segunda-feira, setembro 16, 2013

Maré vazante

No início de junho fui à festa literária Escandaliza, da Editora Escândalo (dedicada a títulos com temática LGBT), para o lançamento do Loveless, meu primeiro filhote (em conjunto com vários outros autores que aos poucos têm se tornado parceiros de conversas e agonias e prazeres de escrita). Foi lá que eu conheci Alexandre Melo, autor do livro Maré Vazante e outras estórias, também pela Editora Escândalo.


Eu não pretendia comprar nenhum livro do catálogo da Editora Escândalo naquela noite. Não que nenhum me interessasse, até pelo contrário, mas a verdade é que aquela noite era minha, só minha (e também dos meus amigos e dos colegas escritores, mas ei, meu blog, meu egocentrismo). Em meio aos vinhos e conversas, eu estava tão extasiado que nem sabia pra onde olhar. Informação demais, tesão demais junto, muita coisa acontecendo. Então ouvi meus amigos conversando com um moço que usava uma camisa engraçada (de bichinhos ou martelinhos ou alguma outra coisa inha, mas que chamava a atenção) e alguém disse pra mim, entregando esse livro branco com capa de roupinhas dobradas:

– Abre em qualquer página e lê, tu vai gostar. – O "tu" é licença poética minha para transformar todos meus amigos e conhecidos em gaúchos.

Eu folheei e nem achei tudo isso. Pensei que seria um livro de aforismos ou algo do gênero, ou que a narrativa seria tão mágica que cada parágrafo me amarraria sem saída. Aí eu conheci o autor, moço simpático e fofo (porque na hora de discursar ele fez a declaração de amor mais love story que já vi pessoalmente e achei bem mágico, só não chorei porque esqueci como se faz isso, mas o namorado-marido-companheiro dele chorou e foi bem lindo mesmo).

Ele foi um dos avaliadores do concurso de seleção de contos para o Loveless, então havia lido todos os textos. Conversando com ele, ganhei o maior elogio que eu poderia ter recebido de um escritor. Ou pelo menos o que eu até hoje considero o melhor, algum dia pode aparecer algum que o supere, mas já ali fiquei todo coração batendo forte e rosto ruborizado. As palavras dele me tocaram a tal ponto que coloquei imediatamente uma ideia na cabeça: eu só posso aceitar esse elogio e ser feliz com ele se o cara for um escritor que eu goste. De pouco adiantaria um elogio de alguém que não sabe escrever. Tá, eu sei, arrogância absurda, mas foi o que eu pensei, só estou sendo sincero. É a minha licença poética pra ser cretino mentalmente.

Daí eu comprei o livro, uma semana passou e li o danado. Aliás, verbo errado. Devorei, comi, introjetei, sorvi, me embriaguei no livro do Alexandre. Fiquei ao mesmo tempo alegre por haver conhecido um bom escritor e recebido um elogio dele e admirado pelo longo caminho que tenho a percorrer escrevendo. Não sei se faz sentido falar em níveis, mas sinto que não estou no nível dele. O conto que dá nome ao livro é maravilhoso; o que abre a seleção de histórias é iniciado auspiciosamente com uma chave na fechadura; o último é tão de adeus que chega a nos dar tchau quando termina.

Não é um livro sobre gays. É um livro com gays sobre questões da vida. Acho que o único defeito, se é que é um defeito e não sua principal fonte de impacto, é ser tão pequeno, tão efêmero, tão passageiro. Vem, alfineta nossas emoções e vai embora. Leiam.

2 comentários:

cicero edinaldo disse...

bela resenha!

melo disse...

Emudeci...
Obrigado mesmo por essas palavras incríveis, fiquei extremamente tocado!
Só posso dizer obrigado, uma combinação pobre de letras que possui pouca força para expressar o que sinto agora.

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