sábado, novembro 05, 2011

Etnocentrismo

Tenho discutido muito – num sentido mais cordial e menos agressivo – com uma amiga sobre questões financeiras que condicionam nossas vidas. Basicamente, ela decidiu trabalhar exaustivamente ao largo de aproximadamente cinco anos para, depois desse período, ter condições econômicas de viver apenas dos frutos de investimentos iniciados nesse período. Embora frequentemente eu questione o preço desse projeto, ou seja, investir pelo menos cinco anos em trabalho excessivo e distanciamento de distrações, o que quero discutir aqui é outra questão que vem lado a lado.

Ela defende o direito de aproveitar a própria vida e gastar seu dinheiro como bem entende, já que lutou por ele e superou uma série de dificuldades sociais para chegar onde se encontra agora. Esse pensamento é absolutamente justo, dentro de uma ótica capitalista. Tu trabalha, tu gasta. Easy. Ontem, enquanto conversávamos, apareceu um outro ponto: as pessoas deveriam abrir suas empresas, ao invés de ficar na "comodidade" de serem empregadas.

Nesse ponto, entra o tal do etnocentrismo, que é basicamente a ideia de que o nosso grupo social, seja ele qual for, é o que correto, é o parâmetro, é o que sabe a coisa da maneira certa, é o que deveria estar no poder. Ao pensar que todo mundo deveria seguir o caminho da iniciativa privada, minha amiga esqueceu que talvez haja pessoas que não consigam fazer isso. Os motivos podem variar infinitamente entre condições econômicas, intelectuais, físicas ou sociais. Se cada ser humano é diferente, um universo a parte, esperar de todos a mesma coisa é, no mínimo, limitante. Seria o mesmo que eu desejasse que todos os seres humanos fizessem doutorado: nem todo mundo consegue ou gosta do tipo de pensamento analítico-filosófico-artístico que se estabelece dentro da Torre de Marfim. Da mesma maneira, eu não tenho, tampouco desejo, a compleição física de um lutador ou pedreiro. Imagino que um mundo de acadêmicos sem pedreiros seria um desastre.

Ah, parece importante notar: eu não estou menosprezando pedreiros ao colocá-los em comparação com acadêmicos, o que poderia parecer pelo fato de eu ser um acadêmico e não um pedreiro. O que, aliás, serve de perfeito exemplo do que estou tentando dizer: uma postura etnocêntrica poderia reconhecer/construir essa diferença e até confirmá-la, aceitá-la, felicitá-la. O que eu defendo é um olhar para o outro (e não sobre o outro), com o outro, ou seja, o reconhecimento de características e elementos que constituem uma alteridade, no lugar de um esforço para alcançar uma dita normalidade, especialmente quando o normal somos nós. É muito fácil esperar que as outras pessoas tenham as nossas qualidades. O que é difícil é reconhecer que elas não precisam tê-las e, muitas vezes, seus contextos serão tão distantes dos nossos que talvez nós sequer fôssemos capazes de reconhecê-las.

Para finalizar, eu e minha amiga concordamos que abraçar a diferença não é algo difícil, mas é uma postura ética válida. É a postura que eu escolhi para mim, mesmo que isso signifique me prestar a ouvir aquilo com o que e aqueles com os quais eu discordo. Há limitações nesse projeto, obviamente. Fronteiras pessoais, de respeito ao outro e contenção de desejos que poderiam ser realizados (já que tenho poder para fazer muito mais do que faço, inclusive sobre outros), e também morais, envolvendo temas como crimes.

2 comentários:

Ycktus disse...

Uma das grandes verdades é que nunca sabemos ou saberemos nossos verdadeiros potenciais, somos uma fração do nosso real potencial; acredito que seja válido desfrutar doa frutos do seu labor desde que não surjam os e/ou se. Indico a sua amiga A MENINA DO VALE um excelente livro para dar uma olhada na situação do lado de fora.

Tales Gubes disse...

Hahaha, o curioso é que justamente essa amiga foi quem me indicou A Menina do Vale! Aliás, uma ótima indicação, levei o livro para os meus alunos e que surpresa eu tive ao vê-lo comprado por alguns (mesmo sendo gratuito como ebook)! =)

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