quarta-feira, março 27, 2013

Alfabetismo erótico

Como você aprendeu a fazer sexo?

Quando criança, assisti a um pedaço de filme em que um casal de amigos se relacionava de diversas formas. Os dois tinham um estilo roqueirinho quase gótico, o rapaz mais do que moça, e tinham entre dezesseis e vinte anos. Ao começar a assistir, fui atraído pela beleza dos dois e foi isso que me prendeu por alguns minutos. Eles falavam sobre amor. Em certo momento, os dois decidem experimentar seus corpos – como amigos, embora a moça pareça ter mais interesse no rapaz do que ele nela – e nessa hora fica claro que o moço sente tesão por outros moços (o mais provável é que eles tenham falado sobre isso). Enquanto eles brincam e exploram seus corpos, a garota sobe no rapaz por trás e simula um pênis com os dedos, usando-os em conjunto com os movimentos de seu corpo para transar com o moço. O rapaz, em seguida, se recusa a prosseguir com a transa com ele próprio no papel de penetrante, o que leva os dois a discutirem.

Essas cenas estão marcadas na minha cabeça até hoje. Elas são de uma época em que eu não existia para o mundo e que, principalmente, não entendia meus próprios desejos. De um tempo em que eu acreditava que não haveria possibilidade nenhuma de explorar aquilo que me excitava (ah, as incertezas absolutas da adolescência!). Foi um período bastante longo da minha vida, verdade, mas também confuso. Minha relação com o bullying (muito frequente, constante e cruel) era dúbia: ao mesmo tempo que aquilo me machucava absurdamente, eu imaginava soluções que envolviam sexo. Até eu efetivamente transar pelas primeiras vezes, sexo era algo muito mágico e difícil de compreender, mas eu já entendia que ele tinha um poder de persuasão absurdo. Ou talvez apenas estivesse sendo ingênuo de novo.


Duas amigas estiveram no Museu de l'eròtica em Barcelona e lembraram de mim. Faz sentido, meu mestrado foi sobre sexualidade. Recentemente a autora do Cem Homens me perguntou por que eu decidi estudar sexualidade. Esse texto é muito provavelmente uma resposta.

Eu não entendia nada de sexo quando era criança. Masturbava escondido, frequentemente com imagens de homens. Meu irmão tinha filmes pornôs e minha avó tinha revistinhas com sexo explícito. Outra memória forte é do dia em que colocaram fora tudo isso e eu não consegui esconder rápido o bastante esse material todo. Corria para o quarto para folhear as revistas uma última vez, memorizando as histórias enquanto fingia que estava pegando mais coisas para jogar fora. Uma delas tinha um casal de rapazes que se relacionavam com a mesma mulher e, eventualmente, se relacionavam entre si. Eu me identificava com essa história, mesmo que não conseguisse dar nome para o que eu sentia.


Antes de transar pela primeira vez, eu já tinha uma ideia bastante complexa do que era sexo e como tudo deveria acontecer. Sexo, ora, pênis e bunda, pênis e boca, pênis e boceta. Nessa ordem. O que eu aprendia vendo filmes, pesquisando sites e lendo revistinhas, tudo escondido, era uma série de regras sobre como o ato sexual deveria acontecer, a importância de seus participantes e, principalmente, uma certa normatização: sexo é penetração. Sexo é masculino sobre o feminino. Ativo sobre o passivo. Mesmo depois de transar algumas vezes, ou mesmo muitas, eu ainda tinha dificuldade de mastigar a ideia de que sexo não é algo que se faz em alguém, mas sim com alguém.

Por muito tempo, eu fui um analfabeto erótico. Minhas primeiras incursões ao erótico eram rápidas, escondidas, proibidas. Ingênuas, inclusive. Era como aprender um idioma: ouvindo algumas expressões, até posso começar a entender algumas coisas por conta se tiver facilidade para a coisa. Porém seria muito mais fácil se alguém me desse a mão (e outras partes do corpo) e me ajudasse a vivenciar essas experiências. Para minha tristeza, eu nunca tive um perfil autodidata ou muito ativo na busca de novos conhecimentos por conta própria, o que certamente retardou meu acesso a experiências eróticas e sexuais.

Então me pergunto: será que tudo isso não tem a ver com a forma como as pessoas pensam o sexo? Se o erótico é um idioma, por que não temos escolas de idiomas que o ensinem? De alguma forma, quase todo mundo se relaciona de alguma maneira erótica com outros sujeitos, objetos ou ideias. A gente faz isso às cegas, sem orientação, sem entender direito, aprendendo pela experiência. É gostoso ir descobrindo? É sim. Poderia ser ainda melhor? É o que acredito.

Sexo na escola, por exemplo, são espermatozoides e óvulos. Desculpa, gente, mas isso é totalmente desconectado da sensação de uma mão percorrendo os pelos da tua perna e fazendo um misto de cócegas com tesão. Não tem nada a ver com a dúvida se aquele beijo será seguido por mais outro (no próximo segundo ou na próxima semana). Justamente por não ter nada a ver com como o sexo e o erótico são experimentados, a escola não consegue ensinar uma série de coisas que seriam importantes de se saber: que não é bacana abusar, que a proteção é responsabilidade de todos, que a mulher tem direito sobre seu corpo, que o prazer sexual não se resume ao pênis e à penetração...



É por isso que eu estudo sexualidade: porque eu sei que não tenho o menor poder de voltar ao passado e modificar a maneira como eu aprendi a ser eu, mas posso agir e talvez modificar a maneira como eu e as pessoas viverão seus futuros. É por isso que me dedico a não ser um analfabeto erótico e busco espalhar esse "idioma" por aí.

E, claro, porque é gostoso e pode ser muito mais.

6 comentários:

Matthew disse...

Olá, gostei bastante desse post. Muito bem escrito

Você se lembra o nome desse filme? Ele parece ser interessante

Tales Gubes disse...

Eu nunca encontrei esse filme de novo. Tenho quase certeza que ele passou em algum canal estilo "GNT", mas nem isso mais a memória preservou. Estou sentindo que um dia aleatório na vida cruzarei com ele de novo e aí sim o guardarei pra vida =p

(e seja bem-vindo ao blog, se quiser acompanhar e fazer dele uma passagem frequente, ficarei muito contente!)

Matthew disse...

Obrigado
Já estou acompanhando =]

Milla Pupo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Milla Pupo disse...

Nunca tinha pensado nisso, um viés novo e absurdamente coerente. Porque não aprender sexo? Se é tão natural e está na vida de todos, né?

Eu vou para Barcelona mês que vem, peguei sua dica sobre o Museu de l'eròtica, pretendo visitar, obrigada!

Tales Gubes disse...

Desde que visitei o Museum of Sex em Nova Iorque eu fiquei *tarado* por museus eróticos. Eles são realmente uma delícia :D

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