eu ensino, pois homossexualidade "é um tema particular", mas meus colegas heterossexuais falam do passeio com as esposas, que opções eu tenho frente a esse silenciamento? Eu não quero comparar as opressões sofridas por homossexuais e as enfrentadas por negros, pobres, deficientes etc., até porque não as considero necessariamente separadas.

Aí entra a minha parte favorita da resposta, motivo do título desse texto: "o que parece que existe atualmente é uma tendência de querer impor seu modo de vida sem se importar com o restante da população". Meu querido, tentarei ser o mais direto possível: isso não é atual, é algo que a gente chama de heterossexualidade compulsória, ou presunção de heterossexualidade, ou ainda heteronormatividade. É o que acontece quando a gente equivale a ideia de normalidade com a de ser atraído pelo outro sexo. É o que acontece quando tu pode casar, mas eu (o restante da população) não. É o que acontece quando a tua igreja considera desrespeito que eu beije meu namorado na frente dela, mas a minha não. É o que acontece quando eu não acho legal que tu venha me bater só porque, sei lá, tu está de saco cheio da vida e não tem nada melhor pra fazer com os teus dias. É o que acontece quando crianças são levadas para acampamentos para terem seus comportamentos adequados à "norma".

A maior sacanagem política que existe é dizer que democracia é o melhor jeito de tratar a vida social, quando na verdade ela responde à maioria e atropela as minorias.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...