terça-feira, agosto 13, 2013

O que nós escritores temos a ver com os cinquenta tons de cinza

Como eu não li os livros, peço que alguém me corrija se eu estiver errado. Na história a protagonista conhece e se apaixona por um cara e passa a atender aos seus desejos e a se submeter às suas vontades, muitas vezes ignorando ou negando os próprios desejos e vontades em nome desse 'amor'. Vejo aí dois problemas: isso é machismo e isso não é o que eu entendo por amor. O gatilho para esse post foi uma notícia (aqui) e alguns comentários em um grupo do Facebook.


Isso é machismo

Formas de arte são apenas histórias e entretenimento. Certo? Errado. A arte, como qualquer forma de discurso humano, carrega ideias que dão sustentação ao que acontece. Nós entendemos algo como coerente quando essas ideias estão afins com algo que nós acreditamos ou que reconhecemos que os outros acreditam. Pergunta teste número 1: esse livro pareceria coerente se fosse a história de um homem rico e bem sucedido que se submete a uma mulher e passa a abrir mão de sua própria vida em nome dela? Suponho que não (e tampouco ele carregaria uma mensagem melhor).

Certo, e qual é o discurso dominante neste livro? O do machismo, ou seja, da supremacia do homem sobre a mulher. De acordo com os discursos machistas, a mulher é um objeto para o homem. O problema é que nem todo machismo é óbvio e ululante. Vamos a exemplos mais cotidianos? Hoje vi uma foto no Facebook de mulheres tirando selfies, aquelas fotos de nós mesmos no espelho, e embaixo uma outra imagem mostrando um bando de louça suja. A narrativa é bem óbvia: "fica aí se mostrando e se fotografando ao invés de cumprir seus deveres". Novidade: lugar de mulher não é na cozinha, é onde quiser. Pergunta teste número 2: que tal a gente substituir as mulheres se fotografando por nerds jogadores de videogame ou por frequentadores de academia? É, não seria a mesma coisa. Por quê? Porque nossa sociedade sugere que é da mulher o dever de limpar a casa enquanto o macho providencia o sustento e, claro, manda em tudo.

Quando um livro é publicado e alcança o sucesso que Cinquenta tons de cinza alcançou, é importante refletirmos sobre o papel social que ele tem. Milhares de pessoas estão assimilando sua narrativa sem sequer considerar que ela pode ser espelho de um comportamento cruel. Esse comportamento, repetido na mídia à exaustão, assume o caráter de normalidade e passa a servir de exemplo sobre como as coisas são. Ou seja, não é a leitura do livro que vai te transformar em um machista. É o machismo já entranhado nas veias do leitor que vai encontrar conforto e se tornar ainda mais difícil de sair.

Isso não é amor

Eu certamente não sou especialista em amor, mas o entendo como um sentimento que busca o bem do próximo. O bem do próximo, para mim, envolve não negar a subjetividade da pessoa e não criar uma grade em volta dela. Amor não é controle, não é exercício de poder sobre outra pessoa. Amar é cultivar, é gostar, é dar atenção e carinho, é proporcionar felicidade. Já escrevi algumas várias vezes sobre amor (aqui) e por isso vou manter o tópico curto.

O resumo é: fazer com que uma pessoa abra mão da própria vida em nome de outra pessoa não é amor, é egoísmo.

O que nós escritores temos a ver com isso?

Certo, o mundo no qual vivemos está estragado e cheio de exemplos ruins. Danou, então, né? Quase. Nós escritores e artistas temos na mão um poder muito interessante, o de convidar pessoas às nossas narrativas e com elas oferecer outros mundos possíveis. Não estou dizendo que devemos escrever só histórias boazinhas de pessoas que encontram o 'amor verdadeiro' sem desafios nem preconceitos ou machismos. Salvo ficções científicas dedicadas à utopia, nossas histórias se passam em mundos maculados por esses problemas.

Aí que está a questão: nós não devemos reproduzir esses problemas inconscientemente. Nosso trabalho é importante demais para que não estejamos conscientes do que fazemos e de quais discursos estamos reproduzindo. Como escrevi esses dias na Raposa do Face, peço apenas coerência: quer ser machista, sexista, homofóbico, racista, transfóbico etc? Beleza, mas assume. Isso se chama honestidade intelectual, algo que só é possível quando a gente sabe o que está fazendo.

Tu sabe o que está fazendo quando escreve?
Sabe quais discursos está reproduzindo através das tuas letras?

Se não, convém estudar mais.

3 comentários:

alanz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alan disse...

Faz muito sentido, muito bom mesmo. Sua opinião deveria transcender de mera opinião para uma lição à sociedade, uma visão, um argumento à consciência dos atos, a honestidade e ao respeito.. Para tanto, só peca na divulgação. ^^ Mas espero q este cenário mude. (: Parabéns.

Tales Gubes disse...

Obrigado, Alan :)
Concordo muito quando tu diz que a divulgação do que eu escrevo é ruim. Isso é algo que estou sempre interessado em corrigir, mas acabo não tratando meu texto com o profissionalismo que ele deveria ter (já que escrever é meu sonho de vida e tal).

Para fins de divulgação, tenho usado a fanpage da Raposa Antropomórfica no Facebook (se procurar pelo nome dela, tu encontra).

Obrigado pelo comentário!

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